ANSIEDADE EM ALUNOS DE FÍSICA: FATORES PESSOAIS E ACADÊMICOS
Marcio Do Nascimento Silva, Lucas Gomes Barros
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 24/01/2025
- Linha de pesquisa
- Formação, Práticas E Desenvolvimento Profissional Docente No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ANSIEDADE EM ALUNOS DE FÍSICA: FATORES PESSOAIS E ACADÊMICOS
## Marcio do Nascimento Silva 1 , Lucas Gomes Barros 2
- 1 Universidade Federal de Goiás/Instituto de Física, marciosilva2@discente.ufg.br
- 2 Universidade Federal de Goiás/Instituto de Física, lucas23456@discente.ufg.br
## Resumo
Nos últimos anos, tem-se destacado a importância de discutir e compreender o transtorno da ansiedade e suas diversas causas, problema esse presente em ambientes de relações cotidianas, em especial no mundo acadêmico. O presente estudo buscou analisar os fatores pessoais e acadêmicos mais comuns no meio universitário que contribuem para o surgimento desse problema nos cursos de graduação em física, em específico os avaliados pelos 28 estudantes do Instituto de Física da Universidade Federal de Goiás (UFG) selecionados na pesquisa acadêmica realizada por meio de um formulário para a obtenção de dados. Ao final dessa coleta, realizou-se uma análise das causas específicas relatadas pelos discentes participantes, sendo possível concluir que existem de fato sérios fatores desencadeadores de ansiedade que se manifestam durante a vida acadêmica, não só internos como também externos a esse ambiente, e que por parte, necessitam de uma maior investigação que se comprometa em minimizar o persistente problema.
Palavras-chave : Ansiedade; Graduação; Física.
## Agradecimentos
A fim de se realizar o presente trabalho investigativo os autores contaram com o apoio e auxílio do professor Dr.Luiz Gonzaga Roversi Genovese, docente do Instituto de Física da Universidade Federal de Goiás (UFG), e realizado com a assistência dos PGPs (Pequenos Grupos de Pesquisa) vinculados à UFG os quais desempenharam um papel formidável de amparo e fomento à pesquisa. Além do mais contou como Agência Financiadora: CAPES/PIBID sem a qual esta pesquisa não seria possível.
## Introdução
É inegável que o processo de vivência e construção de uma vida acadêmica, sobretudo no século XXI está repleta de desafios e obstáculos. Ao longo dessa jornada, aproximadamente 80% dos estudantes experimentam situações de estresse quase que diariamente 8,10 , e isso possibilita levantar importantes questões sobre o bem-estar dos estudantes e possibilidades das possíveis raízes de desafios psicológicos enfrentados por eles durante sua trajetória educacional. Nesse sentido, uma das principais dificuldades a se destacar é a ansiedade, problema este presente em alunos das diversas áreas de conhecimento do ensino superior, incluindo o campo das exatas, que exige uma compreensão sofisticada de matemática e experimentos sobre os quais são construídos fundamentos frequentemente contraintuitivos. Uma visão mais abrangente revela que a ansiedade é uma doença que afeta uma parcela significativa da população brasileira. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) o Brasil é o país na América Latina que está no topo do ranking de ansiedade, possuindo cerca de 19 milhões de
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
pessoas nessa vulnerabilidade 1 . Nesse sentido, é mister analisar esse transtorno dentro do ensino superior e, em particular, na área de ciências exatas, em especial no contexto dos cursos de graduação em física, que historicamente enfrentam dificuldades significativas relacionadas, principalmente, às causas indispensáveis que contribuem para esse cenário.
