CARACTERIZAÇÃO DO DISCURSO DO PROFESSOR EM AULAS DE FÍSICA QUE UTILIZA RECURSOS MULTIMÍDIA
Marco Aurélio Alvarenga Monteiro, Isabel Cristina De Castro Monteiro, José Silvério Edmundo Germano
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 08/06/2011
- Linha de pesquisa
- Tecnologias Da Informação E Comunicação E O Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## CARACTERIZAÇÃO DO DISCURSO DO PROFESSOR EM AULAS DE FÍSICA QUE UTILIZA RECURSOS MULTIMÍDIA
## CHARACTERIZATION OF THE TEACHER SPEECH IN PHYSICS CLASSES THAT USES MULTIMEDIA RESOURCES
Marco Aurélio Alvarenga Monteiro , Isabel C. C. Monteiro , José S. E. 1 2 Germano 3
1
FEG-UNESP- DFQ- marco.aurelio@feg.unesp.br 2 FEG-UNESP- DFQ- monteiro@feg.unesp.br 3 ITA- silverio@ita.br
## 1 - Justificativa e objetivos
Os estudos sobre a utilização do computador e das novas tecnologias no ensino têm apontado para a importância de o professor ser capaz de integrar tais recursos à sua prática pedagógica.
Na visão de Valente (2003), a formação de professores para a utilização das novas tecnologias no ensino deve ir além de oferecer condições para que os docentes apenas dominem a máquina e o software. Para o autor, é fundamental que os professores possam orientar a utilização do computador a partir de indicações pedagógicas que sustentem o planejamento de aulas bem como sua condução em situação real de ensino.
Nesse trabalho propomos uma reflexão sobre como o discurso do professor em uma aula de Física pode facilitar ou dificultar uma interação rica entre os alunos e os diferentes objetos de aprendizagem produzidos a partir de recursos multimídias.
## 2 - Marco Teórico: As indicações da teoria de Vigotski dando suporte à integração do computador e a prática pedagógica do professor de Física
Para Vigotski (2001), a linguagem e o pensamento estão correlacionados e, portanto, as interações sociais estabelecidas entre aprendizes e um parceiro mais capaz são decisivas no processo de ensino e de aprendizagem.
A relação entre pensamento e palavra é um processo vivo; o pensamento nasce através das palavras. Uma palavra desprovida de pensamento é uma coisa morta, e um pensamento não expresso por palavras, permanece uma sombra. A relação entre eles não é, no entanto, algo já formado e constante; surge ao longo do desenvolvimento e também se modifica (VIGOTSKI,2001, p.190).
Nesse sentido, o conceito de internalização é central na teoria de Vigotski, tendo em vista que, a partir desse ponto de vista, é mediante a fala que o aprendiz constrói uma representação interna de suas interações e relações externas.
Por esse prisma é preciso considerar que a linguagem não é somente um instrumento de comunicação, mas se constitui, fundamentalmente, em um poderoso mecanismo a partir do qual o indivíduo cria símbolos, representações
(signos) da realidade na qual está inserido. Portanto é a partir da linguagem que o indivíduo internaliza o mundo real, num processo que se estabelece do nível interpessoal para o nível intrapessoal.
Na medida em que este estímulo auxiliar possui a função específica de ação reversa, ele confere à operação psicológica formas qualitativamente novas e superiores, permitindo aos seres humanos, com auxílio de estímulos extrínsecos, controlarem o seu próprio comportamento. O uso de signos conduz os seres humanos a uma estrutura específica de comportamento que se destaca do desenvolvimento biológico e cria novas formas de processos psicológicos enraizados na cultura. (VIGOTSKI, 2001, p. 45).
Contudo, para o autor, não é qualquer interação social que leva à aprendizagem, mas, somente aquela que é estabelecida dentro da zona de desenvolvimento proximal do aprendiz (ZDP), uma espécie de desnível cognitivo do aprendiz dentro do qual a instrução é mais viável ou produtiva (HOWE, 1996).
Nessa direção, valoriza-se o papel do professor como agente que introduz o aluno no contexto cultural, a partir de um processo de mediação entre as idéias e as concepções do aluno e o saber formal.
