Análise da carga horária pedagógica dos currículos das 12 licenciaturas em física de instituições de ensino superior públicas do Rio de Janeiro
Vitor Acioly, Jamila Bunmi Bernardo Vidal, Marina Queiroz De Oliveira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 24/01/2025
- Linha de pesquisa
- Currículo E Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## Análise da carga horária pedagógica dos currículos das 12 licenciaturas em física de instituições de ensino superior públicas do Rio de Janeiro
## Jamila Bunmi 1 , Marina Queiroz 2 , Vitor Acioly ³
- 1 Instituto de Física da Universidade Federal Fluminense, jamilabunmi@id.uff.br
- 2 Instituto de Física da Universidade Federal Fluminense, marinaqueiroz@id.uff.br
- 3 Instituto de Física da Universidade Federal Fluminense, vitoracioly@id.uff.br
## Resumo
Este trabalho apresenta uma análise estatística dos currículos e ementas das licenciaturas em física de Instituições de Ensino Superior públicas do estado do Rio de Janeiro. Como metodologia de pesquisa, utilizou-se uma busca pelas ementas de cada curso de licenciatura em física em cada site das instituições analisadas a fim de categorizar cada disciplina existente nestes currículos como pertencentes a um dos 10 eixos formativos definidos na pesquisa. Após a categorização das disciplinas presentes nos currículos analisados, foram gerados gráficos de comparação entre as cargas horárias destinadas para cada eixo formativo, baseando-se na média das cargas horárias das universidades estudadas. Posteriormente, referenciando-se no documento das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica, comparou-se os dados obtidos na pesquisa com os parâmetros considerados ideais pelas Diretrizes Curriculares para que a formação de um professor seja bem sucedida. Então, foram encontrados cursos de Licenciatura que não estavam, em algum aspecto, dentro dos padrões sugeridos pelo documento utilizado como referência na comparação. Por fim, o trabalho busca conciliar os dados obtidos na análise com a formação dos professores pertencentes aos Institutos de Física destas instituições e que atuam na Licenciatura em Física para compreender se há uma relação entre a formação desses profissionais e as ementas de cada um dos cursos analisados.
Palavras-chave: Licenciatura em Física; Currículo de Licenciatura em Física; Ensino de Física.
## Introdução
As pesquisas em Ensino de Física, Educação e Formação de Professores são zonas de constante crescimento no âmbito acadêmico (Salem, 2012). Com a finalidade de contribuir com estas áreas de pesquisa, este trabalho busca uni-las em uma análise das ementas e grades curriculares das 12 Licenciaturas em Física de instituições de ensino superior (IES) públicas do estado do Rio de Janeiro a fim de compreender o aprofundamento pedagógico proporcionado aos licenciandos de física dessas instituições e discutir as possíveis melhorias necessárias aos currículos de licenciatura em física analisadas. Além disso, deseja-se que este trabalho possa, futuramente, servir como subsídio para outras possíveis pesquisas na área de ensino de física e formação de professores.
As licenciaturas analisadas foram do Centro de Educação Superior a Distância do Rio de Janeiro (CEDERJ), Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca - Campus de Nova Friburgo (CEFET - Nova Friburgo), Instituto Federal Fluminense (IFF), Centro Federal de Educação Tecnológica Celso
Suckow da Fonseca - Campus de Petrópolis (CEFET - Petrópolis), Instituto Federal do Rio de Janeiro - Campus de Nilópolis (IFRJ - Nilópolis), Instituto Federal do Rio de Janeiro -Campus de Volta Redonda (IFRJ -Volta Redonda), Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Federal Fluminense - Campus de Niterói (UFF Niterói), Universidade Federal Fluminense -Campus de Pádua (UFF - Pádua), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Como objetivo secundário, o trabalho concilia as análises realizadas para comparar as cargas horárias pedagógicas de cada instituição e, com isso, entender se há diferença na formação de professores das universidades utilizadas na pesquisa. Formar um professor é formar, além de tudo, um sujeito crítico e reflexivo capaz de mudar a realidade educacional do meio em que está inserido. Dessa forma, com o intuito de promover um ensino de física de qualidade, a formação dos professores deve ser priorizada nas instituições de ensino, fornecendo uma base pedagógica teórica e prática que colabore para o bom desenvolvimento do licenciando como futuro docente. Porém, os cursos de licenciatura em física nas IES públicas do Rio de Janeiro apresentam alguns currículos que não atendem as diretrizes curriculares nacionais.
