OBSTÁCULOS PARA A AUTONOMIA DOCENTE NO ENSINO PRÁTICO DE ASTRONOMIA: UMA INVESTIGAÇÃO NO CONTEXTO DO PROJETO ERATÓSTENES BRASIL
João Pedro Bertonha Lombardi, Rodolfo Langhi
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 24/01/2025
- Linha de pesquisa
- Formação, Práticas E Desenvolvimento Profissional Docente No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## OBSTÁCULOS PARA A AUTONOMIA DOCENTE NO ENSINO PRÁTICO DE ASTRONOMIA: UMA INVESTIGAÇÃO NO CONTEXTO DO PROJETO ERATÓSTENES BRASIL
João Pedro Bertonha Lombardi 1 , Rodolfo Langhi 2
1 Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho/Física e Meteorologia/joao.bertonha@unesp.br
2 Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho/ Física e Meteorologia/rodolfo.langhi@unesp.br
## Resumo
Diante dos inúmeros desafios enfrentados pelo ensino de Astronomia, que incluem metodologias pedagógicas inadequadas, falta de infraestrutura e recursos essenciais para atividades práticas, e um currículo frequentemente fragmentado, além das deficiências na formação inicial de professores, que frequentemente não inclui disciplinas específicas sobre Astronomia e carece de capacitação contínua adequada, o presente artigo faz parte de uma pesquisa de iniciação científica focada na investigação das dificuldades e desafios relacionados à autonomia docente dentro do Projeto Eratóstenes Brasil. Para isso, o estudo fundamenta-se na metodologia da Análise de Conteúdo proposta por Bardin (2011) e analisa os dados de uma reunião formativa remota com os professores envolvidos no projeto. A análise dos dados permitiu categorizar os obstáculos encontrados em três áreas principais: ferramentas digitais, implementação prática e colaboração escolar. No que diz respeito ao desenvolvimento da autonomia docente, os resultados indicam que, embora o Projeto Eratóstenes Brasil ofereça uma base sólida para o ensino de Astronomia, ele ainda enfrenta desafios significativos relacionados à comunicação e ao acesso aos recursos. O estudo sugere que melhorias no sistema de comunicação e no suporte técnico são essenciais para superar essas barreiras e fortalecer a autonomia dos professores, garantindo assim uma implementação mais eficaz do projeto e uma melhor experiência de aprendizado para os alunos.
Palavras-chave : Formação de professores, Projeto Eratóstenes Brasil, Ensino de Astronomia.
## Introdução
A melhoria do ensino de Astronomia no Brasil tem sido alvo de pesquisas ao longo das últimas décadas, dada sua relevância no desenvolvimento do pensamento científico e na formação integral dos alunos. No entanto, a Astronomia ainda enfrenta diversos desafios no contexto escolar. Segundo Langhi e Nardi (2005), os principais obstáculos enfrentados pelos professores no ensino dessa disciplina incluem: a) dificuldades metodológicas; b) limitações infraestruturais; c) uso de fontes errôneas; d) obstáculos pessoais; e) formação inadequada. Além disso, Langhi e Nardi (2007) revelam que os livros didáticos abordam os tópicos de Astronomia de maneira fragmentada, incompleta e com erros conceituais, agravando os problemas já existentes.
As dificuldades no ensino de Astronomia não se limitam apenas ao uso de materiais inadequados. Os trabalhos divulgados por Junior, Reis e dos Reis Germinaro (2014) e Slovinscki, Alves-Brito e Massoni (2021) constatam as dificuldades acima apresentadas, uma vez que essas pesquisas revelam as lacunas
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nos cursos direcionados à formação inicial de professores de Física, que frequentemente não oferecem disciplinas relacionadas a tópicos de Astronomia, seja como disciplina obrigatória ou optativa. Conforme Bartelmebs (2018), esses diversos problemas formativos também afetam os cursos de Ciências Biológicas e em outros com a mesma finalidade, já que sua pesquisa evidenciou que os alunos, mesmo quando matriculados em aulas de Astronomia, não apresentam grandes modificações em suas visões prévias, muitas vezes incorretas e/ou infundadas.
