Obstáculos à educação de qualidade: O que os professores têm a dizer?
Viviane Florentino De Melo, Rodrigo Drumond Vieira, Fernando Da Costa Linhares, Silvania Sousa Do Nascimento
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIV
- Ano
- 2012
- Data
- 09/11/2012
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## Obstáculos à educação de qualidade: O que os professores têm a dizer?
## Obstacles for quality education:
## What teachers have to say?
Viviane Florentino de Melo , Rodrigo Drumond Vieira , Fernando da Costa 1 2 Linhares 3 , Silvania Sousa do Nascimento 4
1
SEEMG/EEPAC, melovivi2211@hotmail.com
2
UFMG/FAE, rodrumond@gmail.com
3
UFV, omset@ig.com.br
4 UFMG/FAE, silvania.nascimento@gmail.com
## Resumo
A qualidade de ensino é um tema de grande interesse para a pesquisa em educação contemporânea. Reconhecendo a importância deste tema para os processos de ensino e aprendizagem e as lacunas relacionadas a concepções situadas dos professores sobre os obstáculos para a educação de qualidade, neste trabalho apresentamos resultados de um estudo que buscou identificar as concepções sobre obstáculos a uma educação de qualidade dos professores de química, física e biologia que participaram de um grupo focal em 2009. Apresentamos também o número de vezes que os obstáculos foram retomados pelos professores participantes do referido grupo focal. Foi utilizada uma metodologia para análise do discurso para levantar as concepções desses professores sobre os obstáculos a uma educação de qualidade. A metodologia utilizada relaciona orientações discursivas e procedimentos discursivos emergentes no discurso em contexto de grupo focal. Neste caso, foram consideradas as orientações discursivas explicativas, narrativas, argumentativas, injuntivas e dialogais. Os resultados apontam para vários obstáculos, dentre os quais destacamos: facilitação da aprovação, problemas como a seleção dos conteúdos a serem ministrados, o excesso de conteúdo, o desinteresse por parte dos estudantes; tendência que os docentes têm de reproduzir em suas salas de aula o modelo educacional no qual foram ensinados. Em função do grande número de obstáculos identificados, discutimos como as perspectivas dos professores estabelecem uma controvérsia com o discurso oficial do governo. Por fim, consideramos que esses obstáculos podem ser utilizados como indicadores de uma educação de não qualidade, e podem, portanto, propiciar a construção de instrumentos quantitativos para serem aplicados em larga escala.
Palavras-chave : Ensino de ciências, educação de qualidade, obstáculos, análise do discurso.
## Abstract
Teaching quality is a theme of great interest for research in education. We recognize the importance of this theme to the teaching and learning processes and, considering the gaps related to situated conceptions of science teachers regarding the obstacles for quality education, in this paper we present outcomes of a study
which sought to identify the conceptions about obstacles for a quality education in the speech of physics, chemistry and biology teachers in a focus group accomplished in 2009. Also, we present how many each conception was resumed by the participants of the considered focus group. In this paper we used a methodology to analyze discourse of the referred focus group. Such methodology was useful in order to obtain the teachers' conceptions about obstacles for quality education. The methodology allows the analysts to relate discursive orientations and discursive procedures emerged from discourse in the considered focus group. In this case, we considered for analysis the following discursive orientations: explicative, narrative, argumentative, injunctive, dialogue. The outcomes from this analysis evinced many obstacles, among them we highlight: Facilitation of approval, problems with selection of content to be taught, excess of content to be taught, students' indifference with teaching, teachers' tendency to reproduce educational model they experienced in the past. Due to the large number of obstacles identified, we discuss how the teachers' perspectives establish a controversy with government official discourse. Finally, we consider that these obstacles can be used as indicators of non quality education and then can be useful for the construction of quantitative instruments do be applied in large scale.
Keywords : Science education, quality education, obstacles, discourse analysis.
