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LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA: INFLUÊNCIA DA NOOSFERA NA TRANSPOSIÇÃO DIDÁTICA DE ONDAS SONORAS

Nádia Cristina Guimaraes Errobidart, Shirley Takeco Gobara

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIV
Ano
2012
Data
09/11/2012
Linha de pesquisa
Ensino / Aprendizagem / Avaliação Em Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA: INFLUÊNCIA DA NOOSFERA NA TRANSPOSIÇÃO DIDÁTICA DE ONDAS SONORAS

## TEXTBOOKS OF PHYSICS: THE INFLUENCE OF THE NOOSPHERE IN DIDACTIC TRANSPOSITION OF SOUND WAVES

## Nádia Cristina Guimarães Errobidart , Shirley Takeco Gobara 1 2

- 1 Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/Centro de Ciências Exatas e Tecnologia, nacriguer@gmail.com
- 2 Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/Centro de Ciências Exatas e Tecnologia, stgobara@gmail.com

## Resumo

O artigo apresenta um recorte de uma pesquisa qualitativa, baseada na análise de conteúdo, que teve como objetivos caracterizar a transposição didática sobre ondas sonoras e identificar possíveis fontes de influências da noosfera na materialização do saber a ensinar. Considerando as reformas educacionais Francisco Campos (1931) e Capanema (1942), como possíveis fontes de influência da noosfera, analisamos cinco livros didáticos: Curso de Física: Acústica - Óptica Eletricidade (FREITAS, 1941); FÍSICA: Tratado Elementar de Física experimental (LOURENÇO, 1942); Física (GOMES FILHO, 1953); Física na escola secundária (BLACKWOOD, HERRON & KELLY, 1958); Física (MARISTAS, 1959). A utilização de ilustrações de equipamentos e a descrição detalhada do seu funcionamento sugere uma possível adequação a necessidade de contribuir com o desenvolvimento industrial, aspecto almejado pela reforma Francisco Campos. Essa estratégia, identificada em alguns livros, pode indicar a intenção de preparar o aluno que não continuasse seus estudos para ler os manuais das máquinas utilizadas na indústria, tornando-se mão de obra especializada. Quanto a reforma Capanema (1942), cujo um dos objetivos ambicionados era o desenvolvimento do espírito científico nos alunos, a partir da visualização, discussão e reconstrução experimental, parece ter influenciado a textualização dos livros didáticos nacionais, publicados após 1942. Além do reflexo das reformas nos livros didáticos analisamos também a influência americana e francesa na forma de realizar a textualização dos saberes. A primeira, identificada principalmente na tradução de Física para a escola secundária, enfatiza dia a dia do aluno na abordagem dos saberes enquanto que a outra explora aspectos da história da ciência na apresentação de conceitos científicos.

Palavras-chave : transposição didática, noosfera, reformas educacionais, livros didáticos de física.

## Abstract

The article presents an outline of a qualitative research, based on content analysis, which aimed to characterize the didactic transposition of sound waves and identify possible sources of influence of the noosphere in the materialization of knowledge to teach. Considering the educational reforms Francisco Campos (1931) and Capanema (1942), as possible sources of influence of the noosphere, we analyzed five textbooks: Curso de Física: Acústica - Óptica - Eletricidade (FREITAS,

1941); FÍSICA: Tratado Elementar de Física experimental (LOURENÇO, 1942); Física (GOMES FILHO, 1953); Física na escola secundária (BLACKWOOD, HERRON & KELLY, 1958); Física (MARISTAS, 1959). The use of illustrations of equipment and detailed description of its operation suggests a possible adaptation to the need to contribute to industrial development, pursued by the reform aspect Francisco Campos. This strategy, identified in some books, you can specify the intention to prepare the student not to continue their studies to read the manuals of the machines used in industry, becoming a skilled workforce The reform Capanema (1942), where one of the ambitious goals was the development of the scientific spirit in students, from the viewing, discussion and experimental reconstruction, seems to have influenced the textualization of national textbooks published after 1942. In the reflection of reforms in the textbooks we also analyzed the influence of American and French in order to perform the textualization of knowledge. The first, identified mainly in translating physics to secondary school, day to day stresses of student knowledge of the approach while the other explores aspects of the history of science in the presentation of scientific concepts.

