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FÍSICA DA CASACA: ACÚSTICA E ETNOMÚSICA NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO

Emilia Coelho Coutinho Da Rocha, Ernani Vassoler Rodrigues

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
24/01/2025
Linha de pesquisa
Cultura, Cognição E Linguagem No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Pôster

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Texto completo

## FÍSICA DA CASACA: ACÚSTICA E ETNOMÚSICA NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO

## Emilia Coutinho 1 , Ernani Rodrigues 2

- 1 Universidade Federal do Espírito Santo, Lic. em Física, emilia.rocha@edu.ufes.br
- 2 Universidade Federal do Espírito Santo, Departamento de Física, ernani.rodrigues@ufes.br

## Resumo

Neste trabalho, partimos do afastamento entre o conhecimento científico acadêmico e a população em geral, para ressaltarmos a urgência em restituir a Ciência à cultura e a cultura popular à Ciência. Abordamos a expressão cultural do Congo Capixaba, reconhecendo-o como patrimônio imaterial do estado do Espírito Santo. Nele, exploramos as características físicas e culturais da casaca, tomando-a como elemento relevante ao ensino da Física. Analisamos aspectos construtivos e acústicos do instrumento musical, destacando o conhecimento dos povos originários e da diáspora africana empregados em sua construção, pontuando aspectos do conhecimento científico eurocêntrico ao som resultante, por meio de uma análise do perfil sônico da casaca. Nossos resultados apontam para a importância de exemplos culturais locais na aprendizagem, propondo uma abordagem inclusiva no ensino de Física, destacando a casaca como um instrumento valioso para unir cultura popular e Ciência. Ao explorar a conexão entre saberes populares e o saber científico, a casaca, para além de um instrumento sonoro, revelou-se uma expressão simbólica ligada à identidade e tradição no Espírito Santo.

Palavras-chave : cultura, ensino de física, acústica.

## Introdução

Mostra-se acentuado o distanciamento do conhecimento produzido nas universidades em relação à população em geral. Essa problemática escancara um afastamento gradual entre cultura popular e Ciência, fazendo com que essa última se torne um objeto marginal nos contextos cotidianos, como afirmam autores como Snow (1995), Germano e Kulesza (2007), Lévy-Leblond (2004). Partindo deste princípio, faz-se necessário compreender a Física como um processo de construção humana. Mas, afinal, como se caracteriza esse processo de construção?

É possível que uma das respostas mais abastadas seja através da cultura. Segundo Zanetic (2005, p. 21) , '[. . . ] cultura está quase sempre ligada à evocação de obra literária, sinfonia ou pintura; cultura erudita, enfim [. . . ]'.

A afirmação de Zanetic demonstra que a Física parece ausente do universo da cultura. Em vista disso, é urgente e necessário o empenho para restituir a Ciência no universo cultural e a cultura popular no universo da Ciência.

O interesse pelo estudo de comparação transcultural traz a jogo processos mentais e de comportamentos que são comuns a todas as sociedades da espécie humana, algo que Brown (2000) nomeia por Universais Humanos. Algumas características psíquicas, comportamentais, linguísticas e outras, são comuns a praticamente todas as sociedades já registradas histórica e etnograficamente, sendo portanto, universais. Brown (2000, p. 300) fornece uma lista de centenas de itens

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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ

sugeridos como universais humanos, tais como, '[. . . ] música, música infantil, música relacionada em parte à atividade religiosa, música relacionada em parte à dança, música vista como arte (uma criação), música vocal, música vocal inclui formas de fala [. . .]'.

Dessa maneira, considerando a música uma forma de manifestação cultural que permeia a todos, é possível estabelecer uma conexão entre música e ciência, mais precisamente a Física.

- A acústica é a área de Física que estuda a ciência do som. Conforme defendem Rossing e Stumpf (1982), o estudo da acústica na música e na Física se fundem. Para compreender a transversalidade destes objetos de pesquisa, pode-se dizer que a acústica se define através da produção, distribuição, detecção e compreensão do som (Rossing, 2007, p. 1, tradução nossa). É dessa maneira que a Física faz a leitura desses princípios e utiliza alguns parâmetros tangíveis para análise dos sons. Esses decorrem de noções da acústica como: timbre, altura, intensidade sonora, dentre outros.

Este trabalho aborda a expressão cultural do congo capixaba, gênero musical brasileiro típico das regiões litorâneas do Espírito Santo com objetivo de avaliar a importância da etnomúsica no ensino da Física, partindo do perfil sônico do instrumento musical conhecido como casaca.

## Congo Capixaba

- O estado do Espírito Santo é rico em diversidade cultural e uma expressão notável dessa riqueza se manifesta através das tradicionais Bandas de Congo. Essa tradição foi oficialmente reconhecida pelo poder estadual como o primeiro patrimônio imaterial da região.
- O congo capixaba é uma das manifestações mais populares e importantes do meio cultural do estado do Espírito Santo. Sua origem é diversificada e sua formação carrega significados culturais importantes para a cultura espírito-santense. Essa diversidade ramifica uma abundância artística e cultural nas suas diversas formas de expressão tais como: instrumentos, danças, figurinos e signos.

