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CONTRA HEGEMONIA E O ENSINO DE FÍSICA: PANORAMA DA PRODUÇÃO ACADÊMICA.

Anna Carolina Rodrigues Yu, Lais Rodrigues Da Silva, Rodrigo Trevisano De Barros

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
24/01/2025
Linha de pesquisa
Formação, Práticas E Desenvolvimento Profissional Docente No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CONTRA HEGEMONIA E O ENSINO DE FÍSICA: PANORAMA DA PRODUÇÃO ACADÊMICA

Anna Carolina Rodrigues Yu¹, Laís Rodrigues da Silva¹, Rodrigo Trevisano de Barros 2

- 1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro/ Departamento de Física aplicada e Termodinâmica/anna.carolina.yu@gmail.com/lais.silva@uerj.br
- 2 Colégio Pedro II /Departamento de Física/ rodrigotrevisano@gmail.com

## Resumo

Este estudo tem como objetivo analisar como as produções acadêmicas na área de ensino de Física vêm abordando questões contra hegemônicas. Foram examinadas seis produções acadêmicas, que forneceram a base teórica para a discussão sobre a reprodução e a contestação de ideias hegemônicas no ensino de Física. A análise dos textos foi realizada com o apoio do software Atlas Ti, o que possibilitou a categorização dos conteúdos em temas como: cultura e o ensino de Física, currículo e hegemonia, ensino contra hegemônico, formação de professores e a relação de gênero. Cada uma dessas categorias foi desenvolvida a partir de trechos específicos extraídos das pesquisas analisadas, permitindo uma discussão mais profunda sobre como o ensino de Física tem refletido e, em alguns casos, desafiado as estruturas dominantes. Este estudo busca contribuir para a construção de um panorama que explore as possibilidades de rompimento com os discursos hegemônicos no ensino de Física. Ele ressalta a necessidade de um enfoque educativo que promova a reflexão crítica, valorize a diversidade cultural e social e estimule uma transformação significativa nas práticas pedagógicas. Com isso, espera-se incentivar a implementação de uma educação mais inclusiva e consciente de seu papel na formação de cidadãos críticos e atuantes na sociedade.

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Palavras-chave : Ensino de Física, Discurso Hegemônico, Contra hegemonia.

## Introdução

- O ensino de Física, assim como outras áreas do conhecimento, não é neutro ou desprovido de influências políticas e sociais. Ao longo da história, ele tem reproduzido valores e normas que favorecem determinadas visões de mundo, muitas vezes alinhadas a discursos hegemônicos. Esses discursos, ao se consolidarem no campo educacional, criam uma sensação de universalidade e neutralidade, ocultando as relações de poder e as desigualdades subjacentes. Dentro desse contexto, a Física é ensinada como uma ciência objetiva e neutra, desconsiderando as influências culturais e sociais que moldam seu desenvolvimento.
- O trabalho aqui desenvolvido se baseia na necessidade de questionar e repensar a forma como a Física é ensinada nas escolas e universidades, particularmente no que se refere à perpetuação de um ensino que sustenta discursos hegemônicos. É essencial compreender como essas questões são abordadas na produção acadêmica atual e como elas afetam a prática pedagógica, principalmente na formação de professores e na construção de currículos.
- O objetivo desta pesquisa é construir um panorama da produção acadêmica sobre o ensino de Física, com foco em como os discursos contra hegemônicos têm sido abordados e discutidos. Ao mapear essas discussões, esperamos contribuir para uma reflexão mais crítica sobre as práticas pedagógicas no ensino de Física e suas implicações sociais e culturais.

## O Comportamento Escolar Hegemônico

A escola, juntamente com a família, comunidades religiosas e regiões geográficas, desempenha um papel fundamental no processo dialético-histórico de construção e apropriação da cultura, moldando como os indivíduos se relacionam com ela. Nesse contexto, é essencial entender as tensões que emergem e se dissipam no ambiente escolar, contribuindo para a construção de uma lógica hegemônica. Esse entendimento é crucial para traçar um caminho contra hegemônico nos processos educativos e na forma como os conteúdos escolares são trabalhados. Compreender os conceitos relacionados ao discurso hegemônico é vital, pois oferece uma base reflexiva sobre a prática pedagógica e abre espaço para a elaboração de estratégias contra hegemônicas, buscando um processo educativo emancipatório. A divisão da sociedade entre opressores e oprimidos (Freire, 2005) gera relações desiguais, onde disputas e tensões tentam direcionar politicamente as ideologias, silenciando vozes sob uma aparente homogeneidade e consenso (Costa, 2011).