Keywords : didactic transposition, noosphere, educational reforms, physics textbooks.

## A pesquisa

Para realizar a interação entre o sistema de ensino e entorno social, negociando as relações de interesse que norteiam o processo de seleção e transformação dos saberes, Chevallard (1991) afirma ser necessário criar uma instância essencial para o funcionamento didático: a noosfera. Essa instância, composta por diferentes entidades, vinculadas ou não ao sistema de ensino e à sociedade, pensa o funcionamento do processo didático. Com o objetivo de satisfazer aos anseios do entorno social pode introduzir nos sistemas educativos saberes relacionados a um ou outro processo de produção.

A sobrevivência de um conhecimento no sistema didático '[...] supõe sua compatibilização com o meio. Ele deve responder às exigências que acompanham e justificam o projeto social a cuja atualização deve responder'. (CHEVALLARD, 1991, p.16). Para compreender o que ocorre no interior do sistema didático, temos que levar em consideração seu exterior, ou seja, a noosfera e a sociedade onde ele está inserido.

Segundo Chevallard (1991), um conhecimento só se torna objeto de ensino se for de interesse da sociedade. A noosfera, como responsável pela negociação das exigências feitas pela sociedade ao sistema didático, seria então um espaço de conflito e de disputas. A compatibilização é um resultado do processo de construção social, que não ocorre espontaneamente ou de forma natural e busca a atualização dos saberes a ensinar apresentados nos livros didáticos, por exemplo, após o processo de transposição didática externa.

Diante do exposto apresentamos alguns resultados de uma pesquisa qualitativa que teve por objetivo identificar e caracterizar variáveis passíveis de interferir no processo de recontextualização do saberes a ensinar, relacionados com o estudo de ondas sonoras , presentes em livros didáticos de física. Buscamos 1

identificar reflexos das Reformas educacionais Francisco Campos (1931) e Capanema (1942), compreendidas entre a institucionalização da Física como disciplina escolar e a implantação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da educação brasileira - LDB/1961, em livros didáticos de física.

## O contexto das reformas educacionais Francisco Campos (1931) e Capanema (1942)

Com a Revolução de 1930 as oligarquias cafeeiras são afastadas do controle social e político do País, um governo provisório é instaurado sobre o comando de Getúlio Vargas e o Brasil troca o modelo agrário - exportador pelo nacional -desenvolvimentista almejando o desenvolvimento industrial. Tais mudanças desencadearam discussões sobre os caminhos trilhados pela educação brasileira e resultaram na criação do Conselho Nacional de Educação e implantação de duas grandes reformas: Francisco Campos e Capanema.

- A Reforma Francisco Campos, implantada em 1931, tentou organizar por meio dos inúmeros decretos o ensino superior, o secundário e o profissionalizante comercial, buscando sintetizar as tendências educacionais predominantes na época.
- O decreto n° 19890 de 18 de Abril de 1931 dispunha especificamente sobre a organização do ensino secundário, estabelecendo definitivamente '[...] o currículo seriado, organizado em dois ciclos distintos, o fundamental e o complementar, ambos indispensáveis ao ingresso no ensino superior [...]' (ZOTTI, 2004, p. 103). O ciclo fundamental com duração de cinco anos estava voltado para a formação básica geral e tinha a pretensão de preparar o homem para desempenhar papéis na sociedade. O ciclo complementar com duração de dois anos tinha característica de propedêutico, e objetivava preparar quem havia concluído o ciclo anterior para ingressar no ensino superior na área de humanidade , biológica ou técnica . 2 3 4

Um dos aspectos almejados com a implantação desse decreto era a renovação dos métodos de aprendizagem e a modernização do conteúdo de ensino, o que contribuiu para a ampliação dos estudos de ciências físicas e naturais. No ciclo fundamental os alunos estudavam ciências físicas e naturais nos dois primeiros anos de estudos e física nos outros três. Nos dois anos do ciclo complementar apenas os candidatos a faculdade de direito não cursavam a disciplina de física (ROMANELLI, 1998). Esses aspectos podem ser considerados como uma das mudanças provocadas pela influência dos Estados Unidos na educação brasileira e consequente diminuição da europeia, especialmente francesa.

