ABORDAGEM CONTEXTUAL DO ENSINO DE CIÊNCIAS E O DESENVOLVIMENTO DE VIRTUDES INTELECTUAIS NA FORMAÇÃO CIENTÍFICA NA EDUCAÇÃO BÁSICA
Acsa Nayara Silva Santos, Lucas Jairo Cervantes Bispo
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 24/01/2025
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Ciência No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ABORDAGEM CONTEXTUAL DO ENSINO DE CIÊNCIAS E O DESENVOLVIMENTO DE VIRTUDES INTELECTUAIS NA FORMAÇÃO CIENTÍFICA NA EDUCAÇÃO BÁSICA
Acsa Nayara Silva Santos 1 , Lucas Jairo Cervantes Bispo 2
- 1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí/Campus Corrente/ acsan7684@gmail.com
- 2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí/Campus Corrente/ lucas.bispo@ifpi.edu.br
## Resumo
Este trabalho se insere na área de epistemologia da educação e ensino de ciências. Seu tema é a abordagem contextual no ensino de ciências e o cultivo da formação científica, em termos de virtudes intelectuais, na educação básica, especificamente na área de física. Sua pretensão é investigar e discutir, primeiro, o papel da história e da filosofia das ciências no processo de ensino e aprendizagem, de modo que a abordagem dos conteúdos e das técnicas científicas sejam combinadas com a abordagem de suas dimensões históricas e filosóficas. Em segundo lugar, investigar e discutir a importância desse papel para a formação científica em termos não somente da apropriação de conteúdos ou técnicas, mas de desenvolvimento de virtudes intelectuais, que se constituem como bons modos de pensar, e que compõe e potencializam o fazer científico e as finalidades constitucionais da educação. Dessa maneira, portanto, o trabalho busca examinar como os conhecimentos e discussões da história e da filosofia das ciências, cultivados e integrados a um processo educacional centrado em virtudes intelectuais, podem ser um catalisador crucial para uma prática educativa no ensino de física que valorize teorias filosóficas e pedagógicas que aperfeiçoam a compreensão e a prática docente/estudantil no sentido de uma educação intelectualmente significativa.
Palavras-chave : História e Filosofia das Ciências, Ensino de Física, Formação Científica
## Introdução
Em um mundo cada vez mais complexo e interconectado, a transmissão de conteúdos disciplinares e de habilidades básicas como ler, escrever e contar, como mostra Baehr (2023), não é suficiente para compreender situações problemáticas e informações relevantes, para enfrentar desafios contemporâneos e tomar decisões racionais. Nesse sentido, embora haja um consenso de que esses elementos são fundamentais, eles não esgotam os fins da educação, que precisa habilitar os estudantes, entre outras coisas, a ter uma formação científica suficientemente boa e a pensar bem. Todavia, no Brasil, a educação pública escolar ainda permanece, em grande medida, reduzida a transmissão, memorização e reprodução de conteúdos, ao que Freire & Faundez (2017) chamaram de pedagogia da resposta, o que não estimula o desenvolvimento intelectual, pelo contrário. Essa realidade não é diferente no que tange a formação e a prática científicas em sala de aula. Afinal, o ensino das ciências tem, frequentemente, sido reduzido a meros conteúdos desacompanhados de uma reflexão acerca da própria natureza da ciência e sua história, também como de uma
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formação científica apropriada no que se refere ao desenvolvimento de virtudes intelectuais enquanto bons modos de pensar, o que é incompatível com as finalidades constitucionais da educação e gera barreiras para o trato com desafios, como o negacionismo científico e a desinformação.
Dessa maneira, o presente trabalho, parte de pesquisa em andamento, investiga e discute a abordagem contextual do ensino de ciências, na educação básica, com foco em uma aprendizagem dos conteúdos e das técnicas científicas combinada com a aprendizagem acerca das dimensões históricas e filosóficas, com vistas ao desenvolvimento de uma formação científica em termos de virtudes intelectuais. Para alcançar esse objetivo, primeiro tratará do papel da história e da filosofia da ciência no processo de ensino e aprendizado na educação básica. Em segundo lugar, da contribuição da epistemologia das virtudes, aliada a abordagem contextual, para a cosnstrução da formação científica em termos de virtudes intelectuais.
