PERCEPÇÕES DE JUSTIÇA SOCIAL DE UM GRUPO DE ESTUDANTES DE UM CURSO DE FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DE FÍSICA
Leandro Londero, Eric Delarco Bertoni
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 24/01/2025
- Linha de pesquisa
- Formação, Práticas E Desenvolvimento Profissional Docente No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## PERCEPÇÕES DE JUSTIÇA SOCIAL DE UM GRUPO DE ESTUDANTES DE UM CURSO DE FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DE FÍSICA
Leandro Londero da Silva 1 , Eric Delarco Bertoni 1
1 Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, Faculdade de Ciências, Universidade Estadual Paulista 'Júlio de Mesquita Filho', Av. Eng. Luís Edmundo Carrijo Coube 14-01 - Vargem Limpa - CEP 17033360 - Bauru, SP, Brasil, Leandro.londero@unesp.br; eric.delarco@unesp.br
## Resumo
Esta pesquisa é um recorte de uma dissertação que trata sobre o Ensino de Física para a Justiça Social. Nosso objetivo é compreender a percepção de Justiça Social de professores em formação inicial em um curso de Física Licenciatura. Para tanto, realizamos uma revisão bibliográfica sobre o tema, elaboramos um questionário com sete questões e o aplicamos em uma disciplina de final de curso. Com o questionário, objetivávamos que os estudantes expressassem suas ideias acerca da Justiça Social e das possíveis influências da Educação/Ensino de Física na concretização da Justiça Social na sociedade. As respostas foram sistematizadas e analisadas na perspectiva da Teoria de Justiça Social de Nancy Fraser. Os resultados indicaram que os discentes apresentam respostas muito superficiais, sem utilizar conceitos, termos ou teorias específicas de Justiça Social, o que se assemelha aos resultados encontrados em revisão bibliográfica. A fim de sanar este problema e contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade baseada em equidade, sugerimos a inclusão de discussões acerca da Justiça Social nos cursos de formação de professores de Física.
Palavras-chave : Justiça social; Formação de professores; Ensino de Física.
## Introdução
Esta pesquisa é um recorte de um estudo mais amplo, desenvolvido em nível de mestrado, no qual estudamos possibilidades de atrelar o Ensino de Física à Justiça Social. Justiça Social é um termo complexo de definir. As questões relacionadas aos direitos humanos, gênero, diversidade étnica e acúmulos de capital impossibilitam a univocidade do termo para com uma só definição (North, 2008). É comum buscar maneiras de atrelar a Justiça Social à igualdade e à equidade (North, 2008). Da mesma maneira, é comum relacionar a falta de Justiça Social à presença de desigualdades e injustiças sociais.
Podermos afirmar ser fundamental investigarmos a sociedade, os grupos e as formas de poder, a fim de buscarmos alternativas para a superação das injustiças sociais e atingirmos a equidade de maneira global. Assim, a Justiça Social não pode ser apenas um objetivo longínquo, mas deve ser estudada e entendida enquanto um processo complexo, permeado por diversos tipos de relações causa-efeito, que devem ser sanadas a nível mundial (Fraser, 2002; Miller, 1999).
Uma das maneiras de combater as desigualdades sociais e evidenciar o poder popular na busca pela Justiça Social é por meio da Educação. Uma Educação adequada visa formar cidadãos ativos, conscientes e aptos para viver e transformar a sociedade em que vivem. Além disso, devem saber identificar injustiças e buscar solucioná-las com o poder político e social que lhes compete. Uma educação que possibilite questionar injustiças e se direcione à equidade está alinhada com os objetivos da Justiça Social.
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
Para mais, estudar, ensinar e incentivar a Justiça Social é um ato político que ataca diretamente a disparidade econômica, o preconceito e as demais injustiças sociais.
Contudo, para que seja possível abordar adequadamente os conceitos de Justiça Social em sala de aula e, posteriormente, colher os frutos de uma teoria social que busca equidade de maneira global, é preciso estar ciente das potencialidades e das controvérsias que envolvem o tema.
Uma possibilidade para iniciarmos a discussão sobre Justiça Social no Ensino de Física é por meio da identificação da percepção sobre esse tema que manifestam alunos da educação básica e estudantes de licenciatura. Diante disso, nosso objetivo é identificar e compreender a percepção de Justiça Social de professores em formação inicial de curso de Física Licenciatura .
