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A IDEOLOGIA NA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA: UMA ANÁLISE DO USO DA CIÊNCIA E DO CRISTIANISMO POR CRISTÓVÃO COLOMBO NA AMÉRICA

Samantha Jully Mesquita Gonçalves, Guilherme Da Silva Lima

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
24/01/2025
Linha de pesquisa
Divulgação Científica E Práticas Educativas Em Espaços Educativos Formais, Informais E Não Formais E O Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A IDEOLOGIA NA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA: UMA ANÁLISE DO USO DA CIÊNCIA E DO CRISTIANISMO POR CRISTÓVÃO COLOMBO NA AMÉRICA

Samantha Jully Mesquita Gonçalves 1 , Guilherme da Silva Lima 2

- 1 Universidade Federal de Minas Gerais/Faculdade de Educação, samanthajully@ufmg.br
- 2 Universidade Federal de Minas Gerais/ICEx/Departamento de Física, guilima@ufmg.br

## Resumo

Este trabalho analisa como a ideologia se manifesta em um texto de divulgação científica sobre o eclipse lunar que Cristóvão Colombo previu no ano de 1504 para alcançar seus interesses quando estava encalhado na região da atual Jamaica. O foco é em como a linguagem e os signos verbais escritos são utilizados para construir e reforçar narrativas históricas que servem à classe dominante. A pesquisa se baseia na teoria das ideologias de Volóchinov para compreender como dois sistemas ideológicos constituídos, a ciência e a religião, são mobilizados para justificar e legitimar práticas de dominação e opressão. Ao comparar a fonte histórica de Navarrete (2015) com o texto de divulgação científica de Llorente (2020), o estudo demonstra como a narrativa sobre o eclipse refrata a realidade e se propaga ao longo do tempo para atender ao objetivo ideológico de estabilizar a ordem política, econômica e social vigentes na época da expansão marítima. Os resultados revelam que a divulgação científica em questão desempenha um papel crucial na construção de uma narrativa heroica e idealizada sobre Cristóvão Colombo, ocultando as práticas coloniais e a violência sofrida pelos povos nativos, reforçando estereótipos, naturalizando as relações de poder e contribuindo para a perpetuação de desigualdades sociais.

Palavras-chave : divulgação científica, ideologia, Volóchinov.

## Introdução

A divulgação científica (DC) não é uma produção neutra tal como ainda pode ser imaginado por alguns especialistas. Trabalhos recentes têm evidenciado o caráter ideológico das produções que buscam contribuir com a popularização da ciência e da tecnologia (Lima; Moschem, 2018; Basilio; Gurgel, 2024). Entendendo a DC como prática social conforme defendido por Lima e Giordan (2021), esta produção não poderia deixar de tocar nas orientações ideológicas tecidas na sociedade de classes.

Nesse sentido, o objetivo deste trabalho é analisar o texto de divulgação científica O eclipse que salvou a vida de Cristóvão Colombo em viagem à América , de Llorente (2020), veiculado pela BBC News Brasil , buscando compreender como a ideologia se manifesta. A análise se pauta nas contribuições de Volóchinov (membro do Círculo, juntamente com outros pesquisadores como Bakhtin e Medviédev) e na síntese sobre o conceito de ideologia realizada por Narzetti (2013), que metodicamente articula a concepção global de ideologia nas produções Che cos'è il linguaggio? (1980) e Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem (1979).

- O enfoque sobre a ideologia é justificado mediante as características do objeto de análise - um texto virtual, escrito e de livre acesso -, cujo objetivo é comunicar ampla e socialmente a história que envolve o espanhol Cristóvão Colombo, jamaicanos e o uso do conhecimento científico sobre o eclipse lunar total

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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ

do ano de 1504 e de crenças religiosas cristãs. A seguir analisaremos a transformação ideológica que ocorreu desde a fonte Colección de los viajes y descubrimientos que hicieron por mar los españoles desde fines del siglo XV até o texto de DC, sendo o primeiro um livro de Navarrete (2016), que reuniu testemunhos de Méndez, espanhol que colaborou com Colombo. Elucidaremos como os problemas das relações de determinação existentes na sociedade de classes estão presentes no plano da divulgação científica. Ou, em outras palavras, como os interesses da classe hegemônica criam e propagam signos verbais como método de manutenção da estrutura política, econômica e social vigente. Antes de expor o referencial teórico-metodológico, apresentaremos um breve resumo do texto.

