A APROXIMAÇÃO DA ARTE COMO PROPOSTA DE HUMANIZAÇÃO DO ENSINO DE FÍSICA - UMA ANÁLISE DA MÚSICA “QUANTA”
Isabelle Santos De Castro, Paulo Lima Junior
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 24/01/2025
- Linha de pesquisa
- Cultura, Cognição E Linguagem No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A APROXIMAÇÃO DA ARTE COMO PROPOSTA DE HUMANIZAÇÃO DO ENSINO DE FÍSICA - UMA ANÁLISE DA MÚSICA 'QUANTA'
## Isabelle Santos de Castro 1 , Paulo Lima Junior 2
1 Universidade de Brasília/ Instituto de Física/ isabellesantos007@gmail.com
2 Universidade de Brasília/ Instituto de Física/ paulolimajr@unb.br
## Resumo
O senso comum sobre a prática de ciências revela um viés epistemológico empírico-indutivista, que também é presente dentro das escolas. Pensando em superar este caráter, a fim de construir um ensino de ciências mais humano e que alcance os alunos, este trabalho adota o pluralismo metodológico da epistemologia de Paul Feyerabend para propor que a arte contribua com este processo. A música "Quanta' (Gil, 1997) é escolhida por se propor a expor a relação entre ciência, arte e espiritualidade. A análise axiológica foi feita com base no dispositivo metodológico de Lima Junior (2023), com base na filosofia de linguagem de Bakhtin, a fim de compreender como a música pode estar comprometida com uma visão de ciência mais humanizada do que a conhecida no ensino básico. Feita a análise, é obtido que a música expõe uma ciência muito diferente da visão empírico-indutivista: a ciência como criação do homem e que dialoga e se assemelha à arte e à espiritualidade.
Palavras-chave : Ensino de Ciências, pluralismo metodológico, Arte e Ciências.
## Introdução
Promover o gosto pela física é uma das maiores dificuldades dos professores. Ainda que haja muitos esforços para contextualizar a ciência, a física escolar pouco se aproxima da realidade dos estudantes brasileiros. Ao solicitar que os estudantes desenhem um cientista, as imagens tipicamente obtidas são de um homem branco, socialmente estranho, isolado em um laboratório, fazendo experimentos mirabolantes, um arquétipo diferente da maioria da população (Breunig et al., 2021).
A imagem típica de um cientista aponta para uma ciência isolada, distante, desinteressante, feita a partir de descobertas e experiências de gênios antissociais. Como os estudantes se aproximariam de uma área com a qual não se identificam nem entendem como ela se conecta às suas vivências?
Ao longo da sua história, o Ensino de Ciências tem buscado expor o caráter humano na ciência, sublinhando sua diversidade de pluralidade. Mesmo assim, nos documentos que regulam a educação brasileira, o conhecimento científico é preferencialmente situado na produção tecnológica e no método empírico-indutivista (Ostermann e Rezende, 2020).
Promover a humanização da ciência requer apresentá-la de forma democrática e incentivar o pensamento crítico. A promoção do humanismo supõe o rompimento com o empirismo-indutivismo, que ainda tem força no ensino e no senso comum, pela exposição da ciência como cultura.
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
No campo da filosofia, algumas teorias sublinham que a ciência é questionável e resultado de práticas humanas. Inserido nesse conjunto de teorias, o pluralismo metodológico de Feyerabend favorece que o ensino de ciências dialogue melhor com estudantes e exponha a ciência como também cultura.
A partir desta concepção, a música 'Quanta' de Gilberto Gil será analisada neste trabalho como potencial recurso didático que responde à questão: Como promover a humanização da ciência através da arte? Esperamos que essa análise contribua para pensarmos a Física como cultura.
## Revisão da Literatura
O ensino de ciências no Brasil é marcado historicamente por grandes projetos que nortearam os currículos educacionais. O Physical Science Curriculum Study (PSSC), o Projeto de Ensino de Física (PEF) e a Física Auto-instrutiva (FAI), ao lado de outros projetos e programas contemporâneos, orientaram o ensino de física nas décadas de 60 e 70.