Também contribuiu para essas mudanças a crise do setor agrícola que diminuiu o trabalho no campo fazendo com que a população rural começasse a migrar para as cidades. Entretanto, a mão de obra disponível não possuía a especialização necessária para operar as máquinas nas indústrias. Para tentar solucionar o problema, as instâncias políticas aumentaram o número de escolas e provocaram mudanças no ensino secundário, o qual passa a ter como objetivo a formação do jovem para o trabalho na indústria, pois a expansão do processo industrial exigia a preparação de mão de obra em larga escala, o mais rápido e prático possível.

Diante deste contexto o Ministro Gustavo Capanema promulga, em 1942, um conjunto de decretos para regular os ensinos primário, secundário e superior: a Reforma Capanema. O decreto-lei n° 4244 de 09 de Abril de 1942, denominado Lei Orgânica do Ensino Secundário, é considerado como um dos pontos centrais da Reforma Capanema. Nele foi rearranjada a divisão do ensino secundário em dois ciclos de estudos: o ginasial e o colegial (ciclo fundamental e complementar).

- O ensino de física sofreu um decréscimo significativo na matriz curricular estabelecida pelo decreto-lei n° 4244, pois passou a ser realizado apenas na modalidade colegial, tendo duração de dois na modalidade clássica e três anos na científica. Na Reforma Francisco Campos era ministrado em três anos do ciclo fundamental e dois no complementar, totalizando cinco anos de estudos. Na prática essa redução pode não ter sido tão expressiva assim, pois, segundo Zotti (2004), muitos alunos realizavam os exames vestibulares ao final do ciclo fundamental e se obtinham aprovação para o ingresso ao ensino superior não eram obrigados a cursar os dois anos do ciclo complementar.

A Reforma Capanema apresentava como ponto positivo para o ensino de ciências o fato de conseguir dimensionar com muito mais clareza seu papel na educação e a metodologia que deveria ser empregada: '[...] cumpre-lhes essencialmente formar o espírito científico, isto é, a curiosidade e o desejo da verdade, a compreensão da utilidade dos conhecimentos científicos e a capacidade e aquisição [...]' dos mesmos (ZOTTI, 2004, p. 109). Os métodos de ensino estavam centrados na atividade desenvolvida pelo aluno cabendo ao professor a orientação do trabalho num clima de cooperação, com vistas à reconstrução da experiência. Nas aulas das disciplinas científicas os alunos terão que discutir e verificar, ver e fazer (XAVIER, 1990).

A reforma Capanema permaneceu em vigor até a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, implantada pelo decreto lei 4024, de dezembro de 1961.

## Possíveis reflexos do contexto em livros didáticos de física

Selecionamos cinco livros didáticos de física, dentre os considerados por Wuo (2000) como sendo os mais representativos do período que antecede a LDB/1961: Curso de Física: Acústica - Óptica - Eletricidade (FREITAS, 1941); FÍSICA: Tratado Elementar de Física experimental (LOURENÇO, 1942); Física (GOMES FILHO, 1953); Física na escola secundária (BLACKWOOD, HERRON & KELLY, 1958); Física (MARISTAS, 1959). Eles nos permitiram discutir possíveis reflexos das reformas educacionais Francisco Campos e Capanema materializados na transposição didática do saber sábio em saber a ensinar de ondas sonoras e também analisar a influência das diretrizes educacionais americanas (BLACKWOOD, HERRON & KELLY, 1958) e francesas (MARISTAS, 1959).

