Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

DESENVOLVIMENTO DO CAPITAL CIENTÍFICO CULTURAL: RELEVÂNCIA E ABORDAGENS PRÁTICAS

Adriana Ferreira De Souza Cardinot, Andy Shearer, Elis Miranda, Maria Priscila Pessanha De Castro

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
24/01/2025
Linha de pesquisa
Divulgação Científica E Práticas Educativas Em Espaços Educativos Formais, Informais E Não Formais E O Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2025

Texto completo

## DESENVOLVIMENTO DO CAPITAL CIENTÍFICO CULTURAL: RELEVÂNCIA E ABORDAGENS PRÁTICAS

## Adriana Cardinot¹, Andy Shearer², Elis Miranda³, Maria Priscila Pessanha Castro 4

- 1 School of Education, University of Galway, adriana.cardinot@universityofgalway.ie

2 School of Physics, University of Galway, andy.shearer@universityofgalway.ie 3 Universidade Federal Fluminense, elismiranda@id.uff.br 4 Universidade Estadual do Norte Fluminense, mariapriscila@uenf.br

## Resumo

Capital científico refere-se ao conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes relacionadas à ciência que os indivíduos acumulam ao longo da vida. Este capital vai além do domínio de conteúdos científicos, abrangendo também a capacidade de engajamento crítico com a ciência em contextos sociais e culturais. Neste trabalho apresentamos dois casos práticos de como o capital científico pode ser promovido por meio da integração entre ciência e manifestações culturais, tornando a ciência mais acessível e relevante para diferentes públicos. Através dessas atividades, a inclusão das artes no ensino de física pode facilitar a compreensão e engajamento, especialmente em contextos onde a ciência é percebida como distante do cotidiano. Ao utilizar abordagens inovadoras, como atividades artísticas simples para explorar conceitos astronômicos, esses projetos desmistificam temas complexos, tornando-os mais compreensíveis e atraentes. Este trabalho mostra que a integração entre ciência e cultura não apenas amplia o acesso ao conhecimento científico, mas também promove uma cultura científica mais inclusiva, relevante e democrática, contribuindo para a redução das desigualdades sociais e a formação de cidadãos mais informados e participativos.

Palavras-chave : Física, Capital Cultural Científico, Divulgação Científica.

## Introdução

O capital cultural científico abrange as diversas formas pelas quais as pessoas se conectam com a ciência através de manifestações culturais, como arte, literatura, música e outras expressões culturais (Oliveira et al., 2021; Colletti, 2017). Esse conceito é crucial porque integra a ciência à cultura e à vida cotidiana, afastando-a da percepção de que é apenas uma disciplina acadêmica (Archer et al., 2015). Ao associar a ciência a elementos culturais familiares e acessíveis, o capital cultural científico torna a ciência mais relevante e significativa, facilitando tanto a compreensão quanto o engajamento de diferentes públicos.

No contexto da física, o desenvolvimento do capital cultural científico é especialmente pertinente, pois aproxima essa ciência das pessoas, tornando-a mais acessível e relevante (Cooper & Berry, 2020). A divulgação científica por meio de recursos culturais e artísticos pode desempenhar um papel fundamental nesse processo, transformando a física em uma experiência mais atrativa e compreensível. Projetos que combinam física com arte visual ou performances teatrais, por exemplo, podem desmistificar conceitos complexos e despertar o interesse do público. Nesse sentido, o capital cultural científico atua como um mediador,

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ

conectando a física ao público e promovendo uma compreensão mais profunda e uma maior apreciação dessa ciência (Michael, 2006).

Promover o capital cultural científico na física também tem importantes implicações para a equidade social. Ao tornar a física mais acessível e relevante para todos, independentemente de sua origem socioeconômica, cria-se um ambiente onde mais pessoas podem se envolver com a ciência e aproveitar as oportunidades educacionais e profissionais que ela oferece (Friedman, 2013). Isso contribui para uma sociedade mais justa, na qual o conhecimento científico é democratizado e utilizado para o bem comum (Tilly, 2006).

Apesar de seu grande potencial para aproximar o público da física, as manifestações culturais como ferramenta de divulgação científica ainda são subutilizadas e, muitas vezes, vistas como desconectadas do rigor científico tradicional (Schwartz, 2014). Essa visão subestima o valor dessas manifestações em tornar a ciência mais acessível e relevante para um público mais amplo, especialmente para aqueles que não têm interesse ou formação prévia em áreas científicas (Archer et al., 2015; Colletti, 2017).

