UM ESTUDO SOBRE O CONCEITO DE CALOR VEICULADO PELOS LIVROS DIDÁTICOS DE 1928 A 2008
Vanessa Nóbrega De Albuquerque, Talita Raquel Romero, Yassuko Hosoume
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 09/06/2011
- Linha de pesquisa
- Didática, Currículo E Inovação Educacional No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## UM ESTUDO SOBRE O CONCEITO DE CALOR VEICULADO PELOS LIVROS DIDÁTICOS DE 1928 A 2008
## A STUDY ABOUT THE CONCEPT OF HEAT ON TEXTBOOKS SINCE 1928 TO 2008
## Vanessa Nóbrega de Albuquerque 1 , Talita Raquel Romero , Yassuko Hosoume 2 3
1 Mestranda da Universidade de São Paulo / Instituto de Física, vanessan@usp.br 2 Mestranda da Universidade de São Paulo / Instituto de Física, talita.romero@usp.br 3 PUCMinas/Instituto de Física da USP, yhosoume@if.usp.br
Palavras-chave:
livros didáticos, calor, ensino de física
## 1) Justificativa e Objetivos
A identificação de como um conceito físico foi apresentado nos livros didáticos (LD) em diferentes épocas, como também das distintas explicações dadas por diferentes autores sobre um mesmo tema científico em um determinado período da história da educação, nos permitem compreender aspectos da cultura científica e da visão pedagógica enraizadas no contexto escolar de cada época, possibilitando dessa forma delinear alguns elementos para compreensão histórica da disciplina física. E acreditamos que essa compreensão nos proporcionará instrumentos para sermos capazes de escolhas mais cuidadosas dos materiais escolares disponíveis atualmente.
Nessa perspectiva, este trabalho analisa o conceito de calor em LD de Física, de 1928 (antes da Reforma Capanema/1942) a 2008 (ano após a implantação do PNLEM/2007), dois momentos bastante significativos da educação brasileira. A escolha do tema vem de sua importância no desenvolvimento da ciência de referência, caracterizada pelo debate histórico sobre o conceito calor que se desenrolou durante o século XIX, e pela sua presença constante nos currículos escolares.
## 2) Marco Teórico
O conhecimento científico ao se transformar em objeto de ensino passou por processos de recontextualização e de legitimação pela ordem social vigente (MARANDINO, 2004). A presença ou não de uma disciplina escolar no currículo não se restringe a problemas epistemológicos ou didáticos, mas articula-se ao papel político que esse saber desempenha ou tende a desempenhar, dependendo da conjuntura educacional. Dentre as pesquisas em disciplinas escolares as mais investigadas se referem aos conteúdos explícitos e dentre as fontes mais utilizadas nesta linha estão os programas curriculares e livros didáticos, ao lado das obras das ciências de referência (CHERVEL,1990), podendo 'inclusive identificar pesquisas que se interligam, realizando uma história das disciplinas e, ao mesmo tempo, a do livro didático' (BITTENCOURT, 2003).
É importante lembrar que o LD não é o único fator que dita qual foi o saber que chegou a sala de aula. Consideramos a colocação de Wuo de que 'a etapa da atividade do professor talvez tenha aí um caráter último, uma vez que limitações da literatura poderiam estar sendo contornada nos trabalhos de sala de aula, como também a riqueza potencial de um livro poderia não estar sendo devidamente atualizada . (WUO, 2003, p.309). '
Sobre as pesquisas envolvendo o LD, FERNANDES (2004) ressalta a necessidade de se considerar diferentes campos de estudo e privilegiar uma
diversidade de fontes e aponta para a existência de um amplo campo de pesquisa, abordando desde a questão de sua função educacional até as influências históricoculturais em sua concepção, produção e distribuição. No que concerne ao LD de Ciências, embora a maioria das pesquisas existentes se enquadre na análise do próprio livro ou do seu conteúdo, as produções recentes têm ampliado este escopo, indo mais além, denunciando suas deficiências e propondo melhorias. As principais abordagens das pesquisas em livros didáticos de Ciências têm dado conta desde sua concepção, linguagem, discurso, produção, escolha pelos professores, usos, até suas relações com as políticas públicas e os currículos escolares (MARTINS, 2006). A pesquisa aqui apresentada se enquadra na última abordagem, identificando as diferentes maneiras de conceituar a grandeza física calor e relacioná-las aos diferentes momentos da história da educação brasileira.