Para facilitar a análise apresentamos uma discussão dos resultados obtidos em cada um dos livros didáticos e uma posterior análise da influência desses aspectos na trajetória da transposição didática. Nosso primeiro livro, Curso de Física: Acústica - Óptica - Eletricidade, é a quarta edição de uma obra seriada elaborada por Aníbal Freitas, publicada pela editora Companhia Melhoramentos de São Paulo e destinada a 5ª. Série do curso ginasial, no início da década de 1940.

De acordo com a mensagem evidenciada no prefácio da obra, o livro contém '[...] um pouco mais da matéria exigida no programa oficial da 5ª série do curso ginasial [...]' e foi estabelecida uma ordem de exposição dos conteúdos diferente da proposta no programa oficial, pois o autor a considerava mais lógica. Ele declara oferecer uma abordagem elementar de '[...] todas as modernas conquistas da Física, tendo em vista a clareza na exposição dos vários assuntos' (FREITAS, 1941, p. 5, grifo nosso).

- O trecho grifado na citação anterior nos permite sugerir a preocupação do autor em esclarecer que atendia as orientações oficiais, no caso o programa estabelecido em algum momento de vigência da reforma Francisco Campos. Entendemos que tal preocupação explicita a influência da reforma educacional e, consequentemente, um possível reflexo do contexto social brasileiro, na recontextualização dos saberes a ensinar presente no livro didático.

Ao analisar os capítulos destinados a abordagem de ondas sonoras, evidenciamos o cuidado do autor em apresentar detalhadamente todos os conceitos abordados no texto, geralmente amparados por exemplos e em alguns casos também por ilustrações, utilizadas aparentemente para auxiliar na explicação e compreensão dos fatos. Das 81 ilustrações identificadas, a maior parte, 49 delas, está relacionada com a descrição e o funcionamento de aparelhos ou aparatos e as demais com a representação de fenômenos ondulatórios como, por exemplo, a reflexão de um pulso em uma superfície, representações matemáticas e partes dos aparelhos de fonação e audição.

Acreditamos que a descrição detalhada dos aparelhos ilustrados e do seu funcionamento sugere uma relação entre a necessidade de formar no cidadão/estudante um conjunto de competências e habilidades que o mesmo possa, de alguma forma, contribuir para com o processo industrial em desenvolvimento. A sociedade brasileira precisava de mão de obra especializada para o trabalho, pessoas que conseguissem compreender o maquinário utilizado e seu funcionamento e o detalhamento destes equipamentos nos livros didáticos poderia ser uma maneira de cultivar a leitura e facilitar a compreensão de possíveis manuais, por exemplo.

Não são evidenciados tópicos com sugestão de leituras complementares, resumo dos assuntos tratados, proposições de atividades experimentais nem sugestões de exercícios. Na abordagem da velocidade de propagação do som evidenciamos a utilização de fatos relacionados a história da ciência.

- O livro didático Física: tratado elementar de física experimental de Oscar Bergström Lourenço é a 4ª edição publicada pela Companhia Editora Nacional, de um livro seriado, elaborado para a quinta série dos ginásios. Faz parte da coleção Livros Didáticos, idealizada pela Biblioteca Pedagógica Brasileira e composta de manuais, livro de texto e livros-fonte.

Apesar de não evidenciarmos, no prefácio da obra ou mesmo nas informações presentes na sua capa, a indicação explicita de uma provável adequação as orientações oficiais, acreditamos que o fato de ser uma obra publicada pela Biblioteca Pedagógica Brasileira, Companhia Editora Nacional, nos permite sugerir essa adequação.

Em todos os capítulos analisados, a exposição teórica dos assuntos é feita de forma clara e adequada e geralmente acompanhada por exemplos e ilustrações.

Das 46 ilustrações identificadas no corpo de texto: 17 foram utilizadas para exemplificar fenômenos ondulatórios como, por exemplo, a reprodução da reflexão de uma onda sonora em um anteparo; 13 estão associadas a descrição de equipamentos; dez ilustram aparatos utilizados em atividades experimentais e seis ilustram a representação gráfica das equações utilizadas na descrição matemática do movimento vibratório.