Tais projetos fomentaram o caráter empírico-indutivista da ciência dentro da escola, ao representarem a produção de conhecimento como uma atividade que se inicia e se fundamenta na experimentação. Sob essa lógica, a ciência é apresentada como uma elaboração neutra e metódica, sem relação com controvérsias políticas ou sociais. No contexto da Guerra Fria e do Regime Militar, o ensino de ciência priorizou a formação do cientista e a aquisição de conhecimento (Queiroz e Hossume, 2016).
Com a redemocratização, a tendência tecnicista foi desafiada pelo humanismo, animado pela pedagogia de Paulo Freire. O movimento CTS, por exemplo, propôs orientações para uma educação científica integrada à sociedade, de forma que o conteúdo científico e tecnológico seja apresentado à luz de seus aspectos humanos, históricos, políticos, sociais e ambientais (Santos, 2008).
Há algumas décadas, a pesquisa em ensino de ciências tem questionado a ilusão de neutralidade da ciência, porém, o tecnicismo está presente nos documentos oficiais, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), favorecendo a separação entre ciência e cultura. No contexto de formação de professores, embora visão empírico-indutivista perca a influência ao longo da graduação, a visão humanista da ciência ainda não é difundida entre os formandos (Ortiz, Magalhães Júnior e Gimenes, 2021). O distanciamento entre a ciência e demais atividades culturais não apenas dificulta o interesse na física, como cria um ambiente propício à difusão de ideias anticientíficas (Ostermann e Rezende, 2020).
## Referencial Teórico
Grande parte da filosofia da ciência é ocupada por movimentos que buscam descrever e prescrever o método científico. Em oposição à busca de um método que determine a validade da ciência, o anarquismo epistemológico não compartilha da visão de racionalismo acima de todas as outras percepções de mundo. Ele argumenta que a construção da ciência derivada de diversas abordagens, influências e concepções além daquilo que usualmente se valoriza.
Qualquer ideia, embora antiga e absurda, é capaz de aperfeiçoar nosso conhecimento. A ciência absorve toda a história do pensamento e a utiliza para o aprimoramento de cada teoria. E não se respeita a interferência
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política. Ocorrerá que ela se faça necessária para vencer o chauvinismo da ciência que resiste em aceitar alternativas ao status quo.
(Feyerabend, 1977 p.65)
- O conceito de tudo vale é proposto por Feyerabend (1997) como 'único princípio capaz de não inibir o progresso'. Em oposição às teorias do método científico, Feyerabend valoriza o 'pluralismo metodológico', abrindo espaço para a reconhecer a presença de métodos alternativos que constituem a história da ciência.
Na Educação em Ciências, o pluralismo metodológico tem potencial para favorecer uma perspectiva mais humanista da Física, mostrando como o conhecimento científico é influenciado por diversos aspectos da vida.
## Método
O álbum 'Quanta' do cantor e compositor baiano Gilberto Gil, de 1997, propõe a representar e valorizar a ciência e a arte, explicitando suas relações e diálogos com a espiritualidade e a humanidade. Em 26 músicas, temas como física, medicina, religião, tecnologia, charlatanismo, e saberes tradicionais são cantados por Gil. A canção inicial, que também leva o nome 'Quanta' , abre o álbum enunciando um conceito conhecido pela física quântica: ' quanta do latim plural de quantum ' e aborda explicitamente um tema físico, sem deixar de lado a arte e a fé. Por essas qualidades, a música apresenta muita relevância para ser empregada como recurso didático, em conexão com o pluralismo metodológico e com a humanização da ciência escolar.
Realizamos aqui uma análise dessa música baseada no dispositivo analítico desenvolvido por por Lima Junior (2023) com base na filosofia da linguagem do Círculo de Bakhtin. O dispositivo propõe a análise de enunciados a partir dos seguintes elementos: (1) o conteúdo temático (i.e., aquilo que o texto diz); (2) os estilos de linguagem (recursos lexicológicos, fraseológicos e gramaticais empregados); (3) a construção composicional (forma de organização do todo do texto); (4) o contexto de comunicação (informações disponíveis sobre o autor e a audiência). Todas essas propriedades do texto são analisadas em conjunto visando captar a posição valorativa que dá acabamento estético ao texto. Essa posição valorativa, também chamada autor-criador , é o elemento estético-formal que, presente no texto, dá acabamento a ele. A ideia de base é que a potência criativa de qualquer produção verbal está assentada na força que o autor tem de escolher temas, estilos e composição consistentes com um quadro de valores, produzindo um resultado que venha a ser apreciado por sua audiência. Por essa ênfase na dimensão valorativa, o dispositivo proposto por Lima Junior (2023) pode ser considerado uma análise axiológica .
