RELATO DESCRITIVO A PARTIR DO ESTÁGIO DE FÍSICA NO CURSO DE EDUCAÇÃO DO CAMPO
Giseli Prestes Alves, Aniara Ribeiro Machado
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 24/01/2025
- Linha de pesquisa
- Formação, Práticas E Desenvolvimento Profissional Docente No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## RELATO DESCRITIVO A PARTIR DO ESTÁGIO DE FÍSICA NO CURSO DE EDUCAÇÃO DO CAMPO
## Giseli Prestes Alves , Aniara Ribeiro Machado 2 1
- 1 Unipampa/Educação do Campo/giselialves.aluno@unipampa.edu.br
- 2 Unipampa/Educação do Campo/ aniaramachado@unipampa.edu.br
## Resumo
O presente texto aborda o Estágio Curricular Supervisionado de Física do curso de Educação do Campo - Licenciatura da Universidade Federal do Pampa de Dom Pedrito-RS a partir da leitura dos relatórios dos/das egressos/as entre 2017 e 2021, com o objetivo de apresentar um relato descritivo sobre os recursos utilizados para ensinar física. Para tanto, o estudo revelou haver um descompasso entre a expectativa do/a estagiário/a com a abordagem de recursos metodológicos diferenciados com o que é utilizado pelos/as professores nas escolas. Assim como, mesmo diante das negativas para o uso de recursos que transcendem o livro didático, o quadro e giz, as/os estagiários/as buscaram aprender com as situações no sentido de pensarem que professor/a pretendem ser quando estiverem na sala de aula como regentes de suas turmas. Desse modo, fica como reflexão a necessidade de se avançar no trabalho conjunto entre universidade e escola, a fim de possibilitar uma abordagem teórico-prática ao longo do estágio.
Palavras-chave : Estágio de Física; Educação do Campo; Recursos metodológicos.
## Introdução
O presente relato descritivo apresenta uma breve discussão acerca do Estágio Supervisionado de física do curso de Educação do Campo - Licenciatura. A escolha do tema emergiu da vivência de uma discente do curso de Educação do Campo da Universidade Federal do Pampa/Dom Pedrito-RS no estágio. Parecia haver um descompaso entre teoria e prática, o que vai na contramão do que é preconizado por Pimenta (2012), a qual defende a ideia de práxis no sentido da indissociabilidade entre teoria e prática.
Tal percepção acerca de teoria e prática deu-se com a inserção em sala de aula no estágio ao longo do desenvolvimento dos conteúdos. Esses eram trabalhados de forma distante da realidade, ou seja, eram 'um copia e cola do livro didático para o quadro' seguido de resolução de exercícios. Por sua vez, isso fez com que se questionasse sobre o tipo de ensino a ser recebido e que tipo de professora se gostaria de ser, ou ainda, como utilizar o espaço de uma escola do campo para pesquisas e experimentos que contribuísse com a aprendizagem dos alunos.
Desse modo, foi-se apropriando a sala de aula, levando os conceitos de física utilizando diferentes recursos. Por exemplo, foi proposto um ensino com práticas experimentais utilizando recursos de áudio e vídeo de uma forma lúdica, apropriando-se do espaço escolar como laboratório vivo, construção de materiais em que os alunos pudessem interagir e conceituar a física de uma forma que despertasse a curiosidade e os tornasse participativos em sala de aula.
Infelizmente, o quadro, a caneta e o livro didático ainda se fazem presentes nas escolas; não que seja desqualificado, mas é desatualizado. Hoje vive-se um
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
avanço de tecnologias em que há a possibilidade de inovação no que se refere a educação e pesquisa. Também existem várias formas de conduzir o ensino de ciência conforme a realidade e o cotidiano dos alunos (Leão, Dutra, Alves, 2018).
Para tanto, faz-se necessário problematizar e discutir outras formas de ensinar física, adaptar os alunos a novos meios de ensino utilizando recursos naturais de uma escola do campo, usando as tecnologias e a construção de experimentos em sala de aula, uma forma de proporcionar a investigação e o letramento científicos pelos alunos. Da mesma forma, deve-se compreender que o letramento científico vai além de livros didáticos nos quais os alunos, historicamente, têm dificuldade de aprender, ou entender, a física de outra forma.
