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CRITÉRIOS PARA ESCOLHA DE LIVROS DIDÁTICOS UTILIZADOS POR PROFESSORES DE FÍSICA

Luciana B. Zambon, Eduardo A. Terrazzan

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIV
Ano
2012
Data
06/11/2012
Linha de pesquisa
Políticas Públicas Em Educação E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CRITÉRIOS PARA ESCOLHA DE LIVROS DIDÁTICOS UTILIZADOS POR PROFESSORES DE FÍSICA 1

## CRITERIA FOR SELECTION OF TEXTBOOKS USED BY TEACHERS OF PHYSICS

## Luciana Bagolin Zambon 1 , Eduardo A. Terrazzan 2

1 Universidade Federal de Santa Maria/Núcleo de Estudos em Educação, Ciência e Cultura, luzambon@gmail.com

2 Universidade Federal de Santa Maria/Núcleo de Estudos em Educação, Ciência e Cultura, eduterra@pq.cnpq.br

## Resumo

Investigamos, neste trabalho, os processos de escolha de Livros Didáticos, no âmbito do PNLD, e buscamos responder as seguintes questões de pesquisa: Que critérios são utilizados por professores de Física de Escolas de Educação Básica (EEB) para escolha de Livros Didáticos no âmbito do PNLD? Em que se baseiam professores de Física de EEB para definição dos critérios para escolha de Livros Didáticos no âmbito do PNLD? Que relações existem entre os critérios utilizados pelo MEC para avaliação de Livros Didáticos e os critérios utilizados por professores de Física de EEB para escolha de Livros Didáticos, no âmbito do PNLD? Para tanto, utilizamos como fontes de informação sujeitos (professores de Física em serviço em EEB) e espaços (encontros para escolha do livro didático, no âmbito do PNLD, realizados em EEB) e, como instrumentos para coleta de informações nessas fontes, utilizamos questionários, entrevistas e observação. A pesquisa envolveu 27 professores de Física de EEB e 6 encontros para escolha de livros, realizados em escolas e acompanhados por nossa equipe. Pelas análises desenvolvidas, podemos afirmar que a definição de critérios para escolha dos livros e a própria tomada de decisão sobre a escolha dos livros, no âmbito do PNLD, ocorreu mais em função de aspectos externos à escola (sequência de assuntos estabelecida pelo exame vestibular PEIES da UFSM) do que em função das orientações e propostas presentes no Projeto Político-Pedagógico das escolas. Percebemos, ainda, que os professores baseiam-se, principalmente, na sua experiência docente em sala de aula para definir os critérios de escolha dos livros e que existe pouca relação entre os critérios utilizados pelo MEC para avaliação dos livros e aqueles utilizados pelos professores para escolha dos livros.

Palavras-chave : Livros Didáticos, PNLD, Ensino de Física

## Abstract

In this work we have investigated the processes of choice of textbooks, in the PNLD, and seek to answer the following research questions: What criteria are used by teachers of Physics in Schools of Basic Education for the choice of textbooks in

the PNLD? What are the bases of the physics teachers to define the criteria for selection of textbooks in the PNLD? What are the relationships among the criteria used by the MEC for evaluation of textbooks and the criteria used by physics teachers to the choice of textbooks within the PNLD? As information sources we used subjects (physics teachers in service in schools) and space (meetings to choose the textbook in the PNLD), and as instruments to collect information in these sources we used questionnaires, interviews and observation. The research involved 27 teachers of physics and 6 meetings for the choice of textbooks in schools and monitored by our team. For the analyzes conducted, we can affirm that the definition of criteria for selection of textbooks and their own decision on the choice of textbooks in the PNLD, there was more because of issues outside the school (following matters established by the exam vestibular PEIES UFSM) than on the basis of guidelines and proposals present in the Political-Pedagogical Project of the schools. We can affirm also that teachers are based mainly on his experience teaching in the classroom to define the criteria for choosing textbooks and there is little relationship between the criteria used by the MEC for evaluation of textbooks and those used by teachers to choice of books.