No interesse do Ensino de Física, os elementos explicitados no dispositivo (conteúdo, estilos, composição e contexto) permitem identificar as visões de ciência privilegiadas em recursos didáticos. Com respeito à música 'Quanta' desejamos identificar o tipo de visão de ciência que seria tacitamente valorizada pela inclusão dessa música no rol de recursos didáticos da Física escolar.
## Análise
Além da música ' Quanta ', o álbum de mesmo nome expõe em diversas faixas sua apreciação pela ciência brasileira. Seja na regravação do samba-enredo 'Brasil,
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Ciências e Artes' da escola de samba carioca Mangueira que o homenageia ou em diálogo com Gil sobre o álbum, o físico Cesar Lattes é uma figura de forte relevância e inspiração para a música (Ribeiro, 2005)
Sobre o conteúdo, as primeiras estrofes da canção quanta se dedicam a introduzir ao ouvinte noções básicas de física quântica:
Quanta do latim Plural de quantum
Quando quase não há Quantidade que se medir Qualidade que se expressar Fragmento infinitésimo Quase que apenas mental Quantum granulado no mel Quantum ondulado no sal Mel de urânio, sal de rádio Qualquer coisa quase ideal (Gilberto Gil, 1997)
O autor ao definir a área da física quântica se utiliza da sílaba 'qua' ao início de quase todos os versos produzindo sonoridade em torno da palavra ' quantum ', se apropriando de um termo científico como objeto de poesia. Mais além, também traz o conceito de dualidade onda-partícula, próprio de corpos em escala quântica, relacionado com elementos palatáveis contrastantes: mel e sal, doce e salgado. A escolha e jogo de palavras adiciona sensações à descrição dos fenômenos físicos. Tanto a aliteração quanto a sinestesia são figuras de linguagem que compõem os recursos fraseológicos da língua portuguesa. Ao citar as partículas como 'fragmento infinitésimo quase que apenas mental', sem pretensão de rigor científico, a descrição do universo quântico oferecida pela música remete à introdução de livros de física básica para o ensino superior:
Já a física quântica trata principalmente de fenômenos na escala atômica e sub-atômica, mais de um milhão de vezes menor do que as dimensões macroscópicas (também trata das repercussões desses fenômenos ao nível macroscópico). Como essa escala é totalmente remota da nossa experiência , não há nenhuma razão para esperar que possa ser descrita pelos conceitos da física clássica. Efetivamente não pode: a física quântica não se parece com nada do que vimos até agora. Daqui por diante, entraremos em território realmente novo!
(Nussenzveig, 1998 p.245)
O refrão 'Cântico dos cânticos / Quântico dos quânticos', à primeira vista, simples e sonoro, brinca com a semelhança das palavras quântico e cântico. Cântico, um canto de louvor, retoma a ideia central do álbum de aproximar arte e ciência, pois ao ser citado logo após da declaração da teoria quântica em canto insinua que esta é ou deva ser louvada. Ainda, cânticos dos cânticos nomeia um livro bíblico sobre prazer e amor conjugal.
No jogo de palavras dos versos, não só as palavras se mostram similares como fica subentendido a pretensão do autor de expor que a ciência e a religião têm
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proximidades, sendo a primeira também ligada à fé. Essa tomada de posição sobre a ciência fica impressa no texto tanto pelos estilos de linguagem escolhidos quanto pelo conteúdo temático dos versos.
Canto de louvor De amor ao vento Vento arte do ar Balançando o corpo da flor Levando o veleiro pro mar Vento de calor (Gilberto Gil, 1997)
Nos versos acima, é evocada uma experiência sensorial exaltando a natureza. Sob o contexto da década de 90, onde o movimento CTS teve voz no Brasil, a ciência nas escolas e no popular passou a dar importância à responsabilidade socioambiental. O verso 'Vento arte do ar' representa o ar como artista, uma atividade humana, sob esta perspectiva, a natureza e a humanidade se assemelham. Esta estrofe agrega à ciência descrita anteriormente um caráter que dialoga, aprecia e respeita a natureza.
