A SEMIÓTICA DE GREIMAS E OS CONCEITOS DE ESTAÇÕES DO ANO: ALGUMAS IMPLICAÇÕES EDUCACIONAIS
Luis Paulo Piassi
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 08/06/2011
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## A SEMIÓTICA DE GREIMAS E OS CONCEITOS DE ESTAÇÕES DO ANO: ALGUMAS IMPLICAÇÕES EDUCACIONAIS
## GREIMAS SEMIOTICS AND THE CONCEPTS OF SEASONS: SOME EDUCATIONAL IMPLICATIONS
## Luís Paulo Piassi 1
1 Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, lppiassi@usp.br
## 1) Justificativa e objetivos
Determinados conceitos físicos e astronômicos são veiculados nos textos didáticos sem que haja um questionamento sobre sua origem e implicações epistemológicas. São diversos os exemplos de conceitos baseados em dicotomias sensoriais, como quente / frio, claro / escuro, movimento / repouso, entre outras. Algumas operam em um nível mais abstrato que outras e muitas carregam juízos de valor implícitos. O referencial greimasiano da semiótica (GREIMAS, 1973; GREIMAS e COURTÉS, 2008) permite a abordagem das dicotomias presentes em um texto, entendendo-as como oposição de valores considerados positivos (eufóricos) ou negativos (disfóricos) de acordo com cada manifestação textual específica. A associação com valores abstratos, o tratamento das oposições de valores em termos de contradições e contrariedades e o entendimento das junções que geram os chamados termos complexo e neutro, são instrumentos teóricos que permitem mapear com maior clareza as implicações do uso de determinados conceitos no discurso do texto didático e as mensagens implícitas que veiculam. Como aplicação exemplar, analisaremos o conceitos astronômicos de estações do ano, um fenômeno claramente cíclicos e contínuos, para os qual foram estabelecidas quatro categorias pontuais e discretas.
## 2) Marco Teórico
A semiótica de Greimas (1973), tem como objeto fundamental o texto (Fiorin, 2008, p. 20), cuja significação é abordada a partir do chamado percurso gerativo do sentido. Como aponta Fiorin (2008, p. 20), este é 'constituído de três patamares: as estruturas fundamentais, as estruturas narrativas e as estruturas discursivas', sendo a primeira delas a mais simples e abstrata, associada à oposição de valores semânticos abstratos. Nos preocuparemos aqui exclusivamente com essas, também denominadas estruturas profundas, cuja relação com as estruturas de superfície (discursivas) são estabelecidas em um processo de seqüências de transformações, conforme descrevem Greimas e Courtés (2008, p. 387):
[As estruturas superficiais e profundas] servem para designar, uma, a posição de partida, outra, o ponto de chegada de uma cadeia de transformações, que se apresenta como um processo de geração, como um percurso gerativo de conjunto, no interior do qual se podem distinguir tantas etapas e marcos quantos forem necessários para a clareza da explicação.
Para Greimas e Courtés (2008, p. 387), 'o caráter puramente operatório desses patamares estruturais justifica e autoriza os remanejamentos e questionamentos que a teoria é levada a introduzir'. Nas estruturas profundas, tais
remanejamentos são aplicados em oposições semânticas de contrariedade a valores binários, como dia e noite, vida e morte, etc. A relação entre dois termos primitivos S1 e S2 'suscetíveis de se apresentarem de modo concomitante' (GREIMAS e COURTÉS, 2008, p. 401) é de contrariedade. A operação, de negação , aplicada a cada um deles, leva aos termos contraditórios não-S1 e não-S2. A asserção leva dos contraditórios aos contrários pressupostos. Tomando S1 como /vida/ e S2 como /morte/, a asserção seria a implicação /não-morte/ Æ /vida/, lembrando que se trata de uma operação semântica e não lógica; a implicação não é abstraída do conteúdo do texto. Essas operações são representadas pelo quadrado semiótico:
Figura 1 - Quadrado Semiótico (GREIMAS e COURTÉS, 2008, p. 401, adaptado).
