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PROCESSOS DE PERMANÊNCIA, SELETIVIDADE E EVASÃO NA PERSPECTIVA DA DIFERENÇA

João Paulo Ramos De Moraes, Carolina Rodrigues Souza

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
23/01/2025
Linha de pesquisa
Diversidade, Inclusão E Direitos Humanos No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## PROCESSOS DE PERMANÊNCIA, SELETIVIDADE E EVASÃO NA PERSPECTIVA DA DIFERENÇA

## João Paulo Ramos de Moraes 1 , Carolina Rodrigues Souza 2

1 UFSCar, PPGE-UFSCar, jp.ramos@live.com

2 UFSCar, PPGE-UFSCar, carolinasouza@ufscar.br

## Resumo

Este trabalho trata-se de um ensaio teórico que visa ampliar as discussões a respeito de permanência e evasão no campo de Licenciatura em Física. Explorações sobre problemáticas e possíveis soluções para o problema das altas taxas de desistência presente na formação em Física são recorrentes na literatura acadêmica e, apesar disso, poucos avanços são registrados. Buscamos então, neste trabalho, propor uma mudança de chave de pensamento, que não propõe-se a solucionar o problema de evasão, mas tratá-lo a partir das lentes teóricas da Diferença. A partir de uma leitura de como operam os processos de produção de subjetividade ao longo do processo formativo, somos capazes de problematizar a manutenção de uma subjetividade individualizada cultuada nos departamentos de Física, para, então, propormos uma saída a partir do conceito de Corpo Dissidente, um corpo que busca operar por outras chaves que não a hegemonia individualizante cultivada nos departamentos e assim, talvez, pensar um processo formativo outro, bem como pensar os processos de permanência através dos que permanecem no curso, mesmo diante das adversidades.

Palavras-chave : Produção de Subjetividade, Evasão, Diferença.

## PROCESSOS DE PERMANÊNCIA, SELETIVIDADE E EVASÃO NA PERSPECTIVA DA DIFERENÇA

O presente trabalho tem como objetivo explorar algumas nuances teóricas presentes no campo de estudo que trata sobre a evasão e permanência nos cursos de Licenciatura em Física no contexto brasileiro. Esse trabalho trata-se de um fragmento das discussões presentes na pesquisa de mestrado do autor.

A evasão universitária nos cursos de Licenciatura em Física é um fenômeno preocupante, com taxas alarmantes que variam entre 75% e 90%, conforme apontam diversas pesquisas recentes (SOUZA, 2019; PAZ, 2016; OLIVEIRA, 2020a; LIMA, 2012). Apesar da gravidade do problema, as respostas institucionais têm sido limitadas, com uma tendência das coordenações de curso a adotarem uma postura naturalizante e fatalista em relação ao fenômeno, conforme problematizado por Oliveira (2020a). Essa perspectiva é particularmente preocupante, considerando que a evasão não é um processo inevitável, mas sim o resultado de uma série de fatores que poderiam ser mitigados com intervenções adequadas.

Entre os principais fatores que contribuem para a evasão, destacam-se as dificuldades financeiras enfrentadas pelos estudantes, que frequentemente precisam conciliar trabalho e estudos, o que pode levar a situações de estresse ou burn-out (KUSSUDA, 2017; SIMÕES, 2018; TINTO, 1975; PAZ, 2016). Além disso, a atuação dos professores, a qualidade da relação professor-aluno, a ênfase na pesquisa em detrimento do ensino e a falta de infraestrutura adequada também são

citados como fatores determinantes para a evasão (MICHA et al., 2018; RIBEIRO, 2015; SILVA, 2018; OLIVEIRA, 2020a). Esses elementos evidenciam a necessidade urgente de uma reflexão crítica e de ações concretas por parte das instituições para reverter esse quadro e garantir melhores condições de permanência para os estudantes nos cursos de Licenciatura em Física.

Outro aspecto crucial relacionado à evasão nos cursos de Licenciatura em Física é a baixa integração dos estudantes durante o primeiro ano. Pesquisas realizadas por Micha et al. (2018) e Souza e Gomes Júnior (2015) indicam que a implementação de cursos introdutórios ou de nivelamento nesse período pode ser uma estratégia eficaz para combater a evasão. Além de promover a aprendizagem, esses cursos são fundamentais para fomentar o senso de pertencimento dos alunos, ajudando-os a superar a sensação de alienação em relação aos colegas e ao ambiente institucional. A falta de uma conexão inicial com as dimensões pedagógicas do curso também é apontada por Santos (2008) como um obstáculo significativo à permanência dos estudantes.