A integração entre ciência e cultura não apenas amplia o alcance da divulgação científica, como também enriquece a própria ciência, permitindo novas formas de interpretação e comunicação de conceitos complexos (Oliveira et al., 2021). No entanto, essa área ainda demanda exploração e inovação, exigindo um esforço cuidadoso para traduzir conceitos físicos abstratos em uma linguagem que ressoe com diferentes públicos, independentemente de sua bagagem acadêmica ou cultural (Galili & Zinn, 2007). Este é um desafio significativo, mas também uma oportunidade para promover uma cultura científica mais inclusiva e participativa (Tenório & do Nascimento Marques, 2021).

Neste trabalho, demonstramos dois casos práticos de como atividades culturais científicas podem ajudar a preencher essa lacuna. Especificamente, mostramos como o desenvolvimento do capital cultural científico em ambientes de educação não formal pode ser crucial para reduzir desigualdades sociais, promovendo o acesso equitativo ao conhecimento científico e às oportunidades dele derivadas.

## Integrando arte e física: Casos de Sucesso na Irlanda e no Brasil

Neste trabalho, serão apresentados dois casos de sucesso que ilustram como conceitos físicos podem ser explorados e transmitidos através das artes em suas diversas formas. Cada caso será discutido de maneira individual, uma vez que ocorreram em contextos distintos, o que permite destacar a diversidade de abordagens e de públicos-alvo envolvidos. Esses exemplos demonstram a versatilidade das artes como ferramenta para tornar a física mais acessível e engajante, mostrando como diferentes manifestações artísticas podem ser eficazes na comunicação de conceitos científicos complexos a uma ampla gama de audiências.

## Making Space Programme - astronomia através das artes

- O Programa Making Space (MSP) foi uma iniciativa de divulgação de astronomia realizada em Galway, Irlanda, de 2017 a 2022, visando reduzir a lacuna entre grupos sub-representados e a astronomia. O programa tinha três vertentes

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

principais: Educação e Engajamento, Infraestrutura Aumentada e Participação Criativa. Aqui descreveremos apenas os trabalhos desenvolvidos na vertente Educação e Engajamento. Nessa primeira iniciativa, um projeto educacional foi desenvolvido para explorar o potencial de combinar artes e astronomia em um programa comunitário voltado para pessoas em baixa condição socioeconômica. O projeto teve dois objetivos principais: (1) investigar o uso de abordagens artísticas que valorizassem a importância da troca e colaboração entre os participantes e (2) explorar iniciativas que visassem engajar todos os participantes em astronomia.

- O projeto ocorreu na instituição Croí na Gaillimhe, uma organização de caridade local que tem trabalhado com grupos desfavorecidos educacional, social e economicamente. Entre suas iniciativas, destaca-se um programa intergeracional chamado Young Hearts. Este programa visava a quebra de preconceitos frente ao envelhecimento através de atividades comunitárias entre jovens e idosos em situação de vulnerabilidade. Semanalmente os participantes investigaram diferentes tópicos relacionados à astronomia através de diferentes manifestações artísticas. A participação no projeto foi sempre voluntária, tanto para os jovens quanto para os idosos. Para a maioria dos participantes envolvidos no programa, foi a primeira vez que aprenderam sobre tópicos relacionados à astronomia.
- O desenvolvimento do programa de atividades contava com astrônomos, pesquisadora em ensino de física, artistas visuais profissionais e professores de artes da educação básica. Adotamos abordagens inovadoras que integram astronomia e artes, com o objetivo de combater concepções não-científicas e promover o interesse pela astronomia. Os conteúdos foram selecionados através de entrevistas iniciais com os participantes sobre temas que eles possuem curiosidades ou dúvidas. Diversos conteúdos relacionados a física e astronomia foram explorados, tais como: constelações, aplicações da astronomia no cotidiano, planetas e suas órbitas, gravidade, espectro de cores, astrofotografia, marés, visitas a museus de astronomia, sistema solar, resolução de imagens e movimento orbital. Esses temas foram explorados através e diferentes formatos de arte como: pintura, desenho, mapas conceituais, modelagem, grafite, fotografia, teatro, exposições de arte e diários de arte.
- A estrutura das oficinas seguia o mesmo formato em todas as sessões, para facilitar a integração entre astronomia e arte. Cada sessão era iniciada com uma discussão inicial sobre o tema do dia, buscando levantar o conhecimento prévio dos participantes e contextualizar a discussão. A seguir, uma descrição detalhada sobre o tema astronômico era apresentada aos participantes, usando uma linguagem clara e acessível considerando a diversidade educacional do grupo. Durante essa conversa inicial, conduzida pela pesquisadora ou por astrônomos profissionais envolvidos no projeto, procurávamos estabelecer conexões diretas entre conceitos astronômicos e elementos culturais, de modo a facilitar a compreensão e gerar interesse.

