PROMOVENDO O DIÁLOGO ENTRE PÚBLICO E CIENTISTAS: A MEDIAÇÃO EM VISITAS A LABORATÓRIOS DE PESQUISA
Graciella Watanabe, Marcelo Gameiro Munhoz, Maria Regina Kawamura
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIV
- Ano
- 2012
- Data
- 07/11/2012
- Linha de pesquisa
- Formais
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## PROMOVENDO O DIÁLOGO ENTRE PÚBLICO E CIENTISTAS: A MEDIAÇÃO EM VISITAS A LABORATÓRIOS DE PESQUISA
## PROMOTING DIALOGUE BETWEEN PUBLIC AND SCIENTISTS: MEDIATION IN VISITS TO RESEARCH LABORATORIES
## Graciella Watanabe , Marcelo Gameiro Munhoz 2 1 , Maria Regina Kawamura 3
1 USP/Instituto de Física/Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, graciella.watanabe@usp.br
2
USP/Instituto de Física/Departamento de Física Nuclear, munhoz@if.usp.brl USP/Instituto de Física/Departamento de Física Experimental, mrkawamura@if.usp.br
3
## Resumo
Visitas a laboratórios de pesquisa apresentam potencialidades na promoção da educação científica quando pensados em perspectivas de atuação para além da simples apresentação do conteúdo científico. Essa compreensão implica em incluir outros aspectos da ciência que podem perpassar o diálogo na interação entre visitantes, alunos e cientistas, especialmente no que diz respeito à produção da ciência. Portanto, é possível considerar esses locais como espaços não formais, com especificidades que devem ser priorizadas para a elaboração de propostas que enfoquem a perspectiva educacional, para além da disseminação científica. Nesse sentido, e baseado nas discussões sobre as mediações em espaços não formais de educação e os saberes neles envolvidos, esse trabalho buscou discutir as dimensões a serem trabalhadas em visitas a laboratórios científicos, com o intuito de aproximar os diversos sujeitos envolvidos nesse processo (cientistas, docentes da escola básica, estudantes e o público em geral). Assim, buscou-se adaptar a matriz de referência, pautada na reflexão sobre os saberes presentes nas mediações, propostos por Fauche (2008) e Queiroz e colaboradores (2010), às especificidades das ações em um laboratório de pesquisa. Para isso, foram analisados diferentes dados e resultados, obtidos ao longo de visitas realizadas nos últimos cinco anos ao Acelerador Pelletron, do IF-USP. Nesse processo, foram identificados elementos de mediação, relacionados a diferentes âmbitos de perspectivas, caracterizando as especificidades acerca dos conhecimentos científicos, do aparato tecnológico, da vida social do laboratório, da construção cotidiana da ciência, da dimensão CTS e de aspectos sociais que podem ser apresentados. O resultado do quadro de análise aponta possibilidades para se promover a interlocução entres essas diferentes perspectivas, ancorando o conhecimento científico em outras instâncias de sua construção, de forma a serem contemplados em visitas, de forma geral, aos espaços de produção da ciência.
Palavras-chave : espaços não formais, mediação, laboratórios de pesquisa.
## Abstract
Visits to research laboratories have the potential to promote science education beyond the simple presentation of scientific content. This approach includes other aspects of science during the interaction among visitors, students and
scientists, especially concerning the production of science. Therefore, it is possible to considerer the research laboratories as places of non-formal education with special needs that should be considered while developing educational activities beyond science popularization. The goal of this study is to discuss the various aspects to be considered during visits to scientific laboratories based on non-formal education principles, trying to bring the various subjects involved in this process together (scientists, primary school teachers, students and the general public). The work on reference matrix based on mediation from Fauche (2008) and Queiroz et al (2010) was adapted to specific issues related to research laboratories. We analyzed a variety of data and results obtained during visits in the last five years to the Pelletron Accelerator, IF-USP. In this process, we identified different elements of mediation that can be presented related to scientific knowledge, technological apparatus, social life of the laboratory, daily construction of science, STS and social aspects. The result of this analysis indicates several possibilities of dialogue among these different perspectives, anchoring the scientific knowledge in other instances of its own construction to be discussed during the visits to these spaces of science production.
Keywords : places of non-formal education, mediation, research laboratories.
