REPRESENTAÇÃO DE GÊNERO NO CORPO DOCENTE DE CURSOS DE FÍSICA EM UNIVERSIDADES FEDERAIS DO NORDESTE
Paulo Fernando Costa Cardoso, Maria Consuelo Alves Lima
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 24/01/2025
- Linha de pesquisa
- Diversidade, Inclusão E Direitos Humanos No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Pôster
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2025
Texto completo
## REPRESENTAÇÃO DE GÊNERO NO CORPO DOCENTE DE CURSOS DE FÍSICA EM UNIVERSIDADES FEDERAIS DO NORDESTE
## Paulo Fernando Costa Cardoso 1 , Maria Consuelo Alves Lima 2
- 1 Universidade Federal do Maranhão/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática/paulo.fcc@discente.ufma.br
- 2 Universidade Federal do Maranhão/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática/mca.lima@ufma.br
## Resumo
Investiga-se a representação de gênero, entre docentes de cursos de física em universidades federais da região Nordeste do Brasil, motivada pela baixa presença de mulheres nessa área, na instituição dos autores deste estudo. O objetivo é refletir sobre as discrepâncias de gênero, atualmente, entre docentes na área de física nessa região. A pesquisa adotou uma abordagem exploratória, com dados coletados nos meses de maio e junho de 2024, em portais da internet dos departamentos de física das universidades participantes do estudo. Os resultados revelaram uma disparidade significativa na distribuição de gênero, com a proporcionalidade de mulheres consideravelmente menor que a de homens, o que pode ser um problema para a dinâmica acadêmica e a percepção dos estudantes sobre a equidade de gênero. A discussão dos dados foi embasada em teorias feministas que destacam a importância da inclusão de mulheres na ciência. Entre os resultados, observou-se a necessidade de medidas concretas para promover a equidade de gênero no ambiente acadêmico da área de física, e reformular políticas educacionais para criar um ambiente inclusivo onde a participação de mulheres seja visibilizada e reconhecida.
Palavras-chave : Mulheres na ciência. Ensino de Física. Feminismo.
## Introdução
Uma inquietação sobre o número de mulheres em cursos de graduação em Física, pela pouca representação de mulheres, em alguns desses cursos, motivou a realização deste estudo, que teve como objetivo discutir a distribuição de gênero no corpo docente, com formação em Física, em universidades públicas da região Nordeste do país.
A presença de mulheres em disciplinas da área das Ciências da Natureza, como na Física, é historicamente muito reduzida proporcionalmente ao número de homens como evidenciado por Agrello e Garg (2009). Pensar na representação das mulheres, em carreiras acadêmicas, é refletir sobre disparidades e desigualdades no contexto de cursos de graduação dessa área, a exemplo da Física, em diferentes instituições de ensino e de pesquisa.
Para conhecer em parte a representatividade das mulheres na física no Brasil, analisou-se a representação de mulheres docentes em física em algumas universidades federais da região Nordeste brasileira, selecionada como uma amostra da representatividade regional. Este estudo foi instigado pelo questionamento: Por que ainda hoje é tão desigual a distribuição de gênero no corpo docente nos departamentos/institutos de física nas universidades públicas brasileiras?
## O Feminismo e a Ciência
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
O movimento feminista das décadas de 1970 e 1980, durante o chamado feminismo da segunda onda, foi inicialmente um movimento político. Nesse período, no Brasil, fazia-se a transição democrática no final dos anos de 1970, e repercutia o movimento em geral, que visava alterar as condições das mulheres. De acordo com Keller (2006), esse movimento também gerou um projeto intelectual que resultou na teoria feminista. Essa teoria buscava, entre outras coisas, examinar e expor o papel das ideologias de gênero em vários campos, incluindo a ciência. E, ao se aplicar a crítica feminista às ciências naturais, especialmente na biologia, emergiram mudanças significativas que estavam em sintonia com os objetivos feministas. A entrada das mulheres na ciência e a crítica feminista trouxeram novas perspectivas, que desafiaram e modificaram conceitos e práticas estabelecidos. A autora menciona, por exemplo, a mudança na compreensão da fertilização, onde tanto o óvulo quanto o espermatozoide passaram a ser vistos como parceiros ativos no processo, em contraste com a visão tradicional que retratava o espermatozoide como o agente ativo e o óvulo como passivo.
