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DIVERSIDADE DE GÊNERO NAS IMAGENS DAS TRÊS OBRAS MAIS ESCOLHIDAS DO PNLD 2021 DE CIÊNCIAS DA NATUREZA

Alysson Ramos Artuso, , Mariana Purkota, Giovana Martins Claudino, Nilson Marcos Dias Garcia, , Alisson Antonio Martins,

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
23/01/2025
Linha de pesquisa
Diversidade, Inclusão E Direitos Humanos No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## DIVERSIDADE DE GÊNERO NAS IMAGENS DAS TRÊS OBRAS MAIS ESCOLHIDAS DO PNLD 2021 DE CIÊNCIAS DA NATUREZA *

Alysson Ramos Artuso 1 , Mariana Purkota 2 , Giovana Martins Claudino 3 , Nilson Marcos Dias Garcia 4 , Alisson Antonio Martins 5

- 1 Instituto Federal do Paraná, Universidade Federal do Paraná, alysson.artuso@ifpr.edu.br
- 2 Universidade Tecnológica Federal do Paraná, marianapurkota@alunos.utfpr.edu.br

3 Universidade Federal do Paraná, giovana.claudino@ufpr.br

- 4 Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Universidade Federal do Paraná, nilsondg@gmail.com
- 5
- Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Universidade Federal do Paraná, alimartins@gmail.com

## Resumo

As imagens presentes nas obras escolares fazem parte de critérios avaliativos do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) por terem potencial impacto na representatividade e formação da identidade dos estudantes. Nesse sentido, desenvolveu-se uma pesquisa exploratória quantitativa que teve como objetivo investigar a diversidade imagética em termos de gênero, tomando como recorte as três coleções de Ciências da Natureza mais adotadas no PNLD 2021. A metodologia empregada foi a Análise de Conteúdo. Os resultados destacaram lacunas de representatividade, com pouca diversidade de gênero nas imagens dos livros didáticos analisados, sugerindo a necessidade de políticas educacionais mais inclusivas e de revisão dos critérios de seleção de materiais didáticos para promover uma representação mais diversificada e precisa da sociedade brasileira. Verificouse, ainda, a dificuldade de se categorizar gênero, ressaltando a importância de se realizar investigações que levem em conta esse aspecto.

Palavras-chave : Livro didático; Gênero; Análise de Conteúdo.

## Introdução

Livros didáticos desempenham um papel relevante no contexto educacional brasileiro, servindo como uma das principais ferramentas do processo pedagógico e contribuindo com a formação de identidade dos estudantes (Munakata, 2016; Lopes Neto et al , 2022). Nesse contexto, as imagens presentes nesses materiais são objeto de crescente interesse de pesquisadores e educadores, especialmente por conta de questões legais e éticas, suscitando debates necessários sobre racismo, machismo, capacitismo e etarismo, como mostra o levantamento de Lopes Neto et al (2022).

Tendo em vista essa importância, no âmbito do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), as imagens fazem parte dos critérios avaliativos presentes no edital de inscrição para que um livro possa ser aprovado e distribuído para as escolas públicas brasileiras (BRASIL, 2021). Entre esses critérios está a promoção positiva e diversa da imagem de pessoas negras, indígenas e mulheres.

- O PNLD é um programa de investimentos anuais bilionários, havendo, além do aspecto acadêmico, uma motivação econômica na sua avaliação como política pública. No caso específico das imagens, há também a justificativa de averiguação

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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ

das normas legais e da promoção de uma educação inclusiva, que passa pela desconstrução de estereótipos e representação da diversidade.

Visando melhor entender como a diversidade de gênero é apresentada em livros didáticos brasileiros, este trabalho teve por objetivo investigar o gênero presente nas imagens de livros didáticos de Ciências da Natureza selecionados pelo PNLD 2021 para o Ensino Médio, vigente até 2025. Como recorte, foram analisadas as três coleções dessa área mais distribuídas às escolas.

Trata-se de uma pesquisa exploratória quantitativa que empregou a metodologia de Análise de Conteúdo, no formato de análise de categorias de Bardin (2016) para codificar e analisar as imagens.

