Diários da prática pedagógica: contribuições para uma formação continuada emancipatória
Sandro Rogério Vargas Ustra, Jesuína Lopes De Almeida Pacca, Eduardo Adolfo Terrazzan
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 09/06/2011
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## DIÁRIOS DA PRÁTICA PEDAGÓGICA: CONTRIBUIÇÕES PARA UMA FORMAÇÃO CONTINUADA EMANCIPATÓRIA
## DAILY PEDAGOGICAL PRACTICE: CONTRIBUTIONS TO A CONTINUING EDUCATION EMANCIPATORY
## Sandro Rogério Vargas Ustra 1 , Jesuína Lopes de Almeida Pacca , Eduardo 2 Adolfo Terrazzan 3
1 Faculdade de Ciências Integradas do Pontal/UFU, srvustra@pontal.ufu.br
2 Instituto de Física/USP, jesuina@if.usp.br 3 Faculdade de Educação/UFSM, eduterra@pq.cnpq.br
## Retomando um instrumento de pesquisa
Este trabalho consiste numa reflexão sobre a utilização do Diário da Prática Pedagógica (DPP) em pesquisas desenvolvidas pelos autores envolvendo programas de formação continuada de professores de Física, especialmente nos períodos de 1995-1998 e 2002-2006.
No primeiro período, destaca-se uma pesquisa participante (USTRA, 1997) realizada junto a um curso de atualização e aperfeiçoamento de 180 horas, abordando conteúdos de Mecânica, quando participaram cerca de trinta professores de física da região de Santa Maria, RS. Logo após o final deste curso, a partir do esforço dos próprios professores, foi criado um grupo de trabalho (tema de pesquisas posteriores) para continuar e aprofundar as atividades iniciadas coletivamente. Na perspectiva de investigar as contribuições da formação continuada ao exercício da autonomia didática docente, foram priorizadas algumas estratégias metodológicas, dentre as quais se destacam as observações realizadas durante os encontros, os planejamentos didáticos e os DPP's elaborados pelos professores.
Em linhas gerais, as atividades de formação continuada orientavam-se por um acompanhamento do trabalho dos professores fundamentado na constante reflexão sobre a prática de sala de aula e pela recuperação da importância do planejamento didático como instrumento para o desenvolvimento, avaliação e reformulação da atuação docente. Em síntese, a ideia era desenvolver e valorizar a prática reflexiva dos professores. Priorizaram-se as informações trazidas pelos professores, sobre suas práticas e as significações destas para os mesmos, optando-se por não entrar em sala de aula. Assim, os planejamentos didáticos e os DPP's tornaram-se importantes fontes de dados.
A elaboração dos Diários, inspirada no programa de formação continuada coordenado por Pacca e Villani (1992), foi solicitada no início das atividades do curso, quando se propôs que os professores relatassem por escrito o ocorrido numa determinada aula, onde estivessem aplicando parte do que estava sendo discutido. Para esta elaboração, foi sugerido que observassem alguns pontos, tais como:
modificações verificadas em relação à dinâmica de sala de aula, atitudes e aproveitamento dos alunos, principais dificuldades conceituais enfrentadas no desenvolvimento dos conteúdos e sugestões de modificações nas atividades realizadas. Em cada encontro havia um período de tempo determinado para a sessão de leitura e discussão coletiva dos Diários elaborados. Era um espaço aberto à participação de todos, tanto por parte da equipe coordenadora do curso, quanto por parte dos professores, que se mostravam bastante participativos.
No período de 2002-2006, outra pesquisa participante envolveu um grupo de sete professores de física, da escola pública da Grande São Paulo, comprometidos num programa de formação continuada. Nesta pesquisa (USTRA, 2006), foram investigadas as relações entre desenvolvimento profissional, prática reflexiva e inserção dos professores num contexto problemático e complexo que ocorre numa aula típica do ensino médio.
As atividades desenvolvidas pelo grupo, que se reunia desde 2001, referiamse ao estudo do eletromagnetismo e à construção e desenvolvimento de um planejamento para a sala de aula, objetivando a aprendizagem significativa de seus alunos. Os encontros ocorriam semanalmente, com duração de 06 horas, para discussão de conteúdos e planejamento de atividades. Também eram discutidas questões mais abrangentes relacionadas ao trabalho do professor e ao contexto no qual este se insere. Durante a semana os professores dispunham de mais 12 horas para trabalhar individualmente.