Como a descrição dos equipamentos é bem semelhante a evidenciada no livro anteriormente analisado, acreditamos que esse detalhamento pode ser considerado uma estratégia para desenvolver no estudante, futuro trabalhador, habilidades e competências para assumir funções na sociedade:montar e operar máquinas.

Evidenciamos na abordagem da velocidade de propagação do som a utilização de fatos da história da ciência e a ausência de sugestões de leituras complementares, resumos, proposição de exercícios ou atividades experimentais para serem realizadas pelos alunos.

- O livro didático intitulado FÍSICA é publicado pela Companhia Editora Nacional e é a 6ª edição de uma obra seriada elaborada por Francisco Alcântara Gomes Filho. É destinado ao segundo ano do curso colegial, fase intermediária entre o curso ginasial e o ensino superior criada em 1942, pelo então ministro Capanema.

Encontramos na contra capa do livro, uma referência às leis educacionais que regulavam o ensino no curso colegial neste período. Segundo tal informação ele '[...] está de acordo com os novos programas, conforme portarias nº 966, de 2/10/1951 e 1045, de 14/12/1951' (GOMES FILHO, 1953, p. 6). Além disso, apresenta no prefácio o programa oficial de física para o segundo ano colegial, segundo o qual o saber a ensinar referente a ondas sonoras apresenta a seguinte sequência: '[...] natureza, propagação e velocidade do som; Reflexão, refração e interferência do som; Qualidades fisiológicas do som; Escalas musicais; Fontes sonoras [...]' (GOMES FILHO, 1953, p. 7).

Ao analisar a textualização dos saberes, relacionados a ondas sonoras, percebemos que a materialização da transposição didática obedeceu a sequência do programa oficial, o que nos permite sugerir forte influência dessa entidade da noosfera.

Em comparação com os livros analisados anteriormente verificamos uma sensível diferença na abordagem conceitual dos saberes que são explorados na recontextualização de ondas sonoras: as definições conceituais são cuidadosamente detalhadas no próprio texto ou em notas de rodapé; ao introduzir novos conceitos teóricos o autor procura estabelecer relações com conceitos estudados anteriormente. Além disso, evidenciamos no corpo do texto a descrição detalhada de procedimentos experimentais, a qual pode ser entendida como um roteiro de experiência a ser reproduzido posteriormente ou, simplesmente, apresentado para orientar a discussão e verificação de procedimentos científicos. Isso nos permite sugerir uma tentativa de contribuir para com a formação do espírito científico a partir da reconstrução da experiência, aspecto almejado pela reforma Capanema.

Quanto as ilustrações utilizadas na textualização dos saberes, 40 são utilizadas para ilustrar a demonstração de procedimentos experimentais, 26 são utilizadas para auxiliar a descrição matemática, sete estão associadas a exposição

de fenômenos ondulatórios e duas ilustram partes do corpo humano, mais especificamente do sistema auditivo. Estão sempre acompanhadas de notas explicativas e encontram-se devidamente relacionadas com a abordagem teórica e matemática do conteúdo.

Vale salientar que a ênfase dada as ilustrações de demonstrações experimentais assim como a descrição detalhada de alguns procedimentos reforçam o entendimento de que os objetivos apontados por Xavier (1990) para as disciplinas científicas (discutir, verificar, ver e fazer) influenciaram a transposição materializada no livro didático de Gomes Filho (1953).

Ressaltamos ainda o aparecimento de exercícios resolvidos como exemplo de aplicação de fórmulas distribuído por todo o texto, exercícios propostos para resolução, concentrados no final do capítulo e a utilização de fatos relacionados a história da ciência na abordagem da velocidade de propagação do som. Não identificamos tópicos especiais como resumos, sugestões de leituras complementares e proposição de atividades experimentais.

- O livro didático Física na escola secundária (BLACKWOOD, HERRON & KELLY, 1958) é a primeira edição brasileira de uma tradução inteiramente reformulada de acordo com a última edição norte americana do livro High Shool Physics, elaborada pelos professores José Leite Lopes e Jayme Tiomno, cujos direitos para publicação na língua portuguesa foram adquiridos pelo Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP).