## Gênero e imagens em livros didáticos

Uma primeira dificuldade para o estudo de imagens em livros didáticos reside na conceituação de gênero. Com relativo consenso, reconhece-se a diversidade de definições de sexo, tais como as definições humoral, gonadal, hormonal e cromossômica, com diversas possibilidades para além do binarismo masculino/feminino. O sexo cromossômico, por exemplo, ocorre em diversas formas, não apenas XX e XY. O ponto central, no entanto, é que o sexo não produz o gênero e nem este está restrito ao binarismo homem/mulher, podendo ser mutável em diferentes relações e espaços ocupados pela pessoa ao longo de sua vida (Butler, 2019a; Dorlin, 2021).

Em uma perspectiva ancorada nas Ciências Sociais, o conceito de gênero pode se referir a papéis, traços, comportamentos, atividades e atributos esperados ou considerados apropriados aos integrantes de uma sociedade. Há, contudo, controvérsias quanto ao poder descritivo de diferentes concepções de gênero para descrever a realidade social e orientar a luta política, o que inclui debates entre os polos de liberdade individual na definição do gênero ou a existência de um determinismo social (Giddens & Sutton, 2017). Compartilhamos, no entanto, a concepção de Scott (2012, p. 347) de que o gênero é um conceito útil para a análise crítica se o usarmos 'como um guia não simplesmente como homens e mulheres têm sido definidos em relação ao outro, mas também que visões da ordem social estão sendo contestadas, sobrepostas, resistidas e defendidas nos termos de definições masculino/feminino'.

Na presente investigação, nosso interesse se concentra na fisionomia, vestuário, linguagem corporal e outros aspectos da expressão de gênero que autores e editores optaram por retratar nas imagens segundo a percepção dos autores desta pesquisa. Contudo, não se pode atribuir a observação de determinados contextos ou signos a uma classificação de gênero sem refletir sobre suas consequências, sendo necessário ter em mente que toda escolha conceitual e metodológica implica em ganhos e perdas em algum nível. Por exemplo, a opção desta pesquisa em não considerar unhas pintadas como definidoras do gênero mulher, apesar de estar teórica e politicamente embasada, revelará, no entanto, menor diversidade nas imagens estáticas dos livros didáticos. Com essa opção, uma mão que manipula um aparato científicoexperimental não será considerada uma mão de mulher, mas de gênero não identificado se a única caracterização visível é a unha pintada. Isso ocasiona uma diferença no quantitativo de mulheres cientistas representadas no material didático em comparação com trabalhos empíricos que optaram por uma definição conceitual e

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metodológica diferente, o que torna os estudos comparativos mais complexos, senão inviáveis.

Feita as ressalvas de que existem diferentes definições conceituais com diferentes consequências metodológicas, alguns trabalhos similares que investigaram o gênero observado nas imagens de livros didáticos identificados foram os de Schactae et al (2023), Skumra et al (2020), May (2018), e Lima (2022).

Schactae et al (2023) investigaram as imagens de quatro obras de Física do Ensino Médio do início da década de 2010. Uma das análises computou a frequência de imagens que traziam mulheres, homens, ou ambos. O livro menos desigual trouxe 29% de imagens com mulheres, 52% com homens e 19% com ambos. O extremo mais desigual teve 80% das imagens com homens, 12% com mulheres e 8% com ambos. Além disso, também detectaram o reforço de estereótipos de gênero, com mulheres mais associadas ao cuidado com crianças e homens com o fazer científico.

Resultado similar foi encontrado por Skumra et al (2020) ao analisarem imagens restritas ao fazer científico em quatro coleções de Ciências da Natureza de Ensino Médio aprovadas no PNLD 2018. Com a divisão apenas homem e mulher, foram identificadas apenas 11 imagens de mulheres (10,6%) em contraste a 93 de homens (89,4%) nas quatro coleções, média de 2,75 mulheres cientistas por coleção, sendo a polonesa Marie Skłodowska Curie a mais representada.

Ao investigar as obras de Física do PNLD 2018, May (2018) também verificou que a cientista mais citada é Marie Curie. Em seu quantitativo, restrito ao gênero mulher, foram 26 imagens de cientistas mulheres em 12 coleções, média de 2,2 imagens por coleção.

Ainda no PNLD 2018, Lima (2022) analisou as imagens de três livros de Biologia do primeiro ano do Ensino Médio contando a frequência imagética de homens e mulheres, sem se restringir a imagens de cientistas. Com esse recorte, encontrou 47,5% de imagens com mulheres e 52,5% com homens. Também ressaltou a presença de imagens de homens em situação de autocuidado ou de cuidado com crianças.