## Introdução
Este trabalho é produto do projeto 'Ensino de Ciências de qualidade na perspectiva dos professores de nível médio' que é parte integrante do Programa Observatório da Educação Edital 2008 da CAPES realizado em três cidades brasileiras: Belo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro. O projeto busca analisar diferentes contextos educacionais de modo a contrastar diferentes perspectivas sobre qualidade no ensino de ciências e buscando também pontos de convergência. O corpus deste trabalho consiste em três horas de gravação em áudio e vídeo de uma situação de grupo focal com professores de biologia, química e física de escolas públicas e privadas da cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais. Os sujeitos participantes discutiram sobre do tema qualidade do ensino com a mediação de uma pesquisadora doutora em educação.
A qualidade de ensino é um tema de grande interesse para a pesquisa em educação contemporânea (PINHEIRO & OSTERMANN, 2010; CARVALHO, VIEIRA, ANDRADE & NASCIMENTO, 2011, REZENDE, DUARTE, SCHWARTZ E CARVALHO, 2011). Reconhecendo a importância deste tema para os processos de ensino e aprendizagem e as lacunas relacionadas a concepções situadas dos professores sobre os obstáculos para a educação de qualidade, neste trabalho apresentamos resultados de um estudo que buscou identificar essas concepções e o número de vezes que foram retomadas pelos professores participantes do referido grupo focal.
A metodologia utilizada para levantamento dessas concepções foi adaptada de trabalhos prévios do nosso grupo de pesquisa (VIEIRA, NASCIMENTO, KELLY, 2010; VIEIRA, 2011) e foi apresentada em detalhes no VIII ENPEC (ANDRADE, VIEIRA, NASCIMENTO & CARVALHO, 2011). A metodologia permite explicitar concepções situadas (GEE, 1999) dos professores acerca da qualidade no ensino de escolas brasileiras e a emergência e dinâmica entre temas na fala desses
professores em situação de grupo focal. Na próxima seção vamos apresentar sucintamente os eixos principais dessa metodologia.
## A metodologia para análise das interações de grupo focal
De acordo com a literatura que consultamos, verificamos que existem várias abordagens de análise do discurso para salas de aula de ciências (cf. OGBORN, et al, 1996; MORTIMER & SCOTT, 2003, LEMKE, 1990). Entretanto, verificamos pouco avanço nesse quesito com relação a situações de grupo focal de professores de ciências. Isso nos motivou a desenvolver uma metodologia de análise do discurso para compreendermos como os significados e temas emergem e se relacionam nas falas dos professores de ciências em situação de grupo focal.
A metodologia que propomos busca relacionar orientações discursivas e procedimentos discursivos emergentes no discurso em contexto de grupo focal:
Existe uma lacuna na pesquisa quanto à existência de metodologias que busquem compreender de maneira integrada e articulada como diferentes formas de estruturação textual da linguagem se relacionam numa prática discursiva em sala de aula de ciências (VIEIRA, NASCIMENTO & KELLY, 2010).
A partir dos trabalhos em linguística textual (ADAM 2008, BRONCKART 1999 e WERLICH, 1976), reconhecemos seis tipos de orientações discursivas relevantes 1 para o contexto de grupo focal de professores de ciências: argumentativa, explicativa, narrativa, descritiva, dialogal e injuntiva. Consideramos que essas orientações discursivas oferecem oportunidades de significação específicas para objetos de troca discursiva, neste caso, para o tema qualidade de educação. As orientações discursivas foram atribuídas a segmentos do discurso que chamamos de 'clipes'. O critério de delimitação de um clipe foi a dominância de uma determinada orientação discursiva; quando a orientação discursiva dominante muda, o clipe também muda. Os clipes são apresentados no 'quadro de narrativas', instrumento desenvolvido pelo nosso grupo (cf. VIEIRA, 2011; VIEIRA, KELLY & NASCIMENTO, in press; VILLANI & NASCIMENTO, 2003) que possibilita o mapeamento do discurso por meio de narrativas das interações discursivas. Apresentamos no quadro 1 um pequeno trecho do quadro de narrativas.