Para estabelecer as bases necessárias para uma boa formação docente no Brasil, foram criadas as Resoluções CNE/CP, em 2002, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores. Nessas resoluções é enfatizado o conceito de formação por competências, fortemente defendido a partir da década de 1990 quando acontece a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e de Diretrizes Curriculares, conceito esse apresentado como concepção nuclear na organização dos cursos de formação e dos currículos, convicção a ser seguida como um novo modelo para a formação docente (BALDAN; DA CUNHA, 2020). Então, em 2015, durante o governo de Dilma Rousseff, a resolução vigente foi substituída pela CNE/CP n° 2/2015. A principal diferença desta para a anterior é que, a CNE/CP N° 2/2015, trazia também as diretrizes necessárias para formação continuada de professores, que foi reconhecido como de extrema importância pela comunidade educacional da época.
Já em 2019, mesmo com a implementação da CNE/CP de 2015 ainda em implementação, foi elaborada a CNE/CP de 2019, que trazia uma complementação para a CNE/CP de 2015 no que tange à formação inicial de professores. Dessa forma, a resolução CNE/CP n°2 de 2019 estabelece os parâmetros para as formações inicial e continuada de professores da educação básica, incluindo a área de física. Além disso, o documento Parecer CNE/CES n° 1304/2001 traz as diretrizes necessárias para a formação do profissional de Física, definindo também os módulos sequenciais especializados para cada área de atuação do profissional físico. No caso do Físico-educador, este documento define
Físico-educador -No caso desta modalidade, os seqüenciais estarão voltados para o ensino da Física e deverão ser acordados com os profissionais da área de educação quando pertinente. Esses seqüenciais poderão ser distintos para, por exemplo, (i) instrumentalização de professores de Ciências do ensino fundamental; (ii) aperfeiçoamento de
professores de Física do ensino médio; (iii) produção de material instrucional; ( iv ) capacitação de professores para as séries iniciais do ensino fundamental. Para a licenciatura em Física serão incluídos no conjunto dos conteúdos profissionais, os conteúdos da Educação Básica, consideradas as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores em nível superior, bem como as Diretrizes Nacionais para a Educação Básica e para o Ensino Médio (Brasil, 2001, p.7).
Dessa forma, o trabalho busca verificar se existem lacunas pedagógicas e/ou científica em alguns dos currículos analisados, o que vai contra os parâmetros curriculares definidos como ideais pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica.
## Metodologia
Como metodologia de pesquisa foi escolhida uma investigação qualitativa, que é comum nas pesquisas nas áreas de ensino de ciências (Greca, 2002). Este trabalho se iniciou com uma busca pelas ementas e grades curriculares de cada licenciatura em Física nos sites das instituições de ensino superior (IES) públicas do Rio de Janeiro. É importante enfatizar que existem sites desatualizados e, quando comparadas as ementas e grades curriculares, estas possuíam informações diferentes, dificultando a precisão de informações na pesquisa realizada. Em um segundo momento, realizou-se uma análise das grades curriculares encontradas. Nesta análise, foram definidos 10 eixos formativos para categorizar cada disciplina presente nos currículos e, assim, encontrar a carga horária direcionada para cada eixo nas ementas analisadas. A definição dos eixos formativos estão representados na tabela a seguir.