O texto publicado pela BBC expõe que Cristóvão Colombo utilizou conhecimentos astronômicos para garantir a sobrevivência durante sua última viagem à América, em 1504. Encalhado na região da atual Jamaica com os tripulantes e enfrentando escassez de alimentos devido ao rompimento das relações por decisão dos nativos locais, o espanhol elaborou um plano ' engenhoso ' e ' perspicaz ': com base em um almanaque astronômico que carregava consigo, ele anunciou o acontecimento de um eclipse lunar que tingiria a Lua de vermelho, apresentando o fenômeno ao grupo local como um ' sinal de ira divina '. Esse artifício foi ' bem-sucedido ', levando-os a retomar o fornecimento de alimentos até o resgate dos espanhois. O episódio ilustra a ' inteligência estratégica ' de Colombo, o ' gênio do engano ", que combinava conhecimentos científicos com habilidade para superar adversidades.

## Referencial teórico-metodológico

A ideologia é nitidamente percebida como produto da sociedade de classes pela distinção e subordinação de grupos sociais. Volóchinov a compreende por três dimensões que se associam mutuamente: a) elemento estrutural da sociedade; b) campo dos signos; c) representações do real (Narzetti, 2013). Entendemos que 'a ideologia é um elemento da estrutura da formação social, uma das partes em que se subdivide a sua superestrutura, que é determinada, ainda que indiretamente, pela base econômica' (Volóchinov, 1979 apud Narzetti, 2013, p. 369), pelo modo de vida da sociedade.

Nesse sentido, a ideologia representa o real e está subordinada às diferentes formas pelas quais as classes sociais se orientam na e pela prática social. A divisão entre o trabalho intelectual e o manual expressa essa diferença, assim como as condições do mundo capitalista, marcada pela burguesia e por trabalhadores. Por efeito das características da sociedade de classes, as classes dominantes buscam sobrepujar suas ideologias sobre as demais para ter hegemonia e efetivar o domínio desse elemento estrutural da sociedade e o controle das representações do real.

Considerando a existência de hierarquias, Volóchinov distingue qualitativamente os sistemas ideológicos constituídos e a ideologia do cotidiano . Enquanto o primeiro conceito corresponde às esferas da criação ideológica, como a ciência, a arte e a religião, que são fortemente sistematizadas, o segundo se refere ao discurso interior e exterior da vida cotidiana, que se apresenta como um domínio de pouca ou nenhuma sistematização (Narzetti, 2013).

Devido à maleabilidade da ideologia do cotidiano, a mudança social encontra fertilidade nessa categoria. Segundo Volóchinov, nas interações verbais do cotidiano 'se acumulam as energias criadoras com cujo auxílio se efetuam as revisões parciais ou totais dos sistemas ideológicos' (1979 apud Narzetti, 2013, p. 374).

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Importante ressaltar, por isso, a relação dialética estabelecida entre os conceitos, em que

Os objetos surgidos na ideologia do cotidiano constituem o material sobre o qual trabalham os sistemas ideológicos visando a sua sistematização, estabilização e acabamento. Por seu turno, a ideologia do cotidiano, recebendo de volta esses objetos sistematizados e acabados, é por eles determinada em algum grau. No entanto, esta última também atua como o lugar onde esses objetos são continuamente testados e avaliados, onde eles estabelecem vínculos com a consciência dos indivíduos (Narzetti, 2013, p. 375-6).