No prefácio da edição brasileira os autores afirmam que: ao traduzirem o livro tinham como objetivo primordial fornecer aos professores do curso secundário do país '[...] um texto pelo qual pudessem se nortear para dar às suas lições um cunho mais prático e mais de acôrdo com os modernos métodos de ensino da Física' (BLACKWOOD, HERRON e KELLY, 1958, p. XXII). Chamam a atenção dos alunos para a importância de se estudar e compreender a Física para se viver e ter sucesso na sociedade vigente. Segundo eles:

- [...] em nenhuma outra época [...] da longa história da humanidade foi tão importante como é hoje que rapazes e môças compreendessem as leis físicas e sua aplicação à vida cotidiana . No mundo de hoje cada um de nós tem que lidar, direta ou indiretamente, em cada hora de trabalho com aparelhos mecânicos e elétricos que tornam a vida não apenas mais eficiente mas também mais agradável. Todo jovem precisa conhecer a Física para viver e trabalhar inteligentemente e com sucesso (BLACKWOOD, HERRON e KELLY, 1958, p. XXIII).

A forma de abordar o conteúdo é uma característica predominante em todos os capítulos analisados. Os autores introduzem os aspectos teóricos sempre a partir de uma provocação ou um convite para que o estudante suponha uma situação, resolver um desafio ou até mesmo realizar uma experiência simples que possibilite a compreensão a partir de relações estabelecidas com o seu cotidiano.

As 34 figuras utilizadas na abordagem de ondas sonoras indicam exemplos relacionados a situações do cotidiano, aplicações tecnológicas, ilustração de fenômenos ou experiências corriqueiras, utilizadas aparentemente com o objetivo de ajudar o aluno na compreensão da teoria explicitada.

Os exercícios aparecem distribuídos entre a abordagem teórica e ao final de cada capítulo existe um resumo dos assuntos apresentados, sugestões de leituras complementares e atividades experimentais simples, de fácil reprodução.

Nos capítulos destinados a abordagem de ondas sonoras não evidenciamos fatos relacionados a história da ciência.

- O livro didático Física (Maristas, 1959) é a 8ª edição de uma obra seriada produzida por religiosos de origem francesa, publicado pela editora FTD, para ser utilizado na segunda série do curso colegial do ensino secundário brasileiro principalmente nos colégios Maristas, mantidos pela ordem religiosa Irmãos Maristas. Em suas páginas iniciais apresenta um conjunto de orientações destinadas a professores e estudantes, seguidos pelos programas de física para a segunda série do curso científico e curso clássico.
- O livro expõe uma densa abordagem teórica permeada pela descrição de exemplos e caracterizada pelo detalhamento dos conceitos e apresentação do significado dos termos por eles utilizados. O mesmo preciosismo é evidenciado na abordagem matemática, na qual evidenciamos a utilização de funções logarítmicas, limites, derivadas e integrais, aspectos não identificados nos livros didáticos anteriormente analisados.

Apresentação dos assuntos, em praticamente todos os capítulos que abordam saberes sobre ondas sonoras, é precedida de uma contextualização histórica e apenas ao discutir as qualidades fisiológicas do som exploram aspectos do cotidiano do aluno.

Os autores fazem uso de 176 figuras na abordagem do conteúdo, das quais: 98 estão relacionada a descrição de aparelhos ou a realização de procedimentos experimentais, 50 auxiliam a descrição matemática, 26 representam fenômenos físicos e duas ilustram o aparelho fonador.

A aplicação de fórmulas é o objetivo principal dos exercícios propostos ao final de cada capítulo. Não existem questões com abordagem puramente teórica assim como sugestões de leituras complementares ou resumos dos assuntos tratados.

Distribuídas entre a abordagem teórica dos conteúdos encontra-se a descrição de algumas experiências relacionadas aos mesmos. A forma como são introduzidas no texto sugerem que sua utilização tem por finalidade orientar o raciocínio do aluno, contribuir para a formação do espírito científico a partir da reconstrução da experiência a partir da discussão das mesmas, visto que não existem indícios de que são propostas para possível reprodução por parte dos alunos.