Tabela 01: Eixos formativos
Estes eixos formativos foram estabelecidos após a análise das matrizes curriculares e dos ementários de cada um dos cursos. Nesta análise, percebeu-se que algumas instituições como os Institutos Federais (IF's) e os Centros Federais de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET's), utilizavam eixos formativos semelhantes para categorizar suas ementas em seus fluxogramas. Dessa forma, definiu-se estes como os 10 eixos bases para a análise. Fundamentando-se nessa verificação, considera-se que esses eixos constituem os 10 pilares fundamentais dos cursos de Licenciatura em Física, pois são identificáveis em quase todas as grades curriculares. Exceções incluem, por exemplo, o CEDERJ, que não aloca parte da carga horária para o Trabalho de Conclusão de Curso e a UFRJ, que não apresenta em sua grade, uma parte da carga horária total destinada ao estágio.
Com base na análise dos documentos curriculares e nos dados obtidos através da categorização da carga horária, foi calculada a média da composição dos cursos de Licenciatura em Física oferecidos por instituições de ensino superior públicas no estado do Rio de Janeiro. Dessa forma, foi possível identificar os principais enfoques de cada curso de licenciatura em física tanto de maneira geral, quando olha-se para o curso de forma unificada, quanto particular, quando se analisa quais as disciplinas propostas por cada curso e, além disso, as ementas de cada disciplina oferecida, para cada instituição utilizada na pesquisa. Consequentemente, foram realizados comparativos entre instituições e eixos formativos para subsidiar a discussão deste trabalho. As comparações e a discussão correspondente estão detalhadas na próxima seção.
## Resultados
Após a análise realizada, criou-se uma tabela que contém a carga horária e o número de disciplinas que cada IES aloca em cada um dos 10 eixos formativos definidos anteriormente. A tabela está representada abaixo.
Tabela 02 : Análise da carga horária de cada instituição
Tabela 03: Comparação das medidas de tendência das instituições
Em posse dos dados da tabela 02, foi gerado um gráfico que aponta a composição média das grades dos cursos de licenciatura em física dessas IES com base nos eixos formativos definidos anteriormente.
Gráfico 01 : Composição disciplinar média das licenciaturas
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Então, a partir dos dados obtidos e dos gráficos e tabelas criados a partir dessas informações, este trabalho pretende compreender o verdadeiro foco das licenciaturas em física analisadas. É notório, a partir de um breve estudo do gráfico 01, que os eixos formativos de Base Matemática e Física Avançada são os que recebem as maiores cargas horárias dos currículos, com 19,2% e 14,5%, respectivamente. No entanto, se tratando de um currículo de licenciatura em física, é razoável supor que os eixos de ensino de física e educação estejam no topo das cargas horárias recebidas, o que não acontece. O eixo de Ensino de Física possui apenas 10,7% da carga horária total do currículo destinada à ele. Já o de Educação, possui 11,3% desta carga horária.
## Comparação com a proposta do Conselho Nacional de Educação
A partir dos dados da Tabela 02, calculamos a média, a mediana e a moda das cargas horárias dos cursos. Em seguida, elaboramos a tabela abaixo para comparar esses valores entre os cursos de licenciatura em Física oferecidos por instituições públicas no Rio de Janeiro e as licenciaturas em Física em todo o Brasil, conforme apresentado por Vizzotto (2021).
Considerando isso vemos que a carga horária média das licenciaturas ofertadas por IES públicas é superior a carga horária de 3200 horas, recomendada pelo Artigo 10 das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para a Educação Básica, de 2019, o que é melhor do que a média nacional das licenciaturas em física. No entanto, levando em conta a tabela 02, vemos que 3 das licenciaturas analisadas possuem uma carga horária inferior a essa recomendação.
