ENTRE VOZES E DISCURSOS: A INTERAÇÃO DIALÓGICA EM 'A DANÇA DO UNIVERSO' E A RELAÇÃO CIÊNCIA-IGREJA
Yasmin Campos Sales, Guilherme Da Silva Lima
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 23/01/2025
- Linha de pesquisa
- Divulgação Científica E Práticas Educativas Em Espaços Educativos Formais, Informais E Não Formais E O Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ENTRE VOZES E DISCURSOS: A INTERAÇÃO DIALÓGICA EM 'A DANÇA DO UNIVERSO' E A RELAÇÃO CIÊNCIA-IGREJA
## Yasmin Sales 1 , 1, Guilherme Lima 2
- 1 Universidade Federal de MInas Gerais/Departamento de Física, ysnsaless@gmail.com
- 2 Universidade Federal de MInas Gerais/Departamento de Física, guilima@ufmg.br
## Resumo
Este trabalho analisa a obra "A Dança do Universo" de Marcelo Gleiser sob a perspectiva da dialogia de Bakhtin, explorando a interação entre ciência e religião. A pesquisa examina como Gleiser aborda a resposta da Igreja ao heliocentrismo e às descobertas de Galileu, revelando contradições e possíveis vieses na representação histórica. A metodologia da pesquisa envolveu uma análise textual crítica e a aplicação do conceito de dialogia para entender as diferentes vozes presentes no discurso de Gleiser. Isso permitiu uma avaliação mais profunda das interações entre as perspectivas científicas e religiosas, revelando como a narrativa de Gleiser pode refletir um viés específico. Este trabalho oferece uma visão mais crítica da relação entre ciência e religião, destacando a importância de considerar múltiplas perspectivas na construção da narrativa histórica e científica. A análise evidencia como a representação das vozes científicas e religiosas pode influenciar a compreensão dos conflitos históricos e das respostas institucionais às novas teorias.
Palavras-chave : Divulgação científica, dialogia, Bakhtin
## Introdução
A divulgação científica desempenha um papel crucial na sociedade contemporânea, ao servir como ponte entre o conhecimento científico e o público em geral. Em um cenário onde a comunidade cobra uma retribuição social dos cientistas, a divulgação científica emerge como uma forma essencial de retorno ao investimento público feito na ciência. No entanto, a eficácia dessa comunicação depende de uma combinação de competências, especialmente o domínio do conteúdo científico e a capacidade de torná-lo acessível ao público.
Neste contexto, este trabalho propõe uma análise de A Dança do Universo, de Marcelo Gleiser, uma obra de destaque na divulgação científica no Brasil e vencedora do Prêmio Jabuti de Melhor Ensaio e Biografia em 1998. O prefácio do livro indica que a obra busca explorar as grandes questões sobre a origem do Universo, tornando acessíveis os conceitos complexos da física contemporânea sem o uso de fórmulas complicadas. O autor analisa tanto os mitos de criação de diferentes culturas quanto às teorias científicas modernas, revelando semelhanças e diferenças entre esses enfoques na busca pela compreensão da origem de tudo. (Gleiser, 1997).
Além disso, em 2019, Gleiser foi vencedor do Prêmio Templeton, um prestigiado reconhecimento internacional concedido pela Fundação John Templeton desde 1973, que celebra a interseção entre ciência, religião e espiritualidade, destacando contribuições excepcionais para a compreensão das dimensões espirituais da vida.
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
Para a análise, este trabalho baseia-se nas contribuições do Círculo de Bakhtin, especialmente nos estudos de Volochinov, Bakhtin e seus comentadores, com o objetivo de examinar como a divulgação científica é estruturada e como diversas vozes e perspectivas interagem no texto para gerar novos sentidos. A análise busca aprofundar a compreensão da divulgação científica como um campo de comunicação complexo e dinâmico, em que a interação entre discursos distintos é essencial para estabelecer um diálogo com o público e popularizar o conhecimento científico e tecnológico.
## Referencial teórico
O círculo (de Bakhtin) foi composto por um grupo de intelectuais e artistas formado em Leningrado entre os anos de 1924 e 1926, que produziu obras fundamentais para os campos da literatura, arte, poética, linguística e filosofia. Este trabalho focou em alguns conceitos específicos para compreender a existência e dinâmica das vozes presentes na obra de Gleiser.