## Keywords : Textbooks, PNLD, Physics Teaching.

## Introdução

Este trabalho insere-se nas discussões acerca dos programas de material didático do governo federal, em particular, do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). A realização de investigações sobre o PNLD justifica-se, dentre outros aspectos, devido à amplitude dos programas de material didático na atualidade no Brasil, tornando esse país o maior comprador de livros didáticos, devido à consolidação do PNLD, que estabeleceu um mecanismo próprio de escolha dos livros pelos professores, e, ainda, devido à presença de Livros Didáticos, reafirmada a partir do PNLD, no cotidiano das escolas e das salas de aula, de uma forma mais intensa e com uma perspectiva de utilização de melhor qualidade.

Tomando por base esses pressupostos, realizamos uma investigação que teve como objetivo compreender como o Programa Nacional do Livro Didático incide no contexto de Escolas de Educação Básica (EEB) e que implicações ele traz para o trabalho docente desenvolvido nessas escolas (ZAMBON, 2012). Dentre as ações investigativas desenvolvidas, pesquisamos como as equipes gestoras de escolas organizam e desenvolvem ações para a escolha de Livros Didáticos, como professores de Física realizam a escolha de livros e como esses professores utilizam livros na preparação e no desenvolvimento de suas aulas. Neste trabalho, em particular, focalizamos nossa atenção nos critérios utilizados por professores de física para escolha de Livros Didáticos, no âmbito do PNLD Ensino Médio 2012.

Em trabalho recente de revisão de literatura sobre o tema 'Livro Didático', em teses/dissertações e em artigos publicados em periódicos acadêmico-científicos, constatamos que são raríssimas as pesquisas na área de educação em ciências e, em especial, na área de ensino de física, que problematizam aspectos relacionados à utilização do livro didático por professores e alunos em sala de aula ou que abordam os processos de seleção de livros didáticos realizados por professores. Neste trabalho de revisão, identificamos 127 teses/dissertações da área de pesquisa em educação em ciências sobre a temática 'Livro Didático', disponibilizadas no

banco de dados do Centro de Documentação em Ensino de Ciências (CEDOC/UNICAMP - período 1996 a 2008) e no Banco de Teses da CAPES (período de 2007 a 2010), e identificamos 46 artigos publicados em 09 Periódicos Acadêmico-Científicos também dessa área.

Constatamos que a grande maioria das teses/dissertações e dos artigos identificados em nosso levantamento referem-se à análise do conteúdo do Livro Didático (investigando, por exemplo, a concepção de natureza veiculada por livros didáticos, as formas de abordagem de algum conteúdo conceitual, as formas de utilização de imagens, etc) e à análise da utilização de Recursos e Estratégias Didáticas em Livros Didáticos . No entanto, as investigações que se ocupam da análise da utilização de Livros Didáticos em sala de aula , do processo de escolha dos Livros Didáticos e da avaliação de livros são muito raras.

Dentre as pesquisas que investigam a escolha de livros, Tolentino Neto (2003), em análise sobre a seleção do livro de ciências por professores dos anos iniciais, constatou a diversidade de critérios utilizados, a diversidade de condições para as escolhas, a pouca utilização do Guia do Livro Didático e o desconhecimento de importantes etapas do Programa.

Cassab e Martins (2008) investigaram os sentidos que professores de ciências atribuem ao livro didático em um contexto de escolha do material. A discussão realizada pelas autoras gira em torno das imagens de aluno, de ensino e de ensino de ciência na significação do livro didático, da linguagem do livro didático e seus aspectos visuais e da leitura do livro didático. As autoras afirmam que os critérios utilizados pelos professores na escolha do livro refletem os significados que eles atribuem a esses aspectos.

Lima e Silva (2010), por sua vez, investigam os critérios utilizados por professores de Química na escolha do livro didático. Esses autores apontam que os critérios mais considerados na escolha são a linguagem, a diagramação, a contextualização, as experimentações e o tipo de abordagem.