## Abordagem contextual: o papel da história e da filosofia das ciências no processo de ensino e aprendizado
Como apontam Prestes & Caldeira (2009), o compromisso com a abordagem contextual, mesmo que legalmente já prevista para a educação, ainda é muito difuso, de modo que a história e a filosofia da ciência não estão cumprindo sistematicamente o papel integrador que poderiam cumprir. Assim, essa realidade gera diversas consequências, como exemplifica Bastos (1998). Uma delas é a frequente completa ausência dessa integração em sala de aula. No entanto, para o autor, nas palavras de Penitente e Castro, mesmo quando há a tentativa dessa integração, pode-se constatar que:
[...] estudos recentes sobre a veiculação da história da ciência, tanto no ensino fundamental quanto médio e superior, apresentam algumas falhas por apresentarem erros factuais grosseiros; ignorarem as relações entre o processo de produção do conhecimento na ciência e o contexto social, político, econômico e cultural; passarem a ideia de que os conhecimentos científicos progridem apenas por meio de descobertas incríveis realizadas por pesquisadores geniais; glorificarem o presente e seus modelos, menosprezando a relevância das correntes científicas divergentes das atuais, a riqueza dos debates ocorridos no passado, as descontinuidades do passado e presente; estimularem a ideia de que os conhecimentos científicos atuais são verdades imutáveis. (Penitente & Castro, 2010, p. 238).
Trata-se, portanto, de uma realidade que ainda precisa avançar para estar à altura de um interesse pelo ensino contextual das ciências que, nas últimas décadas, estabeleceu um campo de pesquisa que investiga os aspectos históricos, filosóficos, sociais e culturais da ciência, destacando seu potencial de aplicação nas aulas de ciências, tanto no ensino básico quanto no superior. Um ensino que visa ultrapassar a separação entre o ensino dos conteúdos científicos, os contextos de sua produção e a reflexão sobre a natureza da ciência; um ensino no qual historiadores, filósofos e sociólogos da ciência, preocupados com os desafios do ensino e aprendizagem das ciências, têm colaborado com pesquisadores de várias disciplinas, como física, biologia e química, para identificar as possíveis contribuições dessa integração para a formação científica.
Nesse contexto, as análises de Matthews (1994) identificam ao menos duas tendências principais e complementares: uma enfoca a aplicação da história e filosofia
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da ciência no ensino, enquanto a outra adota abordagens inclusivas que introduzem episódios históricos específicos nas aulas, de modo que ambas as abordagens podem alcançar resultados significativos.
Assim, como destaca também Martins (2007), a história e a filosofia da ciência podem oferecer contribuições valiosas para um ensino significativo na educação básica de várias maneiras. Podem, por exemplo, proporcionar uma melhor compreensão da natureza da ciência, dos conceitos e métodos científicos, evitar interpretações distorcidas da prática científica, conectar mais claramente os conhecimentos científicos aos problemas e métodos que levaram às suas descobertas, assim como facilitar a percepção de como o conhecimento evoluiu ao longo do tempo. Além disso, ao examinar a vida e a época dos pesquisadores, o ensino humaniza a matéria científica, tornando-a menos abstrata e mais interessante para os alunos. Também ajuda a reduzir o cientificismo e o dogmatismo frequentemente encontrados nos manuais e nas aulas de ciências. Todos estes aspectos e outros possíveis podem tornar o aprendizado mais interessante e a formação mais relevante, mostrando que a ciência não é um conjunto estático de fatos a serem absorvidos, mas uma construção dinâmica, histórica e filosoficamente complexa.
