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O PAPEL DAS FIGURAS DE LINGUAGEM NA CRIAÇÃO DE EXPLICAÇÕES CIENTÍFICAS

Ivã Gurgel, Maurício Pietrocola

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIII
Ano
2011
Data
09/06/2011
Linha de pesquisa
Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## O PAPEL DAS FIGURAS DE LINGUAGEM NA CRIAÇÃO DE EXPLICAÇÕES CIENTÍFICAS.

## THE ROLE OF FIGURES OF SPEECH IN THE CREATION OF SCIENTIFIC EXPLANATION

## Ivã Gurgel , Mauricio Pietrocola 1 2

1

Instituto de Física - USP, gurgel@usp.br

2 Faculdade de Educação - USP/ mpietro@usp.br

## Introdução

Nos últimos anos, pesquisas provenientes de diferentes quadros teóricos vêm associando a aprendizagem de conceitos científicos com a aquisição de diferentes habilidades linguísticas, em que a proposição aprender ciências é aprender a falar ciências , apresentada por Lemke (1990), tornou-se emblemática destas correntes. Em pesquisas recentes, conceitos como Letramento Científico passaram a ganhar destaque em debates que estabelecem os objetivos do ensino a ser praticado em diferentes países (Yore, 2003). Dentro desta perspectiva se torna relevante que diferentes formas de pensamento características das ciências possam se estruturar nas falas dos alunos.

Contudo, quando 'retrocedemos' neste debate, verificamos que ainda existem questões em aberto. Se o letramento científico pode ser definido como as aptidões e hábitos de pensamento requeridos para construir conhecimentos da ciência (Yore et. al., 2003, p.690, tradução livre), pode-se questionar quais são os hábitos de pensamento necessários à elaboração do conhecimento científico. Diferentes pesquisas enfocam importantes dimensões deste pensar, como as relações causais, a argumentação formal, a modelização, os diferentes níveis e tipos de matematização etc.

Uma das formas de pensamento que vem ganhando destaque na literatura especializada é o uso de metáforas na elaboração de conceitos científicos. Contudo, em sua maioria, os estudos tomam metáfora como sinônimo de analogia. Embora esta proposição seja válida, esta forma de tratar o tema acaba limitando o estudo mais aprofundado do papel das diferentes figuras de linguagem na elaboração do conhecimento (além da metáfora, a sinédoque e metonímia).

O objetivo deste trabalho é caracterizar epistemologicamente o papel das figuras de linguagem no desenvolvimento do pensamento científico. Para isso, trataremos de dois estudos de caso, as observações do céu por Galileu e o início da eletrodinâmica com Oersted e Ampère. Através de uma metodologia denominada Poética da Ciência , estudaremos os textos originais destes autores para compreender os tipos de raciocínio vinculados ao uso da metáfora, metonímia e sinédoque em suas proposições. Esperamos mostrar que uma dimensão importante do pensamento científico ainda é pouco considerada pela literatura e que esta dimensão pode ser importante à proposição de práticas de ensino.

## Marco Teórico-Metodológico.

A idéia de uma análise poética vem da opção metodológica dos estudos de narrativas literárias feitos por Tzvedan Todorov a partir dos anos sessenta. Este

autor, muito conhecido no campo das letras, busca caracterizar seu trabalho, denominado por ele mesmo de poética, como uma oposição aos estudos em crítica literária (Todorov, 2003, 1971). Ele argumenta que a abordagem crítica, ao buscar delimitar o valor ou diferencial de uma obra, desconsidera a possibilidade de nela existir padrões lingüísticos que possam ser identificados em outros tipos de discurso ou em outras produções de mesmo gênero (Todorov, 2003). Se opondo a essa perspectiva, seu objetivo de trabalho é verificar quais padrões lingüísticos emergem quando estudamos uma obra ou um conjunto de obras que caracterizam uma mesma família.

Hallyn (2004) considera que a poética deve ser a base de estudos preocupados com o processo criativo da ciência. O autor define este campo de estudos da seguinte forma:

' A abordagem poética, que pode também ser chamada de retórica profunda, explora a formação de representações. Ela tem por objeto de estudo a ciência enquanto ela é feita. Ela tenta, notadamente, descobrir em um processo de invenção ou de descoberta os traços de uma atividade ou de um imaginário tropológico (produtor de operações semânticas, tais como a metonímia e a metáfora, conduzindo a transformações conceituais) e narrativo (produtor de histórias como experiências de pensamento, valor da argumentação e da exploração) é colocado em obra. ' (Hallyn, 2004, p.12-13, tradução nossa)

Neste estudo utilizaremos esta metodologia de análise para caracterizar as figuras de linguagem em textos originais da ciência no qual podemos verificar o processo de criação do cientista.

