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A NATUREZA DA CIÊNCIA POR MEIO DO ESTUDO DE EPISÓDIOS HISTÓRICOS: O CASO DOS ESCRITOS DE BLAISE PASCAL

Juliana M. Hidalgo Ferreira, Giovanninni Leite De Freitas Batista

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIV
Ano
2012
Data
07/11/2012
Linha de pesquisa
Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A NATUREZA DA CIÊNCIA POR MEIO DO ESTUDO DE EPISÓDIOS HISTÓRICOS: O CASO DOS ESCRITOS DE BLAISE PASCAL

## THE NATURE OF SCIENCE THROUGH HISTORICAL EPISODES: THE CASE OF BLAISE PASCAL WRITINGS

## Juliana M. Hidalgo Ferreira , Giovanninni Leite de Freitas Batista 1 2

## Resumo

A literatura da área de Natureza da Ciência tem reforçado a possibilidade de usar a História da Ciência para evidenciar aspectos tais como o caráter humano e provisório do conhecimento e a influência do contexto social e histórico no desenvolvimento das concepções científicas. Por isso, estudiosos vêm se empenhando em estudar profundamente a HC para colaborar com o ensino a respeito da NdC. De acordo com essa perspectiva, no presente trabalho, discutimos criticamente aspectos enfocados pelo pesquisador Blaise Pascal em seus escritos de 1647 à luz de discussões da época, evidenciando considerações relacionadas à natureza do conhecimento científico. Enfatizamos o significativo potencial didático desses episódios históricos para contextualizar e refletir sobre determinados aspectos de NdC: observações são dependentes da teoria; recusa-se o empirismo que concebe os conhecimentos como resultado da inferência a partir de 'dados puros'; o desacordo entre os cientistas sempre é possível; treinamento compartilhado é um componente essencial do acordo entre os cientistas. É significativo, embora ainda pouco explorado, esse potencial didático. Existe uma lacuna no que diz respeito ao estudo de tais episódios históricos sob essa perspectiva. Assim, esse tipo de análise aqui apresentada contribui com subsídios para o uso desses episódios históricos no ensino. Nesse sentido, é importante destacar que esses subsídios vêm sendo utilizados, no âmbito do projeto no qual o presente trabalho se desenvolveu, na elaboração de material de referência, direcionado a professores, que se constituem em textos que retomam de modo aprofundado esses episódios históricos e realizam a discussão explícita de conteúdos de NdC. Tendo em vista as lacunas no que diz respeito à inserção da NdC na formação de professores, esse material de referência vem sendo utilizado em oficinas de extensão na UFRN, as quais contemplam o acompanhamento da elaboração de propostas didáticas sobre essa temática.

Palavras-chave : Natureza da Ciência; História da Ciência; Vácuo.

## Abstract

The literature on the Nature of Science has strengthened the possibility of using the History of Science to highlight issues such as the human character and the temporariness of scientific knowledge, and the influence of social and historical

context in the development of scientific conceptions. Therefore, scholars are keen on studying in depth the history of science to collaborate with the teaching about the Nature of Science. According to this perspective, in the present study, we critically discuss some aspects focused on by French researcher Blaise Pascal in his writings of 1647 in the light of discussions at the time, showing considerations related to the nature of scientific knowledge. We emphasize the teaching potential of historical episodes to contextualize and reflect on certain aspects of Nature of Science: observations are theory-dependent; it is refused the empiricism that sees knowledge as a result of the inference from "raw data"; the disagreement among scientists is always possible, shared training is an essential component of the agreement among scientists. It is significant, though still little explored, the teaching potential of the episodes with regard to the possibility of being used as background, allowing for reflection on some particular issues of Nature of Science. There is a gap with regard to the study of such historical episodes from this perspective, especially with regard to discussions about the scientific methodology. Thus, the type of analysis carried out as support can contribute to the development of teaching units that explore the use of these historical episodes. It is important to note that these subsidies have been used within the project on which this work was developed for the preparation of reference material, aimed at teachers. These texts address the historical episodes and perform explicit discussion of the NdC contents. Given the gaps with respect to the insertion of the NDC in teacher education, this reference material has been used in workshops at UFRN, which include monitoring the development of didactic proposals on this theme.

Keywords : Nature of Science, History of Science; Vacuum.