Em função dos problemas supracitados, a autonomia e segurança dos professores frente aos conteúdos astronômicos tende a ser perturbada, impactando diretamente a qualidade do ensino e o engajamento dos alunos, que acabam por receber uma educação fragmentada e, em muitos casos, desmotivante. No entanto, de acordo com Pimenta e Anastasiou (2010), Pinto, Barreiro e do Nascimento Silveira (2010) e Da Silva e Langhi (2021), a segurança profissional, proveniente da emancipação docente, pode ser atenuada perante uma formação continuada que contenha um caráter reflexivo.
Sob essas condições, entende-se a possibilidade de os professores utilizarem o Projeto Eratóstenes Brasil para desenvolver uma atividade prática que ensaia o experimento realizado pelo grego Eratóstenes de Cirene. A respeito da atividade experimental em si, mede se, em duas escolas localizadas em regiões distintas e distantes a mais de 400 km, o ângulo formado entre a sombra de uma haste vertical, conhecida na Astronomia como gnômon, e uma base nivelada. Comparando o ângulo medido em cada localidade, é possível calcular a circunferência da Terra e, consequentemente, seu raio.
Segundo Araújo e Abib (2003), essas atividades caracteristicamente práticas apresentam a capacidade de entusiasmar o aluno por meio da curiosidade, sobretudo quando desenvolvidas perante um viés desafiador e ao mesmo tempo motivador. Concomitantemente, Giordan (1999), afirma que os professores manifestam um posicionamento adepto quanto ao uso dessas atividades, muito em virtude do conjunto farto de possibilidades e oportunidades.
Com base nesses referenciais, apresento este trabalho, que constitui um resultado parcial de uma pesquisa em andamento. O estudo tem como objetivo mapear os obstáculos decorrentes das lacunas na formação inicial de docentes, com ênfase na autonomia no ensino de Astronomia por meio de atividades práticas, no contexto do Projeto Eratóstenes Brasil, visto que esse projeto demonstra grande potencial formativo, funcionando, em muitos casos, como uma forma de formação continuada. Atualmente, o projeto é articulado pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", vinculado ao Observatório Didático de Astronomia "Lionel José Andriatto" e apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
## Metodologia
Em termos metodológicos, este trabalho baseia-se no referencial teórico de Gil (2002), que propõe uma classificação para pesquisas a partir de seus objetivos e procedimentos técnicos. Considerando os objetivos previamente estabelecidos, esta pesquisa pode ser classificada, de acordo com Gil (2002), como exploratória. Por ainda estar em fase inicial, o foco principal é o entendimento do problema, ao invés de uma descrição detalhada de suas características ou das circunstâncias
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relacionadas à causa. Quanto aos procedimentos técnicos, a pesquisa se configura como um estudo de caso.
No que diz respeito ao contexto, a investigação teve como principal base as observações e anotações feitas durante o encontro formativo com os professores participantes do Projeto Eratóstenes Brasil. Realizado por meio da plataforma Google Meet, uma ferramenta acessível e prática, o encontro teve duração de 60 minutos e foi conduzido pelo professor Dr. Rodolfo Langhi, coordenador do projeto. É importante destacar que, para a transcrição e análise dos áudios e mensagens de texto, a reunião foi gravada com o consentimento dos participantes, garantindo o anonimato e assegurando que isso não causaria nenhum risco ou desconforto. Dos 146 inscritos, 18 participaram do encontro. A gravação completa foi disponibilizada a todos os participantes, permitindo que os ausentes pudessem acessar o conteúdo, e eventuais dúvidas poderiam ser esclarecidas por meio do e-mail fornecido.
Para compor a interpretação de dados, fez-se uso da abordagem qualitativa de pesquisa apresentada por Bardin (2011), a Análise de Conteúdo, composta essencialmente por três partes: a) pré-análise; b) exploração do material; c) tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Diante disso, apresentamos, a partir deste ponto, os resultados alcançados com a investigação feita por meio da observação não participante. Para assegurar a privacidade dos envolvidos, empregamos siglas na representação dos participantes.
