A FÍSICA QUE ESCUTAMOS: REPRESENTAÇÕES DA CIÊNCIA NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA.
Emerson Ferreira Gomes, Luís Paulo De Carvalho Piassi
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 08/06/2011
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## A FÍSICA QUE ESCUTAMOS: REPRESENTAÇÕES DA CIÊNCIA NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA.
## THE PHYSICS THAT WE LISTEN: THE REPRESENTATIONS OF SCIENCE IN THE POPULAR BRAZILIAN MUSIC
## Emerson Ferreira Gomes 1 , Luís Paulo de Carvalho Piassir 2
1
USP/Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências/emersonfg@usp.br 2 USP/Escola de Artes, Ciências e Humanidades/lppiassi@usp.br
Palavras-chave: Música no Ensino de Física, Arte e Ciência, Semiótica.
## 1) Justificativa e objetivos
A presença da música popular brasileira no Ensino de Ciências é um tema que vem sendo tratado em diversos eventos e publicações da área. Dentre essas pesquisas, identificamos trabalhos que refletem sobre o diálogo entre a música e a ciência na história (MOREIRA e MASSARINI, 2006), que utilizam canções como instrumento de aproximação da cultura científica com a cultura popular (PUGLIESE e ZANETIC, 2007; BERNARDO, ANTONIOLI e QUEIROZ , 2010); ou como uma ferramenta interdisciplinar em cursos de formação continuada (SILVEIRA e KIOURANIS, 2008). Este trabalho pretende contribuir com a interface entre a Física e a Música no Ensino de Ciências, propondo a utilização de referenciais da linguística para a análise das letras das canções.
Analisamos a canção 'O Pé' da compositora baiana, radicada no estado de Pernambuco, Karina Buhr. A autora está inserida na cena contemporânea de música popular brasileira que propõe a fusão de diversos ritmos como rock, jazz, maracatu e samba, sendo premiada como artista revelação do ano de 2010, pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA, 2010). No caso da música 'O Pé', encontramos a referência explícita a fenômenos físicos, especificamente ao campo gravitacional. A abordagem dos fenômenos da natureza na canção possibilita sua utilização no Ensino de Física tanto em nível conceitual quanto epistemológico, podendo refletir sobre a forma que a ciência é representada nas canções.
## 2) Marco Teórico
Esta pesquisa está inserida no diálogo entre a Arte e a Ciência, territorializando-a no contexto da utilização da Linguagem no Ensino de Ciências, Nesse contexto esta pesquisa se vale da análise do plano de conteúdo do texto, através da semiótica de Algirdas Julien Greimas, que em sua obra Semântica Estrutural nos aponta a 'isotopia do discurso' (GREIMAS, 1976, p. 117) que garante homogeneidade ao discurso-enunciado, elidindo suas ambiguidades (GREIMAS e COURTÉS, 2008, p. 248).
Sobre a utilização de semiótica greimasiana nas canções podemos nos remeter ao linguista e músico Luiz Tatit que afirma que esta teoria expõe as 'operações conceituais que atuam implicitamente' na compreensão de um texto (TATIT, 2001, p. 14). Temos identificado alguns trabalhos que utilizam a semiótica em contextos de Ensino de Ciências (LOWREY e VENKATESAN, 2008; PIASSI et
al. , 2009; SANTOS, GASPAR e PIASSI, 2010) e acreditamos que o instrumental fornecido por essa análise textual favorece a interpretação da isotopia do discurso sobre a ciência, presente em algumas canções da música popular brasileira.
## 3) Metodologia e Análise de pesquisa
A semiótica greimasiana possibilita a identificação do percurso gerativo de sentido do texto, que ocorre em 'três níveis: fundamental, narrativo e discurso' (FIORIN, 2009, p. 20). O nível narrativo abriga as bases de construção do texto, no nível narrativo ocorre a transformação da narrativa e o nível discursivo, que forma o processo de enunciação, caracterizando os atores, o espaço e o tempo, além disso, possibilita identificar a isotopia no texto. Observemos a letra da canção:
A pedra, o pé descendo a rua que cobre a pedra, embaixo dela a terra, embaixo da terra o céu de novo. Sentindo a lentidão do dia, há dias lentos demais não sinto, não tenho vontade, não aguentaria o céu embaixo das nuvens, a terra por baixo do asfalto o centro da Terra que puxa a gente a gente pula contra a vontade do chão. Queria andar, andar, andar, andar e viajar, viajar, viajar queria andar, andar, andar, andar e viajar, ir até lá, viajar (BUHR, 2010).
Numa primeira leitura, verificamos que a letra da canção utiliza os fenômenos físicos de forma implícita, em nenhum momento é citada a palavra gravidade, porém seus conceitos e fenômenos se manifestam através da letra da canção.