Dessa forma, quando a história e filosofia da ciência são aplicadas de maneira cuidadosa e rigorosa, como apontam as pesquisas existentes, capacitam os educadores a ter uma intervenção mais autônoma, reflexiva e qualificada em sala de aula, assim como superar a falta de significado que aflige muitos conteúdos de ciências nas escolas. Isso possibilita uma melhor compreensão da estrutura das ciências, suas especificidades e seu lugar na organização intelectual e social. (Acevedo, 2005; Praia & Gil-Pérez & Vilches, 2007). Em especial, como faz parte da pesquisa discutir, a abordagem contextual das ciências pode colaborar para a formação científica em termos de virtudes intelectuais, o que é imprescindível. Afinal, como salienta Baehr (2017), uma boa educação precisa colaborar para que os(as) estudantes saibam questionar, considerar pontos de vista alternativos, reparar em detalhes relevantes, ter atitude intelectual, persistir diante de desafios intelectuais, etc., que são resultados que, respectivamente, virtudes intelectuais como a curiosidade, a mente aberta, a atenção, a coragem e a tenacidade intelectuais, podem colaborar e que contribuem para a formação de cidadãos críticos e melhor preparados para tomar decisões na esfera social, tecnológica e cientifica.
## Abordagem contextual: desenvolvendo virtudes intelectuais
A epistemologia da educação centrada em virtudes é um dos muitos desenvolvimentos da epistemologia recente que transformou abordagens tradicionais e pode contribuir com o ensino de ciências. Isto porque a epistemologia, tradicionalmente, se ocupava conceitualmente com a definição e a possibilidade do conhecimento. No entanto, com a emergência do interesse pelos processos epistêmicos e, posteriormente, a partir de autores como Sosa (2013) e Zagzebski (1996), pelas performances intelectuais dos agentes, o debate epistemológico passou a investigar e discutir também os traços, características ou qualidades requeridas para os indivíduos serem epistemicamente responsáveis ou confiáveis. Dessa maneira, retomou-se uma tradição ética que remonta a Aristóteles e passou-se a entender que as virtudes intelectuais expressam um tipo de 'excelência cognitiva', em paralelo com
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a excelência ética, necessária para a performance intelectualmente responsável ou confiável.
Nesse contexto, a epistemologia das virtudes designa um conjunto de abordagens epistemológicas que possuem ao menos três características gerais. Em primeiro lugar, elas colocam o estudo do caráter do agente ou sujeito do conhecimento como prioritário no entendimento filosófico do conhecimento. Em segundo lugar, a epistemologia da virtude entende que o conceito de virtude intelectual tem uma função central na análise epistemológica, comparável ao papel desempenhado pelo conceito de virtude moral na ética. Em terceiro lugar, os epistemólogos da virtude utilizam o conceito de virtude para explicar ou tratar de problemas clássicos e contemporâneos da teoria do conhecimento, tais como análise do conceito de conhecimento, a questão do valor do conhecimento, o problema do ceticismo, entre outros.
Nessa perspectiva, existe uma divisão entre duas maneiras de entender o conceito de virtude intelectual: virtude como faculdade confiável, e virtude como traço de caráter. Na primeira acepção, virtudes intelectuais são certas capacidades cognitivas que, quando bem executadas e motivadas, confiavelmente conduzem o agente à obtenção de crenças verdadeiras. Incluem-se neste rol faculdades tais como memória, percepção e raciocínio. Na segunda acepção, virtudes intelectuais são certos traços estáveis de caráter do agente, relacionados primariamente às atividades da inteligência, tais como honestidade intelectual, abertura à crítica, curiosidade e assim por diante.
Dessa maneira, a possibilidade de uma colaboração entre, por um lado, a epistemologia da educação centrada em virtudes e, por outro, o ensino de ciências, é evidenciada se uma das finalidades epistêmicas precípuas da educação pode ou deve ser justamente o desenvolvimento de virtudes intelectuais.