Frente ao exposto, busca-se apresentar um relato descritivo a partir do relatório produzido pelos/pelas estudantes do curso de Educação do Campo no Estágio Curricular Supervisionado de Física.
## Organização metodológica
O relato descrito baseia-se numa organização qualitativa, a qual envolveu a leitura dos relatórios de estágio realizados entre 2017 e 2021 em física, no Ensino Médio, do curso de Educação do Campo - Licenciatura.
Para leitura dos relatórios enviou-se aos estudantes/egressos do curso de Educação do Campo um termo de autorização via Google Forms (https://forms.gle/5MPwXUWDeBSqr3UF8), a fim de cumprir com os aspectos éticos de um trabalho acadêmico. De posse da autorização, os relatórios foram organizados para leitura e estudo. Os relatórios de 2017 a 2019 foram lidos na forma física, pois passaram a ser entregues de forma online a partir do ensino remoto ao longo da pandemia.
Analisou-se o período de 2017 a 2021, pois a primeira turma desenvolveu o estágio de física em 2017. A última turma de egressos/as com relatório concluído foi em 2021.
## Estágio Curricular Supervisionado - o caso do curso de Educação do Campo
O estágio do curso de Educação do Campo é um componente obrigatório no qual se tem o espaço de formação acadêmico e profissional dos futuros professores, em que se aplicam conhecimentos teóricos e práticos adquiridos no caminho da graduação. Para tanto, visto que o curso tem como ênfase a área de ciências da natureza, os estágios estão organizados em quatro momentos, sendo o primeiro desenvolvido na componente de ciências nas séries finais do Ensino Fundamental. No Ensino Médio, o estágio se divide em três: se inicia com física no quinto semestre; continua-se com química, no sexto e conclui-se com biologia, no sétimo.
Conforme o Projeto Pedagógico do Curso de Educação do Campo o estágio
ocorre em articulação com o sistema público de educação básica, seguindo o disposto na Lei n.º 11.788/2008, referente ao estágio de estudantes; nas Resoluções 20/2010 e 29/2011 CONSUNI/UNIPAMPA; nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial, em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura), e para a formação continuada. Nestes termos, conforme previsto na Resolução CNE/CP 02/2015, o estágio curricular supervisionado é componente obrigatório do currículo das licenciaturas,
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configurando-se em uma atividade estreitamente articulada com a prática e com as demais atividades de trabalho acadêmico (PPC/Lecampo, 2019, p. 58).
Sendo o estágio uma componente obrigatória, reforça-se a necessidade de estudos ao longo das licenciaturas que preconizem a articulação entre a teoria e a prática, principalmente no que tange a espaços de reflexão sob as ações desenvolvidas.
Conforme D'Ávila (2021), entende-se a importância da inclusão de estagiários dentro das escolas do campo e da comunidade, relata-se um olhar crítico e formador dentro das escolas, levando às ciências da natureza de uma forma clara e objetiva. Com isso, analisa-se o contexto escolar, a comunidade em que está inserida, como uma forma de utilizar conceitos de ciências da natureza no cotidiano.
A intenção do curso de Educação do Campo é preparar acadêmicos para docência de uma forma em que os discentes entendam a realidade da escola, sua cultura e os aspectos sociais e políticos que estão vinculados àquela comunidade. Dessa maneira, valoriza-se o espaço formativo de uma forma ampla para que os discentes criem suas próprias concepções do que é a docência e como a formação contribui para isso, pois
o estágio supervisionado permite que o acadêmico do curso de Educação do Campo desenvolva sua prática pedagógica compreendendo as relações que existem na escola, analisando as de maneira crítica e na medida do possível interferir no processo educacional dos alunos (D'Ávila, 2021, p. 7).
Para formar professores aptos para a Educação do Campo é imprescindível definir o que é teoria e prática. Vemos que, pela falta de formação de um estagiário dentro das universidades, ao deparar com o espaço escolar, o estagiário se perde ao ver uma educação engessada e limitada dentro das metodologias de ensino utilizadas como padrão dentro das escolas (Pimenta, 1995).
