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FUTEBOL, ESCOLA PÚBLICA E GÊNERO: CONTEXTUALIZAÇÃO E DESEMPENHO DIFERENCIAL

Maurício Urban Kleinke

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIII
Ano
2011
Data
09/06/2011
Linha de pesquisa
Ensino / Aprendizagem / Avaliação Em Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## FUTEBOL, ESCOLA PÚBLICA E GÊNERO: CONTEXTUALIZAÇÃO E DESEMPENHO DIFERENCIAL *

## Maurício U. Kleinke

Instituto de Física Gleb Wataghin/Unicamp, kleinke@ifi.unicamp.br

## Introdução

Nos últimos anos, as discussões sobre contextualização no ensino de ciências tem se ampliado e propiciado tentativas de inserção de contextos, seja nos livros didáticos, seja nas questões dos grandes exames, como o Enem e os vestibulares. Para ser bem sucedida, a contextualização deve levar em conta o olhar e a vivência do estudante, pois

'não seriam poucos os exemplos [...] de planos, de natureza política ou simplesmente de natureza docente, que falharam porque os seus realizadores partiram da sua visão pessoal da realidade. Porque não levaram em conta [..] a quem se dirigia o seu programa, a não ser como pura incidência de suas ações'.(FREIRE, 1987, p.48)'

Com o objetivo de contribuir para os debates sobre esse tema, analisamos uma questão proposta na prova de Física do vestibular da Unicamp que apresentou como contexto o futebol. Por se tratar (ainda) de um assunto predominantemente masculino (embora amplamente difundido nos meios de comunicação e em conversas cotidianas) nos propomos a analisar nesse trabalho como essa contextualização se reflete no desempenho de distintos grupos de candidatos, separados por formação escolar (redes pública ou privada) e por gênero.

Exames com grande número de participantes possibilitam analisar de forma estatística privilegiada o desempenho dos candidatos e, através dessas análises, obter

'dados sobre a população escolar cumprindo a maior função da avaliação, ou seja, a de informar à sociedade, às escolas, aos alunos, aos professores e aos pais sobre o aprendizado dos estudantes, da eficiência da escola em função das políticas públicas e das relações contextuais entre os estabelecimentos de ensino e a comunidade nas quais se situam'. (KRASILCHICK 2000)

## Universo analisado e técnicas estatísticas

O pressuposto geral nas avaliações é que todos os candidatos têm a mesma proficiência sobre o conteúdo, o que torna a média um representante razoável para o desempenho. Nas análises de desempenho diferencial considera-se que diferentes grupos podem apresentar proficiências distintas, devendo, portanto, ser comparados em faixas de proficiência similar . O indicador de proficiência que utilizamos foi a nota total da prova de Física. Foram definidas três faixas de proficiência a partir da nota final para 13.334 alunos respondentes da prova de Física da 2ª fase do Vestibular Unicamp 2010 . †

Um dos indicadores de análises educacionais é a medida da razão de chance (odds ratio, OR), que é simplesmente a razão entre as probabilidades de um grupo focal (em análise) atingir êxito (candidatos do grupo focal com êxito, FCE) ou não (focal sem êxito, FSE) quando comparado à probabilidade do grupo de referência (RCE e RSE, de maneira similar). Em nosso caso, êxito significa obter uma nota maior ou igual à metade da nota possível na questão, e os grupos focais foram os alunos da rede pública e as mulheres, sendo os grupos de referência os candidatos da rede privada e os homens, respectivamente. A razão de chance é expressa por

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As técnicas associadas ao desempenho diferencial da questão, differential item functioning (DIF), consistem em calcular a OR por faixas de proficiência, indicadas pela da nota da prova. Em vez de ser comparado todo o grupo, comparam-se pessoas com desempenho similar, sendo que a razão de chance passa a ser conhecida como razão das probabilidades de acerto ( α ) (ANGOFF, 1993). Finalmente, podemos obter a partir de α o índice de Mantel-Haenszel (MH), (MH = - 3,25 x ln( α)) . Valores de MH maiores que um indicam que a questão apresenta viés estatisticamente significativo em relação a algum dos dois grupos analisados, isto é, favorece um grupo, para candidatos com um desempenho geral na prova similar.

Por outro lado, um dos indicadores utilizados para avaliar a dificuldade da questão é o índice de facilidade, IF, que é a média da questão normalizada entre zero e um. Isso permite avaliar se questões mais ou menos difíceis estão relacionadas com o desempenho dos diferentes grupos.

Na Tabela 1 apresentamos os resultados desses índices para a prova como um todo, para permitir uma visão mais geral do resultado, independente de nos focarmos principalmente na questão de interessse para esse trabalho..

## Discussões e conclusões

A questão em análise é a de número 02 da prova, cujo enunciado é apresentado a seguir:

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Essa foi uma questão fácil (F=0,61), que não diferenciou alunos da rede pública ou privada, apresentando MH=-0,06, o que indica igualdade de desempenho, sendo essa igualdade associada não apenas à contextualização familiar aos dois grupos, como também ao fato de que os fundamentos de Física necessários à solução do problema foram ministrados tanto na rede pública quanto na rede privada. Contudo, ao separarmos por gênero, percebemos que essa questão é 'masculina', apresentando enorme viés de gênero (MH=-2,73).

Tabela 1- Número da questão da prova de Física, índices de facilidade e de MH para o grupo da rede pública em comparação à rede privada e para o grupo de moças em comparação aos rapazes.

Embora o futebol seja bastante trabalhado como contexto para discussões sobre Física, em artigos acadêmicos como o de Aguiar e Rubini (2004) ou em sites dedicados ao ensino, ao olharmos para gênero, vemos que as mulheres podem ser prejudicadas em processos de avaliação. Um elemento curioso do esquema proposto na questão são as letras utilizadas para caracterizar os jogadores (L, A, Z e G). Esse conjunto de letras sugere relação com as posições típicas de jogadores em um time de futebol: lateral, atacante, zagueiro e goleiro; o que facilitaria a análise da questão para um conhecedor.

Mostramos recentemente que questões contextualizadas em universos de interesses masculinos apresentavam um viés desfavorável ao desempenho feminino (KLEINKE e GEBARA, 2010). Esses novos resultados sugerem que qualquer esforço de contextualização deve vir acompanhado de grande atenção aos contextos propostos para os diferentes grupos envolvidos nos processos de ensino ou de avaliação.

## Referências

ANGOFF, W.H.. Perspectives on Differential Item Funcioning Methodology, em Diferential Item Functioning , HOLLAND, P.W. e WAINER H. (Org.) Hillsdale: Lawrence Erlabum Associates, 1993.

AGUIAR, C.E., RUBINI, G.. A Aerodinâmica da Bola de Futebol, Revista Brasileira de Ensino de Física , 2004, 26(4), 297-306.

FREIRE, P.. A Pedagogia do Oprimido, 17ª Ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987, pg.48.

KLEINKE, M. U., GEBARA, M.J.F.. Ensino De Física E Gênero: Avaliação De Questões De Exames Vestibulares . XII Encontro de Pesquisadores em Ensino de Física , Águas de Lindóia, Atas do XII EPEF, 2010.

KRASILCHICK, M.. Reformas e Realidade: O Caso do Ensino das Ciências, São Paulo Em Perspectiva ,14, n. 1,2000, 85-93.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.