De pensamento em chamas Inspiração Arte de criar o saber Arte, descoberta, invenção Teoria em grego quer dizer O ser em contemplação (Gilberto Gil, 1997)
Após introduzir o tema e evidenciar a proximidade da ciência com o espiritual e o natural, Gil traz à tona o processo de produção de um saber científico como um processo criativo. A ciência toma caráter de uma produção criativa, subjetiva e sob a influência de quem a faz. Neste cenário, a ciência não poderia ser neutra, muito menos isolada do restante das ações e práticas humanas.
A palavra 'contemplação' além de ilustrar a prática de refletir, abstrair, novamente recorre a um termo de importância religiosa, sobre um momento de se aproximar do divino. Cada vez mais unindo o divino e o natural às práticas humanas.
Sei que a arte é irmã da ciência Ambas filhas de um Deus fugaz Que faz num momento E no mesmo momento desfaz Esse vago Deus por trás do mundo Por detrás do detrás (Gilberto Gil, 1997)
A última estrofe afirma que a arte é irmã da ciência, o que se opõe ao conhecimento comum de que a ciência é uma atividade completamente objetiva e a arte subjetiva, como se fossem opostas, mas não poderiam ser tão distantes sendo ambas filhas de um mesmo Deus fugaz. Se a ciência é produção humana, a humanidade atua tal como este Deus fugaz. Em oposição à visão de cumulatividade do conhecimento científico, o autor sublinha o fato de que a mesma força capaz de fazer a ciência pode desfazê-la. A temática da física quântica exemplifica bem esse processo de 'fazer e desfazer', por ser revolucionária perante a física clássica.
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A ideia de um Deus fugaz também dialoga com outra canção do álbum, intitulada 'Dança de Shiva', sendo Shiva uma divindade do hinduísmo, deus que destrói e restaura. Reafirma a conexão entre arte, ciência e espiritualidade proposta pelo autor para além do cristianismo.
A canção está composta tomando a física quântica como ponto de partida. Suavemente, a música incorpora temas e termos que não são típicos da Física, mas, sob perspectiva humanista, relacionam-se produzindo novos sentidos. A canção finaliza afirmando a relação entre arte, ciência e espiritualidade, relacionando-as de forma familiar e íntima. O refrão reforça a posição valorativa que dá acabamento estético à música: a ciência é mais completa em diálogo com o artístico e o divino.
Em síntese, a música composta por Gil descreve uma ciência muito diferente da visão apresentada no ensino básico. A integração humanista da ciência a outras atividades culturais desafia as fronteiras demarcadas pelos valores do tecnicismo e do empirismo. Empregada como recurso didático, essa canção favorece abordar a ciência como construção humana.
## Conclusão
Ao explicitar a relação da arte com a ciência, em 4 minutos e 44 segundos é possível visualizar uma perspectiva de ciência de grande valor para a escola. A proposta da música Quanta como recurso didático oferece amplas oportunidades de discussão e reflexão sobre o processo de produção do saber científico. A análise sugere que a obra valoriza uma ciência grandiosa como a 'arte de criar o saber', onde a influência humana não a banaliza, mas constitui sua essência.
A história da produção de conhecimento científico não é engessada e pautada em grandes descobertas como no senso comum. As visões de ciência contempladas pela música diferem das concepçoẽs empírico-indutivistas presentes no ensino básico de forma a explicitar um processo que se relaciona intimamente a outros campos da vida humana, uma ciência que não se distancia da arte e da fé.
A explicação sobre a física quântica na música articula a física de forma bela, sinestésica, prazerosa e divina, mas ainda sem vulgarizar o conhecimento nem evocar premissas equivocadas ou pseudocientíficas. A música não se confunde com argumentos espiritualistas que imputam à ciência a crença de que o pensamento quântico é capaz de transformar a realidade. A aproximação entre ciência, arte e divindade é muito mais cirúrgica e inspiradora, não se arriscando em afirmações que seriam negadas por cientistas. Este tipo de aproximação para o ensino básico contempla o estudante em outros aspectos de sua vida e proporciona outras possibilidades de contemplação científica.
Embora longe de ideal, o ensino de física vem caminhando rumo a uma proposta mais humanista e dialógica. Este artigo tenta, de certa forma, contribuir para que este ideal esteja um pouco ao alcance de nossas mãos.
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## Referências
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