O CONCEITO DE ENERGIA E O LIVRO DIDÁTICO DE CIÊNCIAS
Vinicius Jacques, Tathiane Milaré, José De Pinho Alves Filho, Lucas Dominguini
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 07/06/2011
- Linha de pesquisa
- Questões Teórico-Metodológicas E Novas Demandas Na Pesquisa Em Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## O CONCEITO DE ENERGIA E O LIVRO DIDÁTICO DE CIÊNCIAS THE CONCEPT OF ENERGY THE DIDACTIC SCIENCE BOOKS
## Vinicius Jacques , Tathiane Milaré , José de Pinho Alves Filho , Lucas 1 2 3 Dominguini
1 Instituto Federal de Santa Catarina - IFSC / vinicius.jacques@ifsc.edu.br 2 Universidade Estadual de Ponta Grossa / Departamento de Química / t\_milare@msn.com 3 Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC / Departamento de Física / jopinho@fsc.ufsc.br 4 Instituto Federal de Santa Catarina - IFSC / lucas.dominguini@ifsc.edu.br
## Introdução
O livro didático é uma das principais fontes para compreensão de conceitos e informações acessíveis aos alunos dos Ensinos Fundamental e Médio. É utilizado por muitos professores de escolas públicas e particulares do Brasil como o instrumento norteador na preparação de aulas, base para confecção de textos auxiliares e elaboração de cronogramas.
Mesmo com tal relevância para o ensino, pesquisas acadêmicas apontaram inúmeros problemas, como erros conceituais, preconceitos sociais, culturais e raciais, deficiências gráficas, diagramação cansativa e concepções errôneas sobre Ciência nos principais livros didáticos brasileiros. Tais observações, na maioria das vezes não têm sido levadas em consideração pelas editoras, autores e órgãos responsáveis pela qualidade desse material (MEGID NETO; FRACALANZA, 2003).
Deste modo, é sempre importante realizar novas análises dos conteúdos dos livros didáticos a fim de minimizar deficiências no ensino e na aprendizagem de conceitos que estarão presentes no processo escolar e serão importantes na formação de um cidadão pleno.
## A noção de Energia e o Ensino de Ciências
Para compreender os conhecimentos científicos é necessário desenvolver previamente algumas noções ou conceitos-chave. Quando isso não ocorre, surgem dificuldades no ensino e na aprendizagem em Ciências. Para os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), um dos objetivos do Ensino de Ciências é que o aluno desenvolva a capacidade de "utilizar conceitos científicos básicos, associados a energia, matéria, transformação, espaço, tempo, sistema, equilíbrio e vida" (BRASIL, 1998, p. 33). Esses conceitos estão presentes em diferentes áreas da Ciência e sustentam a compreensão de diversos fenômenos. Auth e Angotti (1999, p.12) consideram que alguns conceitos possuem a capacidade de síntese, aproximando "campos de estudo que antes do seu aparecimento e amadurecimento eram separados e após a sua explicitação e clareza, passam a ser um único". O conceito de Energia é um destes.
De extrema importância ao aprendizado das Ciências, o conceito tem caráter unificador, tornando-se potente e frutífero para balizar e inter-relacionar diferentes conhecimentos. É um conceito bastante complexo e, segundo pesquisas diversas
sobre concepções alternativas, é freqüentemente compreendido de maneira reducionista, atrelado a um único ou poucos fenômenos (JACQUES, 2008). No entanto, apesar das tendências da pesquisa em Ensino de Ciências e as diretrizes apresentadas pelos documentos oficiais apontarem para outra direção, na última série do Ensino Fundamental é comum a Física e a Química serem trabalhadas disciplinar e isoladamente. Neste contexto, torna-se evidente a influência do livro didático na determinação dos programas escolares, uma vez que a disciplinaridade no Ensino Fundamental não é sugerida em nenhum documento oficia, mas apenas pelos livros didáticos (MILARÉ, 2008).