Para o Círculo, a língua não deve ser compreendida como um sistema estático ou unidirecional, mas sim como um fenômeno dinâmico e dialógico surgido das relações sociais existentes. Ele sustenta que todas as formas de linguagem, independentemente do contexto, são essencialmente dialógicas. Isso implica que, em qualquer enunciado ou discurso, ocorre uma interação constante com outras vozes, palavras e perspectivas.
O conceito de dialogia, segundo essa perspectiva, vai além do diálogo direto entre pessoas, sendo uma característica essencial da linguagem que garante a continuidade da comunicação verbal (Bakhtin, 2010). Isso implica que cada enunciado está sempre em contato com discursos anteriores. Segundo Lima e Giordan (2017), a dialogia opera em duas dimensões: na relação discurso-objeto, onde o tema já foi discutido anteriormente, e na relação discurso-réplica, onde o enunciado é direcionado ao entendimento do outro. Mesmo ao falar ou escrever sozinho, o indivíduo é influenciado por vozes e discursos prévios, constituindo o "dialogismo" como a constante presença do discurso alheio em cada enunciado.
As vozes do discurso, por sua vez, são as diferentes perspectivas e ideologias que permeiam e influenciam a comunicação. Elas não são apenas as falas dos interlocutores presentes, mas incluem também as vozes ausentes, representadas pelas ideias e conceitos de outros tempos e espaços. Essas vozes interagem e se entrelaçam, criando um discurso que é sempre plural, nunca unívoco.
Segundo Bakhtin, essa interação entre diferentes discursos é fundamental para a compreensão da linguagem e da comunicação. Ele argumenta que nenhum discurso é totalmente autônomo; todos são moldados e influenciados pelo contexto social, cultural e histórico em que ocorrem. Portanto, o dialogismo é uma característica essencial da linguagem, que se manifesta nas relações de sentido estabelecidas entre diferentes enunciados.
Assim, na obra de Gleiser, a presença de múltiplas vozes - sejam elas da ciência, religião ou mitologia -exemplifica a natureza dialógica do conhecimento humano, onde diferentes perspectivas se encontram e se confrontam na busca para entender o universo.
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## Metodologia
Com o intuito de analisar a interação entre diferentes vozes na divulgação científica foi selecionado livro 'A dança do universo' de Marcelo Gleiser. A escolha do livro foi realizada tendo em conta que é um livro contemplado pelo principal prêmio literário brasileiro (Jabuti), associado ao fato de Gleiser ser um dos divulgadores científicos brasileiros mais famosos.
No estudo da obra "A Dança do Universo" de Marcelo Gleiser, foi empregada uma metodologia da análise do discurso a partir do conceito de dialogia de Bakhtin. A metodologia envolveu uma leitura atenta do livro, com destaque para as seções que revelavam a interação de diferentes vozes. Esta abordagem permitiu identificar como diferentes perspectivas, além da científica, são integradas no discurso.
Os procedimentos adotados nos permitiram identificar diversas vozes presentes na obra. Selecionamos especialmente um caso envolvendo Galileu Galilei para aprofundar a análise. Buscamos, analisar tomando como unidade o enunciado, tal como postulado por Volóchinov (Lima e Giordan, 2017).
## Sobre a interação entre ciência e religião
Para melhor contextualização é importante ressaltar que a opinião do autor do livro é que a busca humana para entender a origem do Universo é uma jornada universal que une diferentes culturas e abordagens, desde mitos de criação antigos até teorias científicas modernas. Gleiser argumenta que, apesar das diferenças de linguagem e abordagem entre ciência e religião, ambos os campos frequentemente exploram questões semelhantes sobre a origem e o propósito do cosmos. O autor enfatiza que, embora a percepção humana da realidade seja limitada por uma visão polarizada, tanto os mitos quanto as teorias científicas oferecem perspectivas valiosas sobre o mistério da Criação.