## Introdução
Os espaços não-formais de ensino ganharam repercussão nos últimos anos, em particular, no campo das ciências, quando se percebeu que esses ambientes possuíam o potencial para promover a aprendizagem científica em aspectos mais amplos, permitindo assim que o conhecimento neles adquirido fosse um complemento à educação formal (GARCIA, 2009). Esses espaços transformaram-se em lugares fundamentais para apresentar, também, debates sobre temas atuais que ainda não chegaram aos currículos das escolas básicas, e, portanto, atualizando estudantes e o público em geral acerca das discussões recentes sobre ciência. Assim, para aprimorar seu papel na interação com alunos-visitantes, estudos no campo da educação em ciências vem enfatizando a relevância de se investigar em quais aspectos os museus e centros de ciências poderiam atuar na construção de uma opinião pública sobre a ciência (WAGENSBERG, 2004). Essa perspectiva vai além do que se propunha nos primórdios da elaboração desses espaços, em que se tinha apenas o interesse de promover a disseminação da ciência em seus aspectos unicamente demonstrativos (GRUZMAN & SIQUEIRA, 2007). Se os contextos sociais se modificaram ao longo do tempo, os objetivos das visitas nesses novos espaços também trouxeram outras demandas.
Nesse sentido, com o intuito de promover a aproximação entre escola e espaço não formal, em particular, os museus de ciências, buscou-se compreender as dimensões que poderiam aprimorar o diálogo entre esses ambientes (QUEIROZ, 2010). Para Nascimento (2010), essa interlocução é importante e é desejada pela escola, na medida em que
supõe a problematização dos usos sociais da memória, das relações e produção de materiais e simbólicas do homem ao longo do tempo, em diferentes sociedades e culturas ibidem ( , pg. 134).
Portanto os laboratórios científicos também podem ser considerados espaços não formais de educação, na medida em que as visitas possuam uma intencionalidade educacional e que haja um entendimento de sua complementaridade ao ambiente escolar. Nesse caso, trata-se de promover
aprendizagens mais amplas sobre a ciência, em perspectivas que no ensino formal não são passíveis de serem contempladas, como a vivência no ambiente de trabalho do cientista e o contato com grandes experimentos (como, por exemplo, os aceleradores de partículas). Em contrapartida é necessário considerar que esses ambientes também possuem especificidades que os caracterizam como locais distintos em relação aos museus e centros de ciência, devido às suas próprias organizações já que, neles, os objetos e imagens não são dispostos com intencionalidade educacional por serem ambientes de produção científica.
Nesse contexto, consideramos que, apesar de algumas limitações desses espaços, os laboratórios podem ser compreendidos como locais de formação educacional, contribuindo para uma construção acerca da concepção e produção da ciência que possibilite a interpretação e desmistificação do empreendimento científico. Para Vianna e Carvalho (VIANNA E CARVALHO, 2001), a interação com os cientistas possibilita aos professores da escola básica - e consideramos também estudantes e o público em geral - o aprofundamento dos conteúdos científicos, uma visão de ciência em construção e a reflexão e aplicação dos conteúdos atuais na sua prática profissional ( ibidem , pg. 130). Baseados nesses objetivos, o Laboratório Aberto de Física Nuclear do IF-USP vem promovendo visitas monitoradas por cientistas e pesquisadores, dirigidas a estudantes e professores da escola básica, graduandos e ao público em geral. O acelerador de partículas Pelletron é um experimento que ocupa oito andares em um prédio do Departamento de Física Nuclear e possui cerca de 150 pesquisadores entre cientistas, alunos e técnicos que trabalham na manutenção e produção de experimentos sobre física atômica e nuclear. O trabalho educacional das visitas ocorre há sete anos e tem também como finalidade construir materiais para escola básica, abrindo canais de interlocução entre o laboratório e a comunidade.
Dessa experiência, ficou explicitada a necessidade de aprofundar a compreensão entre as possíveis formas de promover a interação entre visitantes e cientistas. Nesse sentido, o trabalho aqui desenvolvido se coloca como uma reflexão teórico-metodológica, que busca dialogar com a prática já desenvolvida, visando definir possíveis diretrizes para as ações com intencionalidade educacional em um laboratório científico. Essas ações teriam a finalidade de construir espaços que promovam discussões sobre a ciência e sobre sua produção, de forma a contemplar as diversas intencionalidades dos sujeitos envolvidos nessas visitas, além das diversas naturezas dos conhecimentos envolvidos. Em trabalho anterior, foram explicitados os diferentes interesses dos participantes nessas visitas: os cientistas visavam a apresentação dos conteúdos científicos necessários para a compreensão do funcionamento do laboratório. Os docentes da escola básica, por sua vez, buscavam uma interação do conhecimento escolar com o conhecimento concreto no laboratório. Os estudantes, finalmente, tinham seus interesses centrados no sentido do 'ser cientista' (WATANABE, 2012).