Em primeiro lugar, é necessário examinar os fatores pessoais, sociais e acadêmicos que influenciam a ansiedade no aprendizado de física. A seleção de fatores foi baseada nos estudos longitudinais de Fragelli, T. B. O.; Fragelli, R. R. (2021). No que se refere aos fatores pessoais é crucial destacar que a falta de apoio familiar e crenças negativas a respeito de si mesmo são alguns dos principais obstáculos que causam ansiedade aos estudantes, especialmente na licenciatura. A ausência de suporte emocional e financeiro pode acentuar os níveis de ansiedade, tornando ainda mais desafiador o processo de aprendizado e formação. No âmbito dos fatores sociais, observa-se também a superexposição à internet e às redes sociais como um fator significativo que contribui para o sentimento ansiedade dos estudantes: O constante uso das tecnologias digitais pode levar à distração e à procrastinação, consumindo o tempo do dia do estudante e prejudicando o seu foco e a sua dedicação aos estudos, e além disso, apresentam o potencial de expor os jovens à comparações sociais negativas ou provocações nocivas que causam sensações de impotência e aumentam a sensação de isolamento e solidão 8 . Ademais, os problemas educacionais intrínsecos a um sistema de ensino muitas vezes precário e desrespeitoso desempenham um papel relevante nesse contexto, e levando em conta a pandemia do coronavírus, que impactou profundamente a educação, nota-se uma intensificação dessas dificuldades, exacerbando a ansiedade dos estudantes. No meio acadêmico, a sobrecarga de disciplinas e o alto nível de aprofundamento teórico exigido nas áreas de física representam uma fonte constante de apreensão dos estudantes. O tempo escasso e a agenda repleta de tarefas comprometem o envolvimento ativo e crítico dos alunos com os conteúdos, resultando em um estudo superficial e compulsório. Além disso, o acúmulo de responsabilidades acadêmicas e a pressão por um desempenho adequado somado com a redução do contato com familiares e amigos, bem como desafios interpessoais podem levar a altos níveis de estresse e ansiedade, afetando negativamente o bem-estar dos discentes 8,11 .
Mas, esses fatores também estão presentes nos cursos de graduação do Instituto de Física da UFG? Este é objetivo do presente trabalho, verificar se os fatores acima se manifestam nos referidos cursos e, ainda, se há outros que porventura promovam ansiedade nos estudantes.
## Metodologia
Buscando entender melhor como a ansiedade se difunde no meio acadêmico de física, o trabalho teve como primeiro objeto a investigação de pesquisas científicas referentes ao tema, incluindo como fonte de dados artigos acadêmicos do Portal de Periódicos da CAPES e do portal da SciELO.
Além disso, foi realizada uma pesquisa utilizando a plataforma Google Forms com os discentes do Instituto de Física da Universidade Federal de Goiás (UFG). O objetivo principal foi fazer um levantamento das possíveis causas de ansiedade nos discentes de física de natureza social/ambiental e pessoal, cujas quais estão relacionadas com os desafios de aprendizagem dessa disciplina nos
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cursos de graduação. A amostra foi composta por 28 estudantes universitários voluntários do Instituto de Física, dos cursos de física-licenciatura (período integral e noturno), física-bacharelado, física médica e engenharia física.
Tendo como base a coleta de dados na plataforma Google Forms, que é uma ferramenta do Google Workspace, que possui como principal finalidade criar pesquisas e formulários online em que as respostas podem ser submetidas a análises com gráficos e planilhas fornecidas pela própria plataforma. Essa ferramenta possui uso gratuito e pode ser usada para realizar pesquisas em ambiente educacional possibilitando criar perguntas de múltipla escolha oferecendo também recursos de escrita livre e níveis de satisfação cuja utilização é formidável para a pesquisa didática.
## Referencial Teórico
Para a melhor compreensão dos dados obtidos, é necessário esclarecer o conceito de ansiedade de maneira mais correta e precisa. De acordo com Castillo, Recondo, Asbahr e Manfro (2000), a ansiedade se define como uma sensação desagradável de medo ou apreensão provindo da sensação de algo perigoso ou desconhecido possa acontecer. Contudo, quando esse sentimento é exagerado e desproporcional àquilo que o causou, extrapolando o que é considerado normal na fase de idade do indivíduo e afetando diretamente a sua vivência, passa-se então a ser reconhecido como um problema patológico. As consequências resultantes dos estímulos de ansiedade costumam se desenvolver mais em pessoas com predisposições neurobiológicas hereditárias 12 .