Observamos no nível fundamental que os fenômenos da natureza expressos na forma de tempo e gravidade - possuem características disfóricas, pois impedem a liberdade do sujeito, que é o sujeito que sofre o ato. No caso do tempo, ele se encontra 'lento demais', impedindo que o actante tenha vontade de se libertar, conforme indica no tempo verbal do verbo querer.
No nível narrativo da letra da música, encontramos os seguintes actantes: o ser humano é o sujeito, que está exposto aos fenômenos da natureza e que anseia a liberdade, a possibilidade de 'andar' e 'viajar'. Desta forma identificamos a liberdade como o objeto de valor, sendo que é a liberdade que possibilitaria ao actante de 'ir até lá'. Em contrapartida ao sujeito, identificamos o antissujeito, que impede o actante de pular, 'puxando-o' em direção ao centro da Terra, que nesse caso enquadra-se a aceleração da gravidade.
Em seu nível discursivo, a canção constrói uma espacialização cíclica - que se nos ativermos ao globo terrestre transforma-se em esférica - através da sequência céu, rua, terra e 'céu de novo', dessa forma, a letra é repetida por diversas vezes, proporcionando ao ouvinte a experiência da repetição. Tal experiência se estende também à temporalidade da canção, tendo em vista que o 'tempo lento' sugerido pela autora está explícito também no andamento da melodia. Sendo assim a figurativização aparece para os atores de forma que eles estão sendo reprimidos pela natureza, pois quando 'pulam', 'pulam contra a vontade do chão', os atores sujeitos a esse espaço e tempo, anseiam por essa liberdade, mas a natureza não permite essa liberdade.
## 4) Conclusões
A leitura semiótica do texto dessa canção nos permite a discussão sobre a forma que o homem se relaciona com a natureza, do seu confronto com os fenômenos naturais. No caso desta canção, sua discussão pode ser estendida às formas que homem utiliza para contornar essas amarras que a natureza impõe, sendo que um dos papéis da ciência é este, libertar dessas amarras.
Quando levamos um texto, ou uma canção, no espaço de sala de aula, é importante identificar os fenômenos físicos e discutir a interação e forma com que seus conceitos são explorados. Entretanto acreditamos que canções como essa, permitem uma reflexão mais ampla sobre a natureza da ciência. Ela não aponta a solução, mostra o problema e possibilita ao educando refletir sobre a natureza, através da ciência.
## 5) Referências
ASSOCIAÇÃO PAULISTA DOS CRÍTICOS DE ARTE. Relatório dos premiados 2010 . São Paulo, 2010.
BERNARDO, J.R.R; ANTONIOLI, P.M; QUEIROZ, G.R.P.C. A interação triádica na parceria Universidade-Escola: Diálogos entre a Física e a Música Popular. XII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física. SP: Águas de Lindóia, 2010.
BUHR, K. O pé In: Eu Menti Pra Você. São Paulo: Tratore, 2010. Faixa 5.
FIORIN, José L. Elementos de Análise do Discurso. 14. ed. São Paulo: Contexto, 2009.
GREIMAS, Algirdas J. Semântica estrutural . São Paulo: Cultrix: Edusp, 1976.
GREIMAS, Algirdas. J.; COURTÉS, J. Dicionário de semiótica . São Paulo: Contexto, 2008.
LOWREY, Christopher H.; VENKATESAN, Priya. Making Science Acessible: A Semiotics of Science Communication. In: Biosemiotics , v.1 n. 2, p. 253-269, jul. 2008.
MOREIRA, I. de C.; MASSARANI, L.: (En)canto científico: temas de ciência em letras da música popular brasileira. História, Ciências, Saúde - Manguinhos , v. 13 (suplemento), p. 291-307, outubro 2006.
PIASSI, Luís P. C. et al . O discurso ideológico sobre Aristóteles nos livros didáticos de Física. In: Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências , Belo Horizonte, v. 9 , n. 2, p. 1-19, maio/ago. 2009.
PUGLIESE, R. M; ZANETIC, J. A música popular como instrumento para o Ensino de Física. XVII Simpósio Nacional de Ensino de Física. MA: UFMA, 2007.
SANTOS, E. I. dos; GASPAR, A; PIASSI, L.P.C. Produção de atividades de física para o ensino fundamental: uma análise semiótica do discurso do professor em um ambiente de formação continuada. XII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física. SP: Águas de Lindóia, 2010.
SILVEIRA, M.P; KIOURANIS, .N.M.N. A Música e o Ensino de Química. Química nova na escola , São Paulo, n. 28, p. 28-31, maio 2008.
TATIT, L. . Análise semiótica através das letras . 1. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
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