Além de mudanças conceituais, houve aumento significativo na participação das mulheres na ciência. Keller (2006) observou que, em 1970, apenas 8% do título de doutorado em ciências naturais foi concedido a mulheres nos Estados Unidos da América, em meados de 2006 (ano de publicação), o percentual chegou a 35%. Esta alteração foi em grande parte devido à pressão política e à ação de organizações de mulheres cientistas, que lutaram por maior inclusão e igualdade de oportunidades. Assim, o movimento feminista mudou a posição das mulheres na ciência, mas também influenciou a própria prática científica, que promoveu uma ciência mais objetiva e independente de gênero. As mudanças impulsionadas pelo feminismo na ciência, expressas no trabalho da autora, refletem um compromisso de lutas contínuas para tornar a ciência mais abrangente e humanizada, para beneficiar as mulheres e a sociedade como um todo.
Bandeira (2008, p. 214) afirma que 'desde o final do século XIX até meados do século XX, o pensamento feminista veio se construindo sob variadas vertentes teóricas e, portanto, constituiu-se como objeto de diversos esquemas classificatórios heterogêneos'. A autora destaca que o feminismo não é uma ideologia monolítica, mas um campo de estudo e de ativismo dinâmico e multifacetado. As diferentes vertentes teóricas mencionadas pela autora incluem do feminismo liberal, que busca igualdade de direitos no âmbito legal e político, ao feminismo radical, que questiona as estruturas fundamentais da sociedade patriarcal. Outras correntes, como o feminismo marxista, o feminismo negro e o feminismo pós-colonial, acrescentam mais camadas de análise, ao incorporarem questões de classe, raça e colonialismo. O feminismo, como um campo de estudo, não apenas se adapta às transformações sociais, mas, também, as impulsionam e as promovem em uma visão mais inclusiva e abrangente da luta por equidade de gênero.
O impacto do feminismo na ciência transcendeu a mera inclusão de mulheres no campo acadêmico e científico, e tem promovido uma transformação profunda na maneira como a ciência é praticada e compreendida. A crítica feminista não só desafiou visões e práticas estabelecidas, mas também propôs uma abordagem mais inclusiva e objetiva, que redefine conceitos e promove a equidade de gênero. Conforme Davis (1975), a investigação histórica dos papéis de gênero revela a complexidade das interações sociais e a importância de entender como as distinções de gênero moldaram e continuam a influenciar a ordem social.
## Referencial Teórico e Metodológico
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Para se compreender a presença das mulheres formadas em Física na docência e na pesquisa, em instituições públicas de ensino superior no Nordeste brasileiro, analisou-se a presença feminina nos departamentos de Física de universidades federais situadas nas capitais de cada estado dessa região.
Para embasar reflexões sobre o quadro docente de cursos de Física nas universidades públicas em estudo, foram coletados dados das docentes e dos docentes vinculados a essas instituições e utilizá-los em uma estratégia de investigação mista, que combina dados quantitativos e qualitativos para uma análise abrangente (Creswell, 2010). A abordagem metodológica caracteriza-se como qualitativa e aplicada, e busca interpretar as práticas relacionadas à ausência de equidade de gênero no ensino de Física. A pesquisa adota uma abordagem exploratória que, conforme Malheiros (2011, p. 32), 'visa aumentar o conhecimento sobre o tema e tornar a situação mais explícita.'