Assim, para Volóchinov (1979 apud Narzetti, 2013, p. 374) a ideologia do cotidiano é o caminho entre a infraestrutura econômica e os sistemas ideológicos constituídos. Através da prática humana e da linguagem, a ideologia existe, sendo que um dos elos com as instâncias ideológicas acontece por meio dos signos verbais. Medviédev esclarece que

As concepções de mundo, as crenças e mesmo os instáveis estados de espírito ideológico também não existem no interior, nas cabeças, nas 'almas' das pessoas. Eles tornam-se realidade ideológica somente quando realizados nas palavras, nas ações, na roupa, nas maneiras, nas organizações das pessoas e dos objetos, em uma palavra, em algum material em forma de um signo determinado. Por meio desse material eles tornam-se parte da realidade que circunda o homem (2012, p. 48-9).

Nesse sentido, 'o domínio ideológico coincide com o domínio dos signos: são mutuamente correspondentes' (Volóchinov, 1979 apud Narzetti, 2013, p. 374), sendo o domínio dos signos um fragmento material da realidade, o que demonstra seu caráter objetivo. Ainda, sendo os signos compartilhados socialmente, a ideologia também o é, afinal

- [...] não basta colocar face a face dois homo sapiens quaisquer para que os signos se constituam. É fundamental que esses dois indivíduos estejam socialmente organizados, que formem um grupo (uma unidade social): só assim um sistema de signos pode constituir-se (Volóchinov, 1979 apud Narzetti, 2013, p. 377).

Outra característica importante é o fato de que o signo reflete e refrata uma diferente realidade exterior a ele e, por isso, remete sempre a algo fora de si mesmo que possui um significado na materialidade. No processo de reflexão e refração do real, o signo 'pode distorcer essa realidade, ser-lhe fiel, ou apreendê-la de um ponto de vista específico' (Volóchinov, 1979 apud Narzetti, 2013, p. 377). Ainda, sabendo que todas as classes são capazes de criar suas ideologias,

[...] na ideologia dominante estabelecida, o signo ideológico é sempre um pouco reacionário e tenta, por assim dizer, estabilizar o estágio anterior da corrente dialética da evolução social e valorizar a verdade de ontem como sendo válida para hoje em dia (Volóchinov, 1979 apud Narzetti, 2013, p. 379).

Dessa forma, se confirma a luta travada no campo ideológico por meio dos signos sociais. É indispensável compreender que essa luta não se dá em nível de igualdade, afinal, a classe dominante produz ideologias que respondem aos seus interesses, objetivando estabilizar os próprios valores para haver hegemonia. A busca pela hegemonia da classe dominante mobiliza, inclusive, grande parte das práticas humanas, dentre elas a da comunicação social, fato que evidencia a desigualdade da relação entre ideologia dominante e ideologia transformadora. Com isso não se afirma que a ideologia da classe oprimida não é refratada, pelo contrário, pois de fato o é, 'mas a refração é menor do que aquela que ocorre em outras classes sociais' (Volóchinov, 1979 apud Narzetti, 2013, p. 380).

## Procedimento

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A análise do texto de divulgação científica O eclipse que salvou a vida de Cristóvão Colombo em viagem à América , de Llorente e publicado em 2020 pela BBC News Brasil , iniciou com a leitura e verificação das informações apresentadas nele. A fonte principal é o livro de Navarrete (2015), consultado na Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes. O Almanaque Regiomontano de Johann Muller, documento que Colombo carregava consigo e que previa o eclipse, não foi acessado por se encontrar na Biblioteca da Universidade de Glasgow, na Escócia. Até o momento de submissão deste trabalho, a biblioteca não respondeu a solicitação de acesso a fotos do documento, estando disponíveis apenas os fragmentos que são divulgados pela BBC . As demais fontes, ' O Memorial dos Livros Naufragados' , de Edward Wilson-Lee, e a entrevista com Antonio Bernal não foram encontradas em suas versões originais com livre acesso.

