Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

A FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DE FÍSICA NA PERSPECTIVA SÓCIO-HISTÓRICA-CULTURAL: CONSIDERAÇOES INICIAIS

Glauco S F Da Silva, André Rodrigues

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIII
Ano
2011
Data
09/06/2011
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Pôster

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2011

Texto completo

## A FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DE FÍSICA NA PERSPECTIVA SÓCIO-HISTÓRICA-CULTURAL: CONSIDERAÇOES INICIAIS

## PHYSICS TEACHER EDUCATION PROGRAM AS SOCIOHISTORICAL-CULTURAL PERSPECTIVE: FIRST CONSIDERATIONS

## Glauco S. F. da Silva 1 , André Rodrigues 2

- 1 Núcleo de Atividades e Pesquisa em Ensino de Física, CEFET/RJ- UnED Petrópolis;
- 1 Programa de Pós- graduação Interunidades em Ensino de Ciências- USP, glaucosfs@usp.br (apoio CAPES)

## Introdução

Neste trabalho abordamos a formação inicial de professores de Física numa perspectiva Sócio-Histórica-Cultural (SHC). A partir daí, vamos trabalhar com a Teoria da Atividade (LEONTIEV, 1978) e a noção de contradição interna . O nosso objetivo é validar as contradições internas como categorias de análise, e para isso a disciplina de Práticas de Ensino de Física de uma universidade pública foi definida como nossa unidade de análise . A tomada de dados ocorreu durante um ano letivo por meio de filmagens das atividades relativas à disciplina e de entrevistas com alguns licenciandos realizadas no final do ano letivo. O que vamos apresentar neste trabalho se refere às entrevistas sobre as quais temos algumas considerações preliminares.

## Sistemas de Atividade e as contradições

A Teoria da Atividade tem seus pressupostos fundamentais no pensamento de Vigotski, que parte do princípio de que o processo histórico é edificante da psicologia humana. A tese vigotskiana possui duas hipóteses básicas: (i) 'as funções psíquicas do homem são de caráter mediatizado'; (ii) 'os processos interiores intelectuais provêm de uma atividade inicialmente exterior, interpsicológica' (LEONTIEV, 1978, p. 163). Isso significa que a noção de ação mediada e atividade interpsicolágica compõem a base para um pressuposto teórico que busca estabelecer ligações entre o desenvolvimento da mente e o desenvolvimento da atividade humana. Em outras palavras, a Teoria da Atividade está ancorada no materialismo dialético que aborda 'o problema da determinação sócio-histórica do psiquismo humano' (ibid, p. 162). Nesse sentido, 'os teóricos da atividade procuram analisar o desenvolvimento da consciência em tais cenários de atividade social prática. Sua ênfase recai nos impactos psicológicos da atividade organizada, e nas condições e sistemas sociais produzidos em e por tal atividade' (DANIELS, 2003, p. 111).

Engeström (1987) introduziu no modelo de atividade humana os elementos sócios/coletivos- a comunidade, as regras e a divisão do trabalho- mediando as relações entre sujeitos/objetos. Para ele, 'a atividade é formação coletiva, sistêmica, com uma estrutura mediacional complexa. Um sistema de atividade produz ações (...), impulsionada por uma meta consciente, (...) e operações, automáticas e impulsionadas pelas condições e ferramentas disponíveis à ação' (DANIELS, 2003; p.115). A sua importância 'foi ter colocado o foco nas inter-relações entre sujeito

individual e sua comunidade. Ao mesmo tempo (...) enfatizar as contradições nos sistemas de atividade como a força motriz da mudança, e portanto, do desenvolvimento' (ibid.; p.118).

Então, no decorrer da atividade os sujeitos se confrontam com diferentes motivos, objetivos/objetos e valores relativos a como cada qual percebe a atividade. Esta 'e alcançada pela negociação, pela orquestração e pela luta constantes entre diferentes metas e perspectivas de seus participantes' (ENGESTRÖM, 1999 apud DANIELS, 2003; p. 119). Nessa perspectiva, os sujeitos em relação uns com outros no curso da realização da atividade, por meio das suas ações e operações, fazem emergir as diferentes perspectivas que cada um tem do sistema complexo de atividades. As esses conflitos de metas e perspectivas dos sujeitos em ação num sistema complexo de atividade chamamos de contradições internas .

A ideia de contradição ganha destaque na Teoria da Atividade (ENGESTRÖM, 1987) porque possibilita que o ferramental teórico saia do nível analítico descritivo para o campo dos modelos explicativos, ou seja, a partir da ideia de contradição a Teoria da Atividade consegue focar na criação de modelos explicativos sobre as razões e dinâmicas no interior da atividade humana.

