SENTIDOS ATRIBUÍDOS POR ESTUDANTES DE FÍSICA A IMAGENS DE RELATIVIDADE ESPECIAL
Leandro Londero Da Silva, Maria José Pereira Monteiro De Almeida
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 08/06/2011
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## SENTIDOS ATRIBUÍDOS POR ESTUDANTES DE FÍSICA A IMAGENS DE RELATIVIDADE ESPECIAL
## Leandro Londero da Silva , Maria José P. M. de Almeida 1 2
1Doutorando gepCE/FE/UNICAMP, llondero@bol.com.br, Apoio Parcial: FAPESP 2gepCE/FE/UNICAMP, mjpma@unicamp.br, Apoio: CNPq
## 1 - Objetivo e Justificativa
Objetivamos identificar e compreender os sentidos atribuídos por estudantes de Licenciatura em Física para imagens utilizadas em explicações textuais de relatividade especial (TRE), a partir da leitura de textos produzidos por cientistas para a divulgação dessa teoria. O estudo justifica-se uma vez que tanto textos didáticos como os destinados a divulgação da TRE apresentam imagens em suas explicações. Nessas produções somos confrontados com ilustrações de trens, réguas, relógios e gêmeos. Por outro lado, Einstein (1999) utiliza-se de apenas uma imagem, a qual para ele representa um trem, reproduzida a seguir.
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Compreender o funcionamento destas imagens no entendimento da TRE, as relações entre elas e os sentidos atribuídos por quem as lê e como elas participam das interpretações de estudantes de física, quando esses lêem textos de relatividade, escritos por cientistas, torna-se importante tema de investigação.
## 2 - Marco Teórico
Na obra prima de Lewis Carroll, intitulada Alice no País das Maravilhas , a personagem principal estava começando a ficar cansada de estar sentada ao lado de sua irmã e não ter nada para fazer. Uma vez ou outra ela dava uma olhadinha no livro que a irmã lia, mas naquele livro não havia figuras ou diálogos e Alice se questiona: Para que serve um livro sem figuras nem diálogos?
Manguel (2001) menciona que as imagens, assim como as palavras, são a matéria de que somos feitos. Elas estão presentes tanto em nossos pensamentos como na maioria dos meios de comunicação que nos cercam diariamente. Em especial, as imagens são importantes recursos para a difusão de idéias científicas, na formação de conceitos e na visualização e inteligibilidade de diversos textos científicos. Deste modo, lidar com elas, sabendo compreendê-las e interpretá-las, é parte de um aprendizado.
- O interesse pela compreensão do funcionamento das imagens no processo de ensino ou de aprendizagem tem levado vários pesquisadores de diferentes áreas a reservarem espaço em suas agendas de investigação. No campo da pesquisa em ensino de física podemos destacar, por exemplo, o estudo de Silva (2008), Tavares (2005) e Carmo et al . . (2000), os quais procuraram analisar as imagens presentes em livros didáticos de física e o de Zimmermann e Evangelista (2004) que investigaram o uso de imagens de livros didáticos na compreensão e apreensão de conceitos.
Se pensarmos especificamente no ensino de um determinado conteúdo da física como, por exemplo, a TRE, como podem ser pensadas as imagens enquanto recurso de ensino? Partimos do pressuposto que imagens são recursos constitutivos de textos, sendo que a leitura dos mesmos e, consequentemente, a produção de
sentidos por quem os lê está associada ao funcionamento das imagens. Ainda, que a leitura é considerada um processo de construção de sentidos, no qual jogam a intencionalidade do autor, a materialidade do texto e as possibilidades de ressignificação do leitor (ORLANDI, 1999).
## 3 - Metodologia e Análise de Pesquisa
Tomamos como espaço para a realização deste estudo as ações realizadas na disciplina 'Conhecimento em Física Escolar II', cursada por 10 estudantes, (2º semestre de 2010). Essa disciplina é parte integrante do currículo da Licenciatura em Física da Universidade Estadual de Campinas. Numa das atividades realizadas durante o semestre, solicitamos aos estudantes que respondessem algumas questões as quais envolviam, entre outros aspectos, a importância que atribuíam às imagens no caso específico do ensino de conteúdos de física e as suas interpretações em relação ao funcionamento das imagens no processo de ensino e aprendizagem, em particular no ensino da TRE. Solicitamos, ainda, a análise e interpretação de um conjunto de imagens que comumente são utilizadas em explicações textuais sobre a TRE. Neste estudo o foco de análise concentra-se nas respostas que os estudantes forneceram para as questões solicitas e nas análises e interpretações que realizaram.
Tendo em vista que procuramos identificar e compreender os sentidos atribuídos por estudantes de física, utilizamos para examinar as informações obtidas a Análise de Discurso (AD), iniciada por M. Pêcheux. Nessa abordagem o discurso é efeito de sentidos entre locutores. Ainda, considera-se a não transparência da linguagem e as influências ideológicas, históricas e culturais que estão por trás da construção de todo discurso. ORLANDI (2003) ressalta alguns aspectos devem ser considerados para a AD: o sujeito; a linguagem e seu processo histórico; os dispositivos de análise; as condições de produção. O uso desse apoio teórico se justifica porque percorre a fala com a intenção de buscar o significado das informações e o que levou a inclusão desta ou daquela informação em um determinado discurso. Portanto, olhamos o discurso que está sempre carregado de sentidos, de subjetividade, de argumentação, dos efeitos de sentidos expostos por seus interlocutores. A título de exemplificação, centramos a análise no uso de palavras e expressões que revelam possíveis sentidos atribuídos pelos sujeitos, tomando como exemplo três discursos reproduzidos a seguir.