Buscamos pelas referências para analisar a ideologia produzida por meio dos signos verbais nos dois objetos de pesquisa distanciados temporalmente por 516 anos. Após a leitura dos textos, destacamos trechos relevantes, sendo que os grifos consideraram o referencial teórico metodológico exposto, que qualifica os sistemas ideológicos constituídos e a ideologia do cotidiano.

O episódio da narrativa é marcado pela presença da ciência e da religião cristã desde sua fonte histórica até o texto de DC, por isso, as passagens sublinhadas, em negrito e itálico , apresentam signos verbais relativos a esses temas e se referem ao conhecimento científico; ao cristianismo e ações 'por ordem divina' ; e à divisão de classes , respectivamente, sendo que esses signos também se combinam. Em seguida, privilegiamos a investigação dos sistemas ideológicos constituídos devido à limitação do documento.

## Análise e resultados

Começamos a análise pelo testemunho abaixo, um fragmento da quarta e última viagem de Colombo pela América. Nele, Méndez diz que

Parece-me que seria bom dizer algo sobre o que aconteceu ao Almirante [Colombo] e à sua família num ano em que se perderam naquela ilha [Jamaica]: e é que poucos dias depois da minha partida, os índios amotinaram-se e não quiseram trazer-lhe comida como antes, e ele fez com que chamassem todos os chefes e disse-lhes que estava surpreso com eles , por não lhe trazerem comida como costumavam fazer, sabendo, como ele havia lhes contado , que ele tinha vindo lá por ordem de Deus e que Deus estava zangado com eles , e que ele iria mostrar isso naquela noite por sinais que ele faria no céu ; e como naquela noite foi o eclipse da lua que estava quase totalmente escura, ele disse-lhes que Deus estava fazendo isso porque estava zangado com eles porque não lhe trouxeram comida, e eles acreditaram e ficaram com muito medo, e eles prometeram que sempre lhe trariam comida para comer, como de fato fizeram, até que chegasse o navio com a manutenção que mandei [...] (Navarrete, 2015, p. 472, tradução e grifos nossos).

O conflito de interesses relacionado ao fornecimento de alimentos e o fato de a tripulação estar perdida na América valorizaram o episódio, tornando-o relevante para ser registrado. Nesse contexto, o conflito de classes se manifesta entre os nativos jamaicanos, que demonstraram sua revolta diante de algo que é omitido no testemunho, e os colonialistas religiosos, que dependiam de ajuda para sobreviver. Aqui, mesmo que haja divisão de classes internamente entre jamaicanos e colonialistas, a contradição principal presente na luta de classes se estabelece entre os distintos povos. Como percebemos, os signos verbais indicam a presença do cristianismo como um sistema ideológico constituído, embora sua menção não seja explícita, mas representada pela presença do deus dos espanhóis.

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- O cristianismo não apenas orienta as ações de Colombo, como também está profundamente interligado ao uso da ciência. No final do século XV e início do século XVI, a astronomia estava indissociavelmente ligada à tradição religiosa (Kuhn, 1990). A compreensão dos eclipses lunares como um alinhamento entre Sol, Terra e Lua no modelo geocêntrico de epiciclos era acompanhada de interpretações mitológicas, filosóficas e religiosas em que a dinâmica celeste era parte da astrologia (Souza et al ., 2022; Costa, 2002; Magnani, 2022). Os significados enraizados em crenças religiosas eram uma poderosa ferramenta de controle ideológico.
- É nítido que o conhecimento sistematizado pela ciência europeia da época foi estrategicamente utilizado para a manutenção de práticas cristãs e coloniais que o almirante havia apresentado aos jamaicanos como pretexto de suas ações desde os contatos prévios ao eclipse. A observação do fenômeno do eclipse, precedida pela sua previsão por Colombo, promoveu alterações nas interações sociais que eram realizadas entre os povos nativos e os colonizadores espanhóis, passando a ser mediada por relações de hierarquia e opressão. Momentos antes do eclipse, Colombo expressa sua surpresa negativa perante a reação dos nativos, reafirma a representação divina e sustenta estar ciente até mesmo da reação e futura ação de deus diante da interrupção do fornecimento de alimentos.