## Contexto histórico-social do instrumento Casaca

A casaca (também chamada de casaco, cansaca, canzaca, canzá, ganzá, caracaxá, reco-reco de cabeça) é um instrumento musical típico capixaba e está presente nas bandas de congo do Espírito Santo. Esse instrumento possui diversas ramificações por todo Brasil como o reco-reco de mola nas escolas de samba do Rio de Janeiro e o bajo no Cavalo Marinho de Pernambuco, dentre outros. D'Anunciação (2008, p.32) destaca que 'A tipicidade do reco-reco não decorre do objeto instrumento musical, e, sim, da participação exercida na formação do sotaque rítmico do batuque brasileiro'.

- É um processo complexo datar a criação da casaca, assim como debruçar sobre suas raízes. Sua origem reflete a diversidade da cultura de povos originários da Brasil e também a cultura de povos de origem africana.
- É um instrumento musical de percussão da classe dos idiofones com som de altura indeterminada. A classificação como instrumento de percussão deriva do fato de que o som é produzido pelo impacto de suas partes, neste caso, notadamente da

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vareta, contra a superfície da caixa e as ranhuras esculpidas na costela. Os idiofones, por sua vez, são instrumentos musicais cujo som é gerado pela vibração de todo o corpo do instrumento, dispensando a presença de cordas ou membranas. No contexto da casaca, a vibração resulta da interação entre a caixa de madeira e o bambu quando são percutidos.

Figura 01: Corpo da casaca com ranhuras e ao lado um modelo de vareta.

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A altura do som, que se refere à característica tonal indicativa se é grave, agudo ou de uma frequência específica, desempenha um papel significativo na classificação dos instrumentos musicais. Ao ser designada como possuidora de "altura indeterminada", significa que não produz notas musicais específicas com uma altura definida, como é comum em instrumentos melódicos, a exemplo de pianos ou flautas.

O instrumento é composto por uma caixa de ressonância de madeira e uma série de sulcos transversais bastante próximos, feitos no bambu ao longo de seu comprimento. De acordo com histórias locais do Espírito Santo, a casaca possui esse formato único constituído por uma cabeça e talhos que representam costelas, pois simboliza os escravizados que seguravam o pescoço do instrumento como se estivessem enforcando os senhores que lhe tivessem feito mal, e tocavam como se estivessem machucando a costela dos patrões.

A confecção das casacas (Fig. 2), envolve a habilidade artesanal que faz uso de madeiras locais para a elaboração do corpo do instrumento. Essas peças são meticulosamente trabalhadas de maneira artesanal e individual, representando um conhecimento transmitido ao longo das gerações. A parte frontal da casaca, que se assemelha à aparência de uma costela, é normalmente preparada com o bambu. Este material passa por um processo no qual são criadas ranhuras espaçadas, construindo a região onde o atrito e o toque ritmado da vareta resultam na produção do som do instrumento. Dentre as diversas opções de madeiras disponíveis para esculpir o corpo e a vareta das casacas, é possível citar o bambu, o cedro, a tagibubuia e o pino.

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Figura 02: Processo de construção do instrumento casaca.

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## Análise do perfil sônico de uma casaca

Para o cumprimento dos objetivos deste trabalho, explorando a Física do som da casaca, uma análise espectral de características sônicas do instrumento foi realizada. Com o intuito de capturar nuances do som emitido por ela, foram realizadas sete gravações de trechos, durante as quais a baqueta atravessou a costela com diferentes velocidades. Esses sons foram capturados por um celular posicionado a 30 centímetros da lateral da casaca.

Inicialmente, através da medição do comprimento da costela da casaca com o auxílio de uma régua, e analisando a duração dos arquivos de áudio gravados, foi possível determinar a velocidade da baqueta ao passar pela costela. Além disso, ao levar em consideração as 30 ranhuras presentes na costela da casaca utilizada e ao dividir esse número pela duração do tempo de passagem da baqueta, foi possível determinar a quantidade de ranhuras atravessadas pela baqueta por segundo, resultando na obtenção da frequência correspondente.

Os arquivos de áudio gravados foram importados para o software 'Praat' (BOERSMA; WEENINK, 2009), onde se procedeu a análise da intensidade do som produzido em cada um dos sete registros, a análise da frequência do reco da baqueta passando pelas costelas e a análise dos formantes (harmônicos de ordem superior), que proporcionaram, no contexto da casaca, a observação do padrão timbral do instrumento.

Ao analisar o espectro sonoro de um som, são chamados formantes as regiões de frequências onde acontecem harmônicos de maior frequência e com destaque em sua intensidade. Após a determinação da intensidade sonora em cada velocidade da baqueta e das frequências médias dos quatro primeiros formantes, que são indicadores do timbre, verificou-se a consistência na identidade sonora da casaca.

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## Análise Física do Som

Os resultados obtidos na análise espectral do som da casaca são apresentados na Figura 3.

Figura 03: Resultados da análise do perfil sônico da casaca.