A lacuna de pesquisas na área sobre esta temática aponta para a emergência na realização de investigações que se ocupem da escolha e da utilização de livros didáticos de física. Neste sentido, discutimos neste trabalho os resultados obtidos em uma investigação que procurou responder as seguintes questões de pesquisa: Que critérios são utilizados por professores de Física de Escolas de Educação Básica (EEB) para escolha de Livros Didáticos no âmbito do PNLD? Em que eles se baseiam para definição desses critérios? Que relações existem entre os critérios utilizados pelo MEC para avaliação de Livros Didáticos e os critérios utilizados por professores de Física de EEB para escolha de Livros Didáticos, no âmbito do PNLD?

## Procedimentos Metodológicos

Para responder as questões de pesquisa, utilizamos dois tipos de fontes de informação, quais sejam: sujeitos , professores de Física em serviço em Escolas de Educação Básica, e espaços , encontros entre professores de Física para escolha do livro didático, no âmbito do PNLD, realizados em Escolas de Educação Básica. Os instrumentos utilizados foram questionário e entrevista estruturada para coleta de informações dos professores de Física e observação para coleta de informações nos encontros entre professores para escolha de Livros nas escolas.

- O universo da pesquisa envolveu todas as 27 Escolas Públicas de Educação Básica da cidade de Santa Maria/RS que possuem o Ensino Médio como etapa de escolaridade, das quais 24 são da rede pública estadual e 3 da rede pública federal.

Tendo em vista a seleção de livros didáticos prevista para o ano de 2011, no âmbito do PNLD Ensino Médio 2012, contatamos, no início do ano letivo, as equipes gestoras de todas as 27 escolas, com o intuito de coletar informações cadastrais sobre os professores de física, informar os objetivos de nossa pesquisa e questionar sobre a possibilidade de realização da pesquisa com esses professores. Constatamos que há um total de 58 professores de física em serviço nessas 27 escolas. Em seis delas recebemos, da coordenação pedagógica, reposta negativa para a realização de nossa pesquisa, o que excluiu a possibilidade de conversarmos com os professores de Física dessas escolas.

- O primeiro instrumento utilizado com os professores de física foi um questionário, entregue aos professores antes de iniciar o processo de escolha dos livros no PNLD 2012, o qual continha questões abertas e fechadas que tratavam da seleção de livros didáticos no âmbito do PNLEM 2007 e da utilização desses livros na preparação e no desenvolvimento das aulas de física. Obtivemos retorno de 27 professores que responderam efetivamente nosso questionário.

Depois, selecionamos um conjunto de professores de física que mostraramse interessados em desenvolver um trabalho conjunto com nosso grupo para realização do processo de escolha de Livros, no âmbito do PNLD 2012. Esse trabalho foi realizado mediante encontros com os professores, realizados nas escolas, nos quais buscamos estimular a reflexão e a discussão sobre alguns aspectos relevantes, tais como características de um 'bom' Livro Didático, critérios para escolha de Livros Didáticos, formas de utilização do Guia de Livros Didáticos do PNLD 2012, procedimentos para escolha de Livros Didáticos. Acompanhamos os processos de escolha de Livros Didáticos realizados em seis (06) escolas com um total de dez (10) professores de física.

Por fim, realizamos entrevistas estruturadas com parte dos professores de física que responderam nosso questionário e/ou foram acompanhados no processo de escolha dos livros, nas quais buscamos aprofundar a discussão sobre aspectos relativos à escolha e à utilização dos livros. Realizamos, no total, entrevistas com 09 professores de física.

Para proceder ao tratamento e análise das informações coletadas, utilizamos a técnica da categorização temática (GIBBS, 2009) e estabelecemos categorias de análise a posteriori, ou seja, como resultado de várias leituras das informações para cada critério de análise definido previamente.

## Constituição e Discussão de Resultados

Antes de discutir a origem dos critérios utilizados por professores de física e sua relação com os critérios de avaliação do MEC, tratamos dos próprios critérios que foram utilizados pelos professores de física, conforme relato deles próprios.

