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A RELAÇÃO ENTRE O SABER FÍSICA E O DESENVOLVIMENTO DO PROCESSO GRUPAL: A ANÁLISE DE TRÊS CASOS

Glauco S F Da Silva, Alberto Villani

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XIII
Ano
2011
Data
09/06/2011
Linha de pesquisa
Ensino / Aprendizagem / Avaliação Em Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## A RELAÇÃO ENTRE O SABER FÍSICA E O DESENVOLVIMENTO DO PROCESSO GRUPAL: A ANÁLISE DE TRÊS CASOS

## THE RELATIONSHIP BETWEEN KNOWLEGDE PHYSICS AND GROUP PROCESS' DEVELOPMENT: THE ANALYSIS OF THREE CASES

## Glauco S. F. da Silva , Alberto Villani 1 2

1 Núcleo de Atividades e Pesquisa em Ensino de Física, CEFET/RJ- UnED Petrópolis; Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências- USP, glaucosfs@usp.br (apoio CAPES)

2 Instituto de Física da USP, avillani@if.usp.br (apoio parcial CNPq)

## Introdução

A perspectiva para abordagem dos trabalhos em grupo nos ambientes de ensinoaprendizagem que utilizamos em nossos trabalhos se refere às interações entre os sujeitos (estudantes e professor) e quais os efeitos que isso pode provocar no processo de ensino-aprendizagem (SILVA, 2008). O que apresentamos neste artigo é uma síntese desses trabalhos proporcionando uma visão geral, com um ponto de vista ainda não explorado: a relação entre a Física e o desenvolvimento do processo grupal . O nosso objetivo, então, consiste em apresentar os diferentes grupos da classe investigada e como a relação com a Física lhes proporcionou diferentes desenvolvimentos.

A turma investigada foi de 1º ano do Ensino Médio de uma escola particular do interior de São Paulo. A divisão em grupos foi feita logo nos primeiros dias de aula e seguiu a escolha dos próprios alunos, mantendo-se essencialmente os mesmos ao longo do ano. O pesquisador (que não era o professor da turma) esteve imerso no campo de pesquisa fazendo anotações e filmava a cada aula um grupo diferente de alunos. Os alunos tinham que resolver atividades retiradas do próprio livro ou preparadas pelo professor . 1

## Marco Teórico e procedimentos metodológicos

Trabalhamos com as ideias de Pichon-Rivière (2005) sobre grupo operativo. Os principais conceitos estão em torno da tarefa e do vínculo . A operatividade está, então, no fato de que se trata de um grupo centrado na tarefa , o que significa 'abordar através do grupo, centrando-se na tarefa, os problemas da tarefa, da aprendizagem, e problemas pessoais relacionados com a tarefa, com a aprendizagem (...) que tem o caráter grupal' (ibid, p.272). A concepção pichoneana de aprendizagem relaciona-se com a mudança que o sujeito em ação ou sujeito operativo experimenta, a partir da superação do montante de ansiedade que é despertado diante do novo. A tarefa , que 'consiste na abordagem do objeto de conhecimento ' (ibid, p.273), possui duas dimensões: uma 2 explícita e uma implícita . A primeira diz respeito à atividade (de Física) que o grupo tem que resolver e que constitui a razão de ser do grupo. Já a tarefa implícita se refere à manutenção da coesão do grupo durante a realização da tarefa explícita.

Procedemos à análise para cada grupo de duas formas: uma diacrônica , estendida ao longo do tempo, através das filmagens e notas de campo; e outra sincrônica , quando aprofundamos a interpretação. Com isso identificamos uma característica principal para cada um dos grupos, que passaram a ser chamados assim: grupo da

mudança, grupo da dependência, grupo da resistência . Neste trabalho, o nosso esforço é discutir a relação dessas características com a Física.

Na análise sincrônica, basicamente, o que fizemos foi pensar em cada aula analisada como uma 'sessão do grupo a desenvolver-se em três momentos temporais: abertura, desenvolvimento e fechamento . Os emergentes de abertura devem ser (...) registrados pelo observador (...) e observar como reaparece modificado no momento do fechamento' (PICHON-RIVIÈRE, 2005; p.181, grifo nosso).

## Análise dos grupos

- O grupo da mudança apresentava as seguintes características: (i) um aluno assumia o papel de líder (conduzia as etapas da tarefa e exortava o grupo quando estavam distraídos); (ii) as intervenções do professor, inicialmente, reforçam esse papel; (iii) a inserção das funções proporcionou uma nova rotina de tal forma que o papel de 3 líder circulava entre os alunos; (iv) a comunicação do grupo tornou-se menos estereotipada. A conseqüência foi um salto qualitativo do grupo e uma vez que a liderança estava partilhada, eles não mais queriam voltar a situação anterior, criando assim uma nova rotina que de certo modo lhes era agradável.
- O grupo da dependência , que era o único composto somente por meninas, tinha as seguintes características: (i) se auto declararam como 'grupo da Luluzinha'; (ii) tinha uma aluna que assumia o papel líder autocrática ; (iii) as intervenções do professor não eram freqüentes no início; (iv) duas alunas diziam que não sabiam Física; (v) sempre diante de uma dificuldade chamavam o professor e ficavam, em geral, esperando até a sua chegada; (vi) havia um embate entre duas alunas, em que uma queria uma mudança do status quo do grupo e a outra parecia querer ficar na dependência do professor. O grupo permanece na pré-tarefa 4 , não superando a dependência do professor. Aquele embate entre duas alunas tem um significado mais amplo, no sentido da manutenção do grupo porque elas representavam forças antagônicas, em que de um lado, uma apontava para mudança enquanto que a outra se esforçava para manter a dependência. Parecenos, então, que o equilíbrio dessas forças mantinha o grupo unido.
- O grupo da resistência apresentava as seguintes características: (i) tinha a presença de um líder autocrático , Gomes; (ii) seu pai era professor de Física na mesma escola e um dos donos da escola; (iii) os alunos iniciaram um ataque ao aparato de pesquisa, golpeando o microfone que estava perto deles e desligando a câmera em umas aulas; (iv) durante a atividade, Gomes realizava tudo sozinho e os demais passavam o tempo; (v) as funções não tiveram efeito esperado pelo professor. O grupo se manteve na pré-tarefa , cuja resistência em fazer o que professor pedia era crescente a cada aula, embora eles não agissem de forma agressiva para com o professor.

