A EMERGÊNCIA DE REPRESENTAÇÕES SOCIAIS SOBRE ONDAS PARA ALUNOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA
Guilherme Mardegan Vicentini, Guilherme Carneiro Reboredo, Ernani Vassoler Rodrigues
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 24/01/2025
- Linha de pesquisa
- Ensino, Aprendizagem E Avaliação Em Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## A EMERGÊNCIA DE REPRESENTAÇÕES SOCIAIS SOBRE ONDAS PARA ALUNOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA
Guilherme M. Vicentini¹, Guilherme C. Reboredo², Ernani V. Rodrigues³
1 UFES - Universidade Federal do Espírito Santo/Lic. Física/mardegan13@gmail.com 2 UFES - Universidade Federal do Espírito Santo/Lic. Física/guilherme.reboredo@edu.ufes.br 3 UFES - Universidade Federal do Espírito Santo/Dept. de Física/ernani.rodrigues@ufes.br
## Resumo
Nos agrupamentos de indivíduos formam-se grupos sociais, que integram símbolos e significados associados a diversos objetos. Dentro desses grupos, como nas salas de aulas, pode emergir um fenômeno conhecido como Representações Sociais (RS), descrito inicialmente por Serge Moscovici. No presente trabalho, identificamos e analisamos as RS em uma sala de aula de Física do Ensino Médio e averiguamos as representações ancoradas no universo reificado e consensual. Metodologicamente, para constituir o corpus de análise, utilizamos a Técnica de Associação Livre de Palavras (TALP), para o termo indutor 'Ondas' e cinco palavras foram evocadas livremente pelos estudantes. A partir delas, uma rede semântica foi gerada, cujo diâmetro dos vértices corresponde à frequência de evocação e a espessura das arestas representa seu índice de similaridade. A análise dos dados evidencia um núcleo central e periferias associados de representações de ambos universos quanto a Ondas, o que sugere que abordar elementos do cotidiano dos alunos, em que estão familiarizados, pode ser um caminho para auxiliar na organização e planejamento de uma aula de Física.
Palavras-chave : Representação Social, Redes Complexas, Ensino de Física.
## 1. Introdução
Um dos princípios fundamentais da educação, além do respeito à liberdade, é o direito à educação e à aprendizagem ao longo da vida (BRASIL, 1996). Assim, entre diversos assuntos abordados na Física, trabalhar os conceitos relacionados à natureza das ondas tem a atenção dos professores no Ensino de Física, que comumente é ensinado em turmas de 2º ano do Ensino Médio na educação básica. As ondas estão presentes em diversos fenômenos do cotidiano, principalmente em suas versões mecânicas e eletromagnéticas. Assim, a compreensão desse conhecimento auxilia em bases para outros assuntos da Física e conteúdos interdisciplinares, além de aproximar os alunos ao pensamento científico e preparação para tomadas de decisões no mundo concreto.
A compreensão dos aspectos das ondas perpassam vários conceitos específicos da Física, como período, frequência, comprimento de onda e energia . Nesse sentido, Moreira, Vieira e Souza (2024) argumentam que a simples definição do que é o som, um exemplo de tipo de onda, pode ser desafiador para alunos no Ensino Médio, como saber que o som é uma onda mecânica longitudinal que necessita de um meio material para se propagar, exige dos estudantes o conhecimento de vários conceitos físicos relacionados (ÁLVARES e DA LUZ, 2012). No entanto, segmentos da Física que envolvem o som, como a acústica, são fenômenos do cotidiano que, naturalmente, podem despertar o interesse dos alunos.
Ademais, a área da Física conhecida como ondulatória é amplamente presente em vestibulares e principalmente no Exame Nacional do Ensino Médio
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(ENEM), como aponta Sousa e colaboradores (2022), onde analisaram as questões de Física do ENEM no período entre 2009 e 2020, e constataram a ocorrência de 30 questões, de um total de 182 questões de Física no período, sobre ondas de natureza qualitativa, semi qualitativa e quantitativa. Segundo os autores, a maioria das questões tem um caráter qualitativo, abordando e exigindo do candidato o conhecimento e a aplicação de conceitos, especialmente quando se referem aos fenômenos ondulatórios e às propriedades do som.