De acordo com o documento mencionado, a carga horária dos cursos de licenciatura deve ser dividida da seguinte forma:
- I -Grupo I: 800 (oitocentas) horas, para a base comum que compreende os conhecimentos científicos, educacionais e pedagógicos e fundamentam a educação e suas articulações com os sistemas, as escolas e as práticas educacionais. II -Grupo II: 1.600 (mil e seiscentas) horas, para a aprendizagem dos conteúdos específicos das áreas, componentes, unidades temáticas e objetos de conhecimento da BNCC, e para o domínio pedagógico desses conteúdos. III - Grupo III: 800 (oitocentas) horas, prática pedagógica, assim distribuídas: a) 400 (quatrocentas) horas para o estágio supervisionado, em situação real de trabalho em escola, segundo o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) da instituição formadora; e b) 400 (quatrocentas) horas para a prática dos componentes curriculares dos Grupos I e II, distribuídas ao longo do curso, desde o seu início, segundo o PPC da instituição formadora (Conselho Nacional de Educação, 2019, p.6).
Sendo assim, podemos afirmar que os eixos formativos definidos neste trabalho se enquadram nas diretrizes curriculares da seguinte forma:
Tabela 04: Enquadramento dos eixos formativos nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para a Educação Básica
O eixo formativo misto não foi alocado em nenhum dos grupos na tabela acima, pois a área das disciplinas e atividades deste eixo ficam a critério do estudante. Foram somadas as cargas horárias médias dos eixos enquadrados em cada grupo. A partir dessa soma, foi desenvolvido um gráfico de comparação da divisão proposta pelo Conselho Nacional de Educação com a divisão média dos cursos de licenciatura em Física oferecidos por IES públicas no estado do RJ.
Gráfico 02 : Comparação da carga horária por grupo.
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Dessa forma, o trabalho mostra que as grades curriculares de licenciatura em física das 12 instituições públicas de ensino superior do Rio de Janeiro possuem uma defasagem de carga horária pedagógica em relação ao referido documento.
Além da análise apresentada, realizou-se um comparativo entre as IES federais e estaduais para compreender se as cargas horárias estão alinhadas com as diretrizes ou se existe um fator externo que possa exercer influência na construção das ementas. De acordo com Queiroz (2023), dos 424 docentes que pertencem aos institutos de Física das 12 IES públicas do Rio de Janeiro e que atuam nos cursos de licenciatura em Física, apenas 101 possuem licenciatura em Física. A comparação entre os dados obtidos e a pesquisa realizada por Queiroz está no gráfico abaixo.
Gráfico 03 : Nº de docentes licenciados por licenciatura em física.
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A partir do gráfico, é possível observar que a baixa quantidade de docentes atuantes nas licenciaturas que possuem alguma formação em ensino/educação pode ser uma das causas da inadequação no currículo em relação ao documento de 2019 do Conselho Nacional de Educação. Essa defasagem de carga horária, especialmente no Grupo II, que se refere a conhecimentos específicos, pode evidenciar a perspectiva de alguns profissionais Físicos-pesquisadores de que o Físico-educador (Brasil, 2001) não necessita de um conhecimento específico
aprofundado. No entanto, os processos seletivos realizados para o ingresso na carreira de professor universitário exigem um alto conhecimento específico. Logo, essa defasagem pode ser uma barreira para a entrada do Físico-educador na carreira acadêmica.
## Conclusão
Este trabalho teve como motivação o crescimento das pesquisas em Ensino de Física. Por isso, com a finalidade contribuir para esta área, buscou-se compreender a estrutura das licenciaturas em física nas IES públicas no estado do Rio de Janeiro, visto que essas são campo de estudo frequente nesta área de pesquisa. Para isso, foram escolhidos documentos do Conselho Nacional de Educação para serem utilizados como parâmetros para o estudo da estruturação desses cursos. Então, o trabalho pôde mostrar que existe uma lacuna na elaboração de alguns dos currículos analisados em relação ao documento balizador de escolha.
Dessa forma, o trabalho provocou reflexões acerca da maneira com as quais os cursos de licenciatura são estruturados, a fim de compreender a formação pedagógica obtida pelos futuros professores atuantes na educação básica. Além disso, o trabalho fornece subsídios com o intuito de colaborar para o desenvolvimento de pesquisas sobre as licenciaturas em física.
## Referências
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