Projeto Meninas na Ciência: identificar, incentivar e valorizar a participação de mulheres e meninas em carreiras científicas
Julia Medeiros, Caroline Conti Floriani, Anna Carolina Momm, Gabriela Kaiana Ferreira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 24/01/2025
- Linha de pesquisa
- Diversidade, Inclusão E Direitos Humanos No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## PROJETO MENINAS NA CIÊNCIA: IDENTIFICAR, INCENTIVAR E VALORIZAR A PARTICIPAÇÃO DE MULHERES E MENINAS EM CARREIRAS CIENTÍFICAS
## Julia Medeiros¹, Caroline Conti Floriani², Anna Carolina Momm³, Gabriela Kaiana Ferreira ⁴
- 1 Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)/Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física, julia.medeiros@grad.ufsc.br
- ³ Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)/Curso de Graduação em Física - Licenciatura, anna-momm@outlook.com
- ⁴ Universidade Federal de Santa Catarina/Departamento de Física, gabriela.kaiana@ufsc.br
## Resumo
O contexto para o acesso e desenvolvimento profissional em carreiras científicas de maneira igualitária ainda enfrenta inúmeros desafios. Pesquisas com abrangência nacional e internacional constatam dados referentes a escassa presença e representação de mulheres na área de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), o pequeno percentual de bolsas de produtividade científica atribuídas a pesquisadoras mulheres e menos recursos concedidos aos projetos de pesquisa coordenados por mulheres em comparação àqueles coordenados por homens. À vista desse cenário, neste trabalho apresentamos o projeto de extensão universitária Meninas na Ciência, do Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina, que possui como propósito incentivar mulheres e meninas a se interessarem e se aproximarem da área STEM, de modo a contribuir no avanço da equidade de gênero na ciência e na própria instituição. Para alcançar estes objetivos, o projeto promove atividades como visitas a laboratórios de pesquisa e de ensino, visitas a observatório astronômico, oficinas de experimentos e de jogos, palestras com cientistas mulheres, entre outras atividades envolvendo divulgação científica, para o público de meninas e mulheres da educação básica e do ensino superior. Ao final, refletimos sobre a importância de projetos voltados às relações de gênero na área de STEM que promovem não apenas a participação das mulheres na ciência, mas a perspectiva de gênero na cultura científica e nos resultados das ciências.
Palavras-chave : mulheres e meninas na ciência, STEM, extensão universitária
## Introdução
Em 2015, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou o dia 11 de fevereiro como o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência com a finalidade de aumentar a conscientização sobre a questão da excelência das mulheres na ciência e lembrar a comunidade internacional de que a ciência e a igualdade de gênero devem avançar em sintonia, para possibilitar o enfrentamento aos principais desafios mundiais e alcançar os objetivos e metas da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. A 'igualdade de gênero' para o empoderamento de mulheres e meninas é um dentre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da agenda, que inclui outros relacionados à 'educação de qualidade' e à 'redução de desigualdades' (ONU, 2015). Intentar a
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conquista dessas metas é importante, mas desafiador se não forem levados em conta aspectos educacionais, políticos, econômicos e sociais que acentuam as diferenças de gênero e que impactam nas vidas das populações sub-representadas em determinadas áreas.
Em que situação nos encontramos no panorama global para a disparidade de gênero? Em uma avaliação realizada em 146 países pelo World Economic Forum (WEF, 2023, p. 121), o Brasil ocupa a 57ª posição no ranking de desigualdade de gênero e está entre as posições mais baixas em comparação aos demais países da região América Latina e Caribe. Os dados apontam que em graduações nas áreas de STEM ( Science, Technology, Engenereeing and Mathematics -Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) as mulheres representam apenas 36,64%. Isto evidencia a pouca representação de mulheres nas profissões e áreas das ciências exatas e das tecnologias.