Como norteadores desse objetivo, procuraremos nas próximas seções discutir sobre o papel das mediações em espaços não formais (QUEIROZ et.al. , 2002, FAUCHE, 2008) buscando articular tais dimensões ao campo investigativo dos laboratórios de pesquisa. Nessa perspectiva, discutiremos uma possível matriz de análise das mediações em espaços de produção cientifica que articulem as discussões no campo da pesquisa em educação e as especificidades dos laboratórios.
## Metodologia
Esse trabalho se coloca sob o campo da reflexão teórica que busca, a partir de elementos advindos de uma prática, trazer novas contribuições ao objeto estudado. Assim, a metodologia de seu desenvolvimento inclui um aprofundamento teórico sobre as discussões acerca dos instrumentos de mediação, contrapondo-os com elementos equivalentes identificados no material de análise já disponível. Para tanto, no que diz respeito à análise das práticas, foram utilizadas diversas ferramentas metodológicas. Essas ferramentas são justificadas e discutidas por diferentes autores e incluíram entrevistas semi-estruturadas com os cientistas (FLICK, 1995), a análise de uma visita com professores da escola básica através da produção de dados visuais em vídeo (LOIZOS, 2002), anotações do caderno de campo provindo da inserção do pesquisador no laboratório estudado através do método etnográfico (FLICK, 1995) e a análise do material produzido nos últimos cinco anos para as visitas. Nesse último caso, incluem-se o site produzido para apresentar o laboratório e divulgar as visitas, uma apresentação multimídia com também algumas pesquisas desenvolvidas pelos grupos que utilizam o laboratório, além de um protótipo desenvolvido com a finalidade de demonstrar o aparato técnico que envolve o processo de aceleração dos íons em escala menor do que original.
Esses dados foram coletados em diferentes momentos da pesquisa e, portanto, se mostram sobre distintos contextos. Se, por um lado, essa perspectiva de obtenção de dados reflete a dificuldade de análise das diferentes situações que devem ser levadas em conta, por outro lado, apresentam, a não linearidade da construção das visitas, possibilitando compreender para além da análise situacional, o entendimento sobre o problema e permitindo uma visão mais ampla sobre o próprio processo de pesquisa.
Na próxima seção, apresentaremos uma reflexão sobre a mediação em espaços não formais, com o objetivo de dar suporte às considerações sobre as mediações em laboratórios de pesquisa. No presente trabalho, os detalhamentos dos dados das práticas concretas não serão apresentados, estando, no entanto, implícitos nas considerações que justificaram a construção da matriz de mediação proposta.
## As Mediações nos Espaços Não Formais
Nos últimos anos, com o advento do movimento de alfabetização científica, muitos museus e centros de ciências ganharam importante papel na formação científica dos cidadãos (QUEIROZ et al , 2002). Um fator comum de preocupação nesses espaços é o papel da mediação, que ocorre entre aqueles que pensam e apresentam as visitas e o público. Geralmente, essa mediação é centrada na figura do monitor-mediador, cuja função é promover o diálogo com os visitantes. A função desses sujeitos é preencher
o vazio que muitas vezes existe entre o que foi idealizado e a interpretação dada pelo público ao que está exposto, consideramos que a mediação requer um saber com dimensões peculiares: o saber da mediação (QUEIROZ et al, 2002).
Esses saberes de mediação estão associados a dimensões complexas, que envolvem tanto o conhecimento científico como o mundo daqueles que visitam e dos seus idealizadores. Em geral, esse termo está associado a uma apropriação do conhecimento, através da linguagem, cuja finalidade é permitir aproximar dois mundos, como o do público e o do laboratório, inicialmente estranhos entre si, para
que o primeiro possa, de certo modo, se apropriar do segundo (NASCIMENTO, 2010). Assim, a mediação se torna diferente das interações no espaço formal pelo seu contexto, pois ocorre em situações diferentes do ambiente escolar e está centrada em objetivos diversos, atrelados ao discurso expositivo do museu, assim como em suas especificidades (MARANDINO, 2004; FAUCHE, 2008). No contexto particular da mediação científica, aponta-se algumas modalidades de interação que podem ser percebidas nesses ambientes e que Fauche (2008) lista como a mediação direta, a mediação indireta e a gestão do projeto e formação. Todas elas buscam trazer ao público o conhecimento científico levando em conta os diferentes interesses sobre esse saber.