Temos por questões orientadoras as seguintes perguntas: a) Que compreensões de Justiça Social são manifestadas por estudantes concluintes de um curso de formação de professores de física? b) Que atores sociais/entidades os estudantes destacam na transformação da realidade social dos indivíduos? c) Que possibilidades os estudantes expõem de contribuição do Ensino de Física para a promoção da Justiça Social?
Para fundamentarmos nossas discussões, na próxima seção, apresentamos nosso referencial teórico que está ancorado nas proposições de Nancy Fraser.
## Justiça Social na perspectiva de Nancy Fraser
Nancy Fraser é uma filósofa estadunidense afiliada à escola de pensamento conhecida como teoria crítica. Para Fraser (2002), a teoria da Justiça Social começa com a identificação das injustiças no campo econômico e reivindicações relacionadas à redistribuição de renda. Em seguida, surgem teorias destinadas às políticas de reconhecimento, cujo objetivo é buscar maneiras de reconstruir a identidade dos injustiçados e dar a devida importância aos indivíduos, classes e grupos marginalizados. Entretanto, apesar de apresentarem a equanimidade como um dos objetivos finais, os defensores destas teorias não se comportavam como aliados.
Fraser (2002) compreende que as duas abordagens são válidas e importantes para atingir a equidade. A autora destaca que estas abordagens não devem ser utilizadas separadamente, mas se complementam. Para mais, somou uma outra instância de análise: a representação. O campo da representação pode ser entendido como a necessidade de representação dos interesses de um indivíduo, grupo ou classe, por meio de outra pessoa, grupo, mecanismo ou manifestação autoral. Fraser (2002) destaca que os problemas presentes em uma esfera afetam as demais, ainda que não seja intencional.
'As políticas redistributivas têm efeitos de reconhecimento inapropriado quando os padrões subjacentes de valor cultural desviam o sentido das reformas econômicas, quando, por exemplo, há uma desvalorização generalizada da mulher que cuida dos seus 1 como alguém que 'ganha alguma coisa sem fazer nada'. Neste contexto, a reforma de bem-estar não terá sucesso se não vier unida a lutas por mudança cultural que visem a reavaliar, por exemplo, o cuidado das crianças e as associações femininas
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que o codificam. Em resumo, nenhuma redistribuição sem reconhecimento.' (Fraser, 2002, p. 25).
Assim, é preciso solucionar os problemas econômicos de toda a população, destinar o devido reconhecimento aos cidadãos privados de seus direitos e deveres 2 , e garantir a representação dos interesses de todos os grupos sociais para que a sociedade esteja em equanimidade. Fraser (2002) esclarece que, para que tal tarefa seja possível, é necessário que as injustiças sociais sejam encaradas por meio de uma perspectiva global, ou seja, é preciso dispor de esforços multilaterais e múltiplos para buscar a equanimidade.
Dado o exposto, utilizaremos dos preceitos de Nancy Fraser para compreender as percepções de Justiça Social de um grupo de estudantes, em formação inicial, de um curso de formação de professores de Física.
## Processo Metodológico
Iniciamos nossa investigação com a realização de uma revisão de literatura dos estudos realizados que versam sobre a percepção de estudantes de cursos de graduação acerca da Justiça Social. Nosso intuito foi o de obter estudos que permitissem comparações e que nos auxiliassem na definição de parâmetros de análise dos resultados que obteríamos. Para tanto, usamos as bases de dados ERIC, SciELO, Periódicos CAPES e Scopus.
Mediante revisão bibliográfica, encontramos 07 estudos que se dedicam a estudar as percepções de Justiça Social de professores em formação inicial (Oguz, 2017; Bursa e Ersoy, 2016; Moore, 2022; Gûller, 2021; Park, 2008; Limbada, 2021; e Pulla et al., 2017). Ao investigarem as percepções de professores, os autores apresentam, como um dos resultados, que os participantes das pesquisas definem a Justiça Social de maneira superficial, normalmente relacionando este conceito à equidade, sensibilidade social, responsabilidade social, percepções de discriminação, respeito, justiça, tolerância, empatia e direitos humanos (Bursa e Ersoy, 2016; Pulla et al., 2017; e Gûller, 2021).
Na sequência, elaboramos um questionário composto de seis questões abertas, por meio das quais buscávamos que os estudantes expressem suas ideias acerca da Justiça Social e das possíveis influências da Educação e do Ensino de Física na para a promoção da Justiça Social. As questões foram validadas em reuniões com os integrantes do grupo de pesquisa em que o presente trabalho é desenvolvido. As questões são:
- 1) Para você, a sociedade em que vivemos é justa? Comente?