Dessa forma, a formação acadêmica contribui para que a teoria e a prática sejam vistas de forma ampla e separada, desfragmentada uma da outra. É preciso valorizar a teoria e intensificar a prática de estágio. Não se deve usá-la em concomitância como vimos com frequência nos espaços escolares, pois é necessário assumir a prática de forma que inclua o aluno, a sociedade e o aprendizado constante. É preciso tratar cada aluno com suas especificidades e características culturais e sociais, mostrando para o aluno que a escola e a educação são para todos, respeitando suas características e propondo um espaço de democratização ao se constituir perante a sociedade com seus direitos estabelecidos de forma igualitária.
Para que isso aconteça, o estagiário deve ter uma base de formação antes de entrar em um espaço escolar, e deve analisar minuciosamente cada aspecto que foi proposto: comunidade, escola, espaço escolar, gestão, regência e, principalmente, os alunos. Deve, ainda, entender a realidade e por qual motivo ele está naquele espaço, e o que pode ser feito em relação a mudanças metodológicas por meio do ensino de ciências.
## Resultados e discussão
Os resultados são apresentados a partir da organização de dois quadros, os quais indicam o tipo de recurso utilizado pelos estagiários em suas aulas e, também, a avaliação que eles fazem do estágio.
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Alguns alunos mostraram interesse em desenvolver atividades diferentes mas, ou o período de estágio era curto e eles não conseguiam cumprir a tempo ou, uma vez que a professora regente não estava apta a conduzir metodologias diferenciadas, costumava seguir somente o livro didático, usando quadro e giz.
Um aspecto que vale ressaltar é que ficou claro, na leitura, que muitos professores de matemática estão dando aula de física, o que resulta em aplicar apenas cálculos nas atividades e seguir o copia e cola dos alunos. Em uma escola, o professor regente fazia os cálculos e respondia no quadro sem o mínimo interesse em desenvolver atividades nas quais os alunos pudessem se envolver com o conteúdo.
- O quadro 1 apresenta uma síntese dos recursos utilizados pelo/a professor/a regente e pelos/as estagiários/as.
Quadro 1: Comparativo de metodologia entre professor e estagiárioFonte: Relatório de estágio/Educação do Campo
Com esse quadro, percebe-se que o recurso metodológico utilizado pelo professor limita-se a quadro e giz. Enquanto isso, os estagiários buscam uma abordagem dos conteúdos a partir dos conhecimentos prévios, mas que são sistematizados com o uso de quadro e giz, a fim de manter o acordo feito com o professor, ou seja, não modificar tudo o que já é feito com os estudantes.
Os relatórios trouxeram, ainda, a utilização do espaço escolar como campo de pesquisa em que o aluno tinha como fonte de dados os recursos naturais da escola do campo. No entanto, não ficou claro como essa pesquisa foi realizada. Nos relatórios, emergiu bastante a parte do uso de experimento e das atividades diferenciadas, o uso do Phet Colorado, de jogos didáticos, de paródia com o conteúdo ou até mesmo de experimentos com diversidade em materiais, mas não se explicou como foram utilizados.
No quadro 2, apresenta-se uma síntese com trechos dos relatórios dos/das egressos/as, retirados do item 'avaliação do estágio', em que os estudantes escrevem uma reflexão avaliativa acerca do estágio.
Quadro 2: Relato das/dos estagiarias/os
## Relato dos estagiários
'Acredito que, se a disciplina de física fosse vista de outra forma, com outra abordagem, haveria mais entusiasmo, sentido e motivação e consequentemente melhor contextualizada.'
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'Vivencias jamais esquecidas, aprendizados construtivos, nem todos da forma que gostaríamos, mas sim são aprendizados.'
'Na maioria das vezes é um grande obstáculo chegar em uma instituição e querer implantar ideias novas, a final você não faz parte daquele lugar. Cada lugar, cada sociedade tem sua cultura, suas questões sócias e econômicas e isso fez com que eles se construíssem, seres humanos ao respeitá-los e abraça-los. Essa troca faz com que aos poucos o novo vá surgindo e dando vida ao velho.'
'Aprendi muito durante minha regência na escola, pois precisei pesquisar e estudar os conteúdos para explicar aos alunos e desenvolver as atividades propostas, sempre trazendo exemplos com práticas e experimentos do cotidiano dos alunos.'
'Tive a oportunidade de acompanhar seus métodos de ensino, por trabalhar junto a professora em sala de aula, tive certa noção de didática, sendo que fui me adaptando ao modo que o professor regente da turma do terceiro ano trabalha…'
Fonte: Relatório de Estágio/Educação do Campo.