Após essa introdução técnico-científica, o artista ou profissional das artes envolvido assumia a condução da oficina. Nesse momento, os participantes eram incentivados a refletir artisticamente sobre o tema discutido, utilizando diferentes formas de expressão artística, como pintura, desenho ou escultura. A abordagem artística servia como um meio de consolidar o conhecimento científico apresentado anteriormente, estimulando a interpretação pessoal dos conceitos astronômicos e a criação de obras que refletiam essa compreensão. Cada sessão tinha a duração de

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

uma hora e meia, incluindo um intervalo para promover a troca de ideias e descanso.

Vale destacar que essa colaboração entre cientistas e artistas, em uma dinâmica conjunta, não apenas permitiu a discussão de temas de astronomia de maneira acessível, mas também incentivou os participantes a explorar suas próprias formas de expressão artística, relacionadas aos conceitos científicos abordados. Além disso, durante o processo artístico, havia espaço para aprofundar as discussões sobre o tema, garantindo que os conceitos de astronomia fossem revisitados e reinterpretados à medida que a atividade progredia, fortalecendo assim a conexão entre o conhecimento científico e a produção artística.

## Resultados

A metodologia de avaliação do projeto seguiu uma abordagem de métodos mistos paralela, na qual a coleta de dados quantitativos e qualitativos foi realizada simultaneamente. Foram utilizados diversos instrumentos de pesquisa, incluindo questionários, entrevistas, observações e grupos focais. Todos os participantes assinaram um termo de consentimento, confirmando sua participação tanto no projeto quanto na pesquisa associada. Importa ressaltar que a participação na pesquisa era opcional e voluntária, permitindo que os participantes se envolvessem apenas nas atividades do projeto sem terem seus dados coletados, caso assim preferissem. Os instrumentos de coleta de dados foram adaptados da literatura existente para se adequarem ao contexto específico do projeto. No total, 60 estudantes do ensino médio e 20 idosos de baixo nível socioeconômico participaram, além de cinco artistas profissionais com diferentes áreas de expertise. Vale destacar que, para a maioria dos participantes e artistas envolvidos, esta foi a primeira oportunidade de aprender sobre tópicos relacionados à astronomia.

O projeto alcançou um impacto significativo ao conectar diferentes gerações por meio da astronomia, criando um ambiente onde jovens e idosos puderam interagir e aprender juntos. Essa interação intergeracional foi fundamental para quebrar barreiras e promover um sentimento de comunidade, onde a troca de experiências e conhecimentos entre pessoas de diferentes faixas etárias enriqueceu o aprendizado coletivo. A astronomia, muitas vezes percebida como um campo distante e altamente técnico, foi trazida para o cotidiano dos participantes, tornandose um ponto de convergência para discussões significativas e o fortalecimento de laços sociais.

Uma das conquistas mais significativas do projeto foi a capacidade de facilitar discussões sobre tópicos complexos de astronomia, tornando-os compreensíveis e envolventes para todos os participantes. Ao utilizar materiais de arte simples, como desenhos, modelagem e colagens, conceitos astronômicos que normalmente seriam difíceis de entender foram desmistificados e apresentados de maneira acessível (Figura 01). Essa abordagem não apenas simplificou o entendimento do conteúdo, mas também estimulou a criatividade e a expressão pessoal dos participantes, permitindo que explorassem a ciência de uma forma individual e significativa. Ao tornar esses temas complexos mais acessíveis, o projeto conseguiu aumentar o interesse e o engajamento com a ciência.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

Figura 01: Exemplos de peças de arte produzidas durante o projeto.

<!-- image -->

Além disso, o projeto teve sucesso em aproximar a astronomia e a universidade da comunidade em geral. Ao levar atividades científicas para fora do ambiente acadêmico tradicional e inseri-las em contextos comunitários, o projeto abriu novas oportunidades para que um público mais amplo tivesse acesso ao conhecimento científico. Isso não apenas desmistificou a astronomia, mas também demonstrou que a ciência pode ser uma parte integral e acessível do cotidiano de todos, independentemente de sua formação ou experiência anterior. O uso de materiais de arte simples reforçou ainda mais a ideia de que a ciência não precisa ser inacessível ou elitista, mas pode ser compreendida e apreciada por todos.