A metodologia adotada busca assegurar consistência e alinhamento aos objetivos propostos para investigação. O corpus da pesquisa é constituído pelo número de docentes 'ativos permanentes', 'efetivos', 'colaborador voluntário', 'professor substituto' e 'professor visitante' com formação em Física, coletados nos portais de nove universidades federais da região Nordeste do Brasil. Os dados, disponibilizados publicamente nos portais das instituições pesquisadas, foram analisados com base em procedimentos de estatística descritiva (Marôco, 2018), que permite calcular as proporções de gênero e identificar possíveis disparidades entre o número de homens e de mulheres. Os dados quantitativos foram combinados com uma análise qualitativa, embasada em estudos feministas e de gênero (Hooks, 2018; Higa, 2016; Lima, 2013; Agrello e Garg, 2009; Bandeira, 2008; Keller, 2006; Segato, 2003; Davis, 1975; Scott, 1995), que forneceu um contexto mais profundo sobre os fatores que perpetuam a desigualdade de gênero. Essa combinação de análises quantitativa e qualitativa fortalece a compreensão dos dados e assegura que as escolhas metodológicas sustentem de forma efetiva os objetivos do estudo.
## Resultados e Discussão
A equidade de gênero no ambiente acadêmico tem sido um tema de crescente importância e interesse nas últimas décadas (Bandeira, 2008). Neste estudo foram analisadas informações sobre o gênero relativo ao quantitativo de docentes dos departamentos/institutos de física, de nove universidades federais, situadas cada uma delas em uma das capitais dos estados da região Nordeste do País. Os dados coletados, nos meses de maio e junho de 2024, se referem ao quadro docente das instituições: Universidade Federal de Alagoas - UFAL, Universidade Federal da Bahia - UFBA, Universidade Federal do Ceará - UFC, Universidade Federal do Maranhão - UFMA, Universidade Federal da Paraíba - UFPB, Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, Universidade Federal do Piauí - UFPI, Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, e Universidade Federal de Sergipe - UFS. Após análise, observaram-se que as proporções entre homens e mulheres, nessas instituições, seguiam padrões de grande discrepância no quantitativo entre homens e mulheres, com proporções que variou de 18,1 % a 2,5% do número de mulheres em relação ao número de homens. O quantitativo de homens e de mulheres e o percentual de mulheres em cada instituição pesquisada são mostradas na Tabela 01.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Tabela 01: Quantitativo de homens e de mulheres em departamentos ou institutos de física das instituições analisadas, nos meses de maio e junho de 2024.
Fonte: Elaborada pelos autores, 2024.
Calculado o número de docentes que, a princípio, poderiam ministrar aulas nos cursos de licenciatura em física das instituições analisadas, obteve-se o total de 373 docentes, sendo 325 homens e 48 mulheres.
O gráfico da Figura 01, construído a partir dos dados da Tabela 01, mostra a relação percentual de discentes, distribuída por gênero, obtidos no portal das instituições analisadas. Essa representação gráfica, em concordância com Marôco (2018), tem por objetivo visualizar as características das variáveis em estudo, ao apresentar os resultados de forma simples e de fácil memorização. No gráfico, observam-se a distribuição do número de homens (barras em azul) e do número de mulheres (barras em laranja) em cada universidade. Cada barra representa 100% dos docentes em uma instituição, e o valor numérico da altura da parte em azul (homens) e da parte em amarelo (mulheres) indicam o percentual de docentes por gênero em cada instituição.
Um aumento no número de mulheres na ciência contribuirá com a luta de superação ao patriarcado na ciência. Mas, também, faz-se necessário superar o conceito de "inclusão subalterna" que descreve a situação em que "as mulheres estão presentes na comunidade acadêmica, porém poucas cientistas se tornam tão reconhecidas quanto seus pares" (Lima, 2013, p. 885). Essa desigualdade de reconhecimento entre gêneros evidencia que a presença feminina não tem garantido igualdade de oportunidades. Mesmo quando há representatividade, a presença do "sexismo automático", discutido por Segato (2003), que se refere aos preconceitos incrustados na cultura, de forma sutil e inconsciente, perpetuam estereótipos prejudiciais, que dificultam o progresso das mulheres na ciência.