A condição patológica surge quando essa sensação ocorre de maneira excessiva, desencadeando sintomas físicos como sudorese, taquicardia, dificuldade para respirar, tremores e falta de sono, além de distúrbios de natureza psicológica como por exemplo distúrbios cognitivos, irritabilidade, tristeza, sensação de impotência, culpa e com frequência pensamentos negativos e baixa autoestima 9 .
Um específico transtorno de ansiedade muito presente no meio acadêmico é o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), que, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em sua quinta edição (DSM-5), tem como características centrais a ansiedade e preocupação constante acerca de diversos domínios da vida, incluindo o desempenho escolar e de trabalho, o qual o indivíduo possui uma grande dificuldade em controlar, resultando em sintomas físicos, falta de concentração e perturbação do seu sono 13 .
Tais sintomas podem levar a um mal desempenho acadêmico e profissional e até mesmo ao abuso de substâncias químicas. Simultaneamente, é importante destacar que a ansiedade é um transtorno multifatorial, que não pode ser entendido de maneira descontextualizada, uma vez que possui fatores de risco associados. Eles podem ter origem desde familiares próximos com diagnóstico, condições e experiências traumáticas na infância e no início da vida adulta 2-4 .
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## Discussão
Para a realização da pesquisa citada, considerou-se estudantes de qualquer um dos cursos de graduação ofertados no Instituto de Física da UFG. A figura 1 mostra que, dos 28 estudantes, 21 pertencem ao curso de Licenciatura em Física, sendo 11 do turno Noturno e 10 do período Integral; 5 dos estudantes são graduandos do Bacharelado em Física e, em menor quantidade, somente um pertence à Física Médica e outro único ao curso de Engenharia Física.
Figura 1: Gráfico indicador do total de estudantes participantes da pesquisa e seus respectivos cursos de graduação
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Dado o número de participantes, constatou-se inicialmente se a ansiedade era um sentimento recorrente na vida acadêmica desses estudantes, e o resultado apresentado na figura 2 evidenciou que esse era um problema comum entre quase todos os selecionados, o que serve de base para uma melhor análise dos fatores particulares desse problema. Cabe mencionar que isso se refere somente à sensação constante de ansiedade, não implicando por exemplo que 10.7% dos estudantes não sofram com os fatores que serão apresentados posteriormente nessa discussão.
Figura 2: Gráfico indicador da ansiedade nos estudantes participantes
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Com enfoque em fatores específicos que influenciam a ansiedade no aprendizado de física, a Figura 3 apresenta as principais causas pessoais identificadas nos alunos participantes, onde a dificuldade em conciliar a vida acadêmica com a pessoal e a sensação de incapacidade de compreensão dos conteúdos do curso constam como fatores de enorme destaque, mas que os traços de personalidade, problemas relacionados a comunicação e o medo perante às dificuldades do curso são fatores particulares que devem ser levados em consideração. Mesmo assim, uma pequena porcentagem considerou não ter problemas de cunho pessoal que causam ansiedade.
Figura 3: Percentual das causas pessoais de ansiedade mais comuns dentre os estudantes participantes
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Partindo para os fatores ambientais, ou seja, de causas externas, a Figura 4 mostra uma grande diversidade de respostas dos estudantes referentes ao contexto. Por sua vez, a didática e a explicação dos conteúdos apresentaram-se como um problema perceptível, visto que nem sempre todos os alunos conseguem acompanhar o ritmo geral da turma. O excesso de conteúdo dado no curso e a falta de apoio por parte da família possuem também índices consideráveis, o que acarreta num problema maior de distanciamento do padrão exigido de estudos na faculdade. Vale mencionar que o tempo gasto exposto às mídias sociais apresentou ser um fator destaque no desenvolvimento da ansiedade, visto que hoje o contato dos estudantes com esse material é recorrente no cotidiano.