'Embora ciência e religião abordem a questão da origem do Universo com enfoques e linguagens que têm pouco em comum, certas idéias forçosamente reaparecem, mesmo que vestidas em roupas diferentes. Portanto, este livro começa com uma análise dos mitos de criação de várias culturas, e termina com uma discussão paralela de idéias científicas modernas sobre a origem do Universo. Ao apresentar uma classificação geral de mitos de criação e de teorias cosmológicas baseada em como essa questão é abordada por ambos, espero esclarecer tanto as semelhanças como as diferenças entre o enfoque religioso e o científico.' (Gleiser, 1997, p. 12)
Ele também destaca que a religião teve um papel crucial na motivação e no desenvolvimento das ideias científicas ao longo da história, com cientistas importantes integrando elementos religiosos em suas descobertas e teorias.
'Este livro é também sobre as pessoas responsáveis pelo desenvolvimento da nossa visão do Universo, visão esta que está sempre em constante evolução. Não só explicarei as idéias desses vários indivíduos, mas também explorarei suas motivações, sucessos e lutas travadas no desenrolar desse longo drama. Como veremos, a religião teve (e tem!) um papel crucial no processo criativo de vários cientistas.' (Gleiser, 1997, p. 12)
- O livro inicia explorando mitos de criação de diversas culturas, ressaltando a universalidade do questionamento humano sobre a origem do Universo. Gleiser argumenta que, apesar das diferenças culturais, esses mitos compartilham questões
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fundamentais com as teorias cosmológicas modernas, conectando o fascínio religioso pela Criação ao impulso criativo da ciência. Ele sugere que a pesquisa científica é impulsionada não apenas pela lógica e objetividade, mas também por um profundo encantamento com a Natureza, semelhante ao entusiasmo das artes. Além disso, Gleiser traça uma linha histórica desde a Grécia Antiga, onde ciência e religião coexistiam como aspectos complementares na busca pelo conhecimento, refletindo uma visão integrada da realidade que influenciou o pensamento científico e filosófico subsequente.
'Pitágoras e sua seita forjaram uma profunda síntese entre filosofia e religião, entre o racional e o místico, que é sem dúvida uma das maiores façanhas do conhecimento humano.' (Gleiser, 1997, p. 53)
'Para que possamos entender a incrível reputação de Pitágoras, devemos examinar suas idéias isentando-as de noções modernas que condenem como absurda qualquer relação entre misticismo e ciência.' (Gleiser, 1997, p. 54).
A interação entre religião, mito e ciência evidenciada por Gleiser exemplifica o conceito de dialogia, onde diversas vozes e perspectivas convergem sob o mesmo objeto discursivo: a origem do universo. Essa conexão não apenas mostra que essas vozes interagem e se complementam na tentativa de entender a existência, mas também exemplifica o conceito de discurso-objeto. A origem do universo não é abordada de forma isolada, mas como um tema carregado por várias interpretações ao longo da história. A dialogia se manifesta justamente nessa sobreposição de discursos, em que cada nova análise ou teoria se insere em uma longa tradição de pensamento, reafirmando que a busca pelo entendimento do cosmos é um diálogo contínuo entre diferentes épocas, culturas e perspectivas. O posicionamento valorativo evidenciado no enunciado, ofusca as rupturas e contradições existentes entre essas concepções -para a maioria das crenças a aceitação de uma interpretação diferente não era aceita, pelo contrário era reprimida. Assim, ainda que houvesse uma tentativa de diversos grupos sociais de compreender a origem do universos, essas compreensões não estavam em planos colaborativos, mas de concorrência. Assim, o posicionamento valorativo de contribuições mútuas parece desconsiderar a própria história da humanidade.
## Análise o caso de Galileu
No início da segunda parte do livro, Gleiser apresenta uma visão da transição da Idade Média, descrevendo-a como um período marcado por um dogmatismo teológico que distanciou o conhecimento científico das tradições da Antiguidade. Segundo o autor, a mentalidade medieval permaneceu, por séculos, presa a uma visão rígida e dogmática que rejeitava as descobertas das civilizações grega e romana. Sob a influência de Santo Agostinho, que fundiu o platonismo com a teologia cristã, o pensamento científico foi desvalorizado e substituído por interpretações bíblicas sobre a natureza do cosmos. Gleiser contextualiza essa ruptura como uma consequência do colapso do Império Romano e da ascensão da Igreja como força estabilizadora. Com o cristianismo consolidado como a nova fé dominante, a Igreja teria condenado o estudo da natureza como pagão e corruptor da virtude cristã, promovendo uma visão que relegava a ciência a um papel secundário em relação à teologia e à moral religiosa.