Dessa forma, a apresentação e o acontecimento do fenômeno astronômico são associados ao 'merecido' castigo divino, decorrente do conflito, o que reforça a estratégia de dominação utilizada pela ideologia da classe que se constituiu dominante. A sobrevivência dos espanhóis foi assegurada por meio da manipulação e do medo, utilizando a ciência e o cristianismo como sistemas ideológicos que foram estrategicamente articulados para promover os interesses coloniais, constituídos pela dominação do povo local para o atendimento das necessidades da tripulação espanhola.

Partimos agora para os trechos do texto da DC, que utiliza como referência o documento do fragmento anterior:

- Muitos historiadores concordam que Cristóvão Colombo , o primeiro navegador europeu a chegar à América, era um homem extremamente inteligente .
- [...] é consenso que sua inteligência e agilidade o ajudaram em diversas ocasiões, tanto para conseguir o que procurava como para driblar dificuldades.
- [...] E Colombo elaborou um plano tão brilhante quanto perverso : assustar os aborígines com um eclipse .
- [...] " Colombo foi um gênio do engano . E essa foi uma ideia salvadora ", disse Antonio Bernal, divulgador científico do Observatório Astronômico Fabra, na Espanha, em entrevista à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).
- [...] " ele (Colombo) convocou todos os chefes e disse-lhes que estava maravilhado por eles não lhe trazerem a comida como costumavam fazer , sabendo, como ele havia dito, que tinha vindo por ordem de Deus ".
- [...] [Colombo] disse "que Deus estava zangado com eles [jamaicanos] e que lhes mostraria naquela noite por sinais que faria no céu ; e como aquela noite era o eclipse da Lua, quase tudo escureceu".
- [...] Colombo reforçou a ideia de que Deus causou o eclipse por raiva "porque não lhe trouxeram comida e acreditaram nele e saíram com muito medo e prometeram que sempre lhe trariam comida " (Llorente, 2020, grifos nossos).

No primeiro parágrafo, o texto generaliza as opiniões de historiadores para validar cientificamente a ideologia dominante, ao sugerir uma concordância e

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consenso sobre as práticas coloniais de Colombo. Infere-se que a autora reconhece que este não foi o único episódio em que o navegador utilizou manipulação e medo como instrumentos de controle, já que informa haver não apenas uma, mas 'diversas ocasiões' em que Colombo utiliza de práticas descritas no texto como expressões de inteligência e habilidade para proteger sua tripulação de situações adversas.

Novamente, nota-se a presença da ciência e do cristianismo como sistemas ideológicos constituídos. O uso do pretexto divino mascara a manipulação exercida, reforça a ideia de que os espanhois são os salvadores encarnados e mantém a ideologia da classe colonialista, como evidenciado no trecho que contém o relato de Antonio Bernal, divulgador científico de um observatório espanhol. Os signos verbais grifados denotam essas relações de dominação e subordinação, que não apenas remetem à, como justificam e estabilizam a ordem vigente desde os séculos que marcaram o período da expansão marítima.

As navegações foram financiadas pelo desenvolvimento do comércio, o que gerou um acúmulo de capital e proporcionou investimento na expansão marítima com vistas a gerar lucros ainda maiores (Wallerstein, 1974). A base econômica era mercantilista, um sistema econômico intermediário do feudalismo e capitalismo que promovia o acúmulo de metais preciosos pelas nações monárquicas e esse é um dos principais interesses pelos quais se buscava invadir territórios e estabelecer novos impérios pela América (Wallerstein, 1974). A imposição dessa ordem política, econômica e social reforça a divisão da sociedade em classes e, no texto, é narrada de modo simplificado, contribuindo para a legitimação do uso irrestrito e opressivo da ciência e da religião para o colonialismo.