## A noção de Energia e o Livro Didático de Ciências
O objetivo deste trabalho é analisar a ocorrência da noção de Energia de uma determinada coleção de Ciências do 9º ano do Ensino Fundamental, indicada hegemonicamente em todas as recomendações do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). A análise baseou-se nos princípios da Análise de Conteúdo (BARDIN, 1977), consistindo na leitura, transcrição das passagens referentes à noção de Energia e sua contabilização ao longo dos livros. O objetivo foi caracterizar a distribuição ao longo de cada livro e o índice de ocorrência nos diferentes conteúdos de Química e Física.
No Quadro 1, apresentamos a frequência com que a palavra Energia aparece na abordagem dos conteúdos de Física e Química. O livro de 1993 está dividido em unidades de Física e de Química, nos demais, há também unidades de Introdução aos Conceitos Básicos.
Quadro 1: Frequência da denominação Energia, das diferentes edições, por capítulos dos livros didáticos.
A frequência de abordagem da noção de Energia em capítulos dedicados à Química oscilou entre 7% e 9%, comparado ao total. Porém, essas alterações percentuais não são resultantes de mudanças significativas na maneira de abordar os assuntos. No capítulo Matéria e Energia os autores afirmam: '[...] a matéria pode sofrer transformações. Para entender como elas acontecem, precisamos
compreender o conceito de energia, pois ela está diretamente envolvida nesse processo.' (BARROS; PAULINO, 2002, p. 8). No entanto, a noção de Energia não é utilizada no capítulo A Matéria, suas Propriedades e Transformações.
A estrutura de organização dos conteúdos é praticamente a mesma ao longo das diferentes edições e a abordagem do conceito de Energia é predominante no estudo da Física. Mesmo delimitado a um universo físico, o enfoque maior se dá nos capítulos específicos para seu estudo. O índice de utilização do conceito de Energia no estudo da Química é pouco expressivo nos diferentes livros analisados. Angotti (1991, p. 138) ressalta ainda que 'Associar o conhecimento sobre o assunto somente ao campo da Física aprisiona subjetivamente um conhecimento que pode ser essencialmente transdiciplinar'.
## Considerações Finais
Na forma como são apresentados nos livros didáticos, os conteúdos de Ciências do último ano do Ensino Fundamental não contribuem para o caráter unificador do conceito de Energia, não propiciam a inter-relação dos conteúdos e corroboram com a fragmentação do pensamento dos estudantes. Angotti (1991) salienta que os recortes impedem a união dos conceitos nas estruturas mentais dos alunos, quando estudado em separado.
Mesmo com os avanços de recursos tecnológicos, o livro didático continua sendo um dos materiais educativos mais utilizados em sala de aula, sendo muitas vezes a única fonte de informação dos alunos e a principal ferramenta de auxílio ao professor na sua prática docente. Neste cenário, adquire status de excelência e acaba por enquadrar o trabalho da grande maioria dos professores. Deficiências e limitações presentes no livro didático, quando não detectadas e previamente corrigidas, podem potencializar a ineficácia do processo de ensino-aprendizagem.
## Referências
ANGOTTI, J. A. P. Fragmentos e totalidades no conhecimento científico e no ensino de ciências. São Paulo, Tese (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, 1991.
AUTH, M. A.; ANGOTTI, J. A. P. Conceitos Unificadores e a busca dos universais: a temática das combustões. In: Anais do II ENPEC. 1999, Valinhos. Valinhos, SP, 1999.
BARDIN, L. Análise do conteúdo . Lisboa: Edições 70 LDA, 1977.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: ciências naturais. Brasília: MEC/SEF, 1998.
JACQUES, V. A energia no ensino fundamental: o Livro didático e as concepções alternativas. 2008. 223p. Dissertação. (Mestrado em Educação Científica e Tecnológica). Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis-SC, 2008.
MEGID NETO, J.; FRACALANZA, H. O livro didático de ciências: problemas e soluções. Ciência & Educação , v. 9, n. 2, p. 147-157, 2003.
MILARÉ, T. Ciências na 8ª série: da química disciplinar à química do cidadão. 2008. 213p. Dissertação. (Mestrado em Educação Científica e Tecnológica). Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis-SC, 2008.
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