Então, além da importância do entendimento desses conceitos para o ambiente escolar e acadêmico, as ondas estão presentes no universo dos alunos, por exemplo, ao irem às praias, eles observam as ondas do mar se formando, o mesmo ocorre em piscinas ou em contato com cordas. No entanto, para o grupo de estudantes, existem representações sobre ondas, mesmo que essas representações não estejam necessariamente ancoradas no discurso científico. Assim, professores de Física em contato com essas representações podem preparar materiais e planos de aulas que aproximem os alunos dos conceitos ondulatórios.
- O objetivo deste estudo foi mapear e analisar as Representações Sociais (MOSCOVICI, 2012) acerca de 'ondas' de um grupo de alunos, em uma sala de aula de Ensino Médio e, indo além, identificar as representações que são pertencentes ao universo reificado e consensual, por meio de uma análise de similaridade em redes complexas (BRUUN, 2016) de natureza semântica, dos termos evocados livremente pelos estudantes.
## 2. Referencial Teórico
Nos agrupamentos de indivíduos em sociedade, surgem os grupos sociais, que incorporam símbolos, significados e manifestações relacionados a diversos objetos, sejam eles familiares ou não. Nesses grupos, pode emergir um fenômeno encarado como Representações Sociais (RS) (MOSCOVICI, 2015). As RS constituem um sistema de interpretação da realidade que organiza a relação do indivíduo e grupos com o mundo e orienta suas condutas e comportamentos no meio social, assim elas permitem que o indivíduo internalize experiências e práticas sociais, ao mesmo tempo em que constrói e se apropria de objetos socializados (XAVIER, 2002).
- O fenômeno das RS podem ser compreendidos em duas formas de concepções: a situação social e o sistema cognitivo (MOSCOVICI, 2012). Segundo Rodrigues (2020), a formação das RS, enquanto situação social, ocorre pela dispersão da informação, pela pressão por inferências e pela focalização dos grupos sociais em um centro de interesse. Em contrapartida, enquanto sistema cognitivo, as formações das RS se dão por um formalismo espontâneo, por dualismo causal, pelo predomínio da conclusão e por uma pluralidade dos tipos de raciocínio. A partir dessas concepções, as representações emergem e se retroalimentam mutuamente. Dessa forma, a complexidade é característica do campo representacional, manifestando-se em processos de formação de RS.
Entre as propostas heurísticas de Moscovici, destaca-se os processos de produção de RS, conhecidos como 'ancoragem' e 'objetificação'. De acordo com Denise Jodelet (2008), o processo de objetivação envolve uma seleção da informação e sua esquematização, levando à naturalização de objetos desconhecidos: uma transformação de construções representacionais em entidades concretas no cotidiano. A autora também descreve o processo de ancoragem como
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o sentido que é atribuído a objetos desconhecidos, em virtude de sua inserção em um quadro conceitual existente. Assim, ambos processos refletem a relação dialética entre a condição social e a construção social da realidade, em um movimento circular que conecta o mundo e o pensamento (JODELET, 2008).
É intrínseco à dinâmica da formação das RS que emergem de grupos sociais os processos simultâneos de objetivação e ancoragem. As representações podem ser encaradas em diferentes âmbitos, onde Moscovici (2015) discorre acerca das dimensões do 'sagrado' e do 'profano'. Enquanto o primeiro contrasta ideias e símbolos que são validadas num universo que opera sob a lógica dita científica, composta por métodos, regras e leis, o segundo é contido por fatos não normatizados, na qual os indivíduos de um grupo social têm igual autoridade de pensamento, importância e validade, aproximando-se de objetos representacionais de um dado senso comum. O autor aborda as duas diferentes esferas, como:
'Uma esfera sagrada -digna de respeito e veneração e desse modo mantida bastante longe de todas as atividades intencionais, humanas - e uma esfera profana, em que são executadas atividades triviais e utilitaristas. São esses mundos separados e opostos que, em diferentes graus, determinam, dentro de cada cultura e de cada indivíduo, as esferas de suas forças próprias e alheias; o que nós podemos mudar e o que nos muda; o que é obra nossa (opus proprium) e o que é obra alheia (opus alienum).' (MOSCOVICI, 2015, pág. 49)
Moscovici ainda argumenta que essa distinção foi substituída pela noção de universos 'consensuais' e 'reificados'. No universo consensual, a sociedade é uma entidade visível e contínua, carregada de sentido e propósito, com uma voz humana que reflete a existência e as ações humanas, funcionando tanto de maneira ativa quanto reativa, enquanto no universo reificado, a sociedade é percebida como um sistema composto por diversos papéis e classes, onde entre seus membros existe uma hierarquização social (MOSCOVICI, 2015).