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Quanto às intensidades sonoras obtidas a partir de cada uma das sete velocidades da baqueta, os resultados foram praticamente os mesmos, uma vez que o celular manteve-se a uma distância constante da lateral da casaca. Considerando a definição de intensidade de uma onda sonora como o valor médio do fluxo de energia por unidade de área perpendicular à direção de propagação, a distância constante entre o celular e a lateral da casaca garante que a área pela qual a onda sonora se propaga seja mantida em todas as medições.

Observou-se que as frequências aumentam gradualmente com o aumento da velocidade em cada um dos sete trechos. Esse resultado evidencia uma correlação entre tempo e velocidade, já que para calcular a frequência da baqueta, fazemos a divisão do número total de ranhuras, que permanece sempre o mesmo,

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pelo tempo de passagem da baqueta. Logo, se a velocidade aumenta, o tempo para percorrer o mesmo espaço diminui, fazendo com que a frequência aumente, à medida que a velocidade aumenta.

Por fim, uma observação que chama a atenção surge ao examinar as frequências médias dos quatro primeiros formantes (harmônicos superiores) para cada velocidade da baqueta. Apesar das frequências individuais apresentarem diferenças, os formantes exibiram valores praticamente idênticos em todas as passadas. Esse resultado indica uma consistência timbral ligada à caixa de ressonância da casaca e a suas características construtivas, independente da forma como a baqueta passa pelas costelas. Isso também ressalta a relevância dos formantes como uma característica própria de um instrumento.

Conclui-se com isso, que o som da casaca é típico, definido e sua peculiaridade se mantém independente de como ela é tocada. Essa peculiaridade é obtida pelo processo de fabricação do instrumento, seus materiais e por toda a carga de conhecimento historicamente produzido e transmitido popularmente por gerações.

## Algumas considerações

Ao que tange o ensino de Ciências, em especial a Física, se faz necessário repensar a abordagem educacional, destacando a importância de incluir perspectivas diversas e não apenas as eurocentradas, para tornar o ensino mais inclusivo e relevante para todos os estudantes. A superação dessa limitação requer uma revisão atenta dos currículos e materiais didáticos, incorporando exemplos e contribuições científicas de diferentes culturas.

Se é legítimo ensinar a Física do violino (DONOSO et al., 2008) ou do violão e da guitarra elétrica (SANTOS; MOLINA; TUFAILE, 2013), instrumentos nascidos no norte global, entendemos que é vantajoso e desejável que um outro instrumento que reflete a realidade local seja utilizado no ensino da Física. Nesse sentido, a Física da casaca parece atender a esses critérios no contexto capixaba.

Diante da abordagem abrangente sobre o contexto histórico-social da casaca e seus aspectos físicos, este trabalho buscou evidenciar a relevância de uma integração mais profunda entre os conteúdos acadêmicos e a realidade cultural dos estudantes. A proposta de aproximação cultural, exemplificada no estudo da casaca, destaca a importância de integrar experiências culturais significativas no processo de ensino de Física. Ao demonstrar experimentos físicos que se alinham com a realidade e a cultura dos estudantes, é possível criar uma ponte eficaz entre os conceitos abstratos da Física e o ambiente cultural que nos permeia.

Nesse sentido, a casaca emerge como um instrumento valioso para aproximar a cultura popular e a Ciência estruturada. Essa abordagem, ancorada na valorização da diversidade cultural, visa contribuir para o desenvolvimento da sociedade a partir de diferentes aportes, sem negligenciar os conhecimentos produzidos das ditas culturas populares.

## Referências

BOERSMA, P.; WEENINK, D. Praat: doing phonetics by computer (Version 5.1.13). 2009. Disponível em: http://www.praat.org/ .

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BROWN, D. R. Human universals and their implications. In: . Being humans: Anthropological universality and particularity in transdisciplinary perspectives. New York, NY: Walter de Gruyter, 2000. p. 156-174.

D'ANUNCIAÇÃO, L. Reco-reco 2. In: . Manual de Percussão IV. Rio de Janeiro, RJ: [s.n.], 2004.

DONOSO, J. P. et al. A física do violino. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 30, p. 2305-1, 2008.

GERMANO, M. G.; KULESZA, W. A. Popularização da ciência: uma revisão conceitual. Caderno Brasileiro de ensino de Física, v. 24, n. 1, p. 7-25, 2007.

LÉVY-LEBLOND, J. M. O pensar e a prática da ciência: antinomias da razão. Florianópolis, SC: Edusc, 2004.

ROSSING, T. D. Introduction to acoustics. In: . Springer handbook of acoustics. [S.l.: s.n.], 2007. p. 1-7.

ROSSING, T. D.; STUMPF, F. B. The science of sound. American Journal of Physics, v. 50, n. 10, p. 955-955, 1982.

SANTOS, E. d. M. d.; MOLINA, C.; TUFAILE, A. P. B. Violão e guitarra como ferramentas para o ensino de física. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 35, p. 2507, 2013.

SNOW, C. P. Duas Culturas: e Uma Segunda Leitura, As. São Paulo, SP: Edusp, 1995.

ZANETIC, J. Física e cultura. Ciência e Cultura, v. 57, n. 3, p. 21-24, 2005.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.