Os resultados da avaliação Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), mostram que as disparidades no desempenho escolar entre meninas e meninos persistem, mesmo nos países que ao longo do tempo vêm conseguindo reduzir as diferenças. Na média dos 80 países investigados no exame em 2022, estudantes de 15 anos do gênero masculino atingem maiores pontuações em matemática que as estudantes do gênero feminino da mesma idade. Nessa avaliação, as meninas relataram ter menos autoconfiança em suas habilidades para resolverem problemas de matemática e eram mais propensas a expressar fortes sentimentos de ansiedade em relação à disciplina, fatores que têm impacto negativo no aprendizado (PISA, 2022). Quando são comparados estudantes com nível igual de autoconfiança e ansiedade, a desigualdade de resultados entre meninas e meninos desaparece. Isso porque, quando os estudantes são mais autoconfiantes, dão-se a liberdade de falhar, de se envolverem nos processos de tentativa e erro que são fundamentais para a aquisição de conhecimentos em matemática e ciências (PISA, 2022). Essa evidência demonstra que gestores e professores precisam refletir sobre como suas expectativas e práticas cotidianas podem estar reforçando estereótipos e limitando o potencial das meninas para as exatas. Além disso, as famílias precisam atuar para estimular a maior participação feminina em carreiras dessas áreas.
E como está o cenário nacional para a representação de mulheres nos quadros de docência e de pesquisa na área de STEM? Quando analisado o recorte dessa representação no Brasil, verifica-se que é ainda menor. O estudo 'Mulheres na Ciência Brasileira' (GEMAA, 2022), mostra a disparidade de gênero nos quadros de docentes vinculados a programas de pós-graduação de acordo com suas respectivas áreas de conhecimento. Cerca de 58% dos docentes credenciados a programas de mestrado e doutorado são homens. Nos 17 cursos de pós-graduação relacionados às engenharias mapeados, a maioria tem seu quadro docente constituído por 22% a 25% de mulheres. Em áreas como Física, Astronomia, Ciência da Computação e Matemática as mulheres também estão sub-representadas. É válido salientar que se faz necessária a inclusão de informações sobre raça e de outras categorias de gênero às estatísticas, para que se possa estabelecer discussões mais refinadas sobre a representação mais diversa da população do nosso país em espaços de produção de ciência.
Outrossim, os dados indicam o baixo desempenho das meninas em Olimpíadas Científicas, o baixo número de mulheres matriculadas em cursos de
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graduação e pós-graduação em cursos de STEM no país e a maior evasão de mulheres de cursos de graduação nas áreas de STEM (Menezes, 2017). Mas quais os motivos da baixa presença de mulheres e meninas nas áreas de STEM? Ao que parece, o cenário para as mulheres e meninas que têm interesse em construir uma carreira científica é permeado por desafios. Em estudos de caráter extensivo que investigam o interesse para as ciências, especialmente o interesse desenvolvido por mulheres, são indicados uma série de fatores que podem incentivar e direcionar a escolha de uma carreira científica. Entre os itens podem ser citados: exemplos de mulheres cientistas, experiências práticas com ciências e tecnologias, o incentivo para as ciências e tecnologias por meio do discurso de pais e professores, aplicações da ciência na vida real e, ainda, a confiança na igualdade intelectual, isto é, o desenvolvimento de uma crença individual e coletiva de que homens e mulheres são tratados com igualdade quando trabalham em uma mesma disciplina (Microsoft Corporation, 2017).
Em síntese, reconhecendo os variados obstáculos enfrentados pelas mulheres e que podem acabar gerando desinteresse ou, até mesmo, levar à desistência de seguirem uma carreira em STEM,
[...] ainda é preciso um esforço duplo para diversificar a ciência: há que se incluir mais mulheres nas posições de difusão do conhecimento, mas também promover a melhor divisão de tarefas na sociedade, orientando novas formas de sociabilidade que estimulem os homens a olhar para o cuidado, assim como as mulheres a seguir carreira nas ciências duras (GEMAA, 2022).
A baixa representação de mulheres em STEM e a atribuição social de características como a genialidade ao masculino exemplificam alguns fatores que sustentam crenças de que mulheres e meninas não têm interesse pelas ciências elevam à simplificações caricaturizadas de que 'meninos são mais inteligentes e meninas são mais esforçadas', e como 'a ciência é difícil' então 'ciência é coisa de menino', reforçando os estereótipos de gênero.