A mediação dire ta se relaciona com a interação humana entre os sujeitos, onde o mediador é capaz de perceber e ponderar sua fala e atitudes, através do contato direto com o público, criando, para cada grupo, uma dinâmica própria de atuação. Em geral, os conteúdos apresentados por esses sujeitos precisam deixar de ter valor 'em si', para serem repensados para os visitantes. Tal ponto de vista é fundamentalmente diferente do cientista, pois reflete uma percepção menos aprofundada do tema, que pode ser problemática, mas, em contrapartida, aproxima o leigo do conhecimento que se quer apresentar. Esse mediador, mais do que apresentar, tem a finalidade de pensar sobre as especificidades do público e, quando necessário, utilizar de seu saber para o aprofundamento do tema, em função daqueles que se interessam pelo assunto (FAUCHE, 2008).
A mediação indireta , também conhecida como 'mediação de apoio', tem a finalidade de desenvolver documentos, materiais, vídeos, áudio, etc. para visitas, e sendo usada em contextos educacionais. Assim como na mediação direta, a intenção é promover um diálogo com o público, trazendo aspectos desse conhecimento para um entendimento dos contextos vividos nos espaços não formais. Seu objetivo só é alcançado quando essa interação se dá de forma articulada com a mediação direta.
A gestão do projeto e formação se aproxima da mediação direta e indireta através de um mediador, cuja responsabilidade é pensar os projetos e eventos, gerenciando-os e montando-os. Envolve parceiros externos ao museu, como cientistas, artistas e técnicos, com a finalidade de aprimorar habilidades e expandir as intenções desses espaços para outros públicos ou contextos. Ele possui a função de treinar e aplicar o que foi idealizado, procurando promover a interação entre a mediação direta e indireta com os visitantes.
Em nossa perspectiva, a intenção associada à mediação da gestão do projeto, no entanto, só poderá ser efetivada quando a mediação indireta, relacionada aos materiais produzidos para as exposições, e a interação direta, entre mediadores e público, for pautada nos saberes de mediação. Para Queiroz e colaboradores (2002) esses saberes são diversos e se relacionam com o contexto escolar, do museu e da concepção da exposição. Para esses últimos autores, o compartilhamento do saber se dá em quatro instâncias: os saberes compartilhados com a escola, os compartilhados com a educação em ciências, os saberes próprios dos museus e o saberes da relação museu-escola. O primeiro, associado ao saber compartilhado com a escola, inclui o saber disciplinar, que é o conhecimento do conteúdo científico, o saber da transposição didática , que é a capacidade pedagógica de tornar a informação acessível ao público, o saber do diálogo , que é estabelecimento da proximidade com os visitantes e o saber da l inguagem, que se refere a adequar a linguagem aos diferentes públicos.
XIV Encontro de Pesquisa em Ensino de Física - Maresias - 2012
- O segundo compartilhamento se dá com a escola em sua relação com a educação em ciências. Isso reflete no saber da história da ciência que implica em conhecer o conteúdo histórico relacionado à exposição e o diferenciando do conteúdo da ciência atual. O saber da visão de ciência que implica em conhecer a origem do conhecimento da ciência, seus processos de construção e sua posição ante outros conhecimentos da sociedade. O saber das concepções alternativas , que são relacionados ao entender as diferentes formas de compreender o conhecimento científico, atrelado geralmente a outras formas de explicar um problema.
- O terceiro saber está associado aos museus e implica em compreender as dimensões de saberes envolvidos na imersão do lugar visitado. Assim o saber sobre a história da instituição implica em conhecer o lugar onde se abriga a exposição no museu. O saber da interação com professores , que se relaciona ao como lidar com os docentes que trazem seus alunos. O saber de conexão, que implica em conectar diferentes aparatos da exposição de um espaço. O saber da história da humanidade , que é situar o tema apresentado em um contexto histórico-social mais amplo (QUEIROZ et.al.; 2002) .