A noção de contradição tem suas raízes na análise de Marx sobre a contradição primária do sistema capitalista que se expressa no conceito de mercadoria. Para ele a mercadoria trazia, intrinsecamente, a contradição entre o valor de uso e o valor de troca. Essa contradição se reflete na atividade reificada do sistema capitalista (LUKÁCS, 2010). Em um conhecido exemplo, Leontiev (1978) analisa a atividade do médico de um pequeno vilarejo: ao mesmo tempo em que tem dentre os objetivos de sua profissão curar as pessoas, se vê coagido a desejar o aumento do número de doentes, pois é destes que depende o exercício de sua profissão e, em última análise sua própria sobrevivência. Esses 'dualismos' ajudam a forjar a consciência reificada do ser humano.

Ao mesmo tempo em que as contradições internas da atividade constituem força de paralisação - mantenedor do status quo - é a chave para compreender boa parte de sua dinâmica, ao menos no que tange a origem de sua automovimentação. Uma atividade qualitativamente distinta surge como solução da contradição anterior. Essa 'nova' atividade também traz novas contradições. A dinâmica entre o aparecimento e superação das contradições no interior dos sistemas de atividades é o que nos permite identificar e explicar a dinâmica da atividade humana (ENGESTRÖM, 1987).

Engeström & Sannino (2010) trazem diversos exemplo de trabalhos realizados nos últimos anos que visam compreender as transformações organizacionais em diversos níveis por meio de suas contradições internas. Nesse sentido são apresentados trabalhos realizados em diferentes sistemas como: (i) um sistema de saúde e cuidados ao idoso de Helsinki, que contava com uma equipe com mais de 1700 funcionários e visava transformar sua forma de atendimento buscando maior integração entre os serviços prestados; (ii) um grupo de professores no sul da Califórnia, que buscava integrar as diversas disciplinas e práticas dentro da escola.

Essa gama variada de exemplos mostra a versatilidade do referencial teórico e nos permite 'generalizar' as contradições como prisma para a análise da atividade de formação inicial de professores de Física.

## A disciplina de práticas como sistema de atividade

O nosso olhar então se volta para percepção da disciplina em questão como um sistema complexo de atividade, ou seja, como um 'cenário de atividade social prática' (DANIELS, 2003) em que os sujeitos entram em atividade por meio de ações e operações coordenadas de formas hierárquicas, cuja atividade principal refere-se a tornar-se professor de Física.

Na disciplina estão envolvidos: a professora da universidade, responsável pela disciplina; os educadores , responsáveis pelo acompanhamento dos licenciandos no estágio (dois dos pesquisadores exerciam essa função); as monitoras , estudantes da graduação que auxiliavam a professora em algumas das atividades relativas à disciplina; os licenciandos , que tinham que preparar suas atividades de estágio. Todos esses se constituem sujeitos desse sistema de atividade, com metas e perspectivas diferentes. Logo, no decorrer da atividade, essas diferenças vão emergir como contradições internas desse sistema, as quais nos permite analisar a dinâmica desse processo, no sentido de como as contradições serviram de obstáculos ou motor para o desenvolvimento da atividade.

## Considerações finais

A análise das entrevistas realizadas com os licenciandos nos permite chegar a algumas considerações preliminares sobre as contradições existentes de nossa unidade de análise: (i) o locus de formação do professor (prática/licenciatura); (ii) a relação conflituosa entre bacharelado e licenciatura; (iii) a relação entre o instituto de física e o instituto de educação.

Considerando os elementos fundamentais da perspectiva SHC, da ação mediada e atividade interpsicológica, a ênfase da análise não consiste na mera identificação desses elementos (i, ii, iii), mas sobre qual o significado que eles ganham na práxis da atividade de tornar-se professor. Nesse sentido, pensar a formação inicial de professores de Física como um sistema complexo de atividade implica em considerar a estreita relação entre o desenvolvimento da consciência, (tornar-se professor) e o processo histórico-cultural (formação com as suas tensões/dilemas).

## Referenciais

DANIELS, H.

Vygostsky e a Pedagogia

. São Paulo: Loyola, 2003.

ENGESTRÖM, Y. Learning by expanding: An activity-theoretical approach to developmental research . Helsinki: Orienta-Konsultit, 1987.

ENGESTRÖM, Y. "Changing pratice through research: changing research throught pratice", discurso programático na 7a Annual Interbational Conference on PostCompulsory Education and Training, Griffih University, Australia, 1999

ENGESTRÖM, Y.; SANNINO, A. Studies of expansive learning: Foundations, findings and future challenges. Educational Research Review, v. 5, n. 1, p. 1-24, December 21 2010.

LEONTIEV, A. N. Desenvolvimento do Psiquismo . Lisboa: Livros Horizonte, 1978. LUKÁCS, G. Prolegômenos para uma ontologia do ser social: questões de princípios para uma ontologia hoje tornada possível. 1. São Paulo: Boitempo, 2010.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.