AS INTERAÇÕES DISCURSIVAS ENTRE PROFESSOR E ALUNO EM AULAS DE FÍSICA E A CONSTRUÇÃO DE ARGUMENTOS
Arthur Tadeu Ferraz, Lúcia Helena Sasseron
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 08/06/2011
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## AS INTERAÇÕES DISCURSIVAS ENTRE PROFESSOR E ALUNO EM AULAS DE FÍSICA E A CONSTRUÇÃO DE ARGUMENTOS
## DISCURSIVE INTERACTIONS AMONG TEACHER AND STUDENTS IN PHYSICS CLASSROOMS AND ARGUMENT CONSTRUCTION
## Arthur Tadeu Ferraz , Lúcia Helena Sasseron 1 2
1 Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo - FEUSP, arthur.ferraz@usp.br 2 Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo - FEUSP, sasseron@usp.br
## 1) Justificativa e Objetivos
As atividades desenvolvidas na sala de aula possuem diferentes características de acordo com as necessidades e objetivos do professor. As atividades práticas, em especial, por vezes se mostram o caminho mais curto na tentativa de modificar os métodos tradicionais de ensino e, associada a essas atividades, há uma imensa variedade de formas de interações entre o professor e os alunos (MORTIMER e SCOTT, 2002). O desenvolvimento de tais atividades práticas está diretamente vinculado à forma como o professor orienta e fomenta o aprendizado do aluno. Diante dessa premissa, torna-se interessante verificar as ações do professor que evidenciam a transformação dos elementos presentes em sala de aula, bem como a forma como ocorre a construção do argumento realizada pelos alunos.
Sucintamente, neste trabalho, pretendemos verificar qual é o papel do professor na construção do argumento realizada pelos estudantes e, da mesma forma, mostrar possibilidades que auxiliem no desenvolvimento de diferentes sequências didáticas que promovam o desenvolvimento científico dos alunos de maneira substancial.
## 2) Marco Teórico
Uma vez que nos interessa analisar as interações discursivas ocorridas em sala de aula, servem-nos de referência ideias de Vigotsky (2000), para quem o conhecimento se constrói nas interações entre sujeitos e objetos de aprendizagem. Além disso, foram selecionados alguns referenciais teóricos que abordassem, sob diferentes aspectos, a construção da argumentação. Sasseron e Carvalho (no prelo) e Barrelo (2010) discutem, através da análise do discurso oral dos alunos, a forma como o argumento é construído pelos alunos em sala de aula. Ambos têm a visão voltada diretamente aos alunos e concluem que o argumento se desenvolve seguindo determinados padrões. Esses padrões, mesmo não sendo o melhor método de classificação na evolução da argumentação dos alunos de uma sala de aula, mostram com clareza, como elas ganham coerência de acordo com o desenvolvimento do conteúdo da aula.
Em outro referencial escolhido, Mortimer e Scott (2002) desenvolvem uma estrutura analítica que utilizamos aqui como uma 'ferramenta para analisar as interações e a produção e significados em salas de aula' (MORTIMER e SCOTT, 2002). Essas interações referem-se, essencialmente, ao papel do professor,
contemplando desde os 'focos de ensino' utilizados aos 'métodos de abordagem' e 'ações do professor'.
## 3) Metodologia e Método de pesquisa
Analisamos aulas registradas em forma de vídeo. O material utilizado é parte de uma sequência didática aplicada ao 3° ano do Ensino Médio em uma escola da rede pública de ensino da cidade de São Paulo. Desta sequência foram analisadas as aulas 11 e 12, ministradas conjuntamente, e que abordam um tema de grande relevância para o currículo escolar que é a dualidade da luz. Esse tema é parte integrante de uma área de estudos chamada Física Moderna e Contemporânea que, por ter sido apenas recentemente introduzida no currículo escolar, tem gerado muitas pesquisas em torno de sua aplicabilidade. Dessa forma, estas pesquisas favorecem a análise a partir de referenciais atuais e das diversas variáveis envolvidas na construção dos argumentos dos alunos.
- O objetivo principal das aulas analisadas pode ser definido, sucintamente, em interpretar e definir as propriedades e características da luz de acordo com os resultados obtidos por um experimento. O experimento utilizado foi o interferômetro de Mach-Zehnder, apresentado aos alunos de dois modos. O primeiro foi o interferômetro real, com o qual os alunos viram o aparato montado fisicamente e puderam ter contato tanto com sua composição física quanto ao resultado dado pelo experimento que seria interpretado nas aulas subsequentes. Devido a limitações e complexidade do manuseio do experimento real, a segunda etapa consistiu em realizar o mesmo experimento com o auxílio de um computador. Esse 'segundo experimento' é o interferômetro virtual, que consiste em uma simulação de computador em que, de maneira lúdica, representava-se o comportamento da luz ao longo do seu percurso promovido pelos elementos que compõem o interferômetro.