Identificamos, nos questionários recebidos, quatro tipos de respostas relativas aos critérios para escolha dos livros. A primeira refere-se à sequência de assuntos do livro didático, citada por seis professores. A sequência de assuntos foi comparada com aquela sugerida nas listagens de conteúdos de exames vestibulares de seleção ao Ensino Superior. A segunda categoria, 'correspondência com a

proposta da escola', envolve duas respostas, nas quais houve referência genérica à proposta pedagógica da escola sem nenhuma explicitação de quais aspectos foram considerados. A terceira categoria remete para a 'utilização do livro pelo aluno', sendo feita uma única referência genérica à facilidade de manuseio da obra escolhida, sem, porém, explicar o que isso significa. A última categoria, 'organização e abordagem adotada', agrupa duas respostas, nas quais foram feitas referências genéricas à contextualização do conteúdo (1 resposta) e ao tratamento de temas atuais (1 resposta).

Já as informações coletadas mediante entrevista convergem basicamente para quatro categorias: forma de apresentação dos assuntos nos livros, recursos didáticos utilizados, forma de estruturação dos capítulos e sequência de apresentação dos assuntos. Essas quatro categorias foram discriminadas em subcategorias. Como as categorias e subcategorias não são excludentes, o número de ocorrência não corresponde ao número total de professores entrevistados.

Oito professores referem-se aos recursos didáticos utilizados, sendo citados os experimentos propostos (2 respostas), exemplos resolvidos (2), história da ciência (1), número grande de questões (1), presença de questões de vestibular e do ENEM (1). Além desses recursos, dois professores avaliam o enunciado das questões (2), pois preocupam-se em utilizar aquelas questões cujo enunciado seja acompanhado de uma contextualização da vivência cotidiana dos alunos, o que é coerente com os estudos sobre Resolução de Problemas, desenvolvidos na área de pesquisa em Ensino de Física.

Sete professores disseram que analisam a forma de apresentação dos assuntos , sendo que a maioria procura um livro que apresente os assuntos de forma contextualizada com o cotidiano (4), dois professores querem um livro que apresente os assuntos mediante um equilíbrio entre as discussões conceituais e a abordagem matemática e um prefere que haja privilégio de discussões focadas na estrutura conceitual da física.

Três professores analisam a estrutura dos capítulos , buscando aqueles que apresentam bastante desenhos/figuras (1) e elementos para motivar o aluno (2). A esse respeito, Cassab e Martins afirmam que levar em conta as características dos alunos é um aspecto central na seleção do livro didático pelos professores. Por exemplo, a característica de apreciação dos alunos por determinadas estéticas de apresentação , permite entender as referências aos desenhos/figuras no livro didático como critério para sua escolha. E a imagem de aluno desinteressado poderia justificar a necessidade de considerar elementos para motivar o aluno, como critério de escolha (CASSAB, MARTINS, 2008, p.6).

Outros três professores informaram que analisam a sequência de apresentação dos assuntos, buscando aqueles livros que possuem uma sequência adequada aos Conteúdos Programáticos do Exame Vestibular 'Programa de Ingresso ao Ensino Superior' (PEIES/UFSM). Esse programa consiste numa forma alternativa de ingresso à UFSM, no qual as provas são realizadas em três etapas, cada uma ao final de uma das três séries do Ensino Médio. Recentemente, o PEIES foi extinto, dando lugar ao chamado Processo Seletivo Seriado (PS1, PS2 e PS3 referindo-se às três provas, ao final de cada série do ensino médio), que mantém, em geral, as mesmas características do Exame Vestibular PEIES.

