RECONHECIMENTO DE ELEMENTOS DAS CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DE UMA DISCIPLINA NO EPISÓDIO DE ENSINO DE UM LICENCIANDO
Leandro Londero, Maria José Pereira Monteiro De Almeida
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIV
- Ano
- 2012
- Data
- 09/11/2012
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## RECONHECIMENTO DE ELEMENTOS DAS CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DE UMA DISCIPLINA NO EPISÓDIO DE ENSINO DE UM LICENCIANDO RECOGNITION OF PRODUCTION CONDITIONS ELEMENTS OF A DISCIPLINE INTO THE TEACHING EPISODE OF A FUTURE TEACHER
Leandro Londero 1 , Maria José P. M. de Almeida 2
1Doutorando gepCE/FE/UNICAMP, llondero@bol.com.br
2gepCE/FE/UNICAMP, mjpma@unicamp.br, Apoio: CNPq
## Resumo
Neste estudo, procuramos compreender como elementos das condições de produção, colocadas em funcionamento numa disciplina da licenciatura em física, contribuíram para a constituição da memória discursiva de um licenciando enquanto ele cursava essa disciplina. Para tal analisamos uma das condições estabelecidas no plano da disciplina - um episódio de ensino. Este visava o ensino da Relatividade Especial e a ênfase dada nas aulas que antecederam a elaboração do episódio haviam sido sobre esse conteúdo de ensino, conforme ele é exposto em livros de divulgação científica elaborados por autores cientistas, com destaque para o papel das imagens, além de uma aula sobre planejamento de ensino. Mais precisamente, com a investigação procuramos responder a seguinte questão: como determinadas condições de produção, estabelecidas numa disciplina da licenciatura em física, se manifestam na elaboração de um episódio de ensino, sobre a Relatividade Especial, elaborado por um dos licenciandos que cursou a licenciatura? Como apoio teórico, nos pautamos na análise do discurso, na vertente que foi inicialmente desenvolvida na França por Michel Pêcheux, principalmente nas noções de condições de produção, imediatas e sócio-históricas e na noção de memória discursiva. Os resultados evidenciaram a presença de elementos das condições de produção imediatas estabelecidas para a disciplina, mas também outros aspectos mostraramse presentes, o que torna patente a relevância de procurarmos compreender o papel de experiências anteriores do estudante, as condições sócio-históricas, presentes em sua memória discursiva. É fato também que, certamente as condições de aprovação estabelecidas na disciplina contribuíram para o desenvolvimento do episódio de ensino, uma vez que, os estudantes estavam na condição de aprendizes/alunos e a elaboração do episodio era um dos elementos para a avaliação final de cada licenciando na disciplina, o que certamente subentendia certas relações de força no contexto das condições de produção estabelecidas.
Palavras-chave : Episódios de Ensino, Relatividade Especial, Condições de Produção.
## Abstract
In this study, we sought to comprehend how production conditions elements, treated in a discipline of Physics teacher education course, contributed to the constitution of a discursive memory of a future teacher, while he was attending this discipline. For that, we analyzed one of the conditions established into the discipline plan - a teaching episode. This last aimed the teaching of Special Relativity and the emphasis given in classes, which was prior to the episode formulation, was on the content of teaching, as it is exposed in the scientific dissemination books created by
scientists authors, highlighting the role of images, besides a class about teaching planning. More precisely, with the investigation, we sought to answer the following question: how determined production conditions, established in a discipline of Physics education course, are expressed in the formulation of a teaching episode, on Special Relativity, elaborated by a future teacher that attended the course? As theoretical framework, we adopted discourse analysis, according it was initially developed in France by Michel Pêcheux, mainly, the notions of production conditions, immediate and socio-historical, and the notion of discursive memory. The results made clear the presence of elements from the immediate production conditions established for the discipline, but also other aspects appeared, what turns relevant try to comprehend the role of the student previous experiences, the socio-historical conditions, present in his discursive memory. It is also true that, certainly the conditions to approval established in the discipline contributed to develop the teaching episode, since that, the students were in the condition of learners/pupils and the episode formulation was one of the elements of the final assessment of each student into the discipline, what certainly implied some force relations in the context of the established production conditions.
Keywords : Teaching Episodes, Special Relativity, Production Conditions.
