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Educação Popular e Formação Docente: Impactos das Práticas de Licenciandos em Física da UnB no Projeto Vestibular Cidadão

Gilberto Barbosa Lacerda Filho, Vanessa Carvalho De Andrade

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
24/01/2025
Linha de pesquisa
Formação, Práticas E Desenvolvimento Profissional Docente No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Educação Popular e Formação Docente: Impactos das Práticas de Licenciandos em Física da UnB no Projeto Vestibular Cidadão

## Gilberto Lacerda 1 , Vanessa Carvalho de Andrade 2

1 Universidade de Brasília/Instituto de Física/gilberto.lacerda@mpt.mp.br

2 Universidade de Brasília/Instituto de Física/ vcandrade@unb.br

## Resumo

Este artigo apresenta a experiência de licenciandos em Física da Universidade de Brasília (UnB) no projeto social "Vestibular Cidadão", destacando o papel da universidade em promover um ensino de qualidade por meio da atuação de seus estudantes. A participação dos licenciandos vai além da sala de aula tradicional, englobando a aplicação de metodologias ativas e responsabilidades de gestão em áreas como recursos humanos, apoio psicológico e coordenação pedagógica. Essa abordagem não só desenvolve competências pedagógicas e gerenciais nos futuros docentes, mas também proporciona uma formação integral que os prepara para enfrentar os desafios do sistema educacional brasileiro. A parceria entre a UnB e o "Vestibular Cidadão" reforça o compromisso da instituição com a democratização do ensino e a inclusão social, promovendo impacto tanto na formação de professores qualificados quanto no apoio a estudantes de baixa renda na busca pelo acesso ao ensino superior.

Palavras-chave: Gestão educacional, cursinho pré-vestibular gratuito, projeto social educacional, metodologias ativas

## Introdução

No Brasil, o acesso ao ensino superior representa um desafio significativo, especialmente para alunos de escolas públicas e de baixa renda. Iniciativas como o projeto social Vestibular Cidadão desempenham um papel essencial ao oferecer suporte educacional e preparação para exames como o ENEM, facilitando o ingresso de estudantes em universidades públicas. Há quase duas décadas, o projeto reúne uma equipe voluntária composta majoritariamente por universitários, destacando-se como um exemplo de educação colaborativa e inclusiva.

Este artigo tem como objetivo apresentar um relato de experiência dos licenciandos em Física da Universidade de Brasília (UnB) no Vestibular Cidadão e analisar como a participação desses futuros docentes contribui para sua formação profissional. Pretende-se, ainda, identificar as práticas inovadoras introduzidas por esses licenciandos no cursinho e examinar o impacto dessas iniciativas tanto sobre os estudantes atendidos pelo projeto quanto sobre os próprios licenciandos.

O relato traz uma descrição próxima e autêntica sobre as metodologias e práticas pedagógicas desenvolvidas, possibilitando uma análise detalhada de seu impacto tanto na formação dos estudantes atendidos pelo cursinho quanto na formação docente dos próprios licenciandos. Além da observação e das anotações realizadas ao longo das atividades, os autores complementaram suas reflexões a partir de conversas informais com outros participantes e responsáveis pelo projeto, buscando

ampliar a compreensão sobre os efeitos e as contribuições das metodologias ativas aplicadas. Dessa forma, o estudo fornece uma perspectiva abrangente e fundamentada sobre as inovações educacionais introduzidas e sobre os benefícios formativos da atuação dos licenciandos no contexto do Vestibular Cidadão.

A UnB, por meio de sua Licenciatura em Física, tem transformado o Vestibular Cidadão com a adoção de metodologias ativas e soluções inovadoras que vão além da tradicional prática docente, integrando princípios de gestão e liderança educacional. Ao implementar essas metodologias, os licenciandos obtêm uma formação holística que envolve tanto aspectos pedagógicos quanto gerenciais, preparando-os para uma atuação dinâmica e multifacetada na educação. Tal abordagem reflete as perspectivas de educadores como Freire (1996) e Dewey (1938), ao promover uma formação que integra teoria e prática, preparando os licenciandos para os desafios da carreira educacional e para o desenvolvimento de uma visão crítica e transformadora da realidade.

## Descrição do trabalho desenvolvido

## 1 - Contribuições da Licenciatura em Física

O papel dos alunos de Física da UnB vai muito além das atividades tradicionais de ensino. Além de lecionarem, esses estudantes assumem papéis estratégicos na gestão do projeto, participando de diretorias como ensino, comunicação e recursos humanos. Essa diversidade de atuações proporciona uma formação abrangente, em que o aprendizado vai além do conteúdo curricular, promovendo uma compreensão aprofundada das complexidades da gestão educacional.

