Discurso científico e natureza das ciências: reflexões a partir do letramento midiático no ensino de ciências
Karel Leal, Thaís Cyrino De Mello Forato, Francisco De Assis Do Nascimento Júnior
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 24/01/2025
- Linha de pesquisa
- Cultura, Cognição E Linguagem No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## Discurso científico e natureza das ciências: reflexões a partir do letramento midiático no ensino de ciências
## Karel Pontes Leal 1 , Thaís Cyrino de Mello Forato 2 , Francisco de Assis do Nascimento Júnior 3
- 1 Universidade Federal do Sul da Bahia, karel.leal@ufsb.edu.br
- 2 Universidade Federal de São Paulo, thais.forato@unifesp.br
- 2 Universidade Federal do Sul da Bahia, francisco.nascimento@ufsb.edu.br
## Resumo
Quantas vezes você já recebeu alguma notícia de viés negacionista? Quantos produtos quânticos você já ouviu falar? Atualmente, somos bombardeados por informações de todos os tipos e, às vezes, repassamos algo sem verificar a procedência dos conteúdos. O discurso científico é muito utilizado em produções que buscam persuadir o cidadão a tomar uma decisão. Diante do contexto de tantos problemas com a divulgação de informações na internet, o ensino de ciências pode refletir sobre possibilidades de construir, com os estudantes, alguma alternativa para que a interpretação de anúncios e notícias seja feita de forma segura. No Brasil, temos uma grande dificuldade de perceber quando uma notícia é falsa 1 e o letramento midiático pode ser utilizado com o objetivo de minimizar esses problemas. Aspectos epistêmicos e não epistêmicos das ciências devem ser abordados para que a sociedade em geral tenha suporte para não cair em discursos negacionistas, pseudocientíficos e antidemocráticos. Diante deste contexto, buscaremos uma interlocução entre diferentes áreas de pesquisa com o objetivo de demonstrar a importância da problematização do uso do discurso científico em diferentes mídias.
Palavras-chave : Discurso científico, letramento midiático, natureza das ciências.
## Introdução
Ao longo dos séculos, uma cultura científica foi se estruturando e, para concorrer com outros aspectos da cultura humana, buscou formas de negar esses outros conhecimentos de forma a construir um produto neutro, sem vieses de âmbito social, filosófico, religioso e etc. Essa idealização da ciência se aproxima do indutivismo de Francis Bacon (1561-1626). Em sua obra, o autor defende:
Só há e só pode haver duas vias para a investigação e para a descoberta da verdade. Uma, que consiste no saltar-se das sensações e das coisas particulares aos axiomas mais gerais e, a seguir, descobrirem-se os axiomas intermediários a partir desses princípios e de sua inamovível verdade. Esta é a que ora se segue. A outra, que recolhe os axiomas dos dados dos sentidos e particulares, ascendendo contínua e gradualmente até alcançar, em último lugar, os princípios de máxima generalidade (BACON, 1984, p. 16).
Entretanto, ao longo das últimas décadas, as práticas epistêmicas e não epistêmicas da ciência foram problematizadas e a concepção de neutralidade foi abandonada por muitos epistemólogos. Assim, os fatores sociais, políticos, econômicos, filosóficos, entre outros, foram considerados na busca de explicar o desenvolvimento da ciência. Chegando aos dias de hoje, é possível perceber que o imaginário de uma ciência feita para resolver rapidamente os problemas da sociedade, de forma definitiva e
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
inequívoca, ainda não foi superado. Observamos o discurso científico sendo utilizado em diferentes áreas da sociedade com o objetivo de persuadir as pessoas a tomar decisões e comprar produtos ou serviços. E nem sempre a ciência está de acordo com o que é oferecido.
Diferentes trabalhos comentam que um maior número de pessoas com pouca qualificação tem abordado temas sobre a ciência. Alguns casos, como os narrados por Garcia et al (2024) e Silva e Arroio (2024), buscam instigar dúvida sobre o desenvolvimento científico e estimular concepções negacionistas. Por essas ocasiões, tanto aqui como nos trabalhos citados, se defende a problematização do letramento midiático também no ensino de ciências. Höttecke e Allchin (2019) prospectam um caminho para que esses conceitos sejam relacionados a partir da abordagem sobre natureza das ciências 2 e as capacidades que devem ser construídas com os estudantes para que tenham segurança na era da informação.