Além disso, Oliveira (2020b) destaca uma variedade de fatores que influenciam a evasão e a persistência nos cursos de Licenciatura em Física. Entre eles estão a dificuldade intrínseca do curso, problemas de relacionamento com colegas, desvalorização da profissão docente, questões psicológicas, localização das instituições, cultura individualista, defasagem de conhecimento oriunda do Ensino Básico, escassez de políticas de assistência estudantil, imaturidade dos ingressantes e a tendência de priorizar o conhecimento específico da Física em detrimento das áreas de Ensino e Educação. Esses elementos sublinham a complexidade do fenômeno da evasão, sugerindo a necessidade de abordagens multifacetadas e integradas para enfrentá-lo de maneira eficaz.

Estes estudos proporcionam um avanço teórico do campo da evasão e permanência e, pontual e eventualmente, resultam na aplicação de ações realizadas dentro dos departamentos e institutos de Física. Contudo, suas fundações teóricas remontam aos estudos estrangeiros sobre os processos de evasão e permanência que consideram estes processos através de lentes que tratam, sobretudo, dos alunos 'típicos' (Tinto, 1982). Essa tipicidade dos estudos estrangeiros não se traduzem bem na realidade brasileira, uma vez que inclui características como não trabalhar durante a graduação, pessoas que formam-se com menos de 24 anos e que não ajudam a compor a renda da família.

Ademais, os teóricos que inspiram estes estudos tratam do processo de integração dentro da universidade como uma forma de adequação à cultura hegemônica vigente, de forma que os alunos apropriam-se de uma cultura dominante que opera dentro das universidades. Tierney (1992) afirma que ao propor uma compreensão dos processos de integração desta maneira, estamos operando perspectiva de Ensino Superior que denota uma acomodação social, em detrimento de uma perspectiva multicultural e que valoriza a diferença.

De forma alguma a presente pesquisa busca afirmar ou induzir o pensamento de que as pesquisas que tratam de evasão e permanência sob este viés não tem validade científica. Pelo contrário, algumas destas pesquisas apresentam dados que revelam uma mudança nos índices de evasão após a adoção de certas medidas prescritas em suas pesquisas. O que propomos aqui é uma mudança de referencial, que dê margem a elementos pouco presentes nestas pesquisas, como a subjetividade e a diferença.

Inquietos pela afirmação de Prado (2022, p. 17) que diz que:

Vê-se também que a seletividade de uma instituição não se encerra no processo de admissão e, nesse sentido, deve-se considerar que o planejamento e execução de ações de permanência tenham em vista os padrões e valores de seletividade - que variam não só por instituição, mas também por área de conhecimento.

Além dos estudos que apontam a deslegitimação de corpos femininos (Lima, 2013; Oliveira, 2020b), LGBTs (Oliveira, 2020b) e negros (Alvez-Brito, 2020). Podemos compreender que os processos de seletividade atravessam de certa forma os corpos que não se adequam à cis-heteronormatividade, com o ideal branco e masculino de ciência. Mas tais processos não se encerram neste aspecto.

Dessa forma, construímos um pensamento a partir de teorias de filósofos como Foucault, Deleuze e Guattari, para entendermos os processos de produção de subjetividade implicados na formação em física. Foucault (1999) entende as instituições educacionais como elemento fundamental das sociedades disciplinares. Através do poder que permeia as relações sociais ali estabelecidas, dociliza-se os corpos para que submetam-se às normas sociais vigentes. Em diálogo, Deleuze (1992) atualiza as sociedades disciplinares, afirmando que não mais tal controle se faz apenas pela disciplina, mas também pelo controle das atividades, do tempo e das pessoas.

Assim a universidade não se constitui somente como uma instituição cujo papel é fornecer os aparatos teóricos para execução de determinadas funções e empregos dentro da sociedade. Seu papel expande-se também para fornecer os aparatos subjetivos para a submissão dos corpos ao contexto social atribuído/escolhido pelo estudante. Dessa forma os processos de seletividade não atuam só para filtrar gênero, raça, orientação e classe social, mas também filtrar subjetividades, de forma que haja a manutenção de uma subjetividade hegemônica.