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A possibilidade de junção dos termos contrários dá origem ao chamado termo complexo, estabelecendo oposição semântica com o termo neutro dado pela concomitância dos contraditórios. Como exemplo, em uma oposição em que os termos primitivos são /masculino/ e /feminino/, o termo complexo seria /sexualidade/ e o neutro, /assexualidade/. As concomitâncias entre um termo primário e o contraditório complementar estabelecem forias, que podem ser axiologias negativas (disforias) ou positivas (euforias), de acordo com o estabelecido pelo texto.
## 3) Metodologia e Análise de pesquisa
O conceito de estações do ano é construído sobre oposições de sentido quente/frio. Se considerarmos os mais variados textos, veremos esse conceito cristalizado em quatro categorias discretas: verão, inverno, primavera e outono. Mas essas expressões estão associadas a conteúdos específicos, positivamente identificáveis? Se examinarmos a questão partir do conceito semiótico de contrários as estações do ano caracterizam-se por uma relação de contrariedade associada aos termos primários inverno e verão (figura 2), o primeiro representando o clima frio, associado à morte com valor disfórico e o segundo ao calor, associado à vida, com axiologia eufórica. Arbitrárias, essas associações são históricas e ancoradas em um contexto cultural específico dado por condições materiais de existência, as condições climáticas da Europa. O que se denomina primavera não é senão a etapa intermédia da negação do inverno (morte) e a asserção do verão (vida), ou pensando na natureza cíclica do fenômeno, de renascimento, como atestam as celebrações pascais associadas à primavera boreal. O ramo disfórico representa o frio, dado pelo inverno e pela negação do verão, o outono. Considerando que a noção de estações dada por essa quadrilogia não se aplica a todos o planeta, e dado que essas representações são expressas sempre na mesma configuração, formando um sintagma cristalizado (LOPES, 2003, p. 93), os valores ideológicos nele veiculados são propagados implicitamente como verdades científicas nos textos didáticos, mesmo os mais formais e voltados para a formação científica em nível
superior. A definição de estações do ano dada em livros de astronomia e ciências não se propõe a desmembrar o sintagma e analisar sua origem e raramente questiona seu conteúdo epistemológico.
Figura 2 - Quadrado semiótico: estações do ano.
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Evidentemente, em todo o planeta, o movimento orbital da Terra associado à inclinação do eixo de rotação, produz fenômenos periódicos relacionados ao regime climático, mas as particularidades desses, de acordo com a localidade, é muito variável. Interessante é notar que, fisicamente falando, se trata de um fenômeno contínuo ao qual são atribuídos valores discretos, sendo que de fato o que se considera como marcos divisórios são os eventos de solstícios e equinócios. As definições dos elementos das estações do ano embora baseadas em critérios formais, carregam um considerável grau de representações socioculturais que, fora do contexto que lhes deu origem, acabam por tornarem-se arbitrárias.
## 4) Conclusões
É preciso ter em mente o quão diversificadas e arbitrárias podem ser as representações culturais associadas a fenômenos como as estações do ano. A quadrilogia, tal como apresentada nos textos didáticos, cristalizada na relação semiótica de oposição entre os extremos frio e quente impõe uma representação do mundo físico enraizada em um contexto sociocultural específico e carrega os valores e a visão de mundo neles implícitos. O referencial da semiótica, sobretudo quando aplicado a textos específicos e não apenas ao plano geral que o presente resumo permite, configura um instrumento para a análise de valores implícitos, particularmente ao considerar as oposições sêmicas. Tal metodologia de análise permite elucidar aspectos da significação implícitos em textos que tratam de conceitos, sobretudo quando baseados em oposições entre termos primários, o que é muito comum na física, como ocorre com as fases lunares, com o conceito de isolantes e condutores, entre outros. Do ponto de vista educacional, acreditamos ser muito relevante elucidar o quanto essas representações carregam do contexto cultural em que foram produzidas e delimitar com maior clareza quais são critérios formais e matemáticos ligados à uma representação científica do mundo físico.
## Referências
FIORIN, J. L. Em busca do sentido. São Paulo: Contexto, 2008.
GREIMAS, A. J. Semântica estrutural. São Paulo: Cultrix: Edusp, 1973.
GREIMAS, A. J.; COURTÉS, J. Dicionário de semiótica, São Paulo: Contexto, 2008.
LOPES, E. Fundamentos da lingüística contemporânea. 18ª edição. São Paulo: Cultrix, 2003.
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