Como um passo inicial de uma pesquisa mais ampla de iniciação científica, este trabalho tem o intuito de elencar possibilidades de abordagem para a problematização do uso do discurso científico, em diferentes meios de comunicação, no âmbito no ensino de ciências. Em recorte, trazemos aqui algumas considerações sobre a utilização do discurso científico e suas marcas, a divulgação científica e também sobre o letramento midiático, acreditando que esses são alguns dos caminhos possíveis. Defendemos que essas abordagens podem, além da discussão específica da utilização do discurso, evidenciar que a ciência é uma construção humana e feito por pessoas com diferentes interesses, diferentemente do que defendia Bacon e também do retrato de ciência neutra, presente em variadas utilizações do discurso científico atualmente.
## Linguagem e discurso científico
Ao desenvolvermos um trabalho acadêmico, como uma tese, uma dissertação, um artigo para um periódico ou para um evento, utilizamos uma norma culta da língua. Porém, mesmo as normas sendo bem estipuladas em todas as áreas de pesquisa, existem termos específicos de cada área da ciência que, em muitos casos, podem ser polissêmicos fora do meio para o qual se destina o texto. De uma mesma forma, a linguagem utilizada quando escrevemos é diferente de quando apresentamos um trabalho, mesmo que seja possível reproduzir oralmente a forma escrita.
Essas normas do trabalho acadêmico passam também pelo fazer científico. É importante que, em trabalhos como este, inclusive, se busque o convencimento do leitor para que nossas ideias e trabalhos sejam considerados relevantes em uma comunidade acadêmica. E é comum que algumas marcas possam ser observadas quando o objetivo é convencer. E isso não se restringe à academia. Nos dias atuais, estamos cercados de anúncios que tentam nos persuadir a trocar o telefone por um mais moderno, a utilizar uma roupa da moda, viajar para um novo lugar, comprar produtos que prometem aumentar nosso conforto ou praticidade no dia a dia. A ciência, em muitos momentos, é presente nesses anúncios.
A utilização do discurso científico para convencer alguém é bastante antiga em diferentes meios, como citado. Feyerabend (2011), por exemplo, cita que Galileu Galilei (15641642) 'usa propaganda . Usa truques psicológicos , além de quaisquer
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razões intelectuais que tenha a oferecer. Esses truques são muito bem-sucedidos: conduzemno à vitória' (p.99, grifos do autor). Ao longo das últimas décadas, estudos foram desenvolvidos para compreender que tipo de ' propaganda e de ' ' truques psicológicos ' podem fazer alguém , como Galileu, 'vencer'.
## Marcas do discurso científico
Como mencionado anteriormente, em muitas ocasiões, o discurso científico é utilizado para convencer ou influenciar uma pessoa a seguir um caminho. A escola francesa de análise do discurso oferece bons direcionamentos para observar esse tipo de uso do discurso científico. Essa escola, além do que é prontamente escrito ou falado no discurso, considera também o seu contexto sócio-histórico (Mussalim, 2003).
Indursky (1989) elabora um estudo em que analisa os diferentes enunciadores no texto do relatório Pinotti (referente ao atendimento médico do presidente eleito Tancredo Neves (1910-1985) que faleceu antes mesmo de tomar posse). No estudo de Indrursky, a autora menciona a existência de um enunciador ligado ao viés científico do médico que redigiu o relatório. Esse tipo de enunciador, segundo ela, busca um distanciamento do que está sendo narrado. Isto pode ser observado a partir da utilização de voz passiva sintética, por exemplo. Nesses casos, o enunciador busca narrar algo que não necessariamente é sua opinião, mas sim algo factual que não pode ser contestado. O distanciamento objetivado aqui tem a ideia de apresentar uma voz neutra para narrar o acontecido. Essa neutralidade é uma busca ideal da ciência, que tenta se apresentar como alheia a diferentes opiniões ou vieses e coerente com uma verdade única.
Outra marca recorrente da utilização do discurso científico é o uso de termos técnicos pouco explicados para o leitor. Tal ação busca o convencimento de que, naquele texto, o que é oferecido tem suporte da ciência. Este tipo de recurso é bastante utilizado em publicidades de diferentes tipos. Barzotto (1992) ao analisar propagandas de agrotóxicos, ou defensivos agrícolas, como apresentado nas peças publicitárias, apresenta diferentes exemplos. Em Leal (2023), há a análise sobre propagandas de tintas radioativas (figura 1a) que utilizavam de diferentes artifícios para o convencimento dos consumidores e, um deles era a apresentação de nomes e processos químicos para encontrar uma fórmula que permitisse o produto brilhar no escuro com segurança e longevidade.