Para Laclau (1998), ausências no campo social permitem que práticas argumentativas direcionem os entendimentos, conduzindo a sociedade em uma busca pela universalização das interpretações. Entendemos, assim como o autor, que o conceito de hegemonia traduz um discurso particular e este passa a representar algo maior que ele. Na análise das condições que sustentam o discurso, é crucial entender que elas se completam e não devem ser avaliadas isoladamente. Cada nova dimensão carrega elementos da anterior, sendo a suposição da igualdade de poder a primeira sustentação do discurso hegemônico. A partir dessa falsa premissa, os enunciados geram nos atores a sensação de que possuem as mesmas oportunidades e necessidades, mesmo em contextos de poder desiguais.

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A segunda dimensão é o apagamento da distinção entre o particular e o universal, levando diferentes pautas a serem vistas como uma só, o que faz os indivíduos acreditarem que suas necessidades e lutas são homogêneas. Essa articulação entre as duas primeiras dimensões reforça a ideia de que, em um cenário de poder desigual, um grupo dominante pode declarar suas necessidades como universais. A terceira dimensão é o uso de significantes vazios: palavras e símbolos que, ao serem esvaziados de significado ao longo do tempo, permitem que diferentes interpretações sejam projetadas sobre eles. Assim, o discurso hegemônico faz com que todos os atores se sintam representados, apesar de suas diferenças. Essa é a quarta dimensão, em que, por meio de generalizações e retórica, o discurso hegemônico cria a falsa percepção de que as divisões de classe e as desigualdades foram superadas, inserindo a sociedade em um sistema que perpetua a ideologia dominante.

Esse processo não elimina as divergências reais, mas gera a ilusão de unidade. No campo da educação, isso se manifesta quando grupos de poder sugerem que toda a classe trabalhadora tem os mesmos espaços de negociação e que suas demandas são democraticamente atendidas, o que encobre a exploração e as desigualdades subjacentes. Gramsci evidencia o papel das disputas na estrutura histórico-cultural, apontando o comportamento ativo dos indivíduos nas mudanças sociais. Assim, precisamos ampliar o potencial emancipatório do processo formal de educação dos indivíduos, permitindo cada vez mais que o proletário desenvolva seu 'humanismo renascentista'. O ser humano é um ser histórico e cultural, ao mesmo tempo que constrói é construído pelas ideologias impostas na lógica hegemônica.

## O Ensino Contra Hegemônico

Sustentamos que um ensino contra hegemônico precisa construir indagações sobre o mundo, sobre o conhecimento e sobre o próprio homem, contribuindo com a percepção do indivíduo como ser social e histórico. Concebemos a escola como lugar ideal para o exercício da democracia, estimulando os indivíduos e grupos a externar suas necessidades, o que estranhamos é a falsa unificação dessas necessidades. As instituições escolares se apresentam como peça central na reprodução e sustentação de um discurso hegemônico, reproduzindo a lógica da unificação, assumindo previamente que as comunidades escolares onde estão inseridas possuem os mesmos objetivos e entendimento único sobre o que significa ser educado. No cotidiano escolar o nós substituímos rapidamente o eles e principalmente o eu. Acolhemos as palavras de Pereira (2012), entendendo o discurso contra hegemonia como:

à produção de sentidos e identidades em contraposição à lógica hegemônica também como uma definição a priori (grifo do autor). Rompendo com esse binarismo, Laclau nos permite pensar em hegemonias sendo permanentemente disputadas no campo da discursividade, sem que possamos prever exatamente quais sentidos e identidades serão produzidos. (p. 35).

Entendemos que um ensino contra hegemônico não deve renegar a racionalidade técnica, contudo ela precisa ser acompanhada das dimensões de seu contexto cultural, social, econômico etc. Esvaziar consensos vigentes se faz ao lado da diversidade, de um pensar complexo, da percepção do homem como ser histórico e

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cultural. É na via apontada por Petraglia (2013) que caminhamos, percebendo os sujeitos envolvidos como seres complexos, imersos no 'caldo cultural' de seu tempo e lugar, apostando em uma prática promotora de questionamentos que corroborem com a construção coletiva de sua autonomia. Entendemos que os envolvidos precisam se perceber como envolvidos na construção de sua identidade. Assim, precisamos levar em conta a diversidade de religiões, orientação sexual, gênero, culturas e etnias.