De acordo com Dewey (1938), a experiência prática é essencial para a educação, pois conecta o aprendizado teórico com a realidade vivenciada pelos alunos. Ao atuarem diretamente na gestão do Vestibular Cidadão, os estudantes da UnB adquirem habilidades que transcendem à docência, desenvolvendo competências de liderança, resolução de conflitos e gestão de equipes. Essa experiência os prepara não só para serem professores, mas também gestores capacitados para enfrentar os desafios do ambiente educacional contemporâneo Dewey (1938).

## 2 - Impacto na Gestão do Projeto

A inserção dos alunos de Física na administração do projeto representa uma inovação significativa. Eles participam ativamente de processos gerenciais, como planejamento estratégico, gestão de crises e coordenação de voluntários. Segundo a psicóloga Carol Dweck (2006), a mentalidade de crescimento é essencial para o desenvolvimento de habilidades de liderança. Ao assumirem essas responsabilidades, os licenciandos desenvolvem uma mentalidade flexível e orientada para o aprendizado contínuo, o que os capacita a enfrentar os desafios do ensino e da gestão educacional (Dweck, 2006).

Além disso, a participação em diversas diretorias, como a de Pedagogia e Ensino, tem sido um dos principais fatores que impulsionam o crescimento e o sucesso do Vestibular Cidadão. Na Diretoria Pedagógica, os alunos são responsáveis pela elaboração e adaptação de materiais didáticos, adequando-os às diferentes necessidades dos estudantes. Eles também conduzem workshops formativos para os

professores e tutores do projeto, garantindo que as metodologias ativas sejam aplicadas de maneira eficaz e inclusiva.

Já na Diretoria de Ensino, os licenciandos desempenham um papel essencial na organização do conteúdo programático, na definição de metas de aprendizado e na avaliação contínua dos resultados obtidos pelos alunos. Essa estruturação do ensino, aliada ao acompanhamento pedagógico, permite ajustar as estratégias de acordo com as demandas dos alunos, promovendo um ensino mais dinâmico e ajustado à realidade dos estudantes.

A combinação dessas funções gerenciais com a prática pedagógica impulsionou o projeto, criando um ambiente de gestão colaborativa e aprendizado mútuo. Isso garante que o Vestibular Cidadão avance não só na qualidade do ensino oferecido, mas também na formação integral dos licenciandos, que saem capacitados tanto para o ensino quanto para a liderança e administração educacional.

Essa abordagem se alinha ao pensamento de Paulo Freire (1996), que defende uma educação dialógica e participativa, onde os alunos são protagonistas do seu aprendizado. Ao atuarem como gestores, os estudantes não apenas aplicam teorias educacionais, mas também vivenciam na prática os desafios e as recompensas de gerir um projeto educacional com impacto social significativo Freire (1996).

## 3 - Metodologias Ativas no Ensino

As metodologias ativas aplicadas no Vestibular Cidadão transformam a sala de aula em um ambiente dinâmico de colaboração e experimentação. Segundo Freire (2000), a educação deve ser um ato de liberdade, onde o aluno se envolve ativamente no processo de construção do conhecimento. Essa perspectiva se reflete na adoção de técnicas como a sala de aula invertida ( flipped classroom) e o aprendizado baseado em projetos, que estimulam a participação e a autonomia dos estudantes Freire (2000); Mazur (1997).

Os alunos da Licenciatura em Física da UnB, ao aplicarem essas metodologias no cursinho, têm transformado o processo de ensino-aprendizagem. Ao priorizarem o entendimento profundo dos conceitos, os licenciandos criam um ambiente de aprendizado significativo, onde o foco deixa de ser a memorização e passa a ser a compreensão e a aplicação prática do conhecimento.

## 4 - Exemplos de Aplicação Prática

Nas aulas de física, por exemplo, os estudantes não apenas aprendem fórmulas, mas participam de experimentos práticos que ilustram conceitos fundamentais. O uso de metodologias ativas, como experimentos colaborativos e simulações, é crucial para o desenvolvimento de habilidades cognitivas e analíticas, conforme defendido por Piaget (1976), que enfatiza a importância da interação com o ambiente para o aprendizado Piaget (1976). Ao realizarem experimentos que envolvem a medição da resistência elétrica ou a aplicação das leis de Newton, os alunos conseguem relacionar teoria e prática, o que fortalece a retenção do conteúdo.