No Brasil, atividades com potencial para atrair alunas da educação básica para os cursos de graduação e carreiras científicas e que estimulam a permanência das graduandas dos cursos das áreas de STEM são propostas em projetos desenvolvidos em várias instituições de ensino, pesquisa e até museus ao redor do país. No contexto da UFSC essas ações são realizadas por projetos como: o canal do Youtube Mulheres na Ciência, os projetos de extensão Meninas na Ciência, Ciência feita por mulheres para todos e por todos do grupo ReAtividade na Ciência, Meninas na Tecnologia, Meninas Digitais, entre outros. Estas iniciativas aspiram contribuir com a equidade de gênero na instituição. Em particular, o projeto Meninas da Ciência, como atividade de extensão universitária, é de suma importância como possibilidade para a promoção de mudanças a nível de desenvolvimento local e regional no que concerne o estímulo do interesse de mulheres e meninas pelas áreas de STEM, a desconstrução de estereótipos de gênero e o combate aos preconceitos relacionados a presença e participação de mulheres em carreiras científicas.
Ao longo das próximas seções, apresentaremos o projeto de extensão Meninas na Ciência (MnC), objetivos, as atividades desenvolvidas e resultados alcançados pelo projeto.
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## Projeto de extensão Meninas na Ciência
O Meninas na Ciência (MnC) é um projeto de extensão do Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), criado em 2020, que tem como objetivo estimular o interesse de meninas e mulheres pelas áreas das ciências exatas, engenharias e tecnologias e incentivando-as a acessarem profissões voltadas às carreiras científicas em STEM. A equipe do projeto é formada pelas coordenadoras, bolsistas e voluntárias que desenvolvem uma série de atividades como visitas a laboratórios de ensino e pesquisa, palestras e oficinas, produção de materiais de divulgação científica destacando o papel e contribuições das mulheres nas ciências, visando, sobretudo, o combate a preconceitos e estereótipos de gênero nas ciências exatas. Dentre os objetivos específicos, que fundamentam e orientam a realização das atividades, destacamos: (a) problematizar estereótipos de gênero nas ciências; (b) divulgar as possibilidades profissionais de carreiras nas áreas de STEM; (c) desenvolver atividades práticas científicas voltadas às alunas da educação básica; (d) contribuir para o envolvimento de estudantes da educação básica e do ensino superior em atividades que busquem desenvolver suas habilidades em um espaço que lhe seja assegurado condições de igualdade de gênero.
Desde o ano de 2022, com o retorno de todas as atividades presenciais na instituição à qual o projeto está vinculado, o MnC tem realizado atividades gratuitas e com emissão de certificado, exclusivas para mulheres e meninas, especialmente estudantes do ensino médio da região de Florianópolis (Santa Catarina, Brasil). Dentre as principais atividades, descritas brevemente na sequência, estão:
- 1) Palestras ministradas por cientistas mulheres sobre suas trajetórias, áreas de pesquisa e atuação, e sobre mulheres e meninas na ciência;
- 2) Aulas voltadas à Olimpíada Brasileira de Física (OBF), sobre temas de Astronomia e de Física Moderna e Contemporânea;
- 3) Visitas a laboratórios de ensino, pesquisa, e projetos de extensão da UFSC;
- 4) Participação no programa Caça Asteroides do MCTI;
- 5) Produção de jogos e materiais de divulgação científica;
- 6) Participação em feiras e mostras científicas.
As (1) palestras sobre mulheres na ciência, ministradas por cientistas abordando suas trajetórias, áreas de pesquisa, e para divulgação da importância de projetos voltados às mulheres e meninas na ciência acontecem de duas formas diferentes: voltadas aos público de meninas e mulheres quando ministradas por cientistas convidadas pelo MnC no âmbito do projeto; ou então pela equipe do projeto em escolas, cursos de graduação e pós-graduação, e eventos acadêmico e científicos, que reúnem estudantes, professores e profissionais da educação e das ciências (figura 1a). Estas palestras, que acontecem presencialmente ou online, têm como objetivos: motivar e estimular o interesse das estudantes em seguir carreiras científicas e/ou a permanência daquelas que já estão inseridas nesse contexto, mediante a promoção de um ambiente de compartilhamento de experiências entre as professoras e pesquisadoras das áreas de STEM; conscientizar professoras(es) e futuros profissionais do viés implícito da população em reproduzir os preconceitos de gênero, que numa conjuntura social acabam moldando as crenças sobre as habilidades acadêmicas dos indivíduos, bem como seus papéis na problematização e desconstrução destas crenças. Complementarmente, nos últimos dois anos tem
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crescido as participações da equipe do projeto em meios de comunicação e mídias diversas (jornais, revistas, websites, televisão, rádio) divulgando o tema.