- 2) Descreva seu entendimento de Justiça Social;
- 3) O que é uma Injustiça Social? Cite exemplos;
- 4) Quem pode reduzir as injustiças sociais? Comente;
- 5) A Educação pode reduzir as injustiças sociais? Em caso positivo, como? Comente;
- 6) Como o ensino de Física poderia contribuir para reduzir as Injustiças Sociais?
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O questionário foi aplicado em uma disciplina de metodologias de Ensino de Física, do último semestre de um curso de formação de professores de física, de uma universidade estadual do estado de São Paulo. Os estudantes poderiam usar o tempo que desejassem para responder. Em média, os estudantes responderam o questionário em torno de 1h30min.
O questionário foi respondido com um conjunto de sete alunos, em um laboratório de informática, por meio do acesso aos e-mails pessoais. Os alunos acessaram seus emails, redigindo as respostas e enviando elas ao e-mail do primeiro autor do presente estudo.
As respostas dos participantes foram analisadas a partir de categorias, adaptadas de Nancy Fraser (2002), que permitem comparações entre as respostas obtidas e um espectro de entendimentos de JS, desde um nível superficial até posicionamentos teoricamente fundamentados. A saber: Filosófico/Conceitual; Prático; Etnográfico; Teoricamente Específico; Democraticamente Fundamentado; e Paridade de Justiça.
Com o propósito de contemplar os preceitos éticos de coleta e análise de dados com humanos, submetemos o projeto maior, no qual o presente estudo está inserido, para análise do Comitê de Ética em Pesquisa. Todos os participantes foram convidados a participar e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Nos resultados que apresentaremos, as identidades dos participantes serão protegidas mediante a substituição dos nomes verdadeiros por siglas. As respostas foram registradas em tabelas, a fim de facilitar as análises. Tendo em vista a limitação de páginas deste relato, apresentaremos e analisaremos as respostas dadas as questões 2, 4, e 6. Ainda, apresentaremos apenas algumas respostas a título de ilustração ao leitor, consideradas relevantes para o escopo do nosso estudo.
## Resultados e Discussões
Ao serem questionados sobre o entendimento de Justiça Social, todos os discentes declararam que ela estaria ligada à igualdade, direitos e deveres, proteção do Estado para com o cidadão ou maneiras de diminuir as desigualdades sociais por meio de políticas públicas e ações, como no exemplo abaixo reproduzido.
'Não sei ao certo, mas imagino que seria uma justiça (políticas públicas) que busque a igualdade social garantindo direitos obrigatórios a todos os cidadãos, como estudos, saúde, lazer.' (HERSS)
'A meu ver a Justiça Social é responsável por garantir a todos da sociedade os mesmos uanto ao acesso às componentes básicas para sua formação como ser social.' (GFRL)
A percepção dos estudantes sobre Justiça Social parece estar ligada ao que se tem chamado de reinvindicações redistributivas, ou seja, aquelas que 'pretendem buscar uma distribuição mais justa dos recursos e riquezas' (Fraser, 2002, p. 7). No entanto, Fraser (2020) argumenta que cada vez mais vemos um segundo tipo de reinvindicações, o que a autora chama de reconhecimento. Fraser cita como exemplos o 'reconhecimento das distintas perspectivas das minorias étnicas, 'raciais', sexuais e das diferenças de gênero' (2002, p. 7).
A percepção de justiça social relacionada ao reconhecimento não foi identificada nas falas dos estudantes na segunda pergunta. A percepção redistributiva fica também evidenciada quando os estudantes expõem exemplos de injustiças.
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'Injustiça Social refere-se ao aumento de desigualdade social, um exemplo é a disponibilização de materiais e melhorias na qualidade de ensino público em âmbitos mais favorecidos economicamente, tendo em vista que muitas localidades estão em estado precário e muita das vezes com um aumento na evasão escolar, que, em consequência, aumenta cada vez mais a desigualdade social.' (LBR)
Porém, ao citarem exemplos de injustiça, os estudantes expõem exemplos relacionados a justiça de redistribuição, como também a de reconhecimento.