Nesse contexto, Gleiser introduz Copérnico como um "herói relutante," alguém que, apesar de suas ideias revolucionárias sobre o modelo heliocêntrico,
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hesitou em divulgá-las amplamente, temendo críticas e represálias religiosas. Ele descreve Copérnico como um "revolucionário conservador," cuja motivação estava menos em desafiar a Igreja e mais em corrigir as falhas no modelo ptolomaico, retomando elementos das doutrinas pitagóricas e da cosmologia de Aristarco. Gleiser ressalta que, ao colocar o Sol no centro do Universo, Copérnico buscava uma estrutura que se alinhava aos princípios platônicos, mas que acabaria por abrir caminho para uma visão de mundo que ele próprio jamais imaginou causar uma revolução científica.
'Copérnico é, talvez, o mais famoso desses relutantes herois da história da ciência. Ele foi o homem que colocou o Sol de volta no centro do Universo, ao mesmo tempo fazendo de tudo para que suas ideias não fossem difundidas, possivelmente com medo de críticas ou perseguição religiosa. Foi quem colocou o Sol de volta no centro do Universo, motivado por razões erradas.' (Gleiser, 1997, p. 100)
Acreditamos, no entanto, que o livro simplifica o contexto histórico, e há a necessidade de recorrer a outras fontes para uma análise mais aprofundada da história das ciências nesse período, como destaca Martins (2001). Além disso, segundo Cardoso (2019), essa visão também ignora o papel dos estudos árabes e islâmicos, que preservaram e expandiram conhecimentos antigos durante a Idade Média. Cardoso destaca que documentos históricos sugerem que Copérnico teve acesso a manuscritos de origem árabe que influenciaram o desenvolvimento de seu modelo heliocêntrico. Esses dados sugerem que o renascimento da investigação científica na Europa não se deu de forma isolada e que Copérnico, embora importante, foi parte de um processo mais amplo de transformações intelectuais, marcadas pelo intercâmbio com outras culturas.
No que se refere à visão do livro sobre Copérnico, Gleiser afirma que o trabalho do astrônomo, apresentado no Commentariolus , não enfrentou perseguições religiosas nem críticas significativas por parte de superiores eclesiásticos. Segundo ele,
'Copérnico não sofreu nenhuma perseguição religiosa ou mesmo críticas de colegas por causa das idéias avançadas no Commentariolus . A evidência acumulada mostra que seu texto não provocou nenhuma reprimenda de superiores eclesiásticos nem nenhuma reação maior nos meios acadêmicos. Mais do que qualquer outra coisa, Copérnico gozou de certa fama após a circulação de seu manuscrito.' (Gleiser, 1997, p. 105).
Gleiser ainda argumenta que em 1532, o secretário pessoal do papa Leão X apresentou um seminário sobre o trabalho de Copérnico para uma audiência no Vaticano, onde suas ideias foram consideradas positivas. Também é dito que na realidade a Igreja só se posicionou oficialmente contra a visão heliocêntrica em 1615, devido à disputa de Galileu com os aristotélicos, muito após a morte de Copérnico:
'Essa não é a atitude de uma Igreja disposta a reprimir novas idéias sobre o cosmo. De fato, a Igreja só será forçada a adotar uma posição oficial com relação ao arranjo do cosmo em 1615, devido à guerra declarada por Galileu contra o universo geocêntrico dos aristotélicos. ' (Gleiser, 1997, p. 106).
Vale ressaltar que o livro de Copérnico foi enviado para a publicação em 1541, publicado em 1543 mesmo ano de sua morte. Gleiser ainda destaca que o livro de Copérnico enfrentou uma traição significativa: Andreas Osiander, sem o consentimento de Copérnico, adicionou um prefácio anônimo que descrevia as ideias heliocêntricas como meras hipóteses matemáticas, não como verdades. Rheticus, discípulo de Copérnico, enfrentou diversos obstáculos ao tentar publicar
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as descobertas de seu mestre. Forçado a se mudar para Leipzig devido a rumores sobre sua homossexualidade, ele não pôde supervisionar a impressão do manuscrito até o final. Em sua ausência, Osiander, um teólogo luterano responsável pela supervisão, adulterou o prefácio da obra. Já debilitado por um derrame, Copérnico não pôde reagir, e essa distorção de sua teoria permaneceu por décadas, até ser finalmente revelada por Kepler em 1609 (Gleiser, 1997, p. 108).