As aulas acima citadas foram analisadas anteriormente em um estudo com outro enfoque (BARRELO, 2010), e isso permitiu verificar a pluralidade de processos de ensino e aprendizagem que ocorrem concomitantemente em uma mesma aula.
## 4) Análise e Discussão
Para o processo de análise, caracterizamos três elementos norteadores que estão intimamente ligados quando se pensa no desenvolvimento do conhecimento e da argumentação dos alunos na sala de aula.
- (S) Sujeito/aluno - Trata-se dos alunos, não de maneira individual e específica, mas da turma como um todo, de maneira coletiva.
- (I) Instrumento - São as ferramentas utilizadas pelo professor e pelos alunos ao longo da aula que subsidiam a evolução dos argumentos dos alunos.
- (O) Objeto - É o conteúdo formal, que pode ser apresentado na forma de um problema, sobre o qual se quer que os alunos construam seu conhecimento.
Evidenciamos, nesse ponto, a ausência de um elemento que designa conclusão ou encerramento. Isso ocorre devido à relação entre o instrumento e o objeto. Notamos que o instrumento representa as ferramentas e conhecimentos dos alunos para a obtenção do objeto. Ou seja, com o auxílio do instrumento, e da orientação do professor, é que os alunos desenvolvem argumento para construir o objeto. Esses elementos se mantêm como uma espiral, de maneira que a partir do
momento que o aluno internaliza o objeto, esse, por sua vez, se torna um instrumento, ou parte de, para se desenvolver um próximo objeto. Essa mudança de objeto para instrumento foi observada nas falas dos alunos em diversos momentos das aulas analisadas.
Ficou-nos claro que a pretensão do professor era de que o aluno construísse seu argumento sobre o conteúdo abordado, e para isso ele forneceu recursos que permitem os alunos solidificarem as bases conceituais estudadas anteriormente a fim de sustentar as novas discussões. Esse resgate aos conceitos já estudados pelos alunos serve também para dar validade ao Instrumento que será utilizado ao longo da aula. Também foi possível perceber que a aula analisada está dividida em duas partes distintas. Na primeira parte, o professor estabelece alguns dos seus objetivos com os alunos através dos resultados obtidos com o auxílio dos experimentos de forma a recordar o que já foi discutido em aulas anteriores para, então, dar sequência ao seu plano de aula e chegar às conclusões pretendidas na segunda parte quando aborda o assunto principal da aula: as diferentes interpretações acerca da natureza da luz.
## 4) Conclusões
Existem diversas outras interações que ocorrem dentro de uma sala de aula além da interação verbal que está sendo analisada prioritariamente nesse projeto. No entanto, partiu-se do pressuposto de que o discurso verbal promove, de maneira mais consistente, o desenvolvimento do argumento do aluno de maneira coletiva.
- É notável também que a principal ferramenta em favor do professor é o conhecimento prévio dos alunos que, quando trabalhado de maneira adequada, ajuda o aluno a criar relações entre o que ele está estudando com o que ele já aprendeu em outros momentos da sua vida escolar. Portanto, conclui-se que o papel do professor é muito mais que o de um transmissor de conhecimento, mas sim o de um orientador que dá ferramentas para que o aluno aprenda e construa argumentos acerca do que está estudando.
## 5) Referências
BARRELO JUNIOR, N. Argumentação no discurso oral e escrito de alunos do ensino médio em uma sequência didática de física moderna. Dissertação de mestrado. Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2010.
CARVALHO, A. M. P., 'Las prácticas experimentales em el proceso de enculturación científica', In: QUINTANILLA, M., Adúriz-Bravo, A. (eds.). Enseñar ciencias en el nuevo milenio: Retos y propuestas, Santiago: Ediciones Universidad Católica de Chile, p.73-90, 2006.
MORTIMER, E.; SCOTT, P., 'Atividade discursiva nas salas de aula de ciências: Uma ferramenta sociocultural para analisar e planejar o ensino', Investigações em Ensino de Ciências , v.7, n.3, p.283-306, 2002.
SASSERON, L. H.; CARVALHO, A. M. P., 'Construindo argumentação na sala de aula: A presença do ciclo argumentativo, os indicadores de Alfabetização Científica e o padrão Toulmin', Ciência & Educação , no prelo.
VIGOTSKY, L. S., A construção do pensamento e da linguagem, São Paulo: Martins Fontes, 2000.
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