Lima (2013) relaciona a ideia de Segato (2003) sobre 'sexismo automático' com as questões de gênero na comunidade acadêmica, especialmente, na área das exatas, e constata que,
Este sexismo legitimado pelas tradições escapa à formalidade da lei e encontra poucas formas de resistência, uma vez que sua naturalização não
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
facilita sua percepção, permitindo que as próprias mulheres sejam reprodutoras de atitudes sexistas. No caso das ciências, o sexismo automático opera, segundo as representações sociais sobre a definição de mulher, em sua forma singular e homogênea, construída na lógica heteronormativa de gênero, e sobre a definição acerca da imagem de cientista baseada na visão androcêntrica (Lima, 2013, p.889).
Fonte: Elaborado pelos autores, 2024
<!-- image -->
Figura 01: Distribuição Docente por gênero nos Cursos das instituições analisadas
A porcentagem de mulheres disponível para o corpo docente dos cursos de física das instituições investigadas representa 12,8% do total de docentes das instituições (Tabela 01), o que mostra uma expressiva predominância de homens neste meio e, consequentemente, um androcentrismo na prática da docência em física na região.
A disparidade observada reflete a noção de "sexismo automático" discutida por Lima (2013) e Segato (2003), ao descreverem como as tradições culturais e sociais legitimam o sexismo, tornando-o invisível e difícil de combater. Isso sugere que, mesmo em ambientes acadêmicos, onde se espera um nível elevado de equidade e progresso, as normas de gênero continuam a influenciar a composição do corpo docente, e perpetuar um ambiente predominantemente masculino.
No Departamento de Física da UFMA, em 2004, havia 26 docentes sendo 5 mulheres (Melo, 2004). Passados vinte anos o quadro evoluiu para 28 docentes, mas o número de mulheres manteve-se em 5, como mostra a Tabela 01.
Na perspectiva de Scott (1995), a importância de considerar o gênero como uma categoria analítica é crucial para compreender as dinâmicas sociais e históricas. Para a autora, o gênero deve ser visto não apenas como uma questão de inclusão de mulheres, mas como uma estrutura que molda relações de poder e influências sociais, o que é evidente na composição desigual dos docentes nas instituições analisadas.
Ao refletir sobre os dados apresentados, fica evidente a desvantagem das mulheres em relação a participação delas na atuação docente da física. O estigma da atuação das mulheres nas ciências, arraigada ao patriarcado, ainda é uma realidade
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
que as estimulam a desistirem das ciências, abdicarem da vida profissional, para ocuparem o papel a que são empurradas: dedicar a maior parte de seu tempo às atividades domésticas e a família, enquanto o trabalho e os estudos ficam em segundo plano. As mudanças lentas no reconhecimento da importância da atuação das mulheres na ciência mantêm os homens ainda distantes das tarefas domésticas e com maiores oportunidades de se concentrarem a suas carreiras e alcançarem maior destaque profissional e acadêmico.
Além da dificuldade em se sobressair em suas áreas de atuação, devido à histórica divisão de gênero no trabalho doméstico, as mulheres enfrentam frequentemente preconceitos, assédio e desigualdade salarial em seus ambientes profissionais:
O sucinto escorço da justaposição das mulheres no mercado de trabalho demonstra que elas não foram e talvez ainda não sejam totalmente bemvindas no ambiente laboral, pois a independência econômica alcançada pelo exercício de atividade produtiva desmonta o estado de sujeição aos homens e faz com que elas invadam um setor outrora exclusivo e compitam por posições de maior destaque. A assimilação dessa premissa sociológica faz com que se aquilate a possibilidade da configuração de ambientes de trabalho hostis, ofensivos e vexatórios, nos quais a ojeriza à companhia feminina é externada por diferentes manifestações que desdenham os propalados ideais de igualdade (Higa, 2016, p. 490).