As (2) aulas voltadas à OBF visam incentivar a inscrição e preparação das alunas a participarem dessas competições, são planejadas tendo como base os conteúdos mais recorrentes dessas provas e a resolução de questões de edições anteriores. As aulas sobre temas da Astronomia e Física Contemporânea têm como propósito abordar conceitos que às vezes são pouco explorados no ensino médio e geram bastante curiosidade, e também, discutir o desenvolvimento científico que possibilitou o entendimento de tais conhecimentos na atualidade. Ao final de cada aula é apresentado às alunas a trajetória de uma cientista mulher e sua respectiva contribuição para a ciência, de forma a reforçar e valorizar os esforços destas mulheres muitas vezes pouco conhecidas (figura 1b). A justificativa para realização de atividades voltadas às olimpíadas científica se justifica tendo em vista o menor número de inscritas do sexo feminino, os piores desempenhos de meninas quando comparadas aos meninos nessas competições e o menor número de premiações (Menezes, 2017). As aulas são ministradas pelas bolsistas e voluntárias do MnC e as participantes que frequentam são predominantemente estudantes do ensino médio. De fato, muitas delas chegam relatando não conhecer a OBF e, após participarem das aulas, algumas demonstram interesse em se inscrever em competições científicas, têm sucesso na primeira fase e avançam para as seguintes.
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Figura 1: (a) Palestra online e (b) aula de Astronomia para estudantes da educação básica.
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As (3) visitas a laboratórios de pesquisa e de ensino da UFSC têm como objetivo aproximar as estudantes da prática científica, apresentar possibilidades de profissões e carreiras especialmente nas áreas de STEM, e desmistificar visões ingênuas ou desinformadas sobre o trabalho da(o) cientista. As visitas são organizadas pelas bolsistas do projeto e os laboratórios e projetos escolhidos para visitação devem, necessariamente, ser coordenados por mulheres ou então contar com mulheres em sua equipe, critério este que tem como intuito mostrar mulheres em posições de liderança. Até o momento já visitamos dezenas de laboratórios dos Departamentos de Física, Química, Matemática, Mecânica e Biologia da UFSC. Destacamos também as atividades realizadas em parceria com outros projetos de extensão. No Observatório Astronômico e ao Planetário são realizadas observações do céu noturno com telescópios e participação em palestras sobre Astronomia. Nas atividades junto ao Clube dos Telescópios as estudantes constroem seu próprio telescópio utilizando materiais de fácil acesso e baixo custo. Estes projetos são coordenados pelo Grupo de Astrofísica (GAS) do Departamento de Física da UFSC. Nas visitas aos Laboratório de Instrumentação, Demonstração e Exploração e Laboratório de Divulgação Científica em Química, as estudantes podem vivenciar a
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física e a química através de experiências e demonstrações, proporcionando a interação das jovens com o universo científico, objetivando despertar o interesse pela ciência e, consequentemente, melhorar o desempenho escolar. O público principal destas visitas têm sido as estudantes do ensino médio.
O Caça Asteroides é um programa de popularização científica, resultado da parceria entre o Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI), do International Astronomical Search Collaboration (IASC/NASA) com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Nossa (4) participação no programa consistiu em organizar a formação de equipes constituídas apenas de meninas e mulheres e realizar treinamentos online e presenciais para o uso do software Astrometrica, bem como providenciar todo o suporte necessário para garantir a execução de todas as etapas da campanha (figura 2a). Essa atividade possibilita que as participantes façam suas próprias contribuições ao encontrarem asteroides durante a análise de imagens originais provindas de observatórios astronômicos ao redor do mundo, enquanto aprendem sobre Astronomia na prática. Até o momento, o MnC contribuiu participou de 5 edições da campanha ao longo de 2023 e 2024, com a formação de 13 equipes, constituída de uma centena de mulheres e meninas a partir de 10 anos (cada equipe teve ter uma líder e até nove integrantes), que realizaram a detecção de 12 possíveis asteroides.