## 1 - Introdução e Questão de Estudo
Concordamos com Fusari (1988) quando esse autor argumenta que planejar não é fazer cópia do plano do ano anterior. O planejamento deve ser concebido, assumido e vivenciado no cotidiano da prática social docente, como um processo de reflexão. Assim,
Pode-se, pois, afirmar que o planejamento do ensino é o processo de pensar (...) os problemas da educação escolar, no processo ensino-aprendizagem. Consequentemente, planejamento do ensino é algo muito mais amplo e abrange a elaboração, execução e avaliação de planos de ensino (p. 45).
Na perspectiva de Fusari (1989), o planejamento do ensino é o processo que envolve 'a atuação concreta dos educadores no cotidiano do seu trabalho pedagógico, envolvendo todas as suas ações e situações, o tempo todo, envolvendo a permanente interação entre os educadores e entre os próprios educandos'. Já o plano de ensino, para este autor, é um momento de documentação do processo educacional escolar como um todo. O plano pode ser então considerado como um documento elaborado pelo professor, no qual consta a sua proposta de trabalho para uma disciplina específica. A falta de elaboração de planos de ensino, por parte dos professores, devida certamente as suas condições de trabalho e às dificuldades por eles enfrentadas no exercício da docência, tem gerado nas escolas um processo de constantes improvisações pedagógicas dentro das salas de aula.
Admitimos que uma contribuição para se tentar reverter esse quadro é, já na formação inicial, estabelecer a discussão e elaboração de planos de ensino, que incluam a preparação/elaboração de aulas Os saberes assim adquiridos certamente poderão contribuir para a superação de situações em que o professor apenas reproduz algo que recebe pronto para ser aplicado em sala de aula. Neste trabalho, analisamos um episódio de ensino solicitado na perspectiva de que estudantes de licenciatura em física planejassem um conjunto de aulas para trabalho com a Relatividade Especial no Ensino Médio.
Com o estudo procuramos responder a seguinte questão: como determinadas condições de produção, estabelecidas numa disciplina da licenciatura em física, se manifestam na elaboração de um episódio de ensino, sobre a Relatividade Especial, elaborado por um dos licenciandos que cursou a licenciatura?
## 2 - Apoio Teórico
Nosso estudo leva em consideração os aportes teóricos da Análise de Discurso Francesa, a partir de produções de Michel Pêcheux na França nos anos 60. Nessa vertente, o discurso mais do que transmissão de informação é efeito de sentidos entre locutores. Efeitos que resultam da relação de sujeitos simbólicos que participam do discurso, dentro de circunstâncias dadas. Os efeitos se dão porque são sujeitos dentro de certas circunstâncias e afetados pelas suas memórias discursivas (ORLANDI, 2010). O sujeito e a situação que não eram consideradas na análise linguística, passam a ter importância fundamental na análise de discurso. No entanto, segundo Orlandi (2010), este sujeito e esta situação contam na medida em que são redefinidos discursivamente como partes das condições de produção do discurso.
Assim, na análise de discurso não podemos deixar de relacionar o discurso com as condições de produção para o seu pronunciamento. Mas o que são as condições de produção? Segundo Orlandi (2010)
As condições de produção incluem pois os sujeitos e a situação. A situação, por sua vez, pode ser pensada em seu sentido estrito e em sentido lato. Em sentido estrito ela compreende as circunstâncias da enunciação, o aqui e o agora do dizer, o contexto imediato (p.15).
A autora também enfatizam que na prática não podemos dissociar o contexto imediato e o contexto em sentido amplo, ou seja, o contexto sócio-histórico, uma vez que em toda situação de linguagem ambos funcionam conjuntamente. Outro aspecto que faz parte das condições de produção é a memória discursiva. Orlandi (2007) destaca que a memória tem suas características próprias quando pensada em relação ao discurso. Na perspectiva discursiva, a memória é tratada como interdiscurso e esse é definido por Orlandi (2007) como
- (...) aquilo que se fala antes, em outro lugar, independentemente. Ou seja, é o que chamamos memória discursiva: o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do preconstruído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra. O interdiscurso disponibiliza dizeres que afetam o modo como o sujeito significa em uma situação discursiva dada (p.31).