Figura 01: (a) propaganda Undark de tinta radioativa; (b) propaganda de cosmético ThoRadia.
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Um outro artifício, nesse caso não apenas no contexto do discurso científico, utilizado para influenciar um interlocutor é a referência à pessoas relevantes no contexto da mensagem. Um exemplo está na figura 1b, que é também uma propaganda de uma marca de cosméticos que contém radioatividade em sua fórmula. A marca Tho-Radia
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fez relativo sucesso a partir do seu lançamento, no início da década de 1930. Enquanto o rádio não foi proibido em produtos como os seus, suas propagandas continham a assinatura do Dr Alfred Curie. Nesse período, os nomes de Marie Curie (1867-1934) e Pierre Curie (1859-1906) estavam em evidência por conta de todos os estudos sobre a radioatividade feitos em mais de três décadas. O artifício usado pela marca pode ser apontado pois Alfred Curie é apenas um homônimo do casal cientista. Alfred era realmente um doutor na época, porém era médico e sua pesquisa era relacionada a uma doença congênita na coluna vertebral, sem nenhuma ligação com materiais radioativos (Lefevbre e Raynal, 2002).
A utilização desses e outros artifícios são vistos em diferentes contextos que buscam convencer as pessoas a acreditar em uma teoria ou comprar alguma coisa. Sendo assim, problematizar o uso dessas marcas do discurso pode ser importante para que a percepção da ciência seja construída de forma crítica, protegendo leitores, consumidores e estudantes. O discurso científico é central, também, na divulgação científica que pode ser considerada uma forma de levar para a sociedade, com uma linguagem intermediária entre a científica e a jornalística ou coloquial, os principais acontecimentos da academia.
## A divulgação científica e a divulgação sobre a ciência
De acordo com Oliveira e Oliveira (2023), a divulgação científica tem o objetivo de educar e informar o público a partir de informações sobre ciência, tecnologia e inovação em diferentes níveis. Lima e Giordan (2021) comentam a visão de divulgação científica como sendo um meio de simplificar a linguagem científica para um público mais amplo, ou leigo. Para os autores, esta visão é equivocada pois consideram que a:
divulgação científica (DC) é produzida pela esfera da cultura científica em colaboração com outras esferas de atividades humanas. Assim, a DC é um produto gerado na interseção de esferas de criação ideológicas, cujas atividades disputam motivos, propósitos, regras, agentes, ferramentas culturais, entre tantos outros elementos (Lima, 2016). Em uma análise a partir da cultura científica, teremos a apropriação da comunicação, do jornalismo, da mídia e suas técnicas como ferramentas culturais para a produção da DC, enquanto o universo de referência, os princípios e os valores continuam sendo próprios da cultura científica (LIMA e GIORDAN, 2021, p. 389).
Os autores comentam ainda que é necessário, independentemente da formação do divulgador científico, considerar que essa pessoa faz parte da cultura científica pois seu trabalho visa a ampliação do diálogo entre os mais diversos públicos e o fazer científico. Essa representação, entretanto, demanda bastante cuidado, visto que, quem consome o conteúdo produzido pela divulgação, tende a considerar a visão de ciência apresentada, o que nem sempre está de acordo com o que se considera ideal em um contexto de ensino de ciências.
O trabalho de Cardoso et al (2015) comenta a percepção da existência de discursos em nome da ciência fora de ambientes acadêmicos ou escolares e discute a visão científica apresentada em alguns textos de divulgação científica. Para os autores, que também utilizaram a análise do discurso, os textos contêm marcas de um realismo ingênuo em boa parte do seu conteúdo. Essa corrente tende a considerar que 'a ciência busca uma verdade pré-existente a ela mesma, sendo o fazer científico um jogo de descoberta dessas verdades' (p.247). Os autores afirmam, ainda que ' Podemos, então, considerar que professores de ciência devem se preocupar com os discursos sobre as ciências que circulam socialmente, pois as visões de ciências que
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os alunos dispõem podem ter origens na DC, em especial as de público amplo ' (p.230). E essa preocupação é fundamental no contexto em que vivemos.
Com a grande pulverização de informações a partir das redes sociais, o discurso científico passou a ser utilizado por qualquer pessoa que acredite que isso vai ser importante para ela ou para suas causas. Tal fato nos leva a um cenário de grande alcance para discursos negacionistas, pseudocientíficos ou meramente falsos, porém com marcas do discurso científico. Nas ciências em geral, passamos por um período nebuloso de pandemia em que éramos bombardeados com muitas informações falsas ou, até então, sem fundamentações científicas, o que levou a um grande número de vidas perdidas e sequelas em diversas áreas da nossa sociedade.