## Quadro 1 - Quadro de Narrativas construído para as situações discursivas de grupo focal de professores de ciências (adaptado de VIEIRA, 2011)
- O quadro 2 apresenta todas as categorias que foram adaptadas para a construção do quadro de narrativas em situação de grupo focal.
Quadro 2 - As categorias utilizadas na construção do quadro de narrativas para situações discursivas de grupo focal de professores de ciências (adaptado de VIEIRA, 2011)
Para os propósitos deste trabalho, vamos apresentar as temas relativos a obstáculos a uma educação de qualidade que encontramos nas narrativas das interações discursivas constantes no quadro de narrativas. De modo a identificar os obstáculos, utilizamos a seguinte definição para obstáculo para uma educação de qualidade:
'Quando interpretamos uma proposição das narrativas do quadro de narrativas sobre as interações dos participantes, que sinaliza uma opinião de valor negativo dos professores sobre prática docente e políticas publicas educacionais.'
Os obstáculos foram identificados a partir das narrativas, as quais possibilitaram a apreensão situada e contextualizada dos obstáculos. Por fim, em função da sua origem, os obstáculos foram enquadrados em três grandes
categorias: 1) Prática docente; 2) Políticas públicas; 3) Obstáculos diversos. Devido à natureza heterogênea dos obstáculos, um mesmo obstáculo pode ter sua consequência tanto em uma categoria quanto em outra. Nesses casos, os obstáculos foram enquadrados em mais de uma categoria.
## Resultados
Nossa análise aponta para os resultados sintetizados nos quadros 3 e 4. Cada quadro refere-se a uma orientação discursiva específica, os números à esquerda dos obstáculos representam o número total de retomadas. O processo de análise foi de dupla checagem, em que dois pesquisadores fizeram a tabulação e checagem mútua.
Quadro 3: Obstáculos para a educação de qualidade em orientações discursivas explicativas
Quadro 4: Obstáculos para a educação de qualidade em orientações discursivas narrativas
Examinando os quadro 3 e 4, podemos perceber que a maioria das concepções de obstáculos para educação de qualidade estão diretamente ligados à prática docente. Os professores pesquisados relataram mais sobre a facilitação da aprovação, problemas como a seleção dos conteúdos a serem ministrados, o excesso de conteúdo, o desinteresse por parte dos estudantes. Um obstáculo interessante apontado pelos professores versa sobre a tendência que os docentes têm de reproduzir em suas salas de aula o modelo educacional no qual foram ensinados. Este resultado se alinha com pesquisas sobre reprodução social na escola (cf. BOURDIEU & PASSERON, 1975)
Desta análise foi possível verificar também que os professores tiveram a tendência de responsabilizar mais as políticas públicas e a prática docente de seus colegas pela educação de má qualidade do que a sua própria prática docente.
## Discussão
O procedimento de tabulação possibilitou identificar os obstáculos com retomadas. Dentre eles destacamos: Facilitação da aprovação; contratação de professores desqualificados e sem formação específica; excesso de alunos sem embasamento; professores não são preparados para lidar com alunos com necessidades especiais.
Os obstáculos concentraram-se em orientações discursivas explicativas, o que já era esperado, uma vez que essas orientações foram majoritárias no discurso
produzido pelo grupo focal (CARVALHO, VIEIRA, ANDRADE & NASCIMENTO, 2011).
Esse resultado pode ser reflexo de que os professores estão em relativo acordo quanto aos obstáculos que emergiram do grupo focal. Nesse sentido, a predominância de emergência desses obstáculos em orientações discursivas explicativas é esperada, uma vez que em uma explicação os interlocutores têm a postura de considerar compartilhado o conhecimento em jogo. A controvérsia neste caso não existiu, o que se reflete na ausência de emergência de obstáculos em orientações discursivas argumentativas.