Já nos registros dos encontros que realizamos com os professores de física, constatamos que todos os 10 professores acompanhados nas seis escolas utilizam

como um dos principais critérios de escolha dos livros a sequência dos assuntos, conforme os depoimentos selecionados:

- (...) o que eu me detive mais no livro foi o seguinte: o programa dele (...) porque aqui a gente prepara mais para o PEIES e vestibular, então segue o programa do peies e vestibular. Então eu peguei o livro que melhor se encaixava com ele, porque não tem um livro que se encaixe direitinho com o programa né. EES 07
- (...) esse [livro] aqui enquadra bem inclusive assim ó a relação dos conteúdos obedece mais ou menos a seqüência do processo seletivo tanto do peies quanto do PS [processo seletivo seriado] único da universidade entende? A gente vê isso aí. EES18

Ah, eu mais ou menos vou me baseando no cronograma que tem pro PEIES, apesar de ser uma escola que trabalha pro magistério surdo (...), de 1ª a 4ª série. Mas a maioria de nossos alunos querem fazer vestibular. EES 15

Nesses registros de observação dos encontros com professores, encontramos também referência aos critérios que já apareceram nas entrevistas, ou seja, número de questões (2), apresentação dos assuntos de forma contextualizada (2), experimentos propostos (1), estrutura dos capítulos, com utilização de desenhos/figuras (1). Em relação aos exercícios, o depoimento abaixo chama atenção:

- (...) [esse livro] traz bastante também exercícios e eu acho assim que... pra mim, eu encho eles de exercícios, porque o aluno só fixa o conteúdo, as equações, fazendo conta e analisando exercícios , (...) eu olhei mais a quantidade e o nível, aí tem o nível fácil e os níveis mais avançados, ele separa já assim, tem questões do ENEM também que eu gostei, por isso peguei, (...). PF 07

Percebemos que esse professor reduz a aprendizagem da física à utilização de equações em exercícios, o que não garante o entendimento do fenômeno/assunto envolvido, uma vez que a maior parte dos exercícios presentes nos livros de física ainda apresentam um enunciado fechado (ou seja, todas as informações necessárias para a resolução da questão estão presentes no enunciado) e desacompanhado de uma contextualização da vivência cotidiana (conforme estudo realizado por CLAVÉ, LAMARQUE, TERRAZZAN, 2011).

Pelo cruzamento de todas as informações coletadas, relativas aos critérios de escolha, podemos afirmar que um dos principais aspectos considerados na escolha dos livros é a sequência de apresentação dos assuntos no livro.

Em relação à origem dos critérios, constatamos que sete professores basearam-se em sua experiência profissional docente em sala de aula para definir os critérios para escolha do livro. Essa experiência docente parece se referir, em geral, àquilo que motiva os alunos, do ponto de vista dos professores.

[a definição desses critérios foi baseada na] convivência em sala de aula, com a vivência tu acaba vendo o que chama mais a atenção ou não . PF 05

A gente faz tantos anos que leciona, então a gente já sabe que seguindo a sequência até para o aluno é melhor, a sequência que a gente... até lá do vestibular, até isso ai... a gente seguir essa sequência é bem melhor. PF 11

Eu acho que a experiência de 25 anos, de mais de 25 anos eu acho, porque a gente vê o que que faz motivar o aluno , não adianta tu escolher o livro que tu sabe que não vai levar ele a lugar nenhum também. PF 18-01

Os professores agrupados nessa categoria possuem um perfil semelhante, em termos de formação inicial (muitos formados em cursos de matemática, com habilitação em física) e tempo de atuação no magistério, com mais de 15 anos de atuação na rede estadual.

Para outro professor entrevistado, foi sua formação acadêmica que forneceu elementos para definição de critérios de escolha dos livros, conforme seu depoimento:

[A definição desses critérios foi baseada] na caminhada da minha formação. A minha formação como eu fiz Física, eu fiz a minha especialização no ensino de Física, então nós sempre defendemos essa ideia de entender, de trabalhar prática, de entender o conceito, não só aquela parte matemática. Eu brinco com eles [os alunos], eles sempre têm a preocupação [de saber] qual é a formula, ai eu digo 'na hora que eu te disser a formula, terminou a Física'. PF 02

Para esse professor, foram os conhecimentos adquiridos na sua formação acadêmica que o auxiliaram na defesa de um ensino de física baseado na aprendizagem conceitual dos fenômenos/assuntos da Física. Inclusive, parece haver um contraste com as experiências que esse professor vivencia em sala de aula, uma vez que os estudantes parecem preferir uma outra abordagem, diferente dessa definida a partir de sua formação acadêmica.