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Figura 4: Percentual das causas ambientais de ansiedade mais comuns dentre os estudantes participantes
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Por fim, a figura 5 busca mostrar se, considerando todas as causas de ansiedade descritas pelos estudantes participantes, o grau de entusiasmo pela área de física foi também afetado. Uma grande parte dos entrevistados atestaram que houve sim uma decadência considerável no ânimo pelo estudo - variando entre a existência de pequenos problemas, mas que ainda possibilitam o estudo e indo até o sentimento de desmotivação - e os dados da figura 6 complementam a conclusão de que a ansiedade pode afetar por completo a experiência do aluno com o a vida acadêmica.
Figura 5: Gráfico referente ao entusiasmo no estudo de física dos estudantes participantes
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Figura 6: Porcentagem geral do nível de ansiedade no estudo de física dos estudantes participantes
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## Conclusão
O presente trabalho teve como meta a identificação e a análise dos diversos fatores que causam ansiedade nos estudantes de física, não pretendendo, de nenhuma forma, esgotar o debate e a discussão a respeito deles, uma vez que se trata de uma problemática abrangente que apresenta diversas interpretações. É visto, portanto, que estamos diante de uma adversidade intrincada, cujas múltiplas facetas merecem análise aprofundada. Cada abordagem pode lançar luz sobre uma parte do debate da ansiedade no ambiente universitário, mas não pode abarcar todas as nuances. Ao final, a pesquisa não se compromete com a apresentação de soluções elaboradas e sofisticadas, mas sim a evidenciação de causas comuns a fim de ganharem mais atenção no meio acadêmico. Em síntese, somente com uma abordagem ampla e colaborativa pode-se compreender completamente os desafios e desenvolver soluções eficazes para esse problema persistente.
## Referências
1.SANTOS, Ana Luiza. Brasil é o país com mais pessoas ansiosas na América Latina, aponta OMS. 2023. Acesso em: 28 set. 2023.
2.Mendlowicz MV, Stein MB. Quality of life in individuals with anxiety disorders. American Journal of Psychiatry. 2000;157(5):669-82.
3.Orley J, Kuyken W. Quality of life assessment: international perspectives. Basileia: Springer-Verlag; 1994
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- 7.Association AP. Manual diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais- DSM5. Artmed Editora; 2014.
8.FRAGELLI, T. B. O.; FRAGELLI, R. R. Por que estudantes universitários apresentam estresse, ansiedade e depressão? Uma rapid review de estudos longitudinais. Revista Docência do Ensino Superior, Belo Horizonte, v. 11, p. 1-21, 2021. DOI: 10.35699/2237-5864.2021.29593. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/rdes/article/view/29593. Acesso em: 14 set. 2023.
9.AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION.Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
- 10.BETTIS, Alexandra H. et al.Comparison of two approaches to prevention of mental health problems in college students: enhancing coping and executive function skills. Journal of American College Health, v. 65, n. 5, p. 313-322, 2017. DOI: https://doi.org/10.1080/07448481.2017.1312411.
11.PEDRELLI, Paola et al.College students: mental health problems and treatment considerations. Academic Psychiatry, v. 39, n. 5, p. 503-511, 2015. DOI: https://dx.doi.org/10.1007%2Fs40596-014-0205-9. Acesso em 28 set. 2023.
- 12.CASTILLO, A. R. G. L., RECONDO, R., ASBAHR, F. R., & MANFRO, G. G. (2000). Transtornos de ansiedade. Revista Brasileira de Psiquiatria, 22(Supl.2), 2023. Disponível em: < https://doi.org/10.1590/S1516-44462000000600006 >. Acesso em 28 set. 2023.
- 13. American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5ª ed. Porto Alegre: American Psychiatric Association; 2014. Acesso em 1 oct. 2023.
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