- O último saber, relacionado ao compartilhamento museu-escola, segundo Queiroz et.al. (2002), indica
claramente uma complementaridade adotada por professores entre atividades realizadas na escola e a visita ao museu (QUEIROZ et.al.; 2002).
Essa complementaridade indicada pelos docentes encontrou nos saberes da mudança conceitual, dos projetos e da ampliação cultural , uma interlocução com a escola, a fim de promover novas funções para os espaços não formais dentro dos projetos políticos pedagógicos.
Retomando o objetivo inicial do artigo, procuramos, até o momento, selecionar nas discussões sobre o tema, alguns elementos que permitem melhor compreender o papel da mediação nos espaços não formais de educação tendo em vista nosso intuito de abranger essas discussões para visitas a laboratórios científicos. Reconhecendo as especificidades desse local, procuraremos, a seguir, apresentar as similitudes e diferenças dos âmbitos de mediação acima discutidos através do universo de dados já mencionados e analisados. Desse resultado, pretendemos apresentar uma possível matriz de análise acerca das mediações para os laboratórios científicos.
## As Mediações nos Laboratórios Científicos
Buscamos apresentar, de forma sucinta, as discussões sobre o papel das mediações em espaços não formais de ensino. Desse debate, dos resultados obtidos a partir da coleta de dados nos últimos cinco anos e da reflexão sobre tais dimensões nos laboratórios de pesquisa, propomos um olhar que articule tais perspectivas nas visitas aos espaços de produção da ciência. Nesse sentido, podemos compreender que as dimensões trazidas por Fauche (2008) e Queiroz (2002) podem ser contempladas e articuladas entre si, em visitas aos laboratórios de pesquisa. No entanto, além disso, necessitam ser complementadas por outras perspectivas de ação a fim de abranger outros aspectos desses espaços.
Um desses fatores é localizado nos saberes de mediação a serem promovidos e identificados por Queiroz ( ibidem, 2002), que são apresentados sob a perspectiva dos monitores-mediadores. É possível refletir que tais saberes de mediação pode ser compreendido para além da interação entre sujeitos, passando
também a serem contemplados em outros tipos de estratégias que possuem igualmente a finalidade de promover o diálogo com o público. Essas outras formas de se comunicar com os visitantes pode ser reconhecido como as mediações indiretas e da gestão de projeto (Fauche, 2008) e que, perpassam o reconhecimento dos saberes de mediação trazidos por Queiroz et. al. (2002).
No caso dos laboratórios de pesquisa outros aspectos merecem ser priorizados e inseridos, pois refletem as especificidades desses espaços. Assim, para olhar para tais particularidades e ao mesmo tempo promover o diálogo entre as dimensões da mediação acima mencionados, se propõe abaixo uma matriz de referência a ser contemplada na promoção de visitas aos espaços não formais de ensino. Nessa matriz (tabela 1), as diversas linhas correspondem aos agentes/dimensões de mediação, enquanto as colunas se remetem aos âmbitos dos saberes envolvidos, adaptando as discussões acima apresentadas à realidade concreta analisada. Essa matriz busca orientar a definição das ações e desenvolver estratégias de mediação que possam ser contempladas, tanto para as interações entre cientistas e técnicos do laboratório, como para os idealizadores das visitas nesses espaços e como para pesquisadores em ensino de física. Dessa maneira, comparecem nas colunas os possíveis saberes de mediação que fazem parte do contexto dos espaços de produção da ciência. Sua apresentação sob forma de matriz, procura enfatizar seu caráter de instrumento para a organização e reflexão da prática. Embora não adequado aos limites desse artigo, os campos preenchidos das células da matriz, aqui não apresentados, correspondem exemplos e elementos identificados nas práticas analisadas. É, portanto, na implementação da matriz que se procura rever e/ou formular novas estratégias educacionais e de mediação nos espaços de produção da ciência.
Tabela 1: Matriz dos Saberes de Mediação para Laboratórios de Pesquisa.