Entretanto, alguns fatos importantes devem ser destacados. A Inquisição, inicialmente estabelecida para combater heresias dentro da Igreja Católica, teve suas bases formalizadas com a bula Ad abolendam do Papa Lúcio III em 1184, cerca de 400 anos antes do trabalho de Galileu. A partir do século XIII, a Inquisição Medieval se expandiu pela Europa, criando tribunais encarregados de investigar, julgar e punir aqueles considerados hereges. A criação da Inquisição Espanhola em 1478 pelos Reis Católicos intensificou ainda mais a repressão, com o objetivo de garantir a ortodoxia religiosa na Espanha (Pinto, 2010). Nesse contexto, surgem figuras como Roger Bacon (c. 1214-1294), um frade franciscano que foi supostamente perseguido por suas ideias inovadoras, que desafiavam as autoridades eclesiásticas, especialmente por sua crença na observação empírica como base do conhecimento (Crowley, 2024). Além disso, apesar de uma atitude aparentemente "positiva" em relação a Copérnico, é importante lembrar que outro livro do autor, De revolutionibus orbium coelestium, foi incluído no Index, a lista de livros proibidos pela Igreja Católica, em 1616 (Britannica, 2024).
Mas, Gleiser afirma que a Igreja não se opôs às novas ideias sobre o cosmos antes do caso de Galileu, e atribui outro motivo à execução de Giordano Bruno, um fervoroso defensor do heliocentrismo e das ideias sobre a infinitude do universo. Embora o autor reconheça a execução de Bruno como uma forma de perseguição religiosa, ele argumenta que a causa principal foi a ousadia de Bruno em questionar a autoridade da Igreja em questões de interpretação teológica, e não suas ideias cosmológicas:
'A execução na fogueira do filósofo Giordano Bruno, em 1600, é um triste testemunho da seriedade com que a Igreja encarava sua guerra contra a suposta heresia. Os problemas de Bruno foram causados mais por sua coragem de duvidar da autoridade da Igreja em questões de interpretação teológica do que pela sua crença num Universo infinito, povoado por um número infinito de mundos como o nosso. Mesmo que suas especulações cosmológicas e seu apoio às idéias de Copérnico tenham sido sem dúvida pioneiros, para a Igreja o maior perigo estava em suas idéias sobre a transubstanciação, a Santíssima Trindade e a substancialidade da alma humana, que precisavam ser silenciadas. Bruno morreu um apóstata impenitente, símbolo eterno da coragem do espírito humano contra a repressão cega.' (Gleiser, 1997, p. 136).
Nesse sentido, o autor mantém sua perspectiva de que a Igreja não tinha uma posição oficial contra o heliocentrismo antes dos 'ataques' de Galileu:
'Um dos fatores mais curiosos desse episódio é que, antes dos ataques frontais de Galileu, a Igreja não tinha uma posição oficial com respeito ao arranjo dos céus. O livro de Copérnico não foi posto no índice até 1616, e mesmo assim ele não foi proibido, mas apenas 'corrigido'; algumas frases que defendiam a realidade do modelo heliocêntrico (ao contrário de ser mera hipótese) foram removidas, assim como referências à Terra como sendo uma 'estrela'. Embora seja comum representar Galileu como um dos grandes mártires na luta pela liberdade de expressão e a Igreja como o vilão intolerante, a verdade (ao menos o que podemos concluir, dada a evidência existente e as interpretações em conflito) é bem mais sutil. (...)
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Os conflitos que acabaram por levar ao julgamento de Galileu pela Inquisição começaram apenas após o desafio aberto lançado por ele contra a hegemonia da Igreja. Convencido por suas notáveis descobertas astronômicas, Galileu declarou que o modelo ptolomaico do Universo era insustentável. Motivado por sua enorme ambição pessoal e por uma sincera dedicação à Igreja, Galileu nomeou-se a nova estrela guia da Igreja, o único homem capaz de explicar para as autoridades eclesiásticas qual era o verdadeiro arranjo dos céus, mesmo que este contrariasse a interpretação oficial das escrituras sagradas. Galileu queria não só expor publicamente a estupidez dos professores de filosofia (ele com freqüência usava a palavra estúpido ao referir-se aos aristotélicos), como também explicar aos teólogos cristãos como interpretar as escrituras sagradas. Essa afronta, a Igreja católica não podia tolerar. Os tempos certamente não eram propícios para desafiar a autoridade da Igreja em questões envolvendo interpretação teológica, ainda mais sendo o desafiante um mero filósofo. ' (Gleiser, 1997, p. 137)
Mas por que associar a ação da Igreja a uma defesa reativa e não ao fato de que a repressão instaurada pela Inquisição se intensificou ao longo do tempo? A Igreja, ao longo de séculos, construiu um aparato repressivo que não tolerava desvios da ortodoxia estabelecida, como demonstrado nos casos de Roger Bacon e Giordano Bruno. Esses exemplos evidenciam que a censura a novas ideias, especialmente aquelas que contradiziam e ameaçavam o status quo intelectual e religioso, já estava profundamente enraizada.
A atribuição de parte da culpa ao comportamento do cientista é um exemplo claro de como a voz da religião está envolvida na construção de um discurso que reflete diferentes perspectivas sobre um mesmo tema. Ao destacar a teimosia de Galileu como um fator que contribuiu para o seu julgamento, Gleiser, ainda que de forma sutil, incorpora a perspectiva da Igreja, que historicamente buscou justificar suas ações contra aqueles que desafiavam sua autoridade. Essa narrativa, que relativiza a responsabilidade da Igreja ao focar nas ações de Galileu, ecoa a própria retórica eclesiástica, que sempre procurou desviar a atenção de sua repressão sistemática às ideias contrárias. Dessa forma, o discurso de Gleiser não apenas relata os eventos, mas também reflete as múltiplas vozes presentes no debate histórico entre ciência e religião, onde a voz da Igreja é apropriada no sentido de culpar o oprimido (Galileu) e não o opressor (Igreja).
## Considerações finais
A análise da obra 'A Dança do Universo' sob a perspectiva da dialogia de Bakhtin revela a complexidade das interações entre ciência e religião na obra e destaca a presença de múltiplas vozes no discurso de divulgação científica. Marcelo Gleiser, ao explorar a resposta da Igreja às ideias heliocêntricas e às descobertas de Galileu, oferece uma visão que, embora informada e bem fundamentada, também reflete certas inclinações e vieses. O estudo evidenciou que a atribuição de parte da culpa ao comportamento de Galileu pode ser interpretada como uma influência da voz religiosa que busca justificar a postura repressiva da Igreja ao longo dos séculos.
- O conceito de dialogia permitiu uma avaliação mais profunda das diversas perspectivas presentes na obra de Gleiser, mostrando como diferentes vozes interagem e se entrelaçam para moldar a compreensão dos conflitos históricos e das respostas institucionais. A pesquisa revelou que, ao enfatizar a teimosia de Galileu, Gleiser ecoa a retórica histórica da Igreja, que procurou desviar a responsabilidade de sua repressão sistemática.
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Este trabalho reforça a importância de uma abordagem crítica na análise de textos de divulgação científica, enfatizando que as narrativas sobre a interação entre ciência e religião não são isentas de influências e perspectivas variadas. Considerar essas múltiplas vozes é fundamental para uma compreensão mais completa e equilibrada dos eventos históricos e das suas implicações para o diálogo entre ciência e religião.
## Referências
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BAKHTIN, M. Questões de Literatura e de Estética (A teoria do romance) . Tradução de Aurora Fornoni Bernardini, José Pereira Junior, Augusto Góes Júnior, Helena Spryndis Nazáro e Homero Freitas de Andrade. (6a ed.). São Paulo: Hucitec, 2010.
Britannica, The Editors of Encyclopaedia. "Index Librorum Prohibitorum". Encyclopedia Britannica, 10 Jul. 2024. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Index-Librorum-Prohibitorum. Acesso em 3 de setembro de 2024.
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