Esse grupo, ao longo do seu funcionamento, constituiu uma comunidade científico-profissional engajada no enfrentamento de problemas da sua prática cotidiana, através da construção coletiva de um planejamento pedagógico que satisfizesse as condições desejadas de uma aprendizagem coerente com pressupostos construtivistas. Os principais instrumentos de pesquisa, neste caso, também foram os registros de campo, os planejamentos didáticos e os DPPs. Estes últimos eram compartilhados, no grupo, de forma predominantemente oral, diferentemente da primeira pesquisa, onde se enfatizava o formato escrito.
## As potencialidades do instrumento de pesquisa
Nos resultados da primeira pesquisa foram caracterizadas três fases na evolução do processo de elaboração dos Diários pelos professores. De uma fase inicial, quando predominavam anotações dos alunos, acompanhadas por uma breve indicação do que se tratava, passando por outra, bastante esquemática em relação às atividades desenvolvidas, mas já com algumas descrições das ações dos estudantes, e culminando num formato mais aprimorado. Nesta terceira fase, os Diários já apresentavam justificativas dos professores para as atitudes dos alunos, com a transcrição de muitas falas. Os professores narravam suas próprias ações nos relatos, explicitando tanto o seu comportamento durante as atividades, como algumas de suas justificativas e expectativas.
Na segunda pesquisa considerada, o grupo de professores já tinha mais experiência com os DPP's, de modo que os relatos eram densos em suas descrições e análises. O compartilhamento dos relatos também ocorria num clima de confiança mútua e colaboração.
Com a utilização dos DPP's, os professores tornaram-se mais críticos e mais atentos para suas aulas e seus alunos, aprimorando as análises do seu trabalho. A atenção também ficou mais aguçada para as ações dos outros professores e às
contribuições recíprocas. As leituras e discussões coletivas, sobre o conteúdo dos DPP's, auxiliaram na sensibilização e explicitação, por parte dos professores, em relação a importantes aspectos de suas próprias práticas didáticas que antes passavam despercebidos e não eram utilizados para repensar o seu trabalho.
Especialmente, nas interações potencializadas pelas análises coletivas dos relatos dos Diários, destacou-se a natureza complexa do trabalho do professor num contexto muito mais amplo que seu espaço de atuação imediata em sala de aula. O espaço proporcionado pelo grupo, através das trocas "de experiências" constituiu-se num momento significativo para reconhecer a complexidade presente nos contextos de cada participante e não apenas isoladamente.
## Potencializando uma formação continuada emancipatória
O reconhecimento da complexidade do trabalho docente, coletivamente, permite aos professores analisar coletivamente as formas de atuação nos contextos próprios, considerando as possibilidades e as limitações reais. As alternativas compartilhadas dão mais segurança aos professores, pois não são ações isoladas ou apostas individuais: existe um grupo que lhes dá respaldo e lhes proporciona o reconhecimento de seu exercício profissional.
Esta amplitude a ser reconhecida não diminui a sala de aula como espaço de enfrentamento da complexidade, pois esta é parte integrante da realidade social e política e (re)produz seus valores e princípios. Os Diários da Prática Pedagógica passam a se constituir em algo muito mais fecundo ao desenvolvimento profissional docente, do que apenas servir de fonte de dados para pesquisas acadêmicas. Esta perspectiva contempla o ensino como uma prática contextualizada, o que confere à formação continuada um caráter eminentemente emancipador (CARR e KEMMIS, 1988; FREIRE, 1997; LISTON e ZEICHNER, 1997).
## Referências
CARR, W. e KEMMIS, S. Teoria Crítica de la enseñanza - la investigación-acción em la formación del profesorado. Barcelona: Martinez Rocca, 1988.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
LISTON, D.P.; ZEICHNER, K.M. Formación del profesorado y condiciones sociales de la escolarización. La Coruña: Paideia; Madrid: Morata, 1997.
PACCA, J.L.A.; VILLANI, A. 'Estratégias de Ensino e Mudança Conceitual na Atualização de Professores'. In: Revista Brasileira de Ensino de Física, 14(4), 222-228, 1992.
USTRA, S. R.V. Condicionantes para a formação permanente de professores de física no âmbito de um curso de atualização e aperfeiçoamento. Santa Maria: Dissertação de Mestrado, PPGE/UFSM, 1997.
USTRA, S.R.V. Formação continuada de professores de física: enfrentamento de problemas reais. São Paulo, Tese de doutorado, FEUSP, 2006.
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