Segundo Bronckart, podemos associar tanto à argumentação quanto à explicação:
[...] Um caráter dialógico que consiste em isolar um elemento do tema tratado (um objeto de discurso) e em apresentá-lo de um modo que seja adaptado às características presumidas do destinatário (conhecimentos, atitudes, sentimentos, etc...) (BRONCKART, 1999, p. 234).
No caso da explicação, esse caráter dialógico se manifesta em uma atitude do interlocutor em considerar o objeto de discurso como incontestável para o seu destinatário, mas problemático (difícil de compreender e necessitando de desenvolvimento); no caso da argumentação, o interlocutor se posiciona de maneira a considerar o objeto de discurso enquanto contestável pelo seu destinatário.
Em acordo com essa perspectiva, podemos inferir que os participantes do grupo focal tiveram a tendência a concordar sobre os obstáculos para uma educação de qualidade que foram levantados pelos seus colegas de grupo. Cabe levantar a questão do porque eles se silenciarem sobre os problemas relativos à sua própria prática, que é, em grande parte, o 'substrato' para a formulação das opiniões dos professores.
A diversidade de obstáculos apontados pelos professores, ao serem comparados com as propagandas oficiais do governo de Minas Gerais, veiculadas no rádio, TV e internet, estabelecem uma controvérsia, uma contradição no sentido de que os relatos não coincidem. De um lado os professores denunciam os baixos salários, falta de condições para a prática, problemas com o sistema que força o aluno a ser aprovado etc. Por outro lado, as propagandas do governo enaltecem as condições de ensino propiciadas pelo Estado, o pagamento do piso salarial, a 'melhoria' do desempenho dos estudantes, etc.
Nesse sentido, os resultados deste estudo esclarecem mais sobre os problemas educacionais do ponto de vista dos professores, que é, em ultima instância, uma perspectiva de quem está dentro do sistema (perspectiva êmica). Essa perspectiva está claramente em contradição com a perspectiva do governo, o que sugere a necessidade de estreitamento das relações entre o governo e os professores, de modo que o governo dê mais 'voz' aos docentes e saiba 'ouvir' o que eles têm a dizer. Podemos ir além e formular a seguinte questão: Quais opiniões estão mais próximas da realidade, aquelas dos professores ou aquelas do governo?
Essa questão sugere a necessidade de continuidade da pesquisa, incorporando também aspectos institucionais nas análises, inclusive as políticas públicas do Estado de Minas Gerais. O cotejamento crítico das diferentes perspectivas pode ser uma alternativa para desvelar os verdadeiros problemas educacionais contemporâneos em nosso Estado.
Por fim, concluímos este trabalho reforçando a necessidade de continuidade de pesquisa, de modo que os obstáculos levantados possam servir para informar a construção de instrumentos quantitativos que visem sondar em larga escala quais são os obstáculos a uma educação de qualidade. Deste modo, consideramos que neste trabalho apresentamos um layout de pesquisa qualitativo cujos resultados podem informar layouts de pesquisas quantitativas, como surveys . O procedimento de levantamento obstáculos a uma educação de qualidade é fundamental para o provimento de indicadores para esse tipo de pesquisa quantitativa.
## Referências
ADAM, J. M. A linguística textual: introdução à análise textual dos discursos . São Paulo, Cortez, 2008 (Tradução do original francês La Linguistique textuelle: Introduction à analyse textuelle dês discours, 2008).
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CARVALHO, B. E., VIEIRA, R. D., ANDRADE, D., & NASCIMENTO, S. S. A emergência do tema 'conteúdo escolar' em orientações discursivas explicativas na fala de professores do Ensino Médio em situação de grupo focal. Atas do VIII Enpec , Unicamp, SP, 2011.
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WERLICH, E. A text Grammar of English. Quelle & Meyer, 1976.
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