Como exemplos, podemos citar o trabalho de Oliveira e Oliveira (2023) que analisou uma cadeia de notícias fraudulentas contra o pesquisador e divulgador científico Átila Iamarino, que utilizou suas redes sociais para divulgar o andamento das pesquisas sobre o vírus que gerou toda a pandemia no início desta década. As autoras apresentam notícias e colunas, muitas vezes não assinadas, que questionam os dados e as falas do pesquisador com o único objetivo de minimizar os possíveis problemas da doença e do distanciamento social, tão importante naquele período.
Silva e Arroio (2024) analisam o impacto de uma mensagem em rede social do vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro, em que o político apresenta um texto em que questiona o discurso sobre o aquecimento global no contexto em que a condição meteorológica indica temperaturas baixas. Tal discurso não é, naturalmente, uma divulgação científica, mas o vereador, mesmo que de forma subentendida, divulga sobre a ciência. Esse ponto é mais um a ser motivo de preocupação em um contexto de ensino de ciências. Na física, temos um sem número de novos produtos e serviços quânticos, por exemplo, sendo divulgados e vendidos na internet.
Diante desse contexto, é importante discutirmos possibilidades para que os estudantes desenvolvam a capacidade de buscar e compreender fontes seguras para acessar conteúdo sobre a ciência, seja do ponto de vista da divulgação científica ou de aspectos intrínsecos a ela. Uma alternativa pode se dar a partir das discussões sobre o letramento midiático.
## Letramento Midiático e o Ensino de Ciências
Considerando o contexto da década de 2020, período em que uma parte significativa da sociedade já cresce imerso em ambientes virtuais, ao mesmo tempo em que as gerações anteriores são, de certa forma, atropeladas pelas constantes mudanças na tecnologia da informação, pode ser necessária uma reflexão sobre como lidamos com essa realidade. Como citado anteriormente, em julho de 2024, um relatório da OCDE apontou que o Brasil, entre vinte e um países, é o pior em identificar uma notícia falsa.
Diante deste cenário de insuficiência na interpretação de informações e um bombardeamento de materiais que envolvem o discurso científico a um toque de distância das pessoas, discutir o ensino de ciências em conjunto com o letramento midiático se mostra importante. Nesse sentido, podemos considerar que letramento de mídia como Garcia et al (2024) quando apontam que
Este tipo de letramento pode ser entendido como um conjunto de práticas ligadas ao acesso, decodificação e análise das informações encontradas na mídia. [...] Este letramento nos auxilia na interpretação e na compreensão de textos em diferentes formatos, de diferentes meios e fazendo uso de diferentes recursos semióticos (GARCIA et al, 2024, p. 31).
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As autoras, assim como Oliveira e Oliveira (2023) e Silva e Arroio (2024) apontam exemplos em que o discurso científico foi manipulado com o intuito de gerar desconfiança nas informações de consenso científico e estimular correntes negacionistas, seja em relação ao contexto de mudanças climáticas ou da pandemia do início da década.
Silva e Arroio (2024) comentam também sobre o que chamam de Letramento Midiático Crítico. Para eles, esse seguimento coloca a cultura da mídia como um produto. Além disso, visa ensinar os estudantes a analisar e criticar aspectos ideológicos presentes nas mídias ao mesmo tempo em que desenvolvem capacidades de se expressar e de agir em âmbitos de redes sociais. Eles concordam, ainda, que diante das transformações sociais que vivemos, é fundamental que professores e estudantes sejam críticos às tecnologias em que estão envolvidos. Defendem, ainda, que apenas analisar de forma passiva não é suficiente, mas que se construam possibilidades de criar conteúdos que desafiem posições negacionistas, pseudocientíficas ou antidemocráticas.
Em um movimento em busca de sinergia entre o letramento midiático e o ensino de ciências, Höttecke e Allchin (2019) discutem uma nova organização para os estudos da natureza das ciências considerando a era das mídias sociais. Os autores apresentam alguns desafios para o ensino das ciências no contexto atual e enfatizam a importância do conhecimento sobre como a ciência funciona.