## Tecendo algumas considerações

Dos cinco livros didáticos analisados não identificamos indícios de possíveis reflexos das diretrizes educacionais oficiais, apenas na obra norte americana traduzida para o contexto brasileiro, no caso Física na escola secundária (BLACKWOOD, HERRON & KELLY, 1958). Em Curso de Física: Acústica - Óptica Eletricidade (FREITAS, 1941); FÍSICA: Física (GOMES FILHO, 1953) e Física (MARISTAS, 1959) os autores indicam no prefácio da obra a adequação à orientações da reforma Francisco Campos (1931) ou Capanema (1942). Em FÍSICA: Tratado Elementar de Física experimental (LOURENÇO, 1942) apesar de não identificarmos uma referência explicita, a semelhança na recontextualização dos saberes sugerem possíveis reflexos na transposição didática de ondas sonoras.

No livro Curso de Física: Acústica - Óptica - Eletricidade (FREITAS, 1941), a utilização de ilustrações de equipamentos e a descrição de seu funcionamento sugerem adequação a necessidade de desenvolver habilidades e competências para ação efetiva na sociedade: mão de obra para o setor industrial em desenvolvimento. Os outros, exceto Física na escola secundária (BLACKWOOD, HERRON & KELLY, 1958), indicam uma possível preocupação com o desenvolvimento do espírito científico e reconstrução da experiência.

- O livro didático Física na escola secundária (BLACKWOOD, HERRON & KELLY, 1958), tradução de uma obra norte americana para o contexto nacional, apresenta uma abordagem conceitual bem diferente da evidenciada nos demais livros. A ênfase ao cotidiano do aluno e a tentativa de estabelecer relações entre os conceitos e sua aplicação ou percepção no dia a dia, aspecto marcante dessa obra, não é evidenciado nos demais livros analisados. Se considerarmos a valorização de aspectos da história da ciência podemos considerar uma possível influência francesa, entretanto não possuem a mesma profundidade conceitual e matemática identificada no livro Física (MARISTAS, 1959).

Os resultados obtidos até então obtidos na análise dos cinco livros didáticos apontam para a existência de reflexos das reformas educacionais, consideradas entidades da noosfera, na transposição didática do saber sábio em saber a ensinar, relacionado a ondas sonoras.

## Referências

BLACKWOOD, Oswald H.; HERRON, Wilmer B.; KELLY, William C. Física na Escola Secundária. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1958.

CHEVALLARD, Yves. La Transposition Didactique : Du Savoir Savant au Savoir Enseigné. Paris: La pensée Sauvage 1991. 750 p.

FREITAS, Aníbal. Curso de Física: Acústica - Óptica - Eletricidade. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1941. 690 p.

GOMES FILHO, Francisco Alcântara. Física para o primeiro ano do curso colegial . São Paulo: Companhia editora nacional, 1953. 244 p.

LOURENÇO, Oscar Bergström. Física: tratado elementar de física experimental . São Paulo: Companhia editora nacional, 1942, 455 p.

MARISTAS, Irmãos. Física: Segunda Série curso colegial. São Paulo: FTD,1959. 497 p.

ROMANELLI, O de O. História da Educação no Brasil (1930 - 1973). Petrópolis: Vozes, 1998. 267p.

XAVIER, Maria Elizabete S. P. Capitalismo e escola no Brasil: a constituição do liberalismo como ideologia educacional e as reformas do ensino (1931-1961). Campinas, SP: Papirus, 1990. 182p.

WUO, WAGNER. Uma análise do saber físico nos livros didáticos adotados para o ensino médio . São Paulo: EDUC - FAPESP, 2000. V.1. 180p.

ZOTTI, Solange Aparecida. Sociedade, educação e currículo no Brasil: dos jesuítas aos anos de 1980 . Campinas: Editores Associados, 2004. 240p.

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