O PAPEL DO LIVRO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NO ENSINO DE FÍSICA: DO CONTEXTO DE PRODUÇÃO À SUA RECEPÇÃO
Fernanda Marchi, Cristina Leite
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 08/06/2011
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## O PAPEL DO LIVRO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NO ENSINO DE FÍSICA: DO CONTEXTO DE PRODUÇÃO À SUA RECEPÇÃO
## THE ROLE OF POPULAR SCIENCE BOOK IN PHYSICS TEACHING: FROM THE CONTEXT OF PRODUCTION TO RECEPTION
## Fernanda Marchi 1 , Cristina Leite 2
1 Mestranda em Ensino de Ciências da Pós-Graduação Interunidades da USP fernanda.marchi.oliveira@usp.br
2 Universidade de São Paulo/Instituto de Física, crismilk@if.usp.br
## Introdução
- O interesse por temas relacionados à linguagem é crescente nas pesquisas em Ensino de Física no Brasil. No entanto, poucas são aquelas que trazem análises aprofundadas sobre os processos em que os 'discursos se materializam em formas simbólicas dispostas a serem lidos' (SILVA, 2010).
Neste trabalho, temos como objeto de análise os dois primeiros capítulos extraídos do livro de divulgação científica 'O Universo numa casca de nós' , escrito por Stephen Hawking, no intuito de levá-lo como objeto de ensino-aprendizagem para a realização de atividades de leitura em aulas de Física do Ensino Médio. A análise será pautada na teoria da enunciação e dos gêneros discursivos (BAKHTIN, 2010), recorrendo também à Linguística Textual (KOCH & ELIAS, 2010; LEIBRUDER, 2003). Para o desenvolvimento da análise, serão examinados os elementos constituintes dos gêneros do discurso, sendo eles: o estilo, a forma composicional e o conteúdo temático.
- O objetivo consiste em contribuir com um possível olhar para esse texto de divulgação científica, considerado de 'linguagem comum' ou 'mais próxima do leitor não especialista', compreendendo-o em sua situação de produção e conteúdo temático, quanto ao gênero que o materializa e as marcas linguísticas que o constituem, fornecendo subsídios para a organização de uma proposta didática abordando a leitura deste gênero textual em aulas de Física.
## Fundamentação Teórica
Na vida cotidiana estamos em contato com os mais variados tipos de textos, relacionados a diferentes situações e práticas sociais e cada uma dessas determina um gênero com características temáticas, composicionais e estilísticas próprias (KOCH, 2009). Sobre as diferentes esferas de utilização da língua, Bakhtin (2010, p. 261-262) nos diz que 'todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem' e 'o emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais ou escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana' . Ou seja, Bakhtin caracteriza um gênero como tipos relativamente estáveis de enunciados presentes em cada esfera de atividade, possuindo uma forma de composição, que se distingue pelo conteúdo temático e estilo, além de tratar-se de entidades que levam em consideração as esferas de
necessidade temática, o conjunto de participantes e a vontade enunciativa ou intenção do locutor (KOCH, 2009).
## Uma breve análise do texto de divulgação científica
Os textos selecionados para análise consistem nos dois primeiros capítulos do livro 'O Universo numa Casca de Noz', escrito por Stephen Hawking, especialista na área sobre a qual escreve, podendo levar o leitor a considerar a voz do cientista como um argumento de autoridade que permeia todo o livro e a pressupor a correção dos conteúdos nele abordados. Atinge um público não muito bem definido, mas que pode ser caracterizado, principalmente, pela curiosidade e gosto pela leitura de temas científicos, mas não necessariamente pertencente ao público de não especialistas.
Os capítulos, intitulados 'Uma Breve História da Relatividade' e 'A Forma do Tempo', constituem um tronco central do livro, do qual se ramificam os cinco capítulos subsequentes, dando liberdade ao leitor de escolher a sequencia que preferir após a sua leitura. Escritos com um texto principal de leitura linear, sem a presença de subtítulos, sua leitura pode ser complementada, ou reforçada, pelas ilustrações, que constituem uma 'rota alternativa' ao texto. Essas, em alguns casos, trazem repetições dos textos contidos no texto principal, levando-nos a concluir que estes elementos gráficos e explicativos possuem maior didatização e cumprem um papel de aproximação do leitor à esfera científica, oferecendo a ele uma maior percepção dos temas, conceitos e definições. A obra é acompanhada de um glossário com termos que o autor considera importantes e supõe serem os que possam trazer maiores dificuldades para seus interlocutores na compreensão dos temas científicos abordados.