Em seu trabalho é apresentado um quadro em que aponta o caminho das informações científicas até o público em geral. Nessa organização, de acordo com os autores, até algum tempo atrás, os especialistas publicavam suas pesquisas, os mediadores ou divulgadores estudavam esses materiais e se comunicavam com os cidadãos de forma geral. Entretanto, com o passar do tempo, os autores retratam um cenário em que falsos especialistas queimam a etapa de estudar as pesquisas publicadas em contextos científicos e levam informações diretamente para os cidadãos que, nem sempre, tem capacidade de diferenciar as informações coerentes com as discussões científicas. Höttecke e Allchi n (2019) afirmam que 'e m nossa opinião, a educação científica precisa articular esses desafios epistêmicos para os alunos e contextualizálos em uma compreensão abrangente da natureza das ciências do sistema combinado de ciência e comunicação científica ' (p. 658) .
Nesse artigo, busca-se uma articulação entre o processo de alfabetização científica, mediado pela natureza das ciências, e a alfabetização midiática. Os autores, então, esquematizam quatro passos para que o processo leve a uma ideia de 'ciência integral' (p.659 ). De forma abreviada, são eles: (1) apresentar uma visão ampla da importância do conhecimento especializado e do valor do fazer científico para a sociedade; (2) os estudantes devem compreender sobre a ciência em si e o caminho percorrido para que um trabalho seja publicado. Entre esses passos estão as revisões por pares, os consensos científicos, as especializações e a credibilidade de todo o processo; (3) nesta etapa, os estudantes devem compreender os desafios da comunicação científica para a sociedade e a importância dos divulgadores da ciência, dos jornalistas científicos. Esta etapa deve conscientizar a respeito da percepção de que, mesmo vivendo numa era da tecnologia e da informação, estamos todos com um grande potencial de desinformação; (4) os estudantes tendem a compreender os aspectos humanos que afetam suas habilidades de consumir e compartilhar informações científicas. Além disso, perceber armadilhas e perigos das mídias sociais como um todo, como a ideia de bolha que permite a concepção de um falso consenso, os ecos observados em opiniões dentro de um nicho específico da sociedade e,
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principalmente, como a utilização do discurso científico pode afetar a dinâmica de crenças e de conhecimento da sociedade.
Diante desse contexto, a relação entre as preocupações entre o ensino de ciências e o letramento midiático podem ser apontadas de uma forma relativamente objetiva, de forma que trabalhos possam ser direcionados para essas demandas e prospecções sejam feitas.
## Reflexão e Prospecções
Este trabalho é um ponto de partida de um projeto de pesquisa da Universidade Federal do Sul da Bahia que relaciona o discurso científico e aspectos da natureza das ciências, entre outros referenciais, em peças publicitárias e produções da divulgação científica. Tal organização se propõe a desenvolver, além de análises dos materiais coletados, atividades de ensino e extensão para levar ao público em geral, tanto dos cidadãos do entorno da Universidade quanto em redes sociais.
Compreendendo a amplitude da proposta articulada por Höttecke e Allchin (2019), o projeto dará ênfase às atividades da etapa (4) mencionada na seção anterior. Nele, ressaltamos os procedimentos utilizados por negacionistas, golpistas e estelionatários, por exemplo, a partir do discurso científico com o intuito de persuadir o cidadão consumidor de que seu discurso tem méritos reconhecidos por uma comunidade de especialistas.
Concordamos com Silva e Arroio (2024) quando apontam a importância do abandono de um comportamento passivo, mesmo que crítico, nas mídias sociais e que comecemos a, junto com nossos estudantes, desenvolver e publicar conteúdos com base em trabalhos científicos, com a linguagem que alcance todo o entorno dos estudantes. É possível considerar que o processo de construção dessas informações, tanto para extensão universitária quanto para diferentes mídias, permita que outros aspectos citados por Höttecke e Allchin (2019), além dos apontamentos feitos por Silva e Arroio (2024), Garcia et al (2024), Oliveira e Oliveira (2023) sejam desenvolvidos.
Infelizmente, seria possível elencar um grande número de ocorrências e personalidades que utilizam seu espaço midiático para ludibriar as pessoas, muitas em vulnerabilidade financeira. Discursos anticientíficos, negacionistas e antidemocráticos são veiculados com grande capacidade de pulverização e, diante do contexto atual, é possível refletir que cientistas e democratas não conseguem acompanhar a produção de material nocivo à saúde física, emocional e financeira dos cidadãos. Por esse motivo, dentro das possibilidades, buscamos reunir aportes teóricos e metodológicos que se preocupam e discutem esses problemas com objetivos de construir alternativas para alcançar algumas pessoas e discutir ciência, a física, a saúde e qualidade de vida dessas pessoas que é influenciada diretamente por casos como os citados nos trabalhos que fizemos referência.
## Referências
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