## A Natureza da Ciência por meio da História da Ciência

A expressão 'Natureza da Ciência' costuma ser usada em referência a questões tais como: o que é a ciência, como a ciência funciona, como os cientistas atuam como grupo social, como a sociedade influencia e reage aos empreendimentos científicos, etc. Os conhecimentos sobre NdC seriam relevantes para a tomada de decisões conscientes pela sociedade. Defende-se que sua presença humaniza o ensino de ciências, sendo fundamental compreender a ciência como elemento cultural, bem como seu significado, possibilidades e limitações (LEDERMAN 2012; CLOUGH; OLSON, 2008; PRAIA; GIL-PÉREZ; VILCHES, 2007; , LEDERMAN, 2007; MCCOMAS; ALMAZROA; CLOUGH, 1998).

Estudiosos têm se dedicado a elaborar e avaliar propostas para ensinar sobre a Natureza da Ciência. Tem se indicado que não basta apenas que princípios de NdC sejam listados àqueles que devem aprender sobre essa temática. Tal peculiaridade adviria da complexidade dos conceitos envolvidos. Há certa convergência em torno de que a abordagem desses conteúdos deve ser preferencialmente contextualizada, explícita e reflexiva (LEDERMAN, 2007; MCCOMAS, 2008; FORATO, 2009).

Tratar de aspectos da Natureza da Ciência sem recorrer a exemplos para contextualizá-los seria ineficiente. Sugere-se a História da Ciência como um dos caminhos possíveis para essa contextualização: 'No ensino de NdC em qualquer

nível, exemplos da história da ciência são úteis para gerar discussões sobre NdC e compreender sua natureza contextual' (CLOUGH; OLSON, 2008, p. 144). 1

A literatura da área de Natureza da Ciência tem reforçado essa estratégia. Enfatiza-se a possibilidade de usar a História da Ciência para evidenciar aspectos tais como o caráter humano e provisório do conhecimento e a influência do contexto social e histórico no desenvolvimento das concepções científicas. Por isso, estudiosos vêm se empenhando em estudar profundamente a História da Ciência para colaborar com o ensino a respeito da NdC.

De acordo com essa perspectiva, investigamos episódios históricos, particularmente os relacionados ao desenvolvimento dos conceitos de vácuo e pressão, tendo em vista elaborar subsídios para a reflexão contextualizada sobre a natureza do conhecimento científico. No presente trabalho, especificamente, apresentamos uma análise dos escritos de Blaise Pascal, explorando a potencialidade dos mesmos para a discussão, sobretudo, de aspectos relacionados à dependência da observação em relação aos pressupostos teóricos e à possibilidade de desacordo entre os cientistas.

## O potencial didático da História do Vácuo

A possibilidade de existência e a existência real do vazio foram questões debatidas pela humanidade desde a Antiguidade. Essas discussões estiveram relacionadas a outros aspectos do desenvolvimento das ciências físicas e tiveram consequências significativas para essas, influenciando a formação e o desenvolvimento de conceitos. Até meados do século XVII, foi comum entre os estudiosos a aceitação da ideia de que o vazio era impossível e a natureza procurava evitá-lo. Contestações a essa visão existiram ao longo desse período, mas até o século XVII não foram preponderantes. A situação viria a mudar com a consideração de que poderiam ser atribuídos à pressão atmosférica efeitos anteriormente creditados ao horror ao vácuo (MARTINS, 1989a; SOLAZPORTOLÈS, MORENO-CABO, 1997). .

Episódios históricos relacionados ao vácuo, envolvendo, por exemplo, as discussões entre Aristóteles e os atomistas, passando pela polêmica medieval em torno do horror ao vácuo e as discussões promovidas por Galileu Galilei, René Descartes, Blaise Pascal e outros tantos autores na Revolução Científica, podem ser utilizados para a discussão de elementos como a dependência das observações em relação aos pressupostos teóricos e a possibilidade de desacordo entre os cientistas (MCCOMAS et al., 1998, p. 513).

É significativo, embora ainda pouco explorado, o potencial didático desses episódios no que diz respeito à possibilidade de serem usados como contextualização, permitindo a reflexão sobre algumas questões particulares da Natureza da Ciência. Existe uma lacuna no que diz respeito ao estudo de tais episódios históricos sob essa perspectiva, sobretudo no que diz respeito a discussões sobre a metodologia científica (no Brasil, um dos poucos estudos nesse sentido é o de PORTELLA, 2006).