A (5) produção de jogos e materiais de divulgação científica é uma atividade permanente do MnC que possibilita compartilhar histórias, trajetórias e reflexões sobre o trabalho das mulheres em STEM aproximando-as do público leigo ou menos informado sobre o tema. Como exemplos desses materiais, citamos: os jogos de tabuleiro 'Trilha das Cientistas' 1 e de cartas 'Enigma das Cientistas' 2 (com recurso de acessibilidade), que apresentam histórias de 30 cientistas mulheres; o livro 'Meninas Brilhantes: A história de Estrela' 3 , que conta a história de Estrela e de Jocelyn Bell Burnell, e o livro 'Meninas Brilhantes: A história de Catarina' (em finalização); e os conteúdos divulgados na rede social do MnC 4 . A (6) participação em feiras e mostras científica acontece anualmente durante a Semana de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFSC, inserida na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) em que apresentamos de maneira mais ampla à comunidade os trabalhos e atividades desenvolvidas no âmbito do projeto (figura 2b).
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Figura 2: (a) Treinamento Caça Asteroides e (b) estande do projeto em feira científica.
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## Considerações sobre a importância de projetos direcionados às questões de gênero na área de STEM
A criação das disciplinas acadêmicas modernas se deu pelo modo arbitrário de compartimentação do conhecimento produzido pela humanidade, logo, são divisões históricas e não naturais. Isso posto, é evidente que as mulheres e outras minorias sub-representadas, como grupos rigorosamente excluídos desse ambiente no passado, foram, consequentemente, afastados do processo e dos resultados e produtos da pesquisa em ciência. Tal conjuntura de desigualdade interfere, justamente, no conhecimento produzido. Nos dias de hoje, projetos e pesquisas que têm como objetivo identificar, valorizar e incentivar a participação de grupos sub-representados em campos das ciências, como é o caso das mulheres e meninas nas áreas de STEM, são de extrema relevância para se compreender as relações de gênero nos espaços de produção de ciência e na sociedade. No contexto da UFSC, há o interesse institucional de que sejam desenvolvidos projetos envolvendo a temática das mulheres em STEM, tendo em vista ações promovidas pelas instituições, como por exemplo, premiações para mulheres cientistas e editais de apoio à captação de financiamento para projetos de pesquisa liderados por mulheres, entre outras.
Para além de aumentar a participação das mulheres na ciência, com programas e leis de fomento à igualdade e com a destinação de verbas de agências de fomento às pesquisas propostas e executadas por mulheres, nossa atenção deve se voltar ao combate ao preconceito e reprodução dos estereótipos, através de estudos que aprofundem os mecanismos aos quais operam a perspectiva de gênero na cultura científica e nos resultados das ciências (Schiebinger, 2008). O que significa desenvolver ferramentas para análise de gênero e novas perspectivas em áreas específicas de maneira a possibilitar a criação de quadros teóricos que contemplem a análise de gênero até mesmo tornando-a parte da política científica nacional (Schiebinger, 2008). Isso posto, é necessário que se faça a conscientização das estudantes e dos(as) professores(as) para que integrem reflexões com relação ao gênero em suas pesquisas e práticas profissionais e, mesmo que em condições implícitas, exerçam esse olhar crítico. O Meninas na Ciência, dentre tantos outros projetos desenvolvidos nas instituições de ensino, tem feito seu papel nesse sentido, promovendo atividades escolhidas especificamente com o intuito de: divulgar história de mulheres cientistas em oposição aos estereótipos de gênero em STEM; estimular o interesse e possibilidades profissionais de carreiras na área de STEM à mulheres e meninas; fazer com que as estudantes de educação básica possam experienciar um pouco da prática na pesquisa científica; desenvolver as potencialidades das participantes em espaços que lhe assegurem condições de igualdade de gênero e contribuir para a formação teórica sobre os assuntos tratados em cada atividade.