O que dizemos tem relação com outros dizeres e isso faz parte dos efeitos de sentido de nosso dizer. Todo discurso é portanto aberto em suas relações de sentidos (ORLANDI, 2010). Os sentidos já ditos por alguém, em algum lugar, em outras tempos, mesmo muito distantes, têm um efeito sobre o que o sujeito diz.
- O dizer não é propriedade particular. As palavras não são só nossas. Elas significam pela história e pela língua. O que é dito em outro lugar também significa nas 'nossas' palavras. O sujeito diz, pensa que sabe o que diz, mas não tem acesso ou controle sobre o modo pelo qual os sentidos se constituem nele. Por isso é inútil, do ponto de vista discursivo, perguntar para o sujeito o que ele quis dizer quando disse 'x'.
Segundo Almeida (2004), como nessa perspectiva, a linguagem além de ser suporte do pensamento e instrumento de transmissão de informação, ou seja, meio de comunicação, é essencialmente, produto do trabalho dos homens num contexto sócio-histórico, então '(...) para compreender o seu funcionamento não bastam mecanismos linguísticos, os quais, por si só, não apreendem os confrontos ideológicos que a constituem' (p.33).
## 3 - Condições de Produção
Tomamos como espaço para a realização deste estudo as condições de produção estabelecidas e um episódio de ensino desenvolvido por um licenciando, no contexto de uma disciplina da Licenciatura em Física numa das três universidade estaduais paulistas. Entre as atividades previstas para serem realizadas na disciplina encontram-se: a) leitura e análise de textos da área de educação em ciências/física; textos de divulgação científica de autores cientistas; textos que possam contribuir para o planejamento de um episódio de ensino; b) elaboração de um episódio de ensino para o nível médio com temática associada à Teoria da Relatividade Especial.
Perante isso, colocamos em funcionamento uma série de textos para a leitura e discussão pelos alunos que cursavam a disciplina, encarados estes como as condições de produção imediatas, as circunstâncias da enunciação, o aqui e o agora do dizer, o contexto imediato, nas palavras de Orlandi (2010). Os textos foram distribuídos em um conjunto de 15 encontros (cada encontro corresponde a duas aulas com duração de 50 minutos cada uma). Uma aula foi destina para à apresentação e entrega do episódio de ensino. Os oito primeiros encontros ficaram sob responsabilidade do primeiro autor deste trabalho, os demais da outra autora.
Quadro 1 - Condições de produção imediatas da disciplina
Neste estudo, o foco de análise concentra-se na produção elaborada por um estudantes, com atenção especial ao papel que elementos das condições de produção da disciplina exerceram quando da construção daquela.
## 4 - O episódio de ensino do estudante Carlos
Na introdução de seu episódio Carlos escreve:
Me apoiarei em algumas abordagens como história da ciência; uso de textos de divulgação científica e experimentação em sala de aula. Dentre os recursos didáticos destaco o uso de quadrinhos, leitura de imagens e animações, atividades corporais para ilustrar experiências de pensamento e experimentos a serem realizados em sala de aula. Por fim, proponho como avaliação uma série de questões, que envolvem por exemplo análises de tirinhas de humor que fazem alguma menção ao assunto abordado, a intenção é observar se os alunos conseguem interpretar as questões a partir do que lhes foi passado em aula e principalmente explorar o lado lúdico desses recursos, com seu caráter motivacional.
No discurso de Carlos notamos forte presença da sua posição inicial, manifestada no questionário inicial. Carlos afirma que irá se apoiar em três abordagens: histórica, linguística (uso de textos de divulgação científica) e experimental. Vejamos, então, como o estudante faz uso destas abordagens em seu episódio. Ao apresentar a síntese de seu episódio, o estudante expõe que ele será dividido em 8 aulas. No que diz respeito a abordagem história, Carlos argumenta em seu relato:
A abordagem história da ciência será usada principalmente para introduzir o assunto, além de despertar para um pensamento crítico a respeito da ciência, mostrar aos alunos que o conhecimento humano é construído por diversas pessoas, dando uma ideia de como ocorre o desenvolvimento científico; também tenho como intenção, com essa abordagem, mostrar como surgem e se desenvolvem alguns conceitos e postulados.