No cenário onde coexiste esses âmbitos consensuais e reificados, as representações podem se apresentar tanto em formas mais duradouras, estáveis e longevas, que se consolidam ao longo do tempo entre as relações sociais, quanto de maneiras mais influenciáveis, maleáveis e flexíveis mediante o contexto imediato em que o grupo social está inserido. Assim, podemos recorrer a abordagem estrutural das RS (ABRIC, 1993), que delimita estruturas na emergência dessas representações, sendo composta nos conjuntos específicos atribuídos como nucleados e periféricos, que conferem identidade ao grupo social.
Ambas estruturas podem ter funções distintas na sociedade. De um lado, os elementos ancorados no núcleo central das RS possuem um status consensual e estabilizador. Por outro lado, os elementos vistos nas periferias atuam como uma interface entre o mundo concreto e o núcleo central (RODRIGUES, BORGES & PIETROCOLA, 2019). Ambos conjuntos ocorrem de forma conjunta dada a natureza das RS emergidas, e essa solução é o que garante tanto a estabilidade quanto a dinâmica do campo representacional de agrupamentos de indivíduos.
## 3. Metodologia
Este estudo é parte de uma Iniciação Científica (IC) em uma universidade pública brasileira sobre complexidades em salas de aula e a pesquisa foi realizada em uma escola pública estadual técnico integrada, da região metropolitana de uma
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cidade do estado do Espírito Santo, tendo como sujeito de pesquisa 24 estudantes de uma sala de aula de Física do segundo ano do Ensino Médio, por volta de 16 anos, sendo 13 alunos do sexo masculino e 11 do sexo feminino.
Para compor o corpus de análise, usamos um tradicional referencial metodológico de coleta de dados sobre representações sociais, desenvolvido por Giacomo (1980) e conhecida como Técnica de Associação Livre de Palavras (TALP), onde os alunos foram convidados a evocar livremente as cinco primeiras palavras que lhes viessem à mente a respeito do termo indutor 'ondas', para o tratamento e análise dos dados e, posteriormente, a criação de uma rede complexa semântica, cujos diâmetros dos vértices correspondem às frequências de ocorrência das palavras evocadas e as espessura das arestas representam a relação do índice de similaridade calculado, par a par, entre os termos coletados. A atividade para coleta dos dados foi realizada previamente à discussão do professor a respeito de ondas.
Assim, os termos evocados livremente foram dispostos em uma planilha, onde foram lematizados agrupando suas formas flexionadas, evitando a criação de vértices com mesmo significado semântico. Os dados foram convertidos em um arquivo .CSV e importados e processados no software gratuito e de código aberto chamado IraMuTeQ (RATINAUD, 2008), que trabalha em interface com a plataforma R (R - Core Team, 2008).
Para a análise dos dados foi utilizado o índice de similaridade de co-ocorrência (RUSSELL; RAO, 1940) pela função 'análise de similitude', de forma que fosse adquirido numericamente um valor para a similaridade entre os vértices da rede e feito para todos os pares de lexemas evocados. A ordem de evocação não interfere na construção do grafo, assim como a dependência direcional das evocações.
## 4. Resultados e Discussão
- O grafo (rede) resultante está apresentado na Figura 1 com os lexemas coletados dos 24 estudantes em sala de aula, que compuseram o corpus de análise totalizando 118 palavras livremente evocadas quanto ao termo indutor 'ondas'.
A rede semântica contém os termos evocados com diferentes valores de índices de similaridades e frequências de ocorrências (Fr) nas estruturas centrais e periferias, onde computou-se 48 palavras únicas. Nota-se a presença de lexemas como 'mar' (Fr = 15), maior vértice da rede, 'praia' (Fr = 12) segunda palavra mais evocada, 'surf' (Fr = 6) e 'areia' (Fr = 4), indicando a ancoragem de representações do âmbito do universo consensual dos estudantes quanto a Ondas.