- '...O ensino de relatividade também pede o uso de imagens, já que no diaa-dia não presenciamos conceitos como dilatação do tempo, contração do espaço, curvatura espaço-tempo, equivalência massa-energia, etc, desempenhando seus efeitos dentro desta abstrata teoria. Porém, ela está por de trás do funcionamento de diversas tecnologias atuais (GPS, controle de navegação aérea, triangulação de sinais de rádio, telefonia móvel, etc) e, sendo assim, as imagens utilizadas em seu ensino podem ter papel decisivo na compreensão destes conceitos para toda a teoria...' (discurso 1)
- '...Acho que imagens podem ser utilizadas em qualquer assunto de física, pois faz os alunos visualizarem melhor o problema (ou explicação). A relatividade restrita é melhor ensinada se acompanhada dos desenhos ilustrativos, na verdade, sem as mesmas fica impossível de entender o que a teoria esta dizendo...' (discurso 2)
- '...Figuras como os dois relógios que mensuram o tempo enquanto há um raio de luz dentro do trem, são extremamente úteis na introdução, demonstração de fórmulas e discussões sobre TRE...' (discurso 3)
## 4 - Conclusões
O primeiro aspecto a ser destacado é que os termos 'teoria abstrata', 'de difícil compreensão', 'impossível de entender o que a teoria esta dizendo', aparecem, nas suas diferentes combinações, com outros elementos constitutivos dos discursos, produzindo um efeito de sentido que revela uma formação discursiva, na qual a teoria da relatividade é tida como de complexo entendimento, como percebemos nos recortes acima.
As imagens funcionariam nos discursos como produtoras de melhor visualização dos problemas oriundos da teoria e como agentes nas explicações verbais. Isso pode ser percebido inicialmente pela condição dos locutores, que são estudantes de física, que possivelmente encontraram dificuldades na compreensão da TRE, quando do seu estudo em disciplinas na formação inicial. Esse aspecto fica melhor evidenciado quando no recorte a seguir:
A organização do terceiro discurso e o uso da expressão 'figuras como' indica certa preferência por determinadas imagens, evidenciando a associação entre a imagem e a compreensão de um conteúdo. O discurso 3 pode ser lido, ainda, da seguinte forma: 'a ausência de figuras como os de dois relógios que mensuram o tempo enquanto há um raio de luz dentro do trem, prejudica a introdução, demonstração de fórmulas e discussões sobre TRE'. Essa leitura do 'não-dito' ou transposição do 'já-dito' aponta, sob a forma de silenciamento, já que não está presente no corpo do discurso, para a produção de sentidos numa outra direção, qual seja a da lacuna/deficiência das explicações e demonstrações matemáticas quando não são utilizadas certas imagens.
Ressaltamos que a constituição dos discursos e dos sentidos produzidos, não ocorre de forma estática e nem automática. É preciso analisá-los a partir de seu funcionamento. Nas formações discursivas, a utilização de palavras e expressões tais como 'papel decisivo na compreensão', 'faz os alunos visualizarem melhor', 'é melhor ensinada se acompanhada', 'sem as mesmas fica impossível de entender', 'são extremamente úteis' parece indicar possíveis sentidos atribuídos às imagens, os quais estariam a favor da manutenção das imagens no ensino da TRE.
## 5 - Referências
CARMO, L. A., MEDEIROS, A., MEDEIROS, C. F. de. 2000. Distorções Conceituais em Imagens de Livros Textos: O Caso do Experimento de Joule com o Calorímetro de Pás. In VII Encontro Nacional de Pesquisa em Ensino de Física , Florianópolis, 2004.
CARROLL, L.: (2002). Alice no país das maravilhas . São Paulo/BRA: Arara Azul. EINSTEIN, A. A Teoria da Relatividade Especial e Geral. São Paulo: Contraponto, 1999 MANGUEL, A.: (2001). Lendo imagens . São Paulo/BRA: Companhia das letras.
ORLANDI, E. P.: (2003). Análise de discurso: princípios e procedimentos. 5.ed. Campinas/BRA: Pontes.
ORLANDI, E. P.: (1999). Discurso e leitura . São Paulo/BRA: Cortez.
SILVA, C. F. da. Construção e realidade nas imagens dos livros didáticos de física: implicações e aplicações no ensino de física . 2008. Dissertação (Ensino de Física) - PUCMG, Belo Horizonte.
- PUCMG, Belo Horizonte.
TAVARES, L. de A. A imagem impressa e ciência: ilustrações em livros didáticos de física (séculos XIX e XX). 2005. Dissertação (Mestrado em História da Ciência) - PUCSP, São Paulo. ZIMMERMANN, E., EVANGELISTA, P. C. Q. 2004. Leitura e Interpretação de Imagens de Física no Ensino Fundamental. In IX Encontro Nacional de Pesquisa em Ensino de Física, Jaboticatubas,
2004.
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