## A subjetividade hegemônica

Os estudos pós-estruturalistas compreendem o capitalismo como mais que um modelo de produção material, mas também como um modelo de produção de subjetividades (Deleuze, 1992). Dessa forma o corpo, ao estar inserido neste sistema, passa por processos de individualização e dividualização. O primeiro diz respeito sobre como a responsabilidades, culpas e méritos passam a ser explicados por um indivíduo aparentemente desconectado da sociedade, invés do sistema ao qual está imerso. Já o segundo processo fala sobre como o indivíduo, em determinados contextos, passa a ser sujeito mediante somente a um objeto externo, no contexto acadêmico, o corpo só passa a ser validado como estudante mediante sua capacidade de aquisição, produção e apresentação de conhecimento.

O processo de formação em física não diverge deste modelo de produção de subjetividade, evidências disso são as leituras que coordenadores e professores fazem dos alunos que evadem do curso e também das leituras de alunos e ex-alunos da física (Kussuda, 2017), onde os professores culpam as capacidades intelectuais, emocionais e físicas dos alunos permanecerem e os alunos culpam as capacidades pedagógicas, de acolhimento e coordenação dos professores. Da

mesma forma, a responsabilização individual surge nestes estudos ao defenderem cursos introdutórios como ferramenta essencial para permanência, compreendendo as capacidades dos alunos como principal fator limitante.

Para além da responsabilização individual, os cursos de ciência também são marcados por uma exacerbação da racionalidade técnico-científica e pela atomização dos conhecimentos, produzindo uma perspectiva unilateral onde emoções, sentimentos, valores e ética são deixados de lado (Pereira, 2017). Ferreira (2010) argumenta que essa racionalidade é um tipo de conhecimento que exerce influência sobre o social, mesmo que essa atuação nem sempre seja explicitamente reconhecida.

Essa construção de subjetividade pode inclusive ser entendida justamente como a ausência de subjetividade, tratando-se de uma visão impessoal, distante e objetiva. Dessa forma aproxima-se de uma ideia de racionalidade superior, o que também ocasiona na concepção de genialidade atrelada ao curso de física. Gil Pérez et al. (2001) afirma que tal concepção afasta estudantes e a sociedade como um todo deste campo, por não se sentirem capazes.

## As dissidências

Se, por um lado, podemos falar de uma hegemonia de subjetividades dentro do curso, por outro, não podemos falar de uma homogeneidade dessas subjetividades. Os mesmos tensionamentos que buscam produzir subjetividades coesas com o campo produzem corpos dissidentes deste pensamento, que afastam-se progressivamente dele, à medida que os experimentam.

O conceito de corpos dissidentes origina-se das teorias queer , sendo definidos pelo desvio das práticas e normas heteronormativas compulsórias (Rich, 1980). Na medida em este conceito é usado academicamente, ele é também alargado, passando a compreender também os corpos negros, gordos, indigenas, PCDs, etc… Meireles (2020) afirma o corpo dissidente como os corpos que fundamentam-se 'englobando diversas experiências que contestam a norma' (p.46). Dessa forma o corpo dissidente não é definido por características presentes ou ausentes, mas avaliados dentro do próprio contexto. Ou seja, o corpo é dissidente da cultura na qual está inserido, não em absoluto.

No contexto do processo formativo da Licenciatura em Física um corpo dissidente pode ser aquele que simplesmente rompe com o comportamento autodestrutivo de culpar a si mesmo nas primeiras reprovações experimentadas, mas produz um pensamento empático diante de suas dificuldades. Nesta pesquisa, apostamos na dissidência como um possível para enfrentar os processos de seletividade desta formação.

Apostamos no corpo como solução molecular, e não na estrutura organizacional dos cursos de formação, por compreendermos o currículo e o processo formativo como território em disputa daqueles que desejam o movimento contra aqueles que desejam a perpetuação da seletividade. Webb e Mikulan (2021, p. 1316) em leituras de Nietzsche nos trazem que:

Frederico Nietzsche (2015), por exemplo, era profundamente cético de que as universidades pudessem ser reformadas porque acreditava que elas investem principalmente no desenvolvimento da obediência e da conformidade. Nietzsche (2015) argumentou que a obediência e a conformidade foram projetadas para expandir e ampliar os próprios limites de governo da educação.

Assim, com as taxas de evasão que se fazem presentes no campo da Licenciatura em Física, devemos permanecer lutando contra a normalização dos processos de individualização dos problemas do campo, mas devemos também, pensar em modos de sobreviver enquanto essa disputa acontece. Buscamos neste processo, pensar as questões de permanência como um problema que deve ser pensado de imediato, para que possamos ter como lutar para resolver os problemas de evasão.

## Referências

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