## Resultados e Discussões
Na etapa inicial de pré-análise, organizamos os dados do corpus da pesquisa. Isso envolveu uma leitura preliminar dos documentos para selecionar aqueles que atendiam aos critérios de exaustividade, representatividade, homogeneidade e pertinência. Após concluir essa seleção inicial, passamos para a fase seguinte, que envolveu a exploração detalhada do material selecionado, o que incluiu a análise das discussões do encontro formativo
Inicialmente, durante o encontro formativo, foram abordadas as questões relacionadas ao acesso aos materiais do Projeto Eratóstenes Brasil. O professor Rodolfo Langhi inicialmente perguntou aos participantes se haviam conseguido acessar o site e os arquivos de orientação. As respostas dos participantes foram as seguintes:
```
LFMB: "Sim." FCB: "Sim." DAS: "Sim." JDG: "Sim." CRRF: "Ainda não tive tempo." CH: "Baixei mas ainda não li."
```
Além disso, o professor Rodolfo Langhi esclareceu a importância dos materiais disponíveis, explicando que o arquivo 'Atividade preparatória ANTES da data das medições' ajuda tanto professores quanto alunos a entenderem o objetivo do projeto, oferecendo fundamentos de trigonometria e matemática para a realização
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das medições. Já o segundo arquivo, que conta com uma atividade para a data das medições, fornece instruções para posicionar o gnômon e registrar as medidas, enquanto o documento final é utilizado para calcular a circunferência da Terra.
À medida que a discussão sobre o site do Projeto Eratóstenes Brasil avançava, abordou-se também outras plataformas de comunicação associadas ao projeto, como Google Classroom e Gmail . Essas informações geraram os seguintes comentários:
FCB (no chat da reunião) questionou: 'Sala no classroom? Não estou sabendo.'
LFMB (no chat da reunião) abordou: 'Não consegui entrar no classroom.'
FCB (no chat da reunião) comentou: 'Eu não havia recebido o e-mail desta reunião também.'
Esses problemas indicam falhas na comunicação e no acesso aos recursos, o que pode ter afetado a participação e a preparação dos docentes para o projeto.
À medida que o encontro formativo avançava e se aprofundava na implementação prática das atividades do projeto, surgiram dúvidas mais abrangentes. Contudo, a maioria dessas questões estava relacionada principalmente à data das atividades, às condições necessárias para sua execução e aos equipamentos requisitados:
CH (no chat da reunião) perguntou: 'Essa medida pode ser feita em qualquer dia do ano para nós que estamos abaixo da linha do equador?'
O Professor Rodolfo Langhi respondeu: 'A gente pode fazer qualquer dia do ano, desde que a sua cidade parceira, né, se você é a cidade A, mas a sua cidade parceira é a cidade B, tem que fazer no mesmo dia que você. Ou um dia antes, ou um dia depois, não vai mudar muita coisa. Mas o ideal é que seja feito no mesmo dia. Pode ser qualquer dia do ano.'
CH também questionou: 'Tem uma distância mínima entre as cidades parceiras?'
O Professor Langhi esclareceu: 'Então, o ideal é que as cidades estejam pelo menos a mais de 400 quilômetros de distância entre si. Mais de 400 quilômetros seria melhor.'
Em seguida, no decorrer da reunião, o Professor Rodolfo Langhi abordou a questão do nivelamento do chão para a realização das medições. Ele sugeriu várias opções para verificar se a superfície estava realmente nivelada, incluindo o uso de um nivelador de construção civil ou um aplicativo específico disponível para celulares. A partir desse comentário, surgiram os seguintes questionamentos:
FLE perguntou: 'Qualquer celular pode ter esse aplicativo ou ele tem que ter algum sensor?'
CH questionou: 'Às vezes, você está com o nivelador abaixo de 0,1. Não está exatamente 0,0. Dá para corrigir fácil ou é bem complicado para aluno de ensino médio?'
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Os questionamentos refletem a necessidade de esclarecimentos adicionais sobre a acessibilidade e a correção de erros, essenciais para garantir que os alunos e professores possam realizar as atividades do projeto de forma eficaz e precisa.
Já na parte final da reunião um dos professores elaborou o seguinte comentário:
CH (Chat da Reunião) comentou: 'As escolas que sou professor são burocráticas, não sei se consigo tão em cima da hora.'
Professor Rodolfo Langhi questionou: 'Você fala em cima da hora em que sentido CH?'
CH explicou: 'Por ser de 10 de junho até 26 junho. A escola já tem uma programação fechada nesse período.'