## Alguns aspectos da argumentação de Blaise Pascal

O pesquisador francês Blaise Pascal (1623-1662) foi um personagem importante na chamada Revolução Científica. Em 1647, Pascal apresentou uma discussão preliminar de seus resultados experimentais na obra intitulada Novas Experiências sobre o Vácuo . No mesmo ano, publicou também um prefácio de caráter essencialmente metodológico que encabeçaria um futuro grande Tratado sobre o Vácuo, o qual não chegou a ser publicado . 2

No prefácio do seu pretenso Tratado , Blaise Pascal adotou uma postura cautelosa, deixando transparecer que o considerava uma situação, de fato, delicada: parecia enfrentar objeções e resistências importantes às suas ideias sobre o vazio. Assim, o caminho escolhido por ele não foi prontamente sustentar a existência do vazio . Enfocou algo muito anterior a isso, quer seja, a própria possibilidade de discutir assuntos relacionados à Física, rejeitando a mera reprodução de argumentos de autoridade. Parecia ser preciso, inicialmente, preparar o caminho para que a defesa da existência do vazio fosse admissível.

Defendeu que a autoridade era importante, mas não deveria ser obedecida em todos os ramos do conhecimento. Na física (ao contrário da teologia), seria necessário consultar a autoridade, mas não obedecê-la. Enfatizou a não obediência cega às autoridades e o caminho do raciocínio e do experimento para o avanço da ciência:

[...] todas as ciências que estão submetidas à experiência e ao raciocínio devem ser ampliadas para tornar-se perfeitas. [...]. O esclarecimento dessa diferença deve fazer-nos lamentar a cegueira daqueles que trazem apenas a autoridade como prova nos assuntos físicos, ao invés de raciocínio ou experiências [...] (MARTINS, 1989b, p. 51).

Em suas considerações, Blaise Pascal procurou afastar a impressão de que preconizava uma franca oposição aos antigos. Seus conhecimentos deveriam ser tomados como 'degraus para os nossos' (MARTINS, 1989b, p. 51). Assim, já convencido da possibilidade de discordar dos antigos, e de adotar 'outros sentimentos e novas opiniões sem desprezo e sem ingratidão' (MARTINS, 1989b, p. 51) no tocante a assuntos relacionados à Física, o leitor do prefácio estaria preparado. Poderia aceitar que a existência do vazio era um desses assuntos e, assim, receber de bom grado as discussões promovidas por Pascal com base em evidências empíricas.

Na descrição desses experimentos, em 1647, Blaise Pascal não utilizou a ideia de pressão atmosférica como causa para os fenômenos. Nem parecia, de fato, estar interessado em discutir esse assunto naquele momento. Em todos os casos descritos, nota-se que o foco de Pascal não era discorrer a respeito da causa dos fenômenos, mas sim sustentar que os espaços vazios notados estariam de fato vazios . Defendeu com argumentos empíricos que o vácuo era possível e que sua ocorrência podia ser notada. E, ao fazê-lo, teceu considerações, por exemplo, acerca da convergência de opiniões entre os pesquisadores, do papel da observação e do experimento na ciência, etc.

A seguir discutimos criticamente alguns aspectos enfocados por Blaise Pascal em seus escritos de 1647 à luz de discussões da época, evidenciando considerações relacionadas à natureza do conhecimento científico. Enfatizamos o potencial didático desse episódio histórico para contextualizar e refletir sobre determinados aspectos de NdC: observações são dependentes da teoria; recusa-se o empirismo que concebe os conhecimentos como resultado da inferência a partir de 'dados puros'; a natureza não produz evidências simples o bastante para permitir uma interpretação não ambígua; o desacordo entre os cientistas sempre é possível; treinamento compartilhado é um componente essencial do acordo entre os cientistas (MCCOMAS et al. , 1998, p. 513).

## O papel crucial do experimento

Nos seus escritos de 1647, Blaise Pascal não negou que os antigos fizessem experimentos. Pareceu indicar, no entanto, que a ênfase para seus predecessores recaía no raciocínio e não na experimentação, sendo essa última deficiente entre os mesmos.

Eles devem ser admirados pelas consequências que souberam extrair corretamente dos poucos princípios que possuíam; e devem ser desculpados por aquelas em que lhes faltou mais a felicidade da experiência do que a força do raciocínio (MARTINS, 1989b, p. 52).

Assim, justificava-se porque partindo do conhecimento dos antigos ainda era preciso seguir adiante e fazer mais. No caso dos experimentos já realizados sobre a temática do vazio, particularmente:

[...] todas suas experiências sempre lhes haviam feito observar que ela lhe tinha horror e não podia admiti-lo. [...] quando os antigos asseguraram que a natureza não admitia o vácuo, quiseram dizer que ela não o admitia em todas as experiências que viram (MARTINS, 1989b, p. 53).

O discurso de Blaise Pascal sugeria que ainda havia muito o que fazer em termos de experimentos. Esses deveriam ser enfatizados, cabendo-lhes o poder de decisão sobre os assuntos, entre os quais figurava a polêmica questão do vazio. O avanço, segundo Pascal, seria conseguido pela ciência por meio de mudanças em termos metodológicos, no sentido da compreensão do significado decisivo da experiência:

As experiências que no-los ensinam [os segredos da natureza] multiplicamse continuamente; e como elas são o único princípio da Física, as consequências se multiplicam proporcionalmente (MARTINS, 1989b, p. 51; grifo nosso).

É importante notar que quando Blaise Pascal se referiu à experiência como 'o único princípio da física' indicou que cabia a essa um papel, de fato, decisivo. Ele não descartou o papel da razão na ciência, mas, em suas referências, o termo 'raciocínio' recebe a constante companhia do termo 'experimentação'. Pascal parecia manifestar explicitamente uma posição contrária aos argumentos a priori . A razão não seria suficiente para dizer que 'a natureza não o permite [o vácuo]' (MARTINS, 1989b, p. 51). Nem todos pensavam assim, como veremos adiante.

## O experimento 'fala' por si próprio; um conjunto de observações, uma única consequência possível

Blaise Pascal indicou que o experimento e a observação desempenhavam papel fundamental e crucial na Física. Antes de propriamente comentar sobre a temática do vazio, Pascal, em seus escritos de 1647, citou exemplos de visões

inconcebíveis face às 'claras' evidências empíricas coetâneas. Comentou que sustentar concepções equivocadas acerca dos céus era 'direito' dos antigos, mas algo indesculpável entre os pesquisadores de sua época: a luneta os fazia 'reconhecer a verdadeira causa dessa brancura [da Via Láctea]'; 'toda a Terra viu sensivelmente cometas que se inflamavam e desapareciam' na região supralunar (MARTINS, 1989b, p. 52-53).

Analogamente, os experimentos dos antigos mostravam que a natureza impedia a formação do vácuo:

[...] tinham o direito de dizer que a natureza não o permite, pois todas suas experiências sempre lhes haviam feito observar que ela lhe tinha horror e não podia admiti-lo. [...]. Ao afirmarem que a natureza não admitia o vácuo, só pretenderam falar sobre a natureza no estado em que a conheciam. [...] quando os antigos asseguraram que a natureza não admitia o vácuo, quiseram dizer que ela não o admitia em todas as experiências que viram e não poderiam, sem temeridade, aí incluir aquelas [experiência] que não lhes eram conhecidas (MARTINS, 1989b, p. 53).

Para Pascal, as experiências realizadas até então indicavam isso, de modo que os antigos 'puderam negar enquanto o vácuo ainda não havia aparecido'. 'Sem contradizê-los', era possível 'afirmar o contrário do que diziam' (MARTINS, 1989b, p. 53), na medida em que fatos experimentais que eles não haviam conhecido, segundo Blaise Pascal, mostravam o vácuo.

As evidências empíricas de sua época eram tomadas por Pascal como definitivas , enquanto respostas claras ao questionamento sobre se o vácuo era possível e se, de fato, ocorria na natureza. Para o pesquisador, aos experimentos realizados no século XII seguia-se a necessária mudança de opinião. Se os antigos os conhecessem, 'sem dúvida teriam tirado as mesmas consequências que nós [...]' (MARTINS, 1989b, p. 53). Pode-se notar que, para Pascal, diante dos fatos que os antigos conheciam, seguia-se uma única visão natural, tal como, diante das novas experiências somente uma visão era possível.

Segundo Pascal, a 'experiência da Itália' (MARTINS, 1989b, p. 56), isto é, o experimento de Torricelli, era 'capaz de convencer mesmo aqueles que mais se preocupam com a impossibilidade do vazio'. Para Pascal, esse experimento, de modo inquestionável , provava a possibilidade e existência do vácuo na natureza.