Outros dois professores afirmam que não é possível desvincular a formação acadêmica da experiência docente. Apesar de apresentarem justificativas semelhantes àquelas dos demais professores (com o tempo, percebem o que chama mais atenção do aluno), podemos afirmar que esses dois professores possuem um maior entusiasmo e falam com orgulho sobre a forma como costumam trabalhar em sala de aula:

Eu acho que a formação ajuda né e a experiência [também] (...) com o passar do tempo a gente vai mudando, vai vendo que trabalhando dessa forma você consegue atingir mais alunos. Logicamente que é muito mais cômodo você chegar ali e fazer de qualquer jeito e deu. Mas quando você sente que os alunos dizem 'ah professor tu é diferente', 'a Física é legal', apesar de muitos dizerem que é difícil, então tu se sente realizado em poder ver o resultado. PF 18-03

Ah, eu acho que é um conjunto, de experiência e da formação. (...) Com o tempo tu vai fazendo... tu pega amor daquilo que tu faz, tu se dá conta que se tu está falando uma coisa e o aluno não está nem ai... e se tu está gostando do que tu está fazendo, tu vai procurar chamar a atenção daquele aluno, então tu vai procurando outras coisas fora dali. PF 25

Esses dois professores também possuem um perfil semelhante, pois ambos possuem formação inicial em licenciatura em física, titulação de mestre (embora apenas um seja mestrado em educação) e atuam na rede pública há menos de 10 anos.

De um modo geral, parece prevalecer, dentre a maior parte dos professores, a imagem de aluno mau leitor e desinteressado , o que justificaria a necessidade de recorrer a certos elementos que passam a desempenhar, fundamentalmente, 'a função de motivação, buscando suprir as lacunas deste aluno não leitor' (CASSAB, MARTINS, 2008, p.16). Portanto, pelas informações obtidas, percebemos que, para definir seus critérios de escolha, os professores baseiam-se fundamentalmente numa imagem de aluno e de ensino que eles construíram e estabeleceram durante sua experiência docente em sala de aula.

Quanto à relação entre os critérios utilizados pelos professores de física investigados e aqueles utilizados pelo MEC para avaliação dos livros, apenas três professores declararam que utilizaram os critérios de avaliação do MEC para escolha do livro, porém, não há especificação da forma de utilização. Os demais professores não utilizaram os critérios, embora três tenham dito que tomaram conhecimento deles.

Pela comparação realizada, constatamos que os critérios indicados pelos professores de física são menos sofisticados do que aqueles utilizados pelo MEC para avaliação do livro do aluno . Além disso, percebemos que existe pouca relação 2 entre os critérios utilizados pelo MEC e aqueles utilizados pelos professores. A comparação realizada mostrou que apenas seis (01, 04, 06, 10, 13, 17 ) dos 3 dezessete critérios do MEC foram utilizados, ao menos parcialmente, na análise dos professores.

Essa análise mostra que há certa discrepância entre os critérios utilizados para avaliar os livros didáticos e os critérios utilizados por professores para fazer a escolha do livro. Parece que os critérios utilizados pelo MEC não são, de um modo geral e considerando-se as informações coletadas, considerados relevantes para esses professores de física.

## Considerações Finais

Dadas as notórias dificuldades que os professores de educação básica enfrentam, dentre as quais a mais reconhecida seja a falta de tempo suficiente para realizar as tarefas que compõe o trabalho docente e que, em muito, extrapolam o trabalho em sala de aula, é compreensível que os professores não consigam atualizarem-se permanentemente. Acreditamos que o Guia do Livro Didático e, em particular, os critérios específicos utilizados para o componente curricular física poderiam ser utilizados pelos professores como fonte para seus estudos de formação continuada, uma vez que esses critérios foram definidos a partir das diversas orientações decorrentes de estudos acadêmico-científicos da área de pesquisa em ensino de Física. Nesse sentido, poderiam ser utilizados pelos professores no sentido de uma maior aproximação a tais estudos. Porém, sem orientação específica, sem espaços bem definidos durante a permanência do professor na escola, sem um tempo adequado para estudos e discussões coletivas, o professor sozinho dificilmente terá condições de utilizar o guia com esse propósito.

Essas condições, somadas à tradição de uma 'forma' de ensinar física constituída e consolidada nos anos de experiência dos professores (principal referência à origem dos critérios para escolha dos livros), condicionam o processo de definição dos critérios para escolha dos livros. Outro fator condicionante em nossa região é a existência do Exame Vestibular seriado de ingresso à UFSM, o qual, ao definir uma listagem de conteúdos conceituais para cada série do Ensino Médio, acaba limitando qualquer discussão sobre definição de elementos da estrutura conceitual da Física (e, também, de outras áreas disciplinares do Ensino Médio) para serem objetos de estudo nas aulas de Física.

A utilização da programação do PEIES como a própria programação curricular das disciplinas escolares de Física nessa região está tão naturalizada entre os professores que acaba sufocando qualquer possibilidade de adoção de livros que possuam uma sequência alternativa de assuntos. Chama atenção também o fato de que, mesmo nas escolas em que é pequena a parcela dos alunos matriculados no Ensino Médio, que pretendem 'prestar vestibular na UFSM', os professores de Física continuam a adotar o programa do PEIES/UFSM, como programação curricular da escola, conforme os depoimentos abaixo:

- (...) pra nós [professores] do Ensino Médio, (...) o interesse [durante o processo de escolha] era visando (sic) a Universidade, mesmo que tu não tenha como objetivo primordial, porque não são todos os que vão fazer. Só que assim, os que vão têm a oportunidade de ter... (...) PF 05

Lá [na outra escola] não, (...). É uma comunidade carente, então a gente tem que... até tem que entender que... se chegar a 20% dos que fazem [o vestibular] lá... [Mas] vai seguindo [o programa do vestibular mesmo assim,] por tradição como se diz. [Então] basicamente a preocupação [é] com aquela cartilhazinha do PEIES. Então a gente segue igual (...) PF 18-02

Assim, os professores ao aderirem à programação do PEIES sem nenhuma criticidade, definitivamente abdicam do exercício de sua autonomia na definição dos conteúdos de ensino o que, por extensão, condiciona a definição de critérios de escolha dos livros.

Podemos dizer, portanto, que, no contexto aqui estudado, a definição de critérios para escolha dos livros e a própria tomada de decisão sobre a escolha dos livros, no âmbito do PNLD, ocorreu mais em função de aspectos externos à escola (sequência de assuntos estabelecida pelo exame vestibular PEIES) do que em função das orientações e propostas presentes no Projeto Político-Pedagógico das escolas. No entanto, enquanto o Ensino de Física, do mesmo modo que o ensino das outras disciplinas escolares, girar em torno de programações definidas por outras instâncias, que não o coletivo de cada EEB, não será o Livro Didático, nem outro material didático, que poderá auxiliar na melhoria da qualificação da Educação Escolar.

## Referências

CASSAB, M.; MARTINS, I. Significações de professores de ciências a respeito do livro didático. Ensaio: Pesquisa em Educação em Ciências , Belo Horizonte, 2008, v.10, n.1, p.1-28.

GIBBS, Graham. Análise de dados qualitativos . Tradução de Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed. 2009. ISBN 978-85-363-2055-7.

LIMA, Maria E. C. de C.; SILVA, P. S. Critérios que professores de química apontam como orientadores da escolha do livro didático. Revista Ensaio , Belo Horizonte, v.12, n.2, p.121136, 2010.

TOLENTINO NETO, Luiz C. B. de. O Processo de Escolha do Livro Didático de Ciências por Professores de 1ª a 4ª séries . 2003. Dissertação (Mestrado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo. 2003.

ZAMBON, L. B. Seleção e Utilização de Livros Didáticos de Física em Escolas de Educação Básica . 2012. Dissertação (Mestrado em Educação) - Centro de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria. 2012.

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