'Injustiça social é colocar uma pessoa ou um grupo em situações precárias e sem qualquer assistência social. Por exemplo, quando temos bairros em cidades grandes que não tem esgoto, escolas de qualidade, índices de violência alto entre outros problemas, estamos diante de uma injustiça social, pois aquelas pessoas são cidadãos como nós. Também temos casos de injustiça com grupos da sociedade, como mulheres e pessoas negras, que sofrem com injustiças causadas por pessoas que simplesmente não aceitam o fato daquele grupo existir e atuar na sociedade.' (GV, grifo nosso).
Ao perguntarmos sobre os atores responsáveis pela eliminação/redução das injustiças sociais, os discentes respondem que são os próprios cidadãos que devem mudar a sociedade, mas que o governo com políticas públicas possui um papel fundamental na atuação para a redução das injustiças.
'Acredito que a educação é um bom caminho, fazendo as pessoas perceberem seus direitos e que devam lutar por eles, e assim o próprio povo poderia reduzir a desigualdade quando luta por isso. Mas no fim, quem de fato reduz essas injustiças seria o governo com leis, políticas públicas. Assim com a boa educação, para formar pessoas mais críticas, um governo igualitário que promova a igualdade, e dependendo do tempo para vencer as cicatrizes históricas, conseguimos uma sociedade mais justa.' (HERSS)
'O governo público, ele é o maior responsável não só por reduzir as injustiças sociais, mas também por aumentar a desigualdade social, o exemplo da questão anterior refere-se diretamente ao governo público municipal, estadual e/ou federal. Para reduzir as injustiças sociais é necessário um olhar universal e ter como objetivo igualar a qualidade de vida.' (LBR)
Com relação as contribuições do ensino de física na redução das Injustiças Sociais, os estudantes argumentaram, em maior ou menor grau, sobre a sua importância na conscientização da população e na luta contra as desigualdades sociais. Os estudantes citam episódios históricos para justificar suas respostas.
'Penso que pessoas que compreendem melhor o mundo ao seu redor, tomam decisões melhores, com um especialista em física temos tomadas de decisões melhores em questões ambientais, energéticas ou até políticas públicas.' (VBS)
'A história da física tem casos que envolvem situações de injustiça, como no caso da bomba atômica, que matou milhares de pessoas que não tinham nada com a guerra, e o caso das Radium Girls, onde mulheres sofreram com efeitos de uma contaminação radioativa causada pelo elemento Rádio. Esses exemplos mostram como esse debate pode aparecer dentro do contexto da física, com intuito de demonstrar que a ciência quando usada de forma não reflexiva ou até com certa maldade pode vir a causar danos a grupos/pessoas.' (GV)
Evidenciamos que as respostas dadas pelos estudantes estão ancoradas em suas experiências de vida e suas visões subjetivas. Pulla et al. (2017) afirma que estas concepções são consequências da inexistência de disciplinas dedicadas, ainda que parcialmente, à Justiça Social no currículo de formação de professores.
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## Considerações Finais
As percepções manifestadas pelos estudantes de nosso estudo se assemelham aquelas encontradas em estudos já publicados e por nós identificados. Elas são superficiais, se enquadram dentro das duas primeiras categorias -Filosófico/Conceitual e Prática -e não estão ancoradas/fundamentadas em discussões teóricas. Isso pode ser justificado pelo fato do curso, do qual participam os estudantes colaboradores, não possuir disciplinas que abordem discussões sobre Justiça Social. Diante disso, pensamos ser fundamental inserir, na formação de professores de física, discussões sobre Justiça Social a partir de fundamentos teóricos consolidados, como aqueles apresentados por Nancy Fraser.
Uma agenda de pesquisa em Ensino de Física poderia contemplar estudos que analisassem a implementação de disciplinas, módulos didáticos e atividades com foco no Ensino de Física para a Justiça Social.
## Agradecimento
Agradecemos o apoio da CAPES - Código de Financiamento 001.
## Referências
BURSA, S.; ERSOY, A. F. (2016). Social Studies Teachers' Perceptions and Experiences of Social Justice. Eurasian Journal of Educational Research , v. 64, p. 319-340.
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LIMBADA, Z. (2021). Teacher perceptions and practices of social justice in the english home-language fet phase . University of Johannesburg.
MILLER, D. (1999). Principles of social justice . Cambridge, MA: Harvard University Press.
MOORE, E. T. (2022). Exploring high school students' perceptions post a social justice mathematics lesson . Honors Program Theses. 532.
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PULLA, V.; CHANNAVEER, R. B. R. M. (2017). Social Work Students' Perceptions of Peace and Social Justice. International Journal of Innovation , Creativity and Change, v. 03, n. 01.
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