Posições contrárias eram vistas por Pascal como 'conspiração' daqueles movidos pelo preconceito relacionado ao respeito excessivo pela autoridade do 'horror ao vácuo':

No entanto, a força da prevenção ainda fez com que fossem encontradas objeções que lhe tirassem a crença que merecia. Uns disseram que o topo do tubo estava cheio de espíritos do Mercúrio; outros, de um grão de ar imperceptível, rarefeito, outros, de uma matéria que apenas existia em sua imaginação; e todos, conspirando para banir o vazio, exerceram à vontade esse poder do espírito, chamado nas Escolas de 'Sutileza', que, para resolver dificuldades verdadeiras, apenas fornece palavras vãs, sem fundamento (MARTINS, 1989b, p. 57; grifo nosso).

Como se pode notar, para Pascal, a chave de fato estava no experimento, e o experimento de Torricelli já o convencia da possibilidade do vazio. Havia seguido com os estudos porque houve quem apresentasse oposições. Pascal, então, teria se empenhado em realizar 'experiências tão convincentes que estivessem à prova de todas as objeções que lhes pudessem fazer [...]' (MARTINS, 1989b, p. 57) que

produziam um espaço 'efetivamente vazio de todas as matérias perceptíveis conhecidas na Natureza'. O embate estaria assim, finalizado - ao menos era o que supunha Pascal...

## Analisando criticamente a argumentação de Pascal

Como vimos, segundo Blaise Pascal, os antigos, diante de todos os experimentos de que dispunham, haviam chegado, via generalização, à afirmação de que o vácuo não existia na natureza. Essa generalização era inadequada, segundo Pascal, já que um único evento contrário a revogaria: 'se restasse um só caso a examinar, esse único seria suficiente para impedir a definição geral' (MARTINS, 1989b, p. 53). .

É interessante notar, no entanto, que embora criticasse o mecanismo utilizado pelos antigos, Pascal o utilizou ao garantir que havia mostrado que 'um vaso, por maior que possa ser, pode ser tornado vazio de todas as matérias conhecidas e perceptíveis da natureza (MARTINS, 1989b, p. 57)'.

Como ele poderia ter investigado todas as matérias? Como ele poderia ter investigado todos os tamanhos de vaso?

Pascal extrapolou os resultados das suas observações, não podendo afirmar a partir do que observou com um número finito de experimentos limitados que o mesmo iria ocorrer com 'um recipiente tão grande quanto possa ser feito'. A própria afirmação de que algo estava, de fato, vazio, ou seja, de que o 'vácuo havia se manifestado naqueles experimentos' implicava esse mesmo tipo de generalização. Pascal, assim, não podia garantir que o recipiente estivesse realmente vazio já que não podia afirmar sobre substâncias que não conhecia. Essas afirmações eram 3 extrapolações semelhantes à realizada por quem negava a possibilidade do vácuo a partir de um número limitado de experimentos.

Abordando outras questões importantes do discurso de Blaise Pascal, podemos dizer que para ele o experimento tinha um papel decisivo e a razão deveria acompanhá-lo. Seria inaceitável fazer uso da razão para defender a impossibilidade da existência do vazio, sem a necessidade de recorrer a experimentos.

Essa posição de Blaise Pascal era particularmente importante quando se tratava desse tema. Ao afirmar que a razão não era suficiente para estabelecer uma conclusão contrária ao vácuo, Pascal se dirigia especificamente a certo tipo de argumento.

Tanto para Aristóteles, quanto para determinados autores do século XVII, como René Descartes, a razão por si só já era suficiente para negar a possibilidade de vácuo na natureza. Falar em 'espaço vazio' era inconcebível para quem relacionava espaço a matéria. Ao contrário do que sustentava Blaise Pascal, para Descartes, a conclusão de impossibilidade do vazio decorria da própria definição de espaço. Assim, ao contrário do que afirmava Pascal, para autores como Descartes, opor-se à existência de espaços vazios segundo argumentos racionais não era uma questão de fornecer 'palavras vãs, sem fundamento'.

Essa questão foi lembrada por oponentes de Blaise Pascal, como o Padre Noël, que reagiram ao discurso do pesquisador: Pascal teria se deixado levar pelos sentidos, abandonando a razão (MARTINS, 1989b, p. 65-69) . A resposta de Nöel 4 indica que o desacordo entre os pesquisadores é possível tanto em termos metodológicos, quanto em termos de possíveis interpretações para os experimentos, às quais se fazem à luz de pressupostos teóricos que podem ser diferentes entre os autores.