Vale ressaltar que um dos itens do edital do PNLD, o 2.1.2.1, declara que

2.1.2.1. [...] a obra didática deve:

- a. Estar livre de estereótipos ou preconceitos de condição socioeconômica, regional, étnico-racial, de gênero, de orientação sexual, de idade, de linguagem, de deficiência, religioso, assim como de qualquer outra forma de discriminação, violência ou violação de direitos humanos. [...]
- e. Promover positivamente a imagem da mulher, considerando sua participação em diferentes trabalhos, profissões e espaços de poder, ao longo da obra, com o intuito explícito de valorizar sua visibilidade e protagonismo social, com especial atenção para o compromisso educacional com a agenda da não-violência contra a mulher. (BRASIL, 2021)

## Aspectos metodológicos

De caráter quantitativo, a pesquisa aqui relatada desenvolveu-se de forma exploratória descritiva e consistiu em um levantamento numérico da representação da diversidade nos livros didáticos de área de Ciências da Natureza do PNLD 2021, tendo sido empregada uma análise documental categorial (Bardin, 2016). No caso, foram analisadas as três coleções de Ciências da Natureza mais distribuídas no PNLD 2021,

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pelo fato de terem somado 73,4% da tiragem total distribuída às escolas (BRASIL, 2022): Multiversos, editora FTD (36,5% das escolhas); Moderna Plus, editora Moderna (28,8%), e Ciências da Natureza, editora Moderna (8,1%).

Para a condução do estudo, foi adotada a análise categorial de Bardin (2016) como principal metodologia de análise dos dados. Trata-se de um processo sistemático que envolve a organização dos dados em categorias temáticas, permitindo a identificação de padrões e a emergência de significados subjacentes. Tomando cada imagem como unidade de análise, registrou-se a codificação do gênero presente nas imagens a cada capítulo das três coleções.

Para a percepção do gênero da pessoa representada na imagem foram usadas as classificações homem, mulher, não-binária e não-identificável. A classificação não binária foi utilizada quando havia uma imagem bem definida da pessoa, mas sem ser possível declarar se a imagem estava expressando um gênero homem ou mulher. Quando não era possível identificar traços da pessoa, como quando ela estava distante e de costas, a imagem foi codificada como não identificável.

Houve, na pesquisa, o claro limite epistemológico da percepção, que ficou restrito à fisionomia, características físicas e vestimentas das pessoas representadas, o que acarreta consequências sobre o tipo de conhecimento produzido e será problematizado com mais detalhes na discussão dos resultados. De maneira preliminar, pintura ou tamanho das unhas, adereços como anéis e o contexto da representação, como o tipo de ação realizada no interior da casa ou atividade profissional desempenhada, não foram considerados distintivos para a identificação do gênero. Nesse sentido, dada a definição de gênero como construção social instável e não derivada do sexo, a rigor, mesmo a fisionomia, características físicas ou vestimentas não seriam distintivas.

Porém, essa definição conceitualmente rigorosa tornaria inviável usar a categoria de análise gênero para avaliar as imagens dos livros, pois todas as imagens seriam de gênero não identificável, pouco contribuindo para dar visibilidade e trazer para o debate essa faceta de diversidade nos materiais didáticos. A opção, no projeto científico-político da pesquisa, foi utilizar uma forma de codificação que buscasse identificar a expressão de gênero retratada nas imagens, colocando limites do que seria aceito como signo distintivo, mesmo que, talvez, nenhum signo presente em imagens estáticas de um livro possa ser distintivo.

Para maior confiabilidade das classificações, a codificação foi realizada por duas pessoas independentemente. Caso houvesse discordância, uma terceira pessoa fazia a codificação de forma a obter maior consistência dos resultados e mitigar potenciais vieses individuais. Ainda assim, é importante destacar que as pessoas que trabalharam na codificação eram um homem e duas mulheres, e isso pode acarretar alguns vieses para a codificação, como os limites subjetivos para classificar o gênero nas imagens. Por mais que estas sejam limitações da pesquisa, é importante ressaltar que o mesmo tipo de limitação ocorre quando os livros são avaliados pelas comissões do MEC ou, ainda, lidos por professores e estudantes.

## Apresentando e discutindo os resultados

As imagens com homens (41%) foram mais comