INTERSECÇÃO ENTRE A FÍSICA E A COZINHA: UMA ANÁLISE QUALITATIVA DO PROJETO “DA FÍSICA À COZINHA: CIÊNCIA ACESSÍVEL E DIVERTIDA ATRAVÉS DA CULINÁRIA"
Anna Carolina Rodrigues Yu, Lais Rodrigues Da Silva, Ricardo Fagundes Freitas Da Cunha
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 23/01/2025
- Linha de pesquisa
- Ensino, Aprendizagem E Avaliação Em Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## INTERSECÇÃO ENTRE A FÍSICA E A COZINHA: UMA ANÁLISE QUALITATIVA DO PROJETO 'DA FÍSICA À COZINHA: CIÊNCIA ACESSÍVEL E DIVERTIDA ATRAVÉS DA CULINÁRIA
Anna Carolina Rodrigues Yu 1 , Laís Rodrigues da Silva¹, Ricardo Cunha 2
- 1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro/ Departamento de Física aplicada e Termodinâmica/anna.carolina.yu@gmail.com/lais.silva@uerj.br
- 2 Colégio Pedro II /Departamento de Física/ ricardofagundes@cp2.g12.br
## Resumo
Este trabalho visa realizar uma análise qualitativa do projeto "Da Física à Cozinha: Ciência Acessível e Divertida Através da Culinária.", desenvolvido no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) e submetido no XXV simpósio Nacional de Ensino de Física. O estudo aqui desenvolvido tem o foco na investigação e análise das respostas dos alunos frente a um questionário aplicado em dois momentos: antes e após a realização de uma oficina sobre o tema. O público-alvo desta pesquisa foi uma turma noturna de um colégio federal do Rio de Janeiro, pertencente ao Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA). A condução dessa pesquisa qualitativa foi realizada por meio da análise de conteúdo. As respostas dos alunos foram analisadas e categorizadas em diferentes grupos, explorando aspectos como a vinculação ao ambiente da cozinha, experiências sociais, cotidianas e a conexão com a teoria. Ao longo do processo, avaliamos o impacto do ambiente escolar no estudo, considerando a dinâmica da sala de aula, interação entre os alunos e o modelo atual do nosso sistema educacional.
Palavras-chave : Ensino e Aprendizagem em Física, PROEJA, PIBID.
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## Introdução
- O trabalho desenvolvido e o projeto analisado fazem parte do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID). Este programa tem como propósito aprimorar a formação de licenciandos em Física, capacitando-os para uma educação embasada na compreensão do papel da ciência e tecnologia no cotidiano. Essa abordagem visa preparar os licenciandos para uma participação ativa em decisões sociais relevantes, especialmente diante do cenário pós-pandemia.
- O Programa PIBID permite que licenciandos tenham a oportunidade de participar das aulas na Educação Básica elaborando propostas diferenciadas. Neste projeto optamos pelas oficinas pedagógicas, que constituem uma metodologia de trabalho em grupo caracterizada pela 'construção coletiva de um saber, de análise da realidade, de confrontação e intercâmbio de experiências' (CANDAU, 1999, p. 23). O saber é construído ao longo do processo de aprendizagem, favorecendo a articulação entre diferentes níveis do ensino e tipos de saberes (o saber popular e o saber científico transmitido pela escola). Além disso, as oficinas pedagógicas promovem a interação interpessoal no ambiente escolar, criando espaços de ensino e aprendizagem dinâmicos e abertos, essenciais para uma escola inclusiva. A partir dessa abordagem podemos valorizar o diálogo entre professor-aluno visto que a proposição do diálogo é, no plano comunicacional, equivalente à proposição do ensino e da aprendizagem como um processo interativo de elaboração do conhecimento: quem ensina oferece um saber que deve estar aberto às transformações e criações promovidas por quem aprende. Para Freire:
Ela [a educadora democrática] sabe que o diálogo não apenas em torno dos conteúdos a serem ensinados, mas sobre a vida mesma, se verdadeiro, não somente é válido do ponto de vista do ato de ensinar, mas formador também de um clima aberto e livre no ambiente de sua classe. Falar com os educandos é uma forma despretensiosa, mas altamente positiva que tem a professora democrática de dar, em sua escola, sua contribuição para a formação de cidadãos e cidadãs responsáveis e críticos (FREIRE, 1998, p.87).
Sendo assim, o objetivo deste trabalho é investigar como o uso de oficinas pedagógicas aplicadas a contextos cotidianos, como o ambiente da cozinha, facilita a compreensão de conceitos de Física e promove uma correlação entre o conhecimento científico e a prática cotidiana. A pergunta de pesquisa que orienta este estudo é: De que forma as oficinas pedagógicas aplicadas ao cotidiano dos alunos promovem a compreensão de conceitos de Física e facilitam a relação desses conceitos com a prática cotidiana?
Para responder a essa pergunta e avaliar o impacto das oficinas pedagógicas no aprendizado dos alunos, estruturamos uma intervenção prática em três etapas. A metodologia adotada visa não apenas captar a evolução do entendimento dos conceitos físicos por parte dos estudantes, mas também investigar como esses conhecimentos se relacionam com suas experiências cotidianas. A seguir, detalharemos cada etapa da intervenção, os procedimentos adotados para coleta e análise dos dados, bem como as categorias utilizadas na análise das respostas dos alunos.
## Metodologia
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Neste trabalho abordamos a metodologia de construção e análise de dados qualitativos (BOGDAN e BIKLEN, 1994) por meio da Análise de Conteúdo (MORAES, 1999), permitindo uma exploração detalhada das respostas dos alunos em dois momentos: antes e após a realização da oficina. A intervenção foi aplicada em um colégio federal do Rio de Janeiro, em uma turma noturna do Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA), e foi dividida em três etapas:
- Primeira Etapa: Aplicação do questionário aberto com 5 questões exposto no quadro 01 para explorar as concepções dos alunos sobre temas de Física relacionados ao ambiente da cozinha;
- Segunda Etapa: Realização de uma oficina prática no laboratório de Física. Utilizando uma panela elétrica de arroz, os alunos observaram o processo de estourar pipoca, discutindo conceitos como pressão interna e ponto de ebulição. Além disso, foram abordados o cozimento em altitudes diferentes e a relação entre temperatura e pressão;
- Terceira Etapa: Reaplicação do questionário após um intervalo de duas semanas, a fim de compreender de que maneira a abordagem da oficina impactou no conhecimento científico dos alunos, além de examinar como ela facilitou a correlação desse conhecimento com suas experiências práticas cotidianas.
## Quadro 01: Questionário aberto.
- 1. O que você entende por pressão?
- 2. Quais são algumas situações em que a pressão é sentida ou notada?
- 3. Cite alguns exemplos da aplicação prática da pressão na sua cozinha.
- 4. Você observa relação entre pressão e temperatura quando você prepara sua comida? Se sim, qual a relação entre elas?
- 5. Em que situações você aplica seu conhecimento científico, aprendido na escola, no seu dia a dia?
Fonte: Os autores.
## Sobre a Análise de conteúdo
Segundo Moraes (1999), a análise de conteúdo requer a observância de cinco etapas: a preparação das informações, a unitarização ou transformação do conteúdo em unidades, a categorização ou classificação dessas unidades em categorias, a descrição e a interpretação.
A fase inicial, de preparação das informações, envolve a elaboração e aplicação de questionários aos estudantes do PROEJA. Já a unitarização do conteúdo refere-se ao isolamento de cada uma das respostas coletadas na primeira etapa. Cada frase das respostas é analisada separadamente e, uma vez isoladas, são
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categorizadas individualmente. Nesse processo de criação de categorias, observa-se que:
A amplitude e precisão das categorias estão diretamente ligadas ao número de categorias: em geral, quanto mais subdivididos os dados e quanto maior o número de categorias, maior a precisão da classificação. Entretanto é preciso ter em consideração que um número grande de categorias pode introduzir dificuldades de compreensão. O objetivo básico da análise de conteúdo é produzir uma redução dos dados de uma comunicação, o que, em geral, exigirá um número reduzido de categorias (MORAES, 1999, p. 6-7).
Moraes (1999) ressalta que a criação de categorias e, especialmente, a associação clara das falas a essas categorias são as partes mais delicadas do processo. Poucas categorias podem empobrecer a análise, enquanto um excesso delas dificulta a associação das frases à sua classificação. O número correto de categorias deve ser identificado para garantir precisão à pesquisa. Categorias podem ser criadas a priori ou a partir dos dados extraídos, obedecendo a critérios como validade, exaustividade, homogeneidade, exclusão mútua e objetividade. Para facilitar a identificação, cada categoria deve conter um texto síntese que expresse os significados das frases nela inseridas. Posteriormente, realiza-se uma descrição das categorias. A interpretação dos dados, a partir dessa descrição, permite obter informações sobre aspectos da conversação e da aprendizagem dos estudantes.
## Resultados
Neste estudo, exploramos as respostas dos alunos em relação ao seu entendimento do conceito de pressão e suas aplicações. Examinamos as respostas dos alunos em dois momentos distintos: antes e após a realização da oficina. Os dados coletados por meio desse questionário formam a base da nossa análise, permitindo-nos avaliar possíveis mudanças nas respostas dos alunos após a intervenção da oficina. 31 alunos responderam a primeira aplicação do questionário e 18 responderam no segundo momento, após a oficina. Ao todo obtivemos 49 respostas e identificamos 136 citações divididas em 5 categorias. Na primeira aplicação do questionário identificamos cinco categorias, enquanto na segunda observamos três categorias, que também estavam presentes anteriormente. Essa diferenciação nos permite analisar as variações nas respostas dos alunos ao longo do tempo, destacando as possíveis influências da oficina na percepção e compreensão do conteúdo abordado.
A tabela 1 apresenta as categorias desenvolvidas na análise e a frequência de citações relacionada a cada uma.
Tabela 1 - Categorias e Frequências
Fonte: Autores
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Apresentaremos a seguir a descrição de cada categoria, relacionando a frequência de citações e apresentando um exemplo retirado dos questionários. Essa descrição nos auxilia a refletir sobre os conceitos desenvolvidos antes e depois da oficina pedagógica realizada.
## Contextualização no Ambiente Culinário
Nesta categoria obtivemos 29 citações no questionário 1 e 50 no questionário 2. A mesma engloba citações em que os alunos estabelecem conexões diretas entre os conceitos físicos abordados e o ambiente da cozinha ou o ato de cozinhar.
'A pressão alta dentro da panela melhora o cozimento com menos tempo' (questionário 2)
## Vínculos Socioculturais
Nesta categoria obtivemos 12 citações no questionário 1 e 5 citações no questionário 2. Compreende respostas que exploram aspectos sociais e vivências dos alunos. Inclui reflexões que vão além do contexto físico, incorporando influências sociais, culturais e interpessoais em suas percepções sobre os conceitos discutidos.
'Quando está chegando o final do mês e o dinheiro acabou" (questionário 1)
## Cotidiano em Perspectiva
Nesta categoria obtivemos 10 citações no questionário 1 e 4 citações no questionário 2. Esta categoria engloba respostas fundamentadas em experiências cotidianas e inclui elementos presentes no dia a dia dos alunos, como objetos em casa, conteúdos vistos na televisão e outros elementos que compõem suas rotinas habituais.