O diálogo sobre o calendário escolar destacou a dificuldade de alinhar as atividades do projeto com as agendas fixas das escolas. A preocupação expressa por CH sobre a rigidez da programação escolar sublinha a necessidade de uma coordenação cuidadosa e de planejamento antecipado para garantir a participação efetiva de todas as instituições envolvidas. Isso sugere que ajustes no cronograma ou um planejamento mais flexível podem ser necessários para acomodar as restrições institucionais e otimizar a implementação do projeto.
Ainda no contexto da colaboração escolar, surgiram questões relacionadas à seleção e à associação das escolas parceiras para as medições. As discussões abordaram como identificar e escolher as cidades parceiras, bem como como compartilhar e comparar dados de longitude. Tais questionamentos podem ser vislumbrados logo abaixo:
FCB (Chat da Reunião) perguntou: 'Como vamos "escolher" as cidades parceiras?'
FCB questionou: 'Então, depois das medições vamos conseguir visualizar os dados das outras escolas e ver qual está mais próxima da nossa longitude?'
FLE indagou: 'Só mais uma dúvida, aonde consigo conversar para saber quem tem a mesma longitude, e onde posto dúvidas?'
O Quadro 1, mostrado a seguir, sintetiza o tratamento, a inferência e a interpretação dos resultados analisados anteriormente, evidenciando os diferentes obstáculos iniciais existentes no Projeto Eratóstenes Brasil que podem interferir no desenvolvimento da autonomia docente frente as atividades práticas do projeto. Inicialmente, identificamos seis temas que trazem os ensaios sobre o modo no qual os agrupamentos foram realizados. Contudo, observamos que era viável consolidar alguns desses temas ao identificar suas interseções e discrepâncias. Com essa perspectiva, reavaliamos os dados e os reorganizamos em três categorias finais.
Quadro 01: Categorias provenientes da análise de conteúdo.
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## Resultados e Discussões
A análise das mensagens e opiniões dos professores revelou informações cruciais sobre a implementação inicial do Projeto Eratóstenes Brasil e seus desafios iniciais. Observou-se que, independentemente da formação profissional, região ou tipo de escola, os professores demonstraram uma boa assimilação dos conteúdos necessários para o desenvolvimento do projeto. No entanto, a maior parte das dúvidas surgiu em relação ao acesso às ferramentas digitais, especialmente às plataformas de comunicação utilizadas.
Os problemas relatados incluíram dificuldades no acesso a essas plataformas e na recepção de informações importantes do projeto, destacando uma necessidade urgente de revisar e otimizar os canais de comunicação. A falta de familiaridade com as ferramentas digitais e a dificuldade em utilizá-las têm potencial para impactar negativamente a participação e o engajamento dos docentes. No que diz respeito às atividades práticas, as dúvidas expressas pelos professores estavam majoritariamente relacionadas à data e às condições necessárias para a realização das medições, bem como aos equipamentos requisitados. Essas questões indicam a necessidade de um planejamento mais flexível e de orientações mais claras para garantir a execução eficaz das atividades.
Além dos desafios mencionados, a pesquisa identificou uma unidade de menor frequência, mas relevante: a interação do projeto com as instituições escolares e a coordenação entre as escolas parceiras. Essa dimensão ressalta a importância de considerar a relação direta entre o projeto e as escolas onde os professores atuam, bem como a dinâmica de trabalho colaborativo entre as instituições.
É importante destacar que esses resultados representam dados parciais de uma pesquisa em andamento, coletados antes da realização das medições. O obstáculo com maior inferência quantitativa identificado, relacionados à acessibilidade e comunicação, demonstra a necessidade de revisitar as plataformas digitais e melhorar as práticas de comunicação para garantir que não interfiram negativamente na autonomia docente. De maneira positiva, o conteúdo disciplinar fornecido até agora têm mostrado eficácia, contribuindo para o avanço dos professores na construção de sua autonomia no contexto do projeto.
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BARTELMEBS, Roberta Chiesa. Concepções de estudantes de licenciatura em Ciências Biológicas e Ciências Exatas sobre conceitos básicos de Astronomia. Revista Espaço Pedagógico , v. 25, n. 2, p. 277-296, 2018.
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