Notamos, mediante a leitura do episódio e da argumentação reproduzida, que as condições de produção da disciplina não exerceram influência exclusiva na construção do estudante, ao menos no que se refere a abordagem histórica, uma fez que ele utiliza-se, explicitamente, de outra produção, presente na literatura da área, para construir sua proposta. Carlos faz uso da produção de Mors e Wolff (2005), intitulada ' Relatividade no
Ensino Médio: Uma Experiência com Motivação na História '. Em particular, o estudante faz uso de um trecho desse artigo, no qual os autores expõem:
A abordagem histórica do texto dos alunos propiciou-lhes a construção de um conhecimento mais crítico e abrangente da evolução científica. Contribuiu para desmistificar a imagem do cientista como gênio, que de forma individual descobre toda a teoria, omitindo o papel da comunidade científica na construção das teorias (p.20).
A comparação dos dois trechos reproduzidos acima permite constatar que o episódio de Carlos foi fortemente influenciado pela produção de Mors e Wolff (2005). Este aspecto é de certa maneira relevante pois mostra que o estudante extrapolou os limites da disciplina amparando-se em outras produções da área, indo além daquelas discutidas na disciplina. Na sequência Carlos expõe:
A intenção é apresentar aos alunos os cientistas que contribuíram para o desenvolvimento da Relatividade Especial, bem como o contexto do período em que a teoria foi construída; mostrando que Einstein, se apoiou no trabalho de outros pensadores para desenvolver seu trabalho (1 aula). Além disso, também busca-se que os alunos compreendam o princípio da relatividade e sua importância na construção da teoria da relatividade e toda questão histórica em torno desse princípio (2 aulas); a questão da constância da velocidade da luz em relação a qualquer referencial, bem como uma breve apresentação de todo debate histórico em torno desse assunto (1 aula); e a relatividade dos conceitos de espaço e tempo segundo a teoria de Einstein, ilustradas por uma breve demonstração das transformações de Lorentz (2 aulas).
Pensando em uma formação crítica, também proponho uma análise do impacto que a Teoria da Relatividade trouxe para a sociedade que contemplou seu surgimento, além mostrar como ela está presente em nossas vidas atualmente, mostrando as áreas tecnológicas em que essa teoria é de fundamental importância, despertando uma reflexão a respeito da tecnologia na vida do homem (2 aulas).
Na produção de Carlos verificamos, novamente, forte presença de aspectos contemplados na produção de Mors e Wolff (2005). Esses autores, por exemplo, mencionam que o texto por eles produzido destinado aos alunos ' possui uma abordagem histórica e conceitual sobre a evolução do pensamento da humanidade até a construção da TRE, contemplando os principais fatos históricos, desde Aristóteles até as conclusões de Albert Einstein '. Esse trecho pode ser comparado ao exposto por Carlos na síntese de seu episódio quando ele escreve: ' A intenção é apresentar aos alunos os cientistas que contribuíram para o desenvolvimento da Relatividade Especial, bem como o contexto do período em que a teoria foi construída; mostrando que Einstein, se apoiou no trabalho de outros pensadores para desenvolver seu trabalho '. Uma justificativa para o estudante se apoiar em outras condições de produção é a falta de um texto que aborde o ensino da Relatividade Especial por meio de uma abordagem histórica no cronograma da disciplina.
Se na abordagem história as condições de produção da disciplina não exerceram forte influência no episódio de ensino, não podemos falar o mesmo no que se refere a abordagem linguística e experimental. No que diz respeito a leitura de textos de divulgação científica, o estudante justifica o seu uso uma vez que
...pode servir como uma forma de leitura em ciência considerando que essa leitura está aberta a diversas interpretações a partir dos alunos, com isso pode-se gerar o debate entre os alunos, promovendo assim uma construção
do conhecimento entre os próprios alunos. Dessa forma ressalta-se a importância do uso do texto de divulgação, bem como a postura diante deste texto, daí a importância da instrução do professor a respeito das leituras.
Em relação ao uso de textos de divulgação científica, percebemos que Carlos se apropriou de elementos das condições de produção da disciplina ao se apoiar na leitura de Almeida (2004), reproduzindo em seu episódio uma citação dessa autora, reproduzida a seguir.