## Considerações sobre os eventos

O papel que a Física exerce em cada um dos grupos está relacionado com o modo do grupo operar a tarefa explícita , ou seja, os exercícios de Física. A atenção para a tarefa explícita se faz importante porque se constitui no 'organizador dos processos de pensamento, de comunicação e de ação que ocorrem na situação de grupo' (FERNANDES, 2003, p.197). No caso do ensino da Física a tarefa apresenta uma característica muito peculiar que está relacionada ao fato de que a resposta a ser

alcançada é fixada a priori e assim haverá um resultado certo (ou errado). Esse fator favorece que numa resolução de um exercício de Física haja uma polarização para aquele aluno que domina mais o conteúdo e, por conseguinte, apresenta alguma habilidade para resolvê-lo. A partir daí podemos pensar a função que a Física, enquanto objeto do conhecimento, cumpria para cada grupo.

No caso do grupo da mudança, o papel de líder exercido somente por um aluno passa a circular entre os demais. Para esse grupo, assumir esse papel somente poderia ser realizado sabendo Física. Portanto, assumir esse papel significa optar pela busca mais aprofundada do conteúdo em questão. A essa busca por aprender Física, que não era tida como impossível pelos demais membros do grupo, associamos a mudança que ali ocorreu. Resumidamente, saber Física era poder ser líder .

No grupo da dependência, as alunas assumiram que não sabiam Física e que, portanto não eram capazes de resolver nenhuma atividade. Somente o professor era considerado o detentor do conhecimento e era quem estava autorizado, por assim dizer, a suprir essa demanda. Aquela aluna que buscava sair dessa situação era rechaçada pelas colegas, que sempre solicitavam o professor. Neste caso, as funções, que no outro grupo provocaram a mudança, não tiveram esse mesmo efeito para este, pois elas pensavam que somente o professor poderia salva-las e não se mobilizavam para sair dessa situação. Dessa forma, saber Física era deixar de depender do professor.

Por fim, o grupo da resistência foi o que mais nos chamou atenção, pois se encaminhou num sentido jamais esperado. A sua relação com Física assumiu um caráter institucional. Para Gomes, aceitar o que o professor pedia era como negar o pai, professor de Física e dono da escola. As funções, por exemplo, nunca foram aceitas nesse grupo, embora nada disso fosse dito explicitamente. A relação deste grupo com o professor era somente institucional, isto é, os membros do grupo não podiam não fazer as atividades, mas também não a faziam como o professor pedia. Aceitar avançar no conhecimento de Física com o professor era trair este vínculo. Portanto, saber Física era manter o vínculo com o pai e com a instituição.

## Conclusões

Para que a aprendizagem seja efetiva é preciso que a tarefa explícita desperte no aluno um montante de ansiedade ( tarefa implícita ) em relação ao objeto de conhecimento, a qual seria como um sinal de alarme capaz de revelar quanto o objeto de conhecimento é atrativo. Isso significa que deve haver uma 'distância ótima [entre sujeito e objeto], que corresponde a uma ansiedade ótima, acima ou abaixo da qual a aprendizagem fica prejudicada' (BLEGER, 2001; p83). Essa ansiedade depende tanto de condições anteriores quanto de intervenções ao longo do processo. Conhecer essas condições e seus desenvolvimentos constitui uma informação importante para o professor poder regular as atividades de sala de aula e proporcionar intervenções no sentido de promover a operatividade dos grupos na busca pelo conhecimento de Física. Operatividade tanto na resolução da tarefa explícita, que significa a relação com a Física, quanto na tarefa implícita, que se relaciona às interações dos alunos no processo de desenvolvimento da primeira.

## Referências

BLEGER, J. Grupos operativos no ensino, In: \_\_\_\_\_, Temas de Psicologia, entrevistas e grupos . 2ª ed.(2ª tiragem) São Paulo: Martins Fontes, 2001

FERNADES, W. J et al (Orgs). Grupos e configurações vinculares . Porto Alegre: Artes Médicas, 2003.

PICHON-RIVIÈRE, E. O Processo Grupal . 7º edição. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

As intervenções do professor e o processo grupal nas aulas de Física: uma . 241f. Dissertação Universidade de São Paulo.

SILVA, G. S. F. análise à luz da teoria de grupos operativos São Paulo, 2008.

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