Assim como, a ocorrência de termos como 'som' e 'energia' (ambos com Fr = 8), 'mecânica' (Fr = 6) e 'rádio' (Fr = 4), expressando representações ancoradas do universo reificado do grupo. Tanto os termos mais consensuais quanto os validados pela lógica científica, são identificados simultaneamente na dinâmica das representações sociais presentes no núcleo central da rede.
Ainda é perceptível, pelas ligações de similaridade (arestas) 'mar'=='energia' (0.29), 'mar'=='mecânica' (0.25), 'praia'=='som' (0.25), a coexistência de ambos universos no núcleo das representações analisadas. Nota-se, também, pela relação entre os vértices 'mar'=='corda' (0.08), ainda que pequena, uma representação associada a meios de produção e propagação de
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ondas mecânicas. De forma análoga, também vemos em 'mar'=='sonora' (0.08), já que as ondas sonoras também precisam de um meio para se propagar.
Figura 1: Rede de similaridade com as representações de 'ondas'
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Pela ocorrência dos termos 'luz' (Fr = 2), 'eletromagnética' (Fr = 2) e 'microondas' (Fr = 1) percebemos a ancoragem de elementos da esfera reificada na estrutura periférica da rede, que possivelmente ocorreu pela pesquisa ter se desenvolvido enquanto os alunos estavam tendo contato com o assunto de 'espectro eletromagnético' no trimestre vigente. Também constata-se a presença de conceitos específicos da Física acerca da natureza das ondas, como 'velocidade' e 'movimento' (ambos com Fr = 1), na estrutura periférica do grafo.
Assim, notamos na estrutura central e nas periferias da rede semântica, tanto pela frequência quanto pelas ligações de similaridade, uma representação associada tanto ao universo reificado, menos prevalente neste estudo, quanto ao universo consensual. Isso indica que a apropriação de temas da Física, numa perspectiva sócio-psíquica, passa pelos processos de construção de uma representação, uma vez que os estudantes primeiramente ancoram novos temas a seu universo conhecido, buscando transformar o não-familiar em algo familiar. Por isso, as concepções cotidianas podem indicar não o elemento a ser combatido ou
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superado, mas sim o caminho natural rumo à formação de ideias compartilhadas que sejam cientificamente aceitas.
## 5. Considerações Finais
No presente trabalho, cuja pesquisa sucedeu-se como parte de um estudo de uma Iniciação Científica em uma universidade pública, teve como objetivo mapear e interpretar as Representações Sociais de estudantes da educação básica sobre o tema 'ondas', em uma sala de aula de Física. Os dados que constituíram o corpus de análise foram encarados sob a abordagem estrutural do referencial teórico, em uma rede complexa de natureza semântica, onde averiguamos a possível ancoragem de elementos quanto aos universos representacionais ditos reificados e consensuais.
Dessa forma, pudemos notar, pelos resultados indicados no grafo, estruturas que consistem com elementos corroborados pela lógica científica em conjunto e diretamente relacionados à representação de objetos familiares que estão no cotidiano dos alunos. A rede apresenta, por exemplo, a coexistência dos termos associados a ambos universos dada a dinâmica das representações, como vemos na frequência de evocação das palavras 'mar', 'praia' e 'surf', contrastando com termos como 'som', 'energia' e 'rádio', ambos presentes na estrutura do núcleo central da rede semântica.
Também observa-se esse indício pelas relações de similaridade entre esses vértices evocados. Percebemos isso com a presença do lexema 'mar' (palavra com maior frequência) associada a experiências dos estudantes com litorais, que na rede está fortemente ligado com conceitos científicos como 'mecânica', 'som' e 'energia', potencialmente ancorados devido aos assuntos tratados em sala de aula, apontando a presença desses universos representados neste grupo social.
Assim, mapear e analisar as representações sociais de grupos de alunos sobre temas da Física pode indicar um caminho aos professores acerca de como conciliar e trabalhar os conceitos dos âmbitos reificados e consensuais, para emergir planos de aulas que dialoguem com os elementos do universo consensual e do mundo concreto deles, aproximando-os e fazendo com que eles também tenham domínio do discurso validado cientificamente, prezando por um Ensino de Física mais adequado e satisfatório.
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