Nos trechos extraídos dos relatórios de estágio, é notória a insegurança que o estagiário sente ao deparar com o ensino engessado, com o copia e cola do professor regente. No entanto, destaca-se o processo de aprendizado ao longo de estágio.
Os recursos utilizados pelos professores regentes limitam a atuação do estagiário, o que precisa ser abordado pelo orientador, na universidade, como parte do aprendizado, ou ainda, da constituição do ser professor.
No curso de Educação do Campo, preconiza-se a abordagem de práticas pedagógicas que visem múltiplas formas de aplicar os conteúdos em sala de aula. Antes disso, observa-se o ambiente em que a escola está inserida, quem são os estudantes, que tipo de espaço a comunidade escolar vive, quais as condições do espaço escolar. Faz-se uma análise completa do espaço, tudo para que as aulas sejam direcionadas ao cotidiano dos alunos, com atenção a suas vivências e origens.
A partir do espaço e do tempo que tem com a turma, o estagiário busca conhecer o aluno, bem como compreender suas dificuldades e limitações. Ele desafia o interesse na pesquisa e no ensino, propõe ao aluno não só conteúdos de física, mas a liberdade de expressar suas dificuldades e seu interesse em querer aprender mais.
## Considerações finais
A partir do relatório produzido pelos/pelas estudantes do curso de Educação do Campo no Estágio Curricular Supervisionado de Física, em especial na parte da avaliação, percebe-se que as inquietações são compartilhadas pelos/as estagiários/as. No entanto, mesmo diante da limitação no uso dos recursos, os
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estagiários buscaram avançar na abordagem dos conteúdos.
Todo o processo de leitura dos relatórios possibilitou rever as reflexões apontadas na introdução deste trabalho, a exemplo de: 'que professora quero ser?'. A partir do curso de Educação do Campo, busca-se investir em inovação, com metodologias de ensino que visam o estudante como protagonista, que sejam sujeitos pensantes e conheçam sua importância perante a sociedade.
Por fim, as dificuldades encontradas pelos(as) estagiários(as) foram inúmeras. Esse foi um grande desafio para o desenvolvimento das atividades, mas também representou frustrações pois os estagiários não conseguiram desenvolver o papel do professor em sala de aula. Todos os planos de aulas eram elaborados conforme pedia a regente (professor/a responsável pela turma na escola), o que causou vários desencontros metodológicos nas componentes do Ensino Médio.
Desse modo, fica como reflexão a necessidade de se avançar no trabalho conjunto entre universidade e escola, a fim de possibilitar uma abordagem teóricoprática ao longo do estágio. Isso exigirá a integração entre orientador, professor da escola e licenciando/a.
## Referências
D'ÁVILA, J. L. Estágio Supervisionado no curso de Licenciatura em Educação do Campo: reflexões acerca da prática docente. Revista Brasileira De Educação Do Campo , 6, e8476, 20021. https://doi.org/10.20873/uft.rbec.e8476
DEMO, P. Teoria e prática da avaliação qualitativa. In. PERSPECTIVAS , Campos dos Goytacazes, v.4, n.7, p. 106-115, 2005. Disponível em: https://ojs3.perspectivasonline.com.br/revista\_antiga/article/view/241/160
LEÃO, M. F.; DUTRA, M. M.; ALVES, A. C. Estratégias didáticas voltadas para o ensino de ciências: Experiências pedagógicas na formação inicial de professores 1ª ed / Uberlândia-MG: Edibrás, 2018.
PIMENTA, S.G. O Estágio na Formação de Professores - unidade teoria e prática? 11.ed. - São Paulo: Cortez, 2012.
PIMENTA, S. G. O estágio na formação de professores - unidade teoria e prática?. Cadernos de Pesquisa (Fundação Carlos Chagas), São Paulo, v. 94, p. 58-73, 1995.
UNIPAMPA. Projeto Pedagógico de Curso 2019. Disponível em:
: Educação do Campo - Licenciatura,
https://dspace.unipampa.edu.br/bitstream/riu/111/10/PPC\_Educa%c3%a7%c3%a3o %20do%20Campo\_Dom%20Pedrito\_2019.pdf
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