- O engrandecimento do projeto colonial é apresentado sem qualquer crítica à hegemonia colonialista que fundamentou o sistema vigente desde o século XV (e que ainda exerce influência nos dias de hoje). O texto omite a perspectiva dos jamaicanos, ao divulgar unicamente o ponto de vista espanhol, e sustenta a ordem política e social vigentes ao não mencionar os impactos da colonização sobre a classe subordinada, como: expropriação de terras, disseminação de doenças, violências sexuais, sequestro transatlântico, escravização, imposição de estruturas econômicas e sociais, entre outras práticas opressivas (Pankararu, 2022; Cisne; Ianel, 2022). Dessa forma, a divulgação científica sobrepuja a hegemonia colonialista por meio do controle ideológico, uma vez que a ideologia representa o real e está subordinada às diferentes formas em que as classes sociais se orientam na e pela prática social.

A análise revela que a linguagem expressa por meio dos signos verbais textuais é crucial para o controle social colonialista e, também, para a superestrutura da base econômica da época, que dependia da expansão marítima colonial. Esse controle se efetiva por meio da criação de ideologias e da estabilização de significados sociais. Pelo exposto, fica demonstrado o processo de refração do real nos textos em questão, uma vez que a comunicação utiliza signos que distorcem a realidade material, apreendendo-a do ponto de vista dos interesses da classe social geradora: por um lado, o de garantir a sobrevivência acima de tudo, praticando coerção, e, por outro, o de exaltar a figura de Colombo como colonizador perspicaz e idealizado, enquanto os jamaicanos são retratados como supersticiosos e facilmente manipuláveis, o que fortalece estereótipos e os marginaliza enquanto grupo social na história.

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## Conclusões

Neste trabalho buscamos compreender como a ideologia se manifesta em textos de divulgação científica, tomando como objeto de análise o texto O eclipse que salvou a vida de Cristóvão Colombo em viagem à América, de Llorente (2020). Com base nas contribuições teóricas de Volóchinov (do Círculo) e na síntese do conceito de ideologia por Narzetti (2013), focamos em evidenciar como a divulgação científica pode perpetuar valores da classe dominante.

No procedimento, realizamos uma leitura crítica do texto em questão, comparando-o com o texto histórico de Navarrete (2015). A análise foi orientada pela distinção entre sistemas ideológicos constituídos, identificando como a linguagem e os signos verbais são usados para refletir e refratar realidades sociais específicas. Desta forma, conseguimos destacar a presença dos sistemas ideológicos do cristianismo e da ciência, que operam como mecanismos de dominação e controle social, tanto na fonte histórica quanto na narrativa criada 516 anos depois do episódio.

- O conceito central de ideologia, conforme abordado por Volóchinov, serviu para revelar como as representações do real são sempre mediadas por signos ideológicos, os quais são moldados pelas relações existentes na sociedade de classes. Assim, a ideologia é um reflexo das necessidades da classe que a gerou, que busca estabilizar suas próprias crenças e valores como verdades incontestáveis. No caso analisado, a figura de Colombo é idealizada e apresentada como um heroi genial, enquanto a perspectiva dos jamaicanos é ignorada, reforçando estereótipos e violência colonial.

Os resultados mostram que a divulgação científica, longe de ser uma prática neutra, pode servir para reproduzir e reforçar ideologias dominantes, mantendo assim estruturas hegemônicas vigentes. A análise dos signos verbais dos objetos da pesquisa demonstra como a ciência e o cristianismo são utilizados para justificar a opressão, apresentando-as como práticas legítimas acriticamente. Evidenciamos ainda que os interesses da classe dominante continuam a moldar a narrativa histórica e científica, perpetuando desigualdades sociais.

Além disso, essa investigação nos indica possíveis caminhos para a pesquisa sobre a divulgação científica, no que tange às orientações ideológicas presentes nos trabalhos para a popularização da ciência e da tecnologia. Indica, também, caminhos para pensar a pesquisa sobre história da ciência e da divulgação científica, especialmente quando há apropriação para a opressão social. Em acréscimo, espera-se que a reflexão aqui apresentada possa ser usada por divulgadores científicos que visem produzir comunicações mais críticas.

## Referências

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