Segundo Higa (2016), acrescenta-se a contínua luta das mulheres pela igualdade de condições no campo profissional e acadêmico, uma série de obstáculos resultantes dessa estrutura patriarcal como a necessidade de equilibrar responsabilidades domésticas e profissionais, combater o preconceito e o assédio, e lutar contra a desigualdade salarial.
A pressão para conciliar múltiplos papéis e a persistência de estereótipos de gênero tornam a jornada das mulheres significativamente complexa. E no que diz respeito ao espaço das mulheres na ciência sabe-se que
O número de mulheres que se dedicam às Ciências, em termos globais, é ainda menor que o de homens, mesmo que se possa dizer que nas décadas que nos são mais próximas tem havido uma muito significativa presença das mulheres nas mais diferentes áreas da Ciência, mesmo naquelas que antes pareciam domínio quase exclusivo dos homens (Chassot, 2003, p. 87).
Ao analisar a relação entre o conceito de "sexismo automático" de Segato (2003) e os dados apresentados por Lima (2013) sobre a participação de mulheres na área de física em nove instituições federais do ensino superior no Nordeste, observam-se como as tradições culturais e sociais legitimam e perpetuam o sexismo nas instituições acadêmicas. A significativa sub-representação de mulheres no corpo docente reflete um androcentrismo enraizado, que dificulta a percepção e a resistência ao sexismo. Para Scott (1995) há a necessidade de se enxergar o gênero como uma categoria analítica essencial para compreender as dinâmicas de poder e a desigualdade presentes nesses ambientes. Acrescentadas a dupla jornada de trabalho enfrentada pelas mulheres, aliada aos preconceitos e as desigualdades salariais, há os obstáculos adicionais impostos pela estrutura patriarcal da sociedade, conforme discutido por Hooks (2018) e Higa (2016). Apesar dos avanços nas últimas décadas, como observado por Chassot (2003), a luta pela igualdade de condições no campo científico permanece um desafio contínuo e, como pode se observar no caso da UFMA, pouco mudou nos últimos anos.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
## Considerações Finais
As disparidades de gênero identificadas no corpo docente de cursos de Física em universidades federais do Nordeste refletem uma realidade que vai além da academia, da sub-representação das mulheres nas ciências exatas. Esse cenário aponta para a persistência de barreiras estruturais, culturais e institucionais que dificultam a equidade de gênero nesse campo, como descrito pela teoria do "sexismo automático". A análise revelou que, embora haja avanços, a inclusão de mulheres nas ciências é lenta, como mostrado no caso da UFMA, o percentual de mulheres nos último 20 anos diminuiu e na UFC há apenas uma mulher, o que afeta não apenas a dinâmica interna dessas instituições, mas também a percepção de estudantes e futuros profissionais sobre o papel das mulheres na ciência.
A reflexão sobre o feminismo e sua influência na ciência destacam a necessidade de uma mudança mais profunda e estrutural. O movimento feminista já trouxe importantes contribuições para a redefinição de conceitos científicos e para a visibilidade das mulheres nas ciências. No entanto, os dados apresentados mostram que essa transformação ainda está longe de se concretizar plenamente no campo da Física. Para que essa inclusão se efetive, são necessárias políticas educacionais que promovam um ambiente acadêmico mais inclusivo, de equidade, capaz de valorizar a participação feminina e quebrar as barreiras impostas pelo androcentrismo.
Observa-se que a atual constituição brasileira legisla a igualdade de gênero, mas na prática, as mulheres continuam sofrendo discriminação. A reivindicação pelo aumento no número de mulheres na física é apenas parte da luta, mas que pode contribuir para se alcançar a equidade de gênero necessária.
## Referências
AGRELLO, Deise Amaro; GARG, Reva. Mulheres na física: poder e preconceito nos países em desenvolvimento. Revista brasileira de ensino de física , v. 31, n. 1, p. 1305.1-1305.6, 2009.