A escola é um espaço de recontextualizações, onde ocorrem ressignificações e diferentes relações de poder entre os atores sociais. Lopes (2008) aponta que o discurso pedagógico reflete as posições dominantes do campo econômico e do controle simbólico. Um ensino contra-hegemônico, nesse contexto, propõe uma pedagogia libertadora, permitindo ao indivíduo construir suas próprias percepções e, coletivamente, traçar um caminho para a escola em que se encontra. Giddens (1994) vê a identidade como um processo contínuo de criação de sentido e reinterpretação de valores, enquanto Gee (2000) associa identidade ao reconhecimento de si e dos outros em um determinado contexto.

Entendemos que a relação é indispensável à educação em um mundo globalizado, onde o contato com outras culturas se dá de maneira extremamente rápida. Apesar disso, desenvolver uma aula que contemple os debates e dilemas sociais é um desafio, uma tarefa que precisa romper com o discurso hegemônico que ecoa nas escolas, com um currículo 'politicamente' construído e com a formação dos professores.

## Delineamento Metodológico

Para a realização deste estudo, foram conduzidas buscas no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES com o intuito de identificar produções acadêmicas que abordassem o ensino de Física sob uma perspectiva contra-hegemônica. A metodologia seguiu uma sequência organizada de pesquisas e refinamentos. Inicialmente, o termo de busca 'ensino física hegemônico' retornou 42 trabalhos. Após a aplicação de um refinamento que limitou os resultados à área de conhecimento "Ensino de Ciências e Matemática", dois trabalhos foram selecionados por sua relevância.

Em seguida, o termo de busca 'ensino física hegemonia' foi utilizado, gerando os mesmos 42 resultados obtidos na busca anterior. Isso evidenciou a repetição dos resultados dentro dessa temática específica. Posteriormente, foi realizada uma nova busca com o termo 'ensino física Gramsci', que trouxe 7 resultados. Destes, dois trabalhos foram selecionados como pertinentes para o estudo. A busca com o termo 'física Gramsci' gerou 24 resultados. Ao aplicar o refinamento por nome de programa, limitando a busca à "Educação", restaram 13 trabalhos, sendo que dois destes foram os mesmos já identificados anteriormente. Com o termo 'ensino física contra hegemonia', foram identificados 40 trabalhos, dos quais, após refinamento pela área de conhecimento "Ensino de Ciências e Matemática", os mesmos estudos anteriores foram selecionados, reforçando a relevância desses trabalhos no tema investigado.

Por fim, a busca com o termo 'hegemônica física licenciatura' resultou em 9 trabalhos, dos quais 1 foi escolhido por sua relevância para a pesquisa. Já o termo 'ciências Gramsci' retornou 60 resultados, e após refinamento pela área de

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"Educação", restaram 27 trabalhos, dos quais 1 foi selecionado para análise. No total, 6 produções acadêmicas foram utilizadas como base teórica e metodológica deste estudo, contribuindo significativamente para a análise e compreensão do tema da contra-hegemonia no ensino de Física.

## A Pesquisa Qualitativa

A pesquisa qualitativa surge no final do século dezenove inicialmente em pesquisas feitas na antropologia e na sociologia. No âmbito educacional, a utilização da abordagem qualitativa nas pesquisas aparece com maior intensidade a partir de 1970 (Ludke e André, 1986). Alguns pesquisadores deram início a sua utilização devido a sua capacidade de detalhamento sobre atitudes e crenças humanas descritíveis e que não seriam tão significativas se fossem transformadas apenas em valores numéricos. A coleta e análise dos dados desse artigo foram guiadas pelos princípios orientadores mencionados acima, considerando o caráter descritivo da pesquisa e a análise indutiva dos dados, levando em consideração todo o processo de desenvolvimento dos trabalhos finais que compõem um dos nossos objetos de análise.

Para a análise dos dados obtidos nessa pesquisa será utilizada a técnica de análise de conteúdo por ser considerada adequada na descrição e interpretação do conteúdo de toda classe de documentos e textos, podendo conduzir a descrições sistemáticas, qualitativas ou quantitativas, auxiliando a interpretar as mensagens e a atingir uma compreensão de seus significados em um nível que vai além de uma leitura comum, representando uma abordagem metodológica com características e possibilidades próprias (Moraes, 1999). Sobre a análise de conteúdo é importante ressaltar o caráter interpretativo da análise:

De certo modo a análise de conteúdo é uma interpretação pessoal por parte do pesquisador com relação à percepção que tem dos dados. Não é possível uma leitura neutra. Toda leitura se constitui numa interpretação.(Moraes, 1999, p.3).