A utilização de simuladores também é uma ferramenta inovadora no Vestibular Cidadão. Esses recursos permitem que os estudantes manipulem virtualmente

sistemas físicos complexos, como circuitos elétricos e modelos de movimento planetário. Segundo Thomas (2000), a simulação é uma estratégia eficaz para complementar o ensino presencial, proporcionando uma experiência visual e interativa que enriquece o processo de aprendizagem Thomas (2000).

## Resultados obtidos

Neste trabalho, a análise é baseada em uma combinação de fontes. Os dados foram coletados tanto da experiência direta dos autores no projeto Vestibular Cidadão quanto de registros e anotações de práticas realizadas. Além disso, a elaboração do relato envolveu conversas informais com outros voluntários e educadores do cursinho, bem como a consulta a documentos institucionais produzidos pelo projeto. Essa abordagem permitiu uma análise abrangente, que reflete tanto a perspectiva dos autores, enquanto licenciandos em Física e participantes ativos do projeto, quanto insights adicionais obtidos por meio dessas interações e fontes documentais.

Esse conjunto de fontes possibilitou uma visão detalhada e reflexiva das contribuições para a formação docente dos licenciandos e do impacto das práticas inovadoras aplicadas no cursinho.

A implementação das metodologias ativas pelos alunos da UnB no Vestibular Cidadão gerou resultados notáveis. Dados internos do projeto mostram que, após a adoção dessas técnicas, houve uma melhora significativa no desempenho dos alunos, com aumento nas notas e na taxa de aprovação em vestibulares. Essa transformação está alinhada às ideias de Lev Vygotsky (1978), que defendia que o aprendizado ocorre de maneira mais eficaz em ambientes colaborativos e mediados por interações sociais Vygotsky (1978). Além disso, o papel dos próprios licenciandos foi transformado. Eles deixaram de ser meros facilitadores de conteúdo para se tornarem agentes ativos na gestão educacional, desenvolvendo habilidades que os preparam para atuar como líderes educacionais. Essa experiência é valiosa não apenas para o sucesso acadêmico dos alunos do cursinho, mas também para o crescimento pessoal e profissional dos universitários envolvidos.

Vestibular Cidadão exemplifica como a integração de metodologias ativas e a gestão educacional podem transformar a experiência de aprendizado tanto para os alunos quanto para os licenciandos. A Universidade de Brasília, por meio de sua Licenciatura em Física, demonstra que a educação pode ir além da sala de aula, preparando futuros educadores para enfrentar os desafios do ensino superior e contribuir para um ambiente de aprendizado mais dinâmico, inclusivo e adaptável às necessidades dos estudantes, promovendo não apenas o desenvolvimento acadêmico, mas também o crescimento pessoal e profissional dos envolvidos.

A equipe do projeto implementou uma série de soluções, incluindo a formação contínua dos licenciandos e a criação de um ambiente de feedback aberto, onde os alunos se sentem à vontade para compartilhar suas experiências e sugestões. Essa abordagem colaborativa não apenas facilitou a adaptação às novas metodologias, mas também incentivou a construção de uma comunidade de aprendizado, promovendo a troca de ideias e a resolução conjunta de problemas.

Adicionalmente, foram realizadas reuniões regulares para discutir o progresso do projeto e ajustar as estratégias conforme necessário, garantindo que as necessidades

dos alunos fossem sempre atendidas. Outra solução proposta foi a integração de tecnologias educacionais, como plataformas de aprendizado online e ferramentas de colaboração, que permitiram um acesso mais flexível ao conteúdo e a interação entre os participantes, mesmo fora do ambiente de sala de aula. Por exemplo, foram disponibilizadas apostilas digitais com conteúdo específico para o ENEM, abrangendo desde matérias básicas até tópicos mais complexos de física, química e matemática. Essas apostilas contavam com exemplos resolvidos passo a passo, exercícios propostos e um foco especial na aplicação de conceitos práticos, como o cálculo de transformação de unidades e questões de trigonometria, elementos-chave no vestibular.

Ademais, formulários interativos foram criados para a resolução de simulados, permitindo que os alunos não só testassem seus conhecimentos, mas também recebessem feedback imediato sobre seus erros e acertos. Esses simulados incluíam questões que simulavam a estrutura do ENEM, com foco em temas recorrentes nas provas, como gráficos de funções, cálculos de triângulos em problemas de geometria e questões envolvendo razões trigonométricas. A integração dessas ferramentas educacionais ajudou a preparar os estudantes de forma mais eficaz, familiarizando-os com o formato do exame e permitindo que eles monitorassem seu progresso de maneira contínua.