'Chuveiro, abrindo pouco ele a água fica muito quente" (questionário 1)
## Conexão Teórica
Nesta categoria obtivemos 18 citações no questionário 1 e nenhuma no questionário 2. Envolve respostas que buscam conectar as informações discutidas na atividade com teorias e definições da física. Os alunos tentam estabelecer uma ligação conceitual mais abstrata
'Pressionado para mudança de estado físico' (questionário 1)
## Relevância Prática e Aplicação
Nesta categoria obtivemos 8 citações no questionário 1 e nenhuma no questionário 2. Abrange respostas relacionadas à pergunta sobre a aplicação prática do conteúdo abordado. Inclui perspectivas sobre a relevância do conhecimento no dia a dia, seja expressando aplicação parcial, inexistente ou restrita a contextos específicos.
'Não aplico em nada no meu dia a dia" (questionário 1)
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## Considerações Finais
- O desenvolvimento da oficina, com uma abordagem prática e aplicável, despertou o interesse dos alunos, gerando grande participação e entusiasmo durante os experimentos e atividades.
No primeiro questionário, notamos uma ampla variedade de categorias e respostas heterogêneas. Entretanto, apesar de os alunos terem sido informados de que suas respostas não seriam avaliadas, que não haveria pontuação envolvida e de que o questionário era anônimo, observou-se que os alunos hesitaram ao compartilhar suas opiniões devido à percepção do questionário como mais uma avaliação institucional. Essa visão provocou uma pressão subjacente para fornecer respostas consideradas "corretas". A sensação de que suas opiniões seriam avaliadas segundo critérios acadêmicos sugere uma inclinação à conformidade e ao desejo de oferecer respostas tidas como "certas" no ambiente escolar. Isso levanta indagações sobre a liberdade dos alunos para se expressarem autenticamente e até que ponto isso realmente contribui para o desenvolvimento de seus sensos críticos.
No segundo questionário, pós-oficina, notamos uma padronização e formalização nas respostas dos alunos, indicando que a oficina influenciou a forma como os alunos percebem os conceitos físicos. Essa influência, retratada nas respostas, apresenta aspectos positivos e negativos: os alunos estabeleceram mais vínculos entre os conceitos físicos, o ambiente da cozinha e as atividades da própria oficina, porém a ausência de respostas nas categorias de "Conexão Teórica" e "Relevância Prática e Aplicação" sugere uma concentração no contexto prático e imediato da cozinha, possivelmente reduzindo o foco em abstrações teóricas e generalizações práticas.
Esse resultado levanta hipóteses sobre a dinâmica da oficina: a atividade prática e concreta pode ter gerado uma compreensão restrita ao contexto da cozinha, limitando a transferência do conhecimento para outros cenários cotidianos. A oficina cumpriu seu objetivo ao estimular o vínculo com o ambiente culinário, mas indica a necessidade de repensar a abordagem para incluir discussões que ampliem a conexão teórica e a relevância prática do conteúdo em outros contextos.
Outro ponto de reflexão está na estratégia adotada para a construção de dados. O uso de pré-teste e pós-teste possibilita observar mudanças pontuais das respostas dos alunos, mas não captura a dinâmica do processo de aprendizagem. Essa abordagem evidencia alterações imediatas nos estudantes antes e depois da oficina, entretanto, não reflete transformações mais sutis e duradouras em suas concepções. Uma hipótese é que uma entrevista semiestruturada com um grupo focal possa revelar dados pertencentes às categorias 'Conexão Teórica' e 'Relevância Prática e Aplicação'.
Diante dos resultados obtidos, pretende-se dar continuidade à investigação, explorando práticas educativas que aprofundem as conexões teóricas e a relevância prática dos conteúdos trabalhados, para além dos contextos imediatos.
## Referências
BOGDAN, Robert; BIKLEN, Sari. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Portugal: Porto Editora, 1994. 336p.
CANDAU, V. M., ZENAIDE, M. N. T. Oficinas Aprendendo e Ensinando Direitos Humanos , João Pessoa: Programa Nacional de Direitos Humanos;
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Secretaria da Segurança Pública do estado da Paraíba; Conselho Estadual da Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão, 1999. 118p.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 75. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2019. 144p.
MORAES, Roque. Análise de conteúdo. Revista Educação , v. 22, n. 37, p. 732, 1999.
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