Dentre alguns dos recursos para materialização da intenção de tornar os conteúdos científicos acessíveis aos seus leitores, o autor se utiliza, entre outros, de definições , nomeações e analogias , Utilizando-se de comparações , o autor explica os fenômenos pouco familiares aos leitores, através de experiências mais próximas a eles ou menos abstratas. Verifica-se também um diálogo estabelecido entre o autor e seu interlocutor através de perguntas lançadas ao longo do texto, buscando levar o leitor à reflexão e captando sua atenção para a importância dos assuntos abordados. Como exemplos de alguns destes fenômenos, temos, respectivamente: 'Essas estrelas continuarão encolhendo até se tornarem buracos negros , regiões do espaço-tempo tão deformadas que a luz não consegue escapar delas .' (HAWKING, 2009, p. 24); '[...] Max Plank descobriu que a radiação de um corpo incandescente somente poderia ser emitida e absorvida em parcelas discretas, os chamados quanta .' (ibid, p. 24); 'Como uma analogia grosseira, que não deve ser tomada ao pé da letra, imagine uma lâmina de borracha. Pode-se colocar uma grande bola na lâmina para representar o Sol .' (ibid, p. 35); ' O que é o tempo? Um rio sempre a correr que leva embora todos os nossos sonhos, como as palavras do antigo hino? Ou seria um trilho de trem? ' (ibid, p. 31)
A construção de uma representação da esfera científica como um todo, e não somente da explicação dos conhecimentos científicos, pode ser verificada a partir da presença de fotografias de cientistas ao logo do texto. Outro aspecto interessante consiste na presença de poucas equações matemáticas ao longo de quase sessenta páginas analisadas. Como exemplo, o princípio da incerteza de Heisenberg sequer foi mostrado em sua fórmula matemática, sendo abordado através de ilustrações e definido através dos conceitos explicitados no decorrer do segundo capítulo.
## Algumas considerações
É possível perceber ao longo dos capítulos o caráter metalingüístico do texto de divulgação científica, ou seja, o próprio texto preocupa-se com sua autoexplicação. Elementos didatizadores ao longo da obra, como explicações, exemplificações, comparações, metáforas, os recursos visuais e a escolha lexical, demonstram a preocupação do autor (cientista e divulgador da ciência) em compor seu texto de modo a aproximar seu leitor dos assuntos abordados (LEIBRUDER, 2003), elementos esses capazes de captar o leitor e suscitar o interesse pela leitura dos temas abordados na obra, contribuindo também para a compreensão do seu conteúdo e produção de sentido por parte do leitor.
Apesar de pertencer ao gênero de divulgação científica, a densidade de seu conteúdo poderia dificultar sua análise e compreensão em aulas relacionadas às linguagens. Desta forma, trazendo este gênero para as aulas das Ciências da Natureza, poder-se-ia pensar na responsabilidade didática dos professores dessas disciplinas na introdução e leitura deste gênero nas aulas. Outros elementos, além do conteúdo científico, também poderiam ser abordados em atividades de leitura nas aulas de Física. A voz do cientista, seus modos de argumentação e as opiniões que defende no texto, as condições de produção e finalidades deste tipo de publicação, o questionamento sobre a veracidade e credibilidade das informações, levando os alunos à reflexão e ao debate nas aulas dessa disciplina.
Trata-se, portanto, de uma obra bastante rica que pode levar os alunos a questionamentos sobre o fazer científico, os sujeitos que participam desta construção do conhecimento, questões que, como aponta Leibruder (2003), podem ser instigantes para os alunos, acostumados ao contato com textos institucionalizados, apenas reproduzindo-os sem jamais questioná-los.
## Referências
BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010. p. 261-306.
FIORIN, J.L. Os gêneros do discurso. In: Introdução ao pensamento de Bakhtin. 1. ed. São Paulo: Ática, 2006. p. 60-76.
HAWKING, S. O Universo numa Casca de Noz . 1. ed. São Paulo: Ediouro, 2009.
KOCH, I.V.; ELIAS, V.M. Ler e compreender os sentidos do texto . 3. ed. São Paulo: Contexto, 2010.
LEIBRUDER, A.P. O discurso de divulgação científica. In: BRANDÃO, H.N. (Org.). Gêneros do discurso na escola: mito, conto, cordel, discurso político, divulgação científica. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2003. p. 229-269.
MORA, A.M S. A divulgação da ciência como literatura. 1. ed. Rio de Janeiro: Casa da Ciência - Centro Cultural de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2003.
SILVA, H.C. A noção de textualização para pensar os textos e as práticas de leitura da ciência na escola. In: PINTO, G.A. (Org.) Divulgação científica e práticas educativas. 1. ed. Curitiba: Editora CRV, 2010
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