A maioria dos alunos lê um texto de divulgação científica como se fosse um manual didático, quando ele está acompanhado de questões como: O que é? Como você entende? E outras semelhantes. O efeito não é o mesmo se as perguntas forem do tipo: O que mais você gostaria de saber sobre esse assunto? Você concorda ou discorda do autor? (…) Trabalhadas com um texto de divulgação, um texto que se aproxime do texto científico, diferente deste no grau de abstração da linguagem, mas que mantenha um certo grau de aprofundamento, quanto aos processos de produção dos saberes divulgados, essas questões podem se constituir numa ponte para um diálogo do aluno com o conhecimento científico (ALMEIDA, 2004, p.67).
Em relação a leitura o estudante propõe num primeiro momento a leitura de um texto, intitulado 'Einstein no cotidiano', publicado na revista Scientific American, o qual aborda a influência das teorias de Einstein em aparelhos movidos a energia solar, unidades GPS, câmera digitais e lasers em DVDs, canetas para apresentação e brinquedos. Talvez a escolha deste texto esteja relacionada pela preocupação do estudante em relacionar as ideias de Einstein ao cotidiano dos alunos, como mencionado por Carlos em vários trechos de seus discursos já reproduzidos anteriormente como, por exemplo, ao pronunciar que
...o texto tem que ser atraente e mostrar a importância do assunto na vida das pessoas.
Pensando em uma formação crítica, também proponho uma análise do impacto que a Teoria da Relatividade trouxe para a sociedade que contemplou seu surgimento, além mostrar como ela está presente em nossas vidas atualmente, mostrando as áreas tecnológicas em que essa teoria é de fundamental importância, despertando uma reflexão a respeito da tecnologia na vida do homem (2 aulas).
Segundo Carlos, a intenção com o texto é propiciar a formação crítica e para ele a leitura de textos poderia ser uma oportunidade para isso. No que tange a abordagem experimental, Carlos justifica o seu uso argumentando que:
O uso de experimento em sala de aula é tomado, no sentido de experimentar, ou seja, experimentar o movimento, observar a queda dos corpos, etc. O objetivo não é uma observação sistemática, com subsequente coleta e tratamento de dados, mas sim experimentar o que se fala como, por exemplo, podemos citar a experiência de Karam, Cruz e Coimbra (2007) em que desenvolvem um episódio de ensino onde discutem a relatividade valendo-se de experimentos reais e mentais, procurando sempre questionar os alunos. Também podemos citar a trabalho de Barreto (2001), que descreve um episódio de ensino em que os alunos participam ativamente, construindo o conhecimento.
Na abordagem experimental, Carlos apropriou-se de elementos das condições de produção da disciplina, uma vez que faz uso de atividades relatadas no artigo Karam, Cruz e Coimbra (2007), discutido na segunda aula, como explicitado em sua fala, reproduzida acima. Especificamente, as atividades utilizadas são aquelas
nas quais os autores utilizam-se de experimentos reais e mentais para o ensino das relatividades. Ao final de seu episódio, Carlos manifesta cuidado com a avaliação da aprendizagem. Para tanto, o estudante expõe
Os alunos são avaliados a medida que os conceitos são discutidos, com a intenção de acompanhar o envolvimento dos alunos e observar o entendimento a respeito dos conceitos. Para isso, faço uso de exercícios e produção de pequenos textos em que os alunos expressaram o que entenderam a respeito dos conteúdos. Por fim, farei a análise de tirinhas de humor (ver anexo 1) e alguns trechos ou reportagens de livros e revistas tratando a relatividade, como por exemplo 'O que é a teoria relatividade' de Rumer e Landau, esperando-se uma análise crítica dos alunos, identificando elementos importantes nas leituras e até mesmo possíveis erros conceituais.
O uso de tiras/Histórias em Quadrinho (HQ) aparece frequentemente nos discursos de Carlos ao longo de suas produções e teve espaço reservado em seu episódio de ensino. No questionário inicial, o estudante mencionou ser ' ...comum observar jornais que trazem tiras, charges e quadrinhos a respeito de cientistas ou conceitos da ciência '. No momento da escolha de imagens que utilizaria para ensinar relatividade (atividade realizada na terceira aula), Carlos seleciona uma HQ justificando sua escolha pelo fato de ser ' ...uma maneira bem viável de começar o assunto de relatividade no ensino médio, visto que a curiosidade dos alunos seria aguçada pelo humor, e o conceito de relatividade seria menos complicado de ser passado, já que é uma área da física bem difícil de ser compreendida pela maioria das pessoas '. Talvez no imaginário de Carlos os quadrinhos constituem uma ferramenta mais atraente que o livro didático, por articular imagens e palavras, e que pode levar os alunos a outras formas de leitura. Em seu episódio, o estudante retoma o uso de uma imagem/HQ escolhida na terceira aula, a qual reproduzimos no quadro 2.