Dessa forma, o projeto conseguiu fortalecer a conexão entre a universidade e a sociedade, promovendo uma cultura científica mais inclusiva e participativa. Ao integrar a astronomia com expressões artísticas acessíveis, ele não apenas quebrou barreiras entre o conhecimento científico e o público em geral, mas também criou um espaço onde a ciência é vivenciada como uma parte valiosa da vida cotidiana. Essa abordagem inovadora foi fundamental para tornar a ciência mais atraente e relevante para um público diversificado, promovendo uma maior equidade no acesso ao conhecimento científico.

## Fotografia e as interações entre educação, ciência e arte

Propor metodologias inovadoras para o ensino de física e disseminá-las por meio de docentes da rede pública municipal é um desafio constante em cursos de formação continuada. Nesta etapa do trabalho, uma das estratégias adotadas foi a produção de câmeras fotográficas artesanais, a montagem de um laboratório de revelação e a elaboração de roteiros para saídas fotográficas. Através da observação e análise das fotografias, identificou-se o potencial dessas atividades para integrar o conhecimento acumulado em diversas disciplinas básicas, demonstrando suas interações e aplicabilidade no ensino.

A produção de imagens por métodos artesanais, como a câmera escura e a pinhole, configura-se como um valioso instrumento didático sob uma perspectiva interdisciplinar (Figura 02). Esses métodos foram escolhidos por sua simplicidade de construção, baixo custo e pela capacidade de discutir conceitos fundamentais de Física, Química, História, Arte e Geografia. Além de promover a inter-relação entre essas áreas de conhecimento, a proposta permite uma aproximação entre as

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

escolas de Ensino Básico e Médio e a universidade, explorando a realidade do município de Campos e da região Norte Fluminense, no Rio de Janeiro.

Figura 02: Exemplo de câmara escura artesanal utilizada no projeto.

<!-- image -->

## Resultados

Essa atividade foi fundamental para promover o capital científico cultural, ao integrar ciência e cultura de maneira acessível e prática. Ao envolver professores e estudantes na criação de câmeras fotográficas e na revelação de imagens, a ciência foi conectada a expressões culturais familiares, tornando-se mais relevante e significativa para diferentes públicos. Essa abordagem facilitou não apenas a compreensão dos conceitos científicos, mas também o engajamento dos participantes, que puderam experimentar a ciência de forma tangível e conectada à sua realidade cotidiana.

Figura 03: (a) Fotografia em Negativo do Museu Olavo Cardoso; (b) Fotografia em Positivo do Museu Olavo Cardoso, Campos dos Goytacazes - RJ. Autoria: Maria Priscila .

<!-- image -->

Propomos que os docentes ampliem suas capacidades sensoriais e promovam uma "educação pela imagem", conectando o aprendizado ao contexto local e regional dos estudantes. As oficinas de fotografia, portanto, se configuraram como momentos cruciais onde estudantes e professores não apenas produziram novos conhecimentos, mas também tiveram a oportunidade de discutir criticamente os processos criativos e as formas de difusão do saber. A produção fotográfica, com sua natureza prática, permite uma discussão rica sobre fenômenos físicos, como a

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

trajetória e a "escrita da luz", processos químicos de revelação e questões socioespaciais envolvidas na seleção das imagens.

- O projeto seguiu uma lógica de produção contínua, onde cada oficina representava um passo em direção ao próximo estágio de aprendizado. A sequência das oficinas foi estruturada da seguinte forma: (i) oficinas temáticas introdutórias (ótica, química da fotografia, e estudos geo-históricos); (ii) montagem de um laboratório de revelação, com ênfase no conhecimento químico; (iii) elaboração de roteiros fotográficos temáticos, integrando história e geografia urbana; (iv) captura de imagens e análise crítica dos registros; e (v) organização e montagem de uma exposição fotográfica, seja presencial ou digital, para amplificar o conhecimento produzido.

Este projeto se articula com iniciativas anteriores voltadas para a divulgação e popularização da ciência, reforçando o compromisso com a educação interdisciplinar e a democratização do conhecimento científico, ao mesmo tempo em que promove o capital científico cultural, conectando a ciência à vida cotidiana e às manifestações culturais da comunidade.