Em relação aos saberes compartilhados com a escola podemos observar que o saber da física do laboratório pode ser considerado diferente do saber disciplinar como propõe Queiroz ( ibidem , 2002), pois reflete um conhecimento limitado ao laboratório, ainda que, no entanto, possibilite mais profundidade em relação ao tema a ser trabalhado. No saber de relação entre o conhecimento escolar e o aparato experimental, é necessário o reconhecimento do papel tecnológico e o diálogo possível na interlocução com os conhecimentos escolares com o intuito de dar sentido à máquina e a seu funcionamento. Esse saber não pode ser considerado o mesmo que o saber da transposição didática, pois reflete um esforço dos cientistas em considerar aspectos do conhecimento escolar com o intuito de promover o diálogo com o público sem, no entanto, trazer referências do conhecimento do laboratório para os visitantes, fazendo um caminho inverso, onde o saber escolar é a
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base para a promoção da interlocução e não o contrário. Em relação aos dois outros saberes, do diálogo e da linguagem, pode ser considerado próximo entre museu e laboratório.
Dos saberes compartilhados entre o laboratório e a educação em ciências, é necessária a introdução de saberes acerca da vida social do laboratório, pois implica em compreender e apresentar aspectos que vão além do conhecimento específico, remetendo a discussões sobre o fazer científico como empreendimento social e político. O saber acerca da produção/visão da ciência caracteriza o olhar epistemológico que é apresentado ao público pelo cientista experimental. Refletir sobre esses aspectos também possibilita introduzir questionamentos acerca daquilo que é apresentando aos visitantes e seu papel na formação desses sujeitos. No que se refere aos saberes sobre as relações entre ciência-tecnologia-sociedade, pretende-se trazer dimensões que envolvam a tríade CTS para discussões sobre o aparato experimental, sua dimensão social e a produção do conhecimento científico como empreendimentos relacionados entre si. Esse saber reflete novas possibilidades de interação com o público escolar, promovendo espaços de articulação entre o conhecimento trazidos dos cursos de física para a expansão da discussão sobre o papel da ciência na sociedade e o desenvolvimento tecnológico.
Nos saberes de laboratório, além dos saberes sobre a história da instituição e da interação com o professor, também se mostra relevante a inserção do saber acerca da inserção do laboratório na sociedade, o que reflete em debater sobre o papel desses espaços no mundo atual e a justificativa de financiamentos envolvidos nesses espaços. Esse tipo de interação requer conhecimentos sobre o sentido de fazer ciência no mundo atual e as prioridades estabelecidas pelas agências de fomento que estão relacionadas ao papel da pesquisa básica e aplicada. Outro saber que se mostrou relevante foi o saber acerca das aplicações/produtos/riscos e benefícios para a sociedade. Eles refletem a preocupação e o conhecimento necessário sobre a inserção do que é produzido no laboratório para a vida cotidiana do público e que inseri também os riscos envolvidos nesse processo. O último saber mencionado anteriormente, a ser compartilhado entre museu e escola, não parece ter equivalente na matriz proposta por se distanciar, nesse momento, do contexto do projeto apresentado.
É importante salientar que os saberes de mediação que envolvem as visitas aos laboratórios de pesquisa são, em sua maioria, demandas provindas da prática, que trouxeram questionamentos sobre quais aspectos podem ser priorizados no diálogo com cientistas, pesquisadores em ensino de Física e visitantes. A matriz, portanto, não pode ser considerada como elemento estático, mas como quadro de reflexão sobre ações possíveis em visitas a laboratórios de pesquisa.
## Considerações Finais
A construção de uma matriz de referência buscou caracterizar alguns elementos que podem ser contemplados em visitas aos laboratórios de pesquisa e que são, em grande parte, fruto da demanda dos diferentes públicos que visitaram o Laboratório Aberto de Física Nuclear nos últimos cinco anos. Esses resultados trazem aspectos do fazer científico que não são, em geral, contemplados no contexto escolar, seja pela atuação limitada do espaço formal ou seja pela própria natureza do material educacional utilizado. Priorizar os saberes de mediação apresentados na matriz, nessas visitas, implica em abrir novos espaços de aprendizagem sobre ciência e abranger o conhecimento para além dos conteúdos
físicos. No entanto, entendemos que essa é uma proposta ainda preliminar a ser amplamente discutida, e cuja validade deverá ser testada através de seu potencial para orientar as práticas dos diversos protagonistas envolvidos. Da mesma forma, será preciso avaliar se contém elementos suficientes para orientar a elaboração de materiais e meios adequados. Entendemos que se trata de um instrumento que requer uma contínua discussão. De qualquer forma, esperamos que possa contribuir, a partir da sistematização de processos que representa, para ampliar o sentido das visitas a laboratórios e espaços de produção da ciência.
## Referências
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