Desse ponto de vista, torna-se importante estudar as relações interativas que se dão entre professor e alunos, entre alunos e alunos e entre alunos e objeto de ensino, para que se possa entender as múltiplas e complexas variáveis que interferem nas diversas formas interativas e discursivas que podem ocorrer entre os participantes do contexto educacional de sala de aula, facilitando ou criando obstáculos ao processo de ensino e de aprendizagem.
Nesse trabalho buscamos analisar uma aula de Óptica geométrica ministrada por um professor de Física que utilizou diferentes recursos multimídias para conduzir sua interação com os alunos. Nosso intuito foi o de entender como tais recursos foram adaptados pelo professor em sua interação com os alunos.
## 3 - Metodologia e análise da pesquisa
A coleta de dados de nossa pesquisa foi realizada a partir da vídeogravação de uma aula de Física que tratou sobre conceitos de Óptica Geométrica utilizando uma plataforma que disponibilizava diferentes recursos multimídias para o professor.
Para abarcarmos, em sua totalidade, as diferentes dimensões das interações sociais que se estabelecem entre professor e alunos no contexto de sala de aula, a partir da utilização de recursos multimídias, optamos por adotar, como referencial de análise de dados, a perspectiva teórica da Análise do Discurso de orientação francesa.
Mais especificamente, demos principal atenção ao conceito de formação discursiva, tendo em vista que Foucault (2000) chama atenção para o fato de que, num discurso, os enunciados se apresentam heterogêneos como sistemas de dispersão. Nesse sentido, para o autor, formação discursiva diz respeito aos enunciados que mantém uma regularidade, seja no domínio dos signos, em função de um determinado tipo de enunciação, com relação ao
conjunto de conceitos ou em função da permanência das escolhas temáticas. As formações discursivas, portanto, devem ser compreendidas em relação a um determinado espaço discursivo, ou seja, em relação a determinados campos de saber. Daí se poder falar em discurso pedagógico, científico, médico, político, entre outros. Em linhas gerais, pela formação discursiva, se conhece as características dos enunciados pertencentes àquele tipo de domínio específico, a partir do qual os protagonistas desses discursos 'sabem' o que pode e o que não pode ser dito e reconhecem significações que, em outro domínio, são estranhas e pouco significativas.
Ao analisar os dados caracterizamos o discurso pedagógico adotado pelo professor, ao dirigir uma aula que utilizou os recursos multimídias, e buscamos estabelecer uma relação entre os movimentos discursivos do professor e seus efeitos sobre o processo de interação com os alunos.
## 4 - Conclusões
Nosso trabalho focou o discurso do professor no processo de interação com os alunos numa aula de Física mediada por recursos multimídias. Na análise da video-gravação evidenciou-se a existência de um tendência do professor em explorar os diferentes recursos disponibilizados como um guia de utilização do software, como se estivesse apresentando o assunto para que o aluno explorasse os recursos sozinhos. Ao nosso ver isso manifesta uma crença do professor de que a exploração do recurso, por si, basta para que o aluno aprenda os conceitos discutidos. Mesmo em momentos de questionamento por parte dos alunos, o professor, ao invés de aproveitar essas oportunidades para ampliar o processo de interação, promovendo discussões entre os alunos, solicitando opiniões e idéias, limitava-se a mostrar determinado recurso como se isso fosse suficiente para contribuir com o aprendizado dos alunos.
Nesse sentido, os recursos disponibilizados não contribuíram para mudar o status tradicional da aula no qual o aluno assume um papel passivo frente ao processo de ensino e de aprendizagem.
Diante desse resultado destacamos a importância dos cursos de formação continuada propor práticas pedagógicas para a utilização dos recursos multimídias em sala de aula.
## 5 - Referências
HOWE, A. C. Development of science concepts within a vygotskian framework. Science Education 80(1), pp. 35-51. 1996.
FOCAULT, M. A ordem do discurso . 10. Ed. São Paulo: Loyola, 2000.
VALENTE, J. A. Formação de Educadores para o uso da informática na escola . Campinas, São Paulo: UNICAMP/NIED, 2003.
VIGOTSKI, L.S. A construção do pensamento e da linguagem . São Paulo. Editora Martins Fontes, 2001.
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