Entretanto, há uma série de desafios na execução das ações de extensão e que podem acabar limitando os impactos e abrangência de projetos dessa natureza. Dentre os desafios enfrentados no Meninas na Ciência, destacamos dois principais: a divulgação do projeto nas escolas e a baixa assiduidade das participantes nas atividades. Com relação à divulgação das atividades foi e é necessária uma dedicação extra da equipe executora, para além da carga horária destinada ao projeto, para contactar escolas e organizar as visitas de forma a atingir o público-alvo. A recepção das escolas à equipe sempre foi excelente e, aparentemente, as estudantes se mostram interessadas em participar das atividades
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propostas de forma que um grande número fazia a pré-inscrição no projeto. No entanto, apesar de todo esforço despendido, ao longo das semanas o número de estudantes que de fato compareciam às atividades era muito pequeno, frente ao número de estudantes que estavam presentes nas divulgações. Isso também está associado ao segundo desafio que diz respeito à assiduidade das participantes.
Para atingirmos os objetivos do projeto, pressupomos ser importante estabelecer uma rotina de atividades, entendendo que isso poderia exercer maior impacto e transformação de concepções inadequadas referentes aos estereótipos de gênero na ciência. No entanto, ao longo das semanas percebemos uma diminuição do número de participantes, fato que pode estar relacionado às dificuldades de mobilidade ao local das atividades e às demais ocupações das participantes que restringem a disponibilidade de horários para a participação como por exemplo a escola, o trabalho, as tarefas extracurriculares, entre outras. Outro ponto a ser mencionado, consiste nos baixíssimos investimentos para a execução de atividades de extensão nas instituições de ensino superior no Brasil. Desenvolver atividades nas instalações da universidade para as estudantes é uma das estratégias do Meninas na Ciência para atingir o objetivo de desmistificar estereótipos de gênero e incentivá-las às carreiras científicas. Seria importante que as instituições estivessem atentas a esse ponto e disponibilizassem recursos para os projetos de extensão, especialmente para sua divulgação e consolidação.
Para o futuro do projeto, tem-se como expectativa, além do prosseguimento das atividades já desenvolvidas, reforçar sua divulgação nas escolas da rede pública de ensino da região de Florianópolis, conceber mais atividades no próprio ambiente escolar, como a organização de oficinas de jogos. Além disso, pretende-se organizar atividades de forma articulada com outros programas e projetos de extensão da universidade e convidando pesquisadoras(es) de outros grupos de pesquisa em ciências da instituição para apresentarem seus trabalhos.
## Referências
ONU. Organização das Nações Unidas . Os 17 objetivos do desenvolvimento sustentável: objetivo 5. Nações Unidas Brasil, 2015. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/5. Acesso em: 2 set. 2024
GRUPO DE ESTUDOS MULTIDISCIPLINARES DA AÇÃO AFIRMATIVA (GEMAA). Mulheres na ciência brasileira . 2022. Disponível em: https://bit.ly/3DmCpTc. Acesso em: 2 set. 2024.
SCHIEBINGER, L. Mais mulheres na ciência: questões de conhecimento. História, Ciências, Saúde - Manguinhos , v. 15, supl., jun. 2008, p. 269-281.
MENEZES, D. P. Mulheres na Física: a realidade em dados. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 34, n. 2, p. 341-343, 2017.
MICROSOFT CORPORATION. Why Europe's girls aren't studying STEM . Microsoft Philanthropies, 2017. Disponível em: http://bit.ly/2qiFT5u. Acesso em: 2 set. 2024.
PISA. PISA 2022 results (Volume I): the state of learning and equity in education . Paris: OECD Publishing, 2022. DOI: https://doi.org/10.1787/53f23881-en.
WEF. World Economic Forum . Global Gender Gap Report 2023. World Economic Forum, 2023. 382 p. Disponível em: https://bit.ly/4hjrqg3. Acesso em: 2 set. 2024.
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