Quadro 2 - Histórias em Quadrinho utilizadas por CarlosA finalidade do uso de HQ é apresentada pelo estudante em seu episódio
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...tendo em mente os conceitos já apresentados, argumentaremos a respeito da questão do tempo relativo, argumentando a partir das transformações de Lorentz, mostrando como o tempo torna-se um conceito relativo.
Tal argumentação, a respeito do tempo relativo, seria completada com a leitura da segunda HQ, reproduzida no quadro 2. Talvez Carlos tenha dado ênfase ao uso de HQ, as quais articulam imagens e palavras, pelo influências das condições de produção da disciplina, especificamente aquelas trabalhadas na 3 e a 4 a aulas, as quais discutem o uso de imagens no ensino de ciências/física.
Como exposto por Carlos em sua penúltima fala, ao final de sua produção o estudante faz uso de '... alguns trechos ou reportagens de livros e revistas tratando a relatividade, como por exemplo 'O que é a teoria relatividade' de Rumer e Landau, esperando-se uma análise crítica dos alunos, identificando elementos importantes nas leituras e até mesmo possíveis erros conceituais '. Percebemos nesta fala, e em seu episódio, influência das condições de produção da disciplina, uma vez que o texto elaborado por Landau e Rumer (1963) foi discutido em duas aulas (5 e 8 ). No a a entanto, Carlos não relata como seria essa utilização ou leitura por parte dos alunos. Ele apenas relata como ação do aluno a análise crítica desse texto, a identificação de elementos importantes e de possíveis erros conceituais.
## 5 - Considerações Finais
Nossa investigação procurou reconhecer elementos das condições de produção de uma disciplina na elaboração de episódios de ensino. Analisamos, especificamente o episódio do aluno Carlos. De maneira geral, as condições de produção influenciaram na construção do episódio, ao menos no uso das abordagens linguística e experimental. Elas aparecem explicitamente ao longo da produção do estudante.
A elaboração individual de episódios de ensino mostrou-se dependente das condições de produção. No entanto, outros elementos mostraram-se presentes como, por exemplo, as experiências anteriores dos estudantes e suas visões de mundo que possuem, do ensino que desejam e do aluno que pretendem formar. Além disso, destacamos que, certamente as relações de força contribuíram para que elementos das condições de produção se estabelecessem nos episódios, uma vez que os estudantes estavam na condição de aprendizes/alunos e passariam por um processo de avaliação e conceituação, no qual desejariam lograr aprovação.
No atual momento em que se encontra a escola, consideramos que, nossa solicitação de elaboração de episódios estimulou os estudantes a prepararem as suas aulas, propiciando, dessa maneira, uma docência com maior qualidade, na qual o professor assume o papel de mediador entre os alunos, valorizando suas necessidades e características próprias ao abordar um determinado conteúdo.
## 5 - Referências
ALMEIDA, M. J. P. M. Discursos da Ciência e da Escola: Ideologia e Leituras Possíveis . Campinas: Mercado de Letras, 2004.
FUSARI, J.C. O planejamento da educação escolar; subsídios para açãoreflexão-ação . São Paulo, SE/COGESP, 1989.
FUSARI, J.C. O planejamento do trabalho pedagógico: algumas indagações e tentativas de respostas . Ideias, n.8, p. 44-58, 1988.
KARAM, R. A. S.; CRUZ, S. M. S. C. S.; COIMBRA, D. Relatividades no ensino médio: o debate em sala de aula. Revista Brasileira de Ensino de Física , v.29, n.1, p. 105-114, 2007.
MORS, M. P.; WOLFF, J. F. S. Relatividade no Ensino Médio: uma experiência com motivação na história. Experiência em Ensino de Ciências , v.1, p. 14-22, 2006.
ORLANDI, E. P. Análise de discurso. ORLANDI, E. P.; LAGAZZI-RODRIGUES, S. (Orgs.). Discurso e Textualidade . Campinas: Pontes, 2010.
ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos . 5.ed. Campinas: Pontes, 2007.
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