Assim sendo, teremos como objetivo não apenas o levantamento das concepções de quem escreveu os documentos analisados, mas sobretudo os efeitos ideológicos da escrita, ou seja, diferentes sentidos podem ser atribuídos a uma mesma fala, gerando múltiplas possibilidades de análise que serão interpretadas de acordo com o contexto explicitado.

## O Software 'Atlas TI'

Utilizou-se o software ATLAS TI, que faz parte do conjunto de programas CAQDAS (Computer-Assisted Qualitative Data Analysis Software), desenvolvido para auxiliar pesquisadores na análise de dados não numéricos e não estruturados. Esses programas são especialmente úteis em análises qualitativas que excluem o exame e a interpretação detalhada de documentos textuais (Walter; Bach, 2009). O ATLAS.ti permite organizar, codificar e interpretar grandes volumes de dados qualitativos, facilitando a construção de uma análise mais sistemática.

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O Atlas TI é uma ferramenta poderosa de análise de dados, cuja principal característica é a interatividade com os mais diversos formatos de arquivos atuando sobre as bases de dados além de não possuir restrições de tamanho ou variedade de arquivos, podendo efetuar análises a partir de arquivos PDF e Word simultaneamente, mesmo que estes arquivos possuam interações com outras extensões, como tabelas do Excel ou imagens. O produto gerado através deste software é denominado 'Rede Semântica', sendo essa rede construída a partir da análise de conteúdo realizada pelo pesquisador. É importante ressaltar que o software auxilia na organização da análise, mas é a partir da interpretação do pesquisador que a rede é construída.

Com a utilização do Atlas Ti, foi possível selecionar trechos de produções acadêmicas relacionadas ao ensino de física, organizando e codificando o material de maneira sistemática. No software os códigos funcionam de forma semelhante às categorias utilizadas em uma análise de conteúdo tradicional. Eles representam conceitos ou temas específicos identificados pelo pesquisador e são organizados de maneira a formar uma rede semântica, que auxilia na interpretação e organização dos dados coletados. Esses códigos servem como pontos de conexão entre as diferentes partes do material desenvolvido, facilitando a construção de uma análise mais estruturada e significativa dos conteúdos. Esse processo permitiu identificar categorias que fornecem uma visão mais clara sobre como o discurso hegemônico e contra hegemônico tem sido abordado na educação científica. Através da codificação, foram destacados temas recorrentes nas publicações analisadas, oferecendo subsídios para uma análise mais detalhada dos elementos centrais presentes na pesquisa.

## Análise

Apresentaremos a seguir as categorias construídas a partir da análise dos dados coletados.

Quadro 01: Categorias Construídas

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## Fonte: Os autores

A partir desses códigos e categorias, podemos perceber como as questões de hegemonia e contra hegemonia se entrelaçam com o ensino de Física, impactando tanto o currículo quanto a formação docente e as relações de poder no ambiente educacional.

## Considerações Finais

A análise dos trabalhos selecionados demonstra que, embora haja discussões sobre práticas pedagógicas e curriculares que visam promover uma abordagem mais inclusiva e crítica no ensino de Física, não existe uma produção acadêmica consolidada que justifique um comportamento plenamente contra-hegemônico nesse campo. As tentativas de incorporar perspectivas críticas, como as baseadas nas ideias de Gramsci, ainda se apresentam de forma fragmentada e pontual.

Os desafios relacionados à hegemonia no ensino de Física, especialmente em termos de currículo, formação de professores e gênero, são amplamente reconhecidos, mas as soluções propostas são insuficientes para promover uma transformação significativa no sistema educacional. Faltam, portanto, ações concretas e sustentadas que integrem essas discussões de forma consistente na prática

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educativa. A resistência às estruturas hegemônicas permanece mais teórica do que prática, revelando a necessidade de uma maior articulação entre a produção acadêmica e a implementação de mudanças reais no contexto escolar.

Assim, é crucial que futuras pesquisas e intervenções pedagógicas sejam direcionadas para a construção de uma educação verdadeiramente contrahegemônica, que seja capaz de transformar não apenas o ensino de Física, mas também as relações de poder que sustentam as desigualdades sociais no ambiente educacional.

## Referências

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