## 3) Metodologia e Análise de Pesquisa
WUO (2003) aponta inúmeros traços semelhantes entre os LD de Física, características singulares que tornou possível caracterizar quatro fases de transformações pelas quais estes passaram ao longo do século XX. Os LD da 1ª fase são mais descritivos, detalham experiências de laboratório para exemplificar os conceitos, apresentam equações matemáticas sem muitas deduções e um número menor de exercícios em relação aos da 2ª fase. Os LD da 3ª fase mantém o 'abandono' ao tratamento qualitativo e descritivo das máquinas e mecanismos. Enfatizam a resolução de exercícios, problemas e testes de vestibulares. A 4ª fase caracteriza-se pela diversidade e grande número de publicações. Porém, há uma retomada da análise qualitativa, tanto nas explicações tecnológicas como na exposição dos próprios conceitos físicos. (WUO, 2003). Para encaminhar nosso estudo, selecionamos 10 obras, considerando tal subdivisão, com o acréscimo de uma quinta fase, que contempla os livros publicados até 2008, ano após a implantação do PNLEM/2007. A partir daí constituímos o corpus pela apresentação dos livros, índice, capítulos e propostas suplementares relacionados ao tema.
As investigações foram desenvolvidas em duas etapas. A primeira envolveu a identificação dos aspectos históricos e filosóficos da cultura científica de cada um dos livros analisados. A etapa subsequente concentrou-se na análise da definição de calor, baseado em um estudo preliminar sobre a evolução deste conceito ao longo do século XIX, até a formulação sobre sua natureza vibratória. Este forneceu subsídios para comparamos à definição encontrada nos LD com o conceito aceito pela ciência de referência. Apresenta-se a seguir as definições de calor dadas pelos autores e as associações estabelecidas com outros saberes para fins didáticos.
Os LD da 5ª fase mantêm as características gerais apresentadas pelos LD da 4ª fase. O 'como' o conceito é apresentado é delimitado pelas influências identificadas e definidas por Wuo para caracterizar as fases nas quais os livros analisados se enquadram. E o conceito calor nem sempre é abordado no livro de acordo com a ciência de referência. Por exemplo, podemos destacar que ROMANO (1928), ainda que defina calor como resultado da energia dos movimentos moleculares, o apresenta através da associação com a luz, apesar do calor já ter sido definido e aceito pela comunidade científica a partir da relação calor e trabalho. Segundo ele, a luz e o calor possuem a mesma origem, sendo que os raios calóricos passam a ser luminosos a partir de 325°, e o que os diferem é que nossos olhos passam a percebê-lo. Cinquenta anos mais tarde, o conceito de calor não aparece nos LD da forma como evoluiu na ciência.
## 4) Conclusões
Nossos estudos mostram que as características encontradas nos 10 livros selecionados estão em consonância com as observadas por WUO (2003) para cada uma das fases, temporalmente/historicamente, tanto no que diz respeito à ênfase qualitativa ou quantitativa quanto a forma de abordagem utilizada por cada um dos autores. Além disso, o conceito calor, conforme destacamos na tabela, é tratado de diferentes maneiras nos livros didáticos ao longo do tempo. Portanto, acreditamos que as distintas maneiras que o conceito é abordado nos livros parecem ir ao encontro das pesquisas que afirmam que estes estão não baseados apenas pela ciência de referência, mas que também sofrem influência de questões históricas, sociais, culturais ou mesmo da formação e crenças do autor sobre o que é Educação.
## 5) Referências
BITTENCOURT, C.M.F. Disciplinas Escolares: História e Pesquisa. In: OLIVEIRA, M. A. T.; RANZI, S. M. F. (Org.). História das disciplinas escolares no Brasil: contribuições para o debate. Bragança Paulista: EDUSF, 2003. p.09-38.
CHERVEL, A. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. In: Teoria & Educação, Porto Alegre, n.2. 177-229, 1990.
FERNANDES, A. T. De C.. Livros didáticos em dimensões materiais e simbólicas. In: Educação e Pesquisa, São Paulo, v.30, n.3, p. 531-545, set./dez. 2004
MARANDINO, M. Transposição ou recontextualização? Sobre a produção de saberes na educação em museus de ciências. In: Revista Brasileira de Educação, n. 26, Maio /Jun /Jul /Ago, 2004, p.95-108
MARTINS, I. Analisando livros didáticos na perspectiva dos estudos do Discurso: compartilhando reflexões e sugerindo uma agenda para a pesquisa. In: Proposições, v. 17, n. 1, p. 117- 136, 2006.
WUO, W. O ensino de Física na perspectiva do livro didático. In: OLIVEIRA, M. A. T.; RANZI, S. M. F. (Org.). História das disciplinas escolares no Brasil: contribuições para o debate . Bragança Paulista: EDUSF, 2003. p.299-338.
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