## Considerações Finais

- O desenvolvimento do capital científico cultural destaca a importância de integrar a ciência com expressões culturais para expandir seu alcance e relevância na vida cotidiana, alinhando-se à teoria de que o conhecimento científico se torna mais significativo quando conectado às experiências pessoais e culturais dos indivíduos. Os casos de estudo apresentados evidenciam que o capital científico cultural pode ser promovido eficazmente ao aproximar grupos diversos por meio de iniciativas que combinam física, astronomia e artes. Utilizando materiais artísticos simples para explorar conceitos científicos complexos, esses projetos não apenas desmistificaram temas muitas vezes percebidos como inacessíveis, mas também tornaram o conhecimento científico mais atrativo e compreensível para uma audiência diversificada. Além disso, as estratégias apresentadas facilitaram uma compreensão mais profunda e engajada da ciência, demonstrando que para que o capital científico cultural seja desenvolvido, é necessário tornar o aprendizado mais inclusivo e relevante para os participantes.

Os resultados sugerem também que levar a ciência para fora dos ambientes acadêmicos tradicionais e inseri-la em contextos comunitários é uma forma eficaz de expandir o capital científico cultural de grupos que tem acesso escasso a iniciativas científicas. Ao promover atividades científicas em espaços não formais de educação através de manifestações culturais, os projetos descritos neste trabalho aproximaram a ciência e a universidade da comunidade, reforçando o importante papel da educação informal para levar o conhecimento científico ao público em geral. Ambas as abordagens descritas fomentaram a equidade no acesso ao conhecimento técnico-científico, reiterando a ideia de que a ciência pode e deve ser uma parte integrada e acessível da vida cultural das pessoas.

Os projetos reforçam ainda que a combinação da ciência com a arte e outras manifestações culturais pode alterar positivamente a percepção pública da ciência, tornando-a mais relevante e conectada ao cotidiano dos participantes. A integração cultural não apenas enriqueceu o entendimento científico, mas também promoveu o interesse e a participação ativa nas atividades. Dessa forma, o desenvolvimento do

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

capital científico cultural através das atividades apresentadas contribuiu para uma sociedade onde a ciência é mais inclusiva, acessível e interligada à cultura e à vida das pessoas.

Cabe ressaltar ainda que ambos os projetos demonstram o potencial da ciência como ferramenta de empoderamento social. A integração da ciência com expressões culturais permitiu que os participantes desenvolvessem uma visão crítica do mundo ao seu redor, adquirindo não apenas conhecimento técnico, mas também uma perspectiva reflexiva sobre o papel da ciência em suas vidas e na sociedade. Essa reflexão crítica promoveu a autonomia intelectual e estimulou uma cidadania ativa, onde o conhecimento científico foi percebido como um recurso para influenciar mudanças positivas. Assim, o desenvolvimento do capital científico cultural não apenas pode ampliar o repertório cultural dos indivíduos, mas também fortalecer sua capacidade de atuar como agentes transformadores na sociedade.

## Referências

ARCHER, L.; DAWSON, E.; DEWITT, J.; SEAKINS, A.; WONG, B. 'Science capital': a conceptual, methodological, and empirical argument for extending Bourdieusian notions of capital beyond the arts. Journal of Research in Science Teaching , v. 52, n. 7, p. 922-948, 2015.

COLLETTI, L. Teaching the nature of physics through art: a new art of teaching. Physics Education , v. 53, n. 1, p. 015004, 2017.

COOPER, G.; BERRY, A. Demographic predictors of senior secondary participation in biology, physics, chemistry and earth/space sciences: students' access to cultural, social and science capital. International Journal of Science Education , v. 42, n. 1, p. 151-166, 2020.

FRIEDMAN, A. J. Reflections on communicating science through art. Curator: The Museum Journal , v. 56, n. 1, p. 3-9, 2013.

GALILI, I.; ZINN, B. Physics and art-a cultural symbiosis in physics education. Science &amp; Education , v. 16, p. 441-460, 2007.

MICHAEL, M. Technoscience and everyday life: The complex simplicities of the mundane. McGraw-Hill Education (UK), 2006.

OLIVEIRA, C. V. S. et al. Contribuições de espaços não-formais de educação na transformação social e divulgação científica: uma aprendizagem baseada no projeto de extensão universitária 'Conhecendo o Centro Nacional de Biologia Estrutural e Bioimagem (CENABIO) - Ciência, arte e educação'. RAÍZES E RUMOS , v. 9, n. 1, p. 29-50, 2021.

SCHWARTZ, B. Communicating science through the performing arts. Interdisciplinary Science Reviews , v. 39, n. 3, p. 275-289, 2014.

TENÓRIO, O. G.; DO NASCIMENTO MARQUES, J. C. O. Artes, ciências e divulgação científica: uma interação necessária. In: XIV ENPEC - Educação em Espaços Não-Formais e Divulgação Científica , 2021.

TILLY, C. O acesso desigual ao conhecimento científico. Tempo Social , v. 18, p. 47-63, 2006.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.