Outro recurso amplamente utilizado foi o uso de simuladores virtuais que permitiam aos alunos interagir com modelos de fenômenos físicos e químicos que são cobrados nas questões do ENEM. Simuladores de circuitos elétricos, por exemplo, possibilitaram que os alunos visualizassem os conceitos de corrente e resistência de maneira prática, sem a necessidade de equipamentos físicos, proporcionando uma experiência de aprendizado mais acessível e envolvente. Essa combinação de recursos digitais garantiu uma preparação mais completa, atendendo tanto aos alunos que aprendem melhor com conteúdos visuais quanto àqueles que preferem a prática por meio da resolução de problemas e experimentação.

Por fim, a implementação de um sistema de mentoria, em que alunos mais experientes ajudam os novatos, foi fundamental para fortalecer o apoio entre os estudantes e criar um ambiente de aprendizado mais acolhedor e inclusivo. Essas soluções, combinadas, visam não apenas melhorar o desempenho acadêmico, mas também fomentar habilidades socioemocionais essenciais para o desenvolvimento pessoal e profissional dos alunos.

## Considerações/conclusões

Apesar do sucesso do projeto Vestibular Cidadão, a implementação de metodologias ativas não foi isenta de desafios. Um dos principais obstáculos foi a resistência inicial de alguns alunos em adotar novas abordagens de aprendizado. Para superar isso, foram realizados workshops e sessões de feedback , momentos em que os alunos puderam expressar suas preocupações e sugestões.

Além disso, outro grande desafio enfrentado é trazer os conteúdos de cursinho para discentes com bagagens de conhecimento muito diferentes, e, ao mesmo tempo, para alunos com capacidades diversas. No entanto, com o apoio de materiais elaborados por estudantes da UnB, como apresentações e atividades voltadas para transposição didática, o projeto conseguiu adaptar os conteúdos a diferentes níveis de aprendizado. A transposição didática realizada, associada ao enfoque dado pela

universidade em didáticas inclusivas, voltadas para todos os públicos, foi essencial para garantir que o projeto alcançasse grandes avanços. Esse processo permitiu atender a um público tão necessitado, proporcionando uma educação que não só respeita as diferenças entre os alunos, mas também busca elevar o nível de aprendizado de todos, independentemente de suas formações anteriores.

A análise do impacto da Licenciatura em Física da Universidade de Brasília (UnB) no projeto "Vestibular Cidadão" revela a importância da formação integrada que os alunos recebem. Ao se envolverem em atividades que vão além da sala de aula, como gestão de recursos humanos e coordenação pedagógica, os estudantes desenvolvem habilidades essenciais para a educação contemporânea. Essa experiência prática não apenas enriquece sua formação acadêmica, mas também os prepara para atuar como líderes e gestores no futuro.

- O uso de metodologias ativas e soluções inovadoras no cursinho popular demonstra como a educação pode ser transformadora, especialmente para estudantes de baixa renda que buscam acesso ao ensino superior. A participação dos licenciandos na administração do projeto reflete um modelo de educação colaborativa que promove a inclusão e a democratização do conhecimento.

Em suma, a Licenciatura em Física da UnB, ao se integrar ao "Vestibular Cidadão", não apenas contribui para a formação de professores competentes, mas também para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa, na qual a educação é um direito acessível a todos. Essa iniciativa exemplifica como a universidade pode impactar positivamente a comunidade, formando profissionais comprometidos com a transformação social.

## Referências

DEWEY, J . Experience and Education . New York: Macmillan, 1938.

DWECK, C. S. Mindset: The New Psychology of Success . New York: Random House, 2006.

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido . São Paulo: Paz e Terra, 2000.

MAZUR, E. Peer Instruction: A User's Manual. Upper Saddle River, NJ: Prentice Hall, 1997.

PIAGET, J. The Grasp of Consciousness: Action and Concept in the Young Child . Cambridge, MA: Harvard University Press, 1976.

THOMAS, J. W. A Review of Research on Project-Based Learning . San Rafael, CA: Autodesk Foundation, 2000.

VYGOTSKY, L. S. Mind in Society: The Development of Higher Psychological Processes . Cambridge, MA: Harvard University Press, 1978.

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