BANDEIRA, Lourdes. A contribuição da crítica feminista à ciência. Revista Estudos Feministas , v. 16, n. 1, p. 207-228, jan. 2008.
CHASSOT, Attico. A Ciência é Masculina? É sim, senhora! 2. ed. São Leopoldo RS: Unisinos, 2003.
CRESWELL, John Ward. Projeto de pesquisa : métodos qualitativo e misto. Tradução: Dirceu da Silva e Magda França Lopes. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. 296 p.
DAVIS, Natalie Zemon. " Women's history" in transition: The European case. Feminist studies , v. 3, n. 3/4, p. 83-103, 1975.
HIGA, Flávio da Costa. Assédio sexual no trabalho e discriminação de gênero: duas faces da mesma moeda? Revista Direito Gv , [S.L.], v. 12, n. 2, p. 484-515, 2016.
HOOKS, Bell. O feminismo é para todo mundo : políticas arrebatadoras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.
KELLER, Evelyn Fox. Qual foi o impacto do feminismo na ciência?. Cadernos Pagu , n. 27, p. 13-34, jul. 2006.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
LIMA, Betina Stefanello. O Labirinto de Cristal: As Trajetórias das Cientistas na Física. Rev. Estudos Feministas [online]. 2013, Vol.21, N.3, pp.883-903. ISSN 0104-026x.
MALHEIROS, Bruno Taranto. Metodologia da pesquisa em educação . Rio de Janeiro: LTC, 2011.
MARÔCO, João . Análise estatística: com utilização do SPSS. 2. ed. Lisboa: Edições Sílabo.
2003.MELO, Mariana da Silveira e. O curso de Física da UFMA : um paralelo entre a evasão e a formação acadêmica. 2004. Monografia (Graduação) - Curso de Física, Universidade Federal do Maranhão, 2004.
SEGATO, Rita L. Antropología y Psicoanálisis . Posibilidades y Límites de un diálogo. Brasília: Série Antropologia, 330, 2003.
SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade . v. 20, n. 2, jun./dez., 1995. p. 71-99. Disponível em: <https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/71721/40667>.
Acesso em: 16 fev. 2024.
UFAL - CORPO DOCENTE. Disponível em:< https://if.ufal.br/pt-br/institucional/corpodocente>. Acesso em: 26 jun. 2024.
UFBA - SERVIDORES DOCENTES | Instituto de Física. Disponível em: <https://www.fis.ufba.br/pt-br/docentes?title=&field\_departamento\_value=All>. Acesso em: 26 jun. 2024.
UFC - Departamento de Física. Disponível em:
<https://centrodeciencias.ufc.br/pt/corpo-docente/departamento-de-fisica-4/>. Acesso em: 26 jun. 2024.
UFMA - DEPARTAMENTO DE FÍSICA/CCET. Disponível em:< https://sigaa.ufma.br/sigaa/public/departamento/professores.jsf?id=980&lc=pt\_BR>. Acesso em: 26 jun. 2024.
UFPB - SIGAA - Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas. Disponível em:< https://sigaa.ufpb.br/sigaa/public/departamento/professores.jsf?id=1335>. Acesso em: 26 jun. 2024.
UFPE - CORPO DOCENTE. Disponível em:< https://www.ufpe.br/df/corpo-docente>. Acesso em: 26 jun. 2024.
UFPI - SIGAA - Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas. Disponível em: < https://sigaa.ufpi.br/sigaa/public/departamento/professores.jsf?id=142>. Acesso em: 26 jun. 2024.
UFRN - PROFESSORES - DFTE - Departamento de Física. Disponível em: <http://www.fisica.ufrn.br/professores/>. Acesso em: 26 jun. 2024.
UFS - SIGAA - Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas. Disponível em: <https://www.sigaa.ufs.br/sigaa/public/departamento/professores.jsf?id=84>. Acesso em: 26 jun. 2024.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.