Com essa perspectiva, ao trazer para a sala discussões sobre, por exemplo, a evolução das teorias sobre o sistema solar, através de metodologias que atraiam a atenção dos alunos, como simulações computacionais ou a criação de maquetes, os estudantes podem perceber como os modelos mudaram com o tempo, o que pode estimular o pensamento crítico e a humildade intelectual sobre como o conhecimento é construído e alterado. Ao trazer relatos de cientistas que enfrentaram desafios e adversidades, é possível inspirar os alunos e mostrar que a perseverança e a curiosidade são partes importantes do processo e da formação científica. Por exemplo, ao contar a história de como Marie Curie superou barreiras para se tornar uma pioneira na radioatividade pode motivar os alunos a enfrentar suas próprias dificuldades, a valorizar o esforço no aprendizado e o desejo de saber. Isso pode ser feito usando recursos didáticos como um 'cinema' em sala de aula, com o filme Radioactive (2019) que retrata a história de vida e profissão da cientista, para que os(as) estudantes consigam se envolver com a história e assim tratar dos conteúdos científicos de forma mais proveitosa.
Não é diferente com a inserção das discussões da filosofia da ciência, pois, através dessa inserção, o desenvolvimento de virtudes intelectuais, como a mente aberta e autonomia intelectual, é potencializado, dado o incentivo a reflexão sobre a natureza da ciência, seus modos de funcionamento, suas finalidades, e as questões e problemas envolvidos nesses aspectos. Assim, pode-se, por exemplo: trazer para a sala de aula, em forma de rodas de conversa ou debates, discussões sobre o que faz uma hipótese ou uma teoria ser científica e como diferentes abordagens alteram a forma como as hipóteses ou teorias são construídas e testadas; cultivar o aprendizado
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de que o método científico não é infalível e que a prática da ciência envolve escolhas e limitações, explorando como as decisões sobre quais experimentos realizar, como interpretá-los e quais suposições adotar podem ser vistas sob uma ótica filosófica; discutir a importância dos princípios de incerteza e como a medição em Física não é uma operação simples ou direta, mas está cheia de pressupostos filosóficos; assim como explorar o conceito de que a ciência é provisória e sujeita a revisões.
## Considerações finais
A análise proposta neste trabalho sobre a abordagem contextual no ensino de ciências, com foco no desenvolvimento de virtudes intelectuais, propõe-se como compreensão e ferramenta para a melhoria do ensino e da aprendizagem na educação básica, particularmente no campo da Física. Considera-se que a partir da integração entre história e filosofia das ciências e o currículo de ciências, é possível colaborar na superação da abordagem mecanicista e fragmentada que ainda predomina nas escolas, proporcionando aos estudantes uma compreensão mais profunda e crítica da natureza do conhecimento científico. Além disso, o cultivo de virtudes intelectuais, como a curiosidade, a mente aberta, a perseverança e a humildade intelectual, aparece como um caminho fundamental para o desenvolvimento de um aprendizado mais significativo para a vida. Nesse sentido, a epistemologia das virtudes, ao destacar a importância das qualidades do sujeito do conhecimento, oferece uma base sólida para a construção de práticas pedagógicas que não apenas transmitam conteúdo, mas também promovam a formação ética e cognitiva dos estudantes. Com isso, o desenvolvimento dessas virtudes contribui preparando-os não apenas para realizar práticas científicas, mas para atuar de forma crítica e responsável em diversos contextos sociais e profissionais.
Por fim, destacamos que, além de rever e aprofundar os resultados parciais de pesquisa, o trabalho pretende articular perspectivas, desafios e estratégias educacionais, valendo-se da abordagem contextualizada da ciência física, utilizando a aplicação da história e filosofia da ciência, também como abordagens inclusivas que introduzem episódios históricos específicos no ensino de física, tendo como fim, sobretudo, não a apenas a reprodução de informações, mas a formação cientifica em termos de virtudes intelectuais.
## Referências
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BASTOS, F. História da ciência e pesquisa em ensino de ciências: breves considerações. Em: NARDI, R. (Org.). Questões atuais no ensino de ciências . São Paulo: Escrituras Editora, p. 43-52, 1998.
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FREIRE, Paulo; FAUNDEZ, Antonio. Por uma pedagogia da pergunta . 8. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017
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Virtudes e vícios da mente humana: intelectual [recurso eletrônico]- Cachoeirinha : Fi, 2024.
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