Em seus escritos, Pascal deixa transparecer a visão ingênua de que a partir de um conjunto de observações apenas uma única consequência seria possível, sendo esta independente de interpretação. Assim, diante daquelas evidências, posições discordantes da 'aceitação do vácuo' eram inaceitáveis. Essa postura (de cunho indutivista ingênuo) parece considerar que os experimentos 'falam' por si próprios. A posição de Pascal era ingênua, no sentido de considerar que apenas uma conclusão do experimento de Torricelli era possível e que o mesmo não era passível de interpretação. Para ele, o experimento mostrava a existência do vazio, não sendo essa conclusão uma possibilidade de interpretação .

A discussão, no entanto, foi complexa na época. A resposta de Nöel a Pascal indica a possibilidade de defender com base em argumentos razoáveis outras interpretações a respeito do que havia no tubo. Nöel havia sido professor de filosofia de René Descartes. Compartilhando pressupostos teóricos, consideravam que uma matéria sutil preenchia aquele espaço aparentemente vazio. Essa matéria sutil saía pelos poros do vidro quando este era preenchido por um líquido (MARTINS, 1989b, p. 65-67).

Se pensarmos em alguns dos experimentos relatados por Blaise Pascal como 'provas irrefutáveis' da formação do vazio, esse tipo de argumentação contrária poderia ser aplicada. Para Pascal, ao colocar uma seringa debaixo d'água, fechando sua extremidade com o dedo e, em seguida, puxar o pistão, era fácil notar 'um espaço aparentemente vazio' (MARTINS, 1989b, p. 58). Para evidenciar que esse espaço era, de fato, vazio, Pascal relata que quando o dedo é retirado, 'a água, contra sua natureza, sobe com violência e preenche completamente todo o espaço que o pistão havia deixado' (MARTINS, 1989b, p. 58). A possibilidade de preencher completamente o pistão com a água evidenciaria que o espaço aparentemente vazio produzido quando o pistão foi puxado estava, de fato, vazio. No entanto, utilizando a argumentação dos oponentes era possível pensar ainda assim na entrada e saída de uma substância sutil pelos poros da seringa.

A posição adotada por Pascal quanto às novas experiências era um tanto quanto ingênua. Mesmo diante dessas 'novas experiências', era possível seguir negando o vácuo e muitos pensadores o continuaram fazendo com base em argumentos interessantes.

Episódios interessantes relacionados à possibilidade e existência do vazio na natureza podem, portanto, contextualizar aspectos de NdC importante como, por exemplo, a possibilidade de desacordo entre os cientistas, o treinamento compartilhado ser um elemento importante para o acordo entre os cientistas (por exemplo, Descartes e Nöel), a dependência das observações em relação aos pressupostos teóricos, dentre outros. Assim, o tipo de análise aqui realizada pode

contribuir como subsídio para a elaboração de unidades didáticas que explorem o uso desses episódios históricos para a abordagem de aspectos da NdC.

Particularmente, os desdobramentos do presente trabalho já podem ser notados no âmbito do projeto no qual o mesmo foi desenvolvido . Os subsídios aqui 5 apresentados vêm sendo utilizados na elaboração de materiais de referência (textos aprofundados) direcionados a professores e educadores em geral, que retomam de modo aprofundado os episódios históricos e, ao mesmo tempo, realizam a discussão explícita e contextualizada de conteúdos de NdC. Consideramos, no entanto, que a existência de material de referência acessível não seja garantia de que esses recursos venham a ser empregados se não forem acompanhados de discussões, na formação dos professores, sobre como utilizá-los, contextos e obstáculos a serem enfrentados. Partindo desse pressuposto, os textos produzidos têm sido utilizados na organização e implementação de oficinas de extensão na UFRN para licenciandos e professores de Física, tendo em vista a instrumentalização desses indivíduos para a elaboração e uso de estratégias didáticas para a abordagem explícita e contextualizada de aspectos de Natureza da Ciência por meio de episódios da História do Vácuo. A relevância dessa ação, em particular, se justifica pela existência de lacunas no que diz respeito à inserção da temática Natureza da Ciência e da própria HFC na formação de professores.

## Referências

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