## Análise e Resultados.

Para caracterizar a função epistemológica das figuras de linguagem foi analisado três textos históricos originais: O Mensageiro das Estrelas , de Galileu (1610), Experiências Relativas ao Efeito do Conflito Elétrico sobre a Agulha Imantada , de Oersted (1820), e Sobre as Atrações Mútuas entre Condutores Elétricos , de Ampère (1820). Estes textos foram escolhidos por tratarem de casos em que um novo dado/fenômeno era descoberto na ciência e estes autores tentavam explicá-lo pela primeira vez.

Por se tratar de um resumo, neste texto apresentaremos apenas os resultados da análise, sem apresentar os extratos dos textos originais, que podem ser obtidos em Gurgel (2010). Abaixo apresentamos a síntese da função de cada um dos tropos linguísticos com um pequeno exemplo de como Galileu os utilizou em seu texto. Contudo, exemplos semelhantes poderiam ser tirados dos outros textos analisados.

I - A metáfora é uma forma de construção de significado que compara dois objetos, sendo que supostamente um deles é bem conhecido e serve como base para compreendermos o segundo. Contudo, este é um processo que tem somente valor heurístico. Os objetos em sua totalidade continuam a ser vistos como entidades bastante distintas, de naturezas diferentes. Assim, seu papel como forma de validação de uma representação é muito pequeno. Em geral ela serve como forma de esclarecimento para o interlocutor. Por ser uma relação distanciada, em geral somente uma característica específica e definida neste processo. Quando lemos o texto de Galileu vemos que a cada novo elemento de análise ele constrói uma metáfora nova, por exemplo, comparando a superfície da Lua à superfície do mar, ou à cauda de um pavão, ou mesmo a determinados tipos de vidro. Em cada

uma destas metáforas uma das qualidades da Lua é ressaltada. Assim essa figura de linguagem ajuda no processo de caracterização do objeto esclarecendo, sobretudo, como ele é.

- II - A metonímia também envolve uma relação entre dois objetos. Contudo esta é uma forma de caracterização muito mais profunda. O objeto que serve como análogo é interpretado como um ser de mesma família. Isto faz com que exista um conjunto de características estruturais que devem ser semelhantes entre os ambos. Assim, um passa a ser a base de interpretação para o objeto desconhecido, passando os dois a serem equivalentes. Desta forma, quando se questiona por que uma entidade nova se comporta de determinada maneira, a base da resposta é saber como seu equivalente se comportaria na mesma situação. É este tipo de pensamento que guia toda argumentação de Galileu. Como vimos, a comparação entre a Terra e a Lua é a base de toda a sua argumentação. Como os objetos têm uma equivalência ontológica, este tipo de comparação faz com que a explicação tenha um valor muito maior.
- III - A sinédoque generaliza a metonímia. Isso faz com que o trabalho de comparação seja eliminado. Com ela, cada entidade é definida por uma construção abstrata que define seu grupo de pertença. Assim, quando se afirma que um objeto é um corpo celeste, automaticamente este ganha uma série de atributos que definirão suas qualidades e comportamentos. Este tipo de generalização permite que qualquer tipo de inferência possa ser feita caso se conheça a família de pertença.

## Considerações finais.

Neste trabalho buscamos caracterizar o papel das diferentes figuras de linguagem em contexto de criação da ciência. Acreditamos que esta proposição pode servir como base para diferentes pesquisas em ensino que têm valorizado o papel da linguagem na aprendizagem científica, seja na elaboração de propostas didáticas, seja em quadros teóricos para avaliação de atividades escolares.

## Referências.

HALLYN, F. (2004) Les Structures Rhétoriques de la Science. Paris: Seuil.

LEMKE, J.L. (1997) Aprender a Hablar Ciencia: Lenguaje, aprendizaje y valores. Barcelona: Paidós.

TODOROV, T (2003) As Estruturas Narrativas. São Paulo: Perspectiva, 2003.

\_\_\_\_\_\_. (1971)

Poética da Prosa. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

YORE, L.D. et. al. (2003) Examining the Literacy Component of Science Literacy: 25 Years of Language Arts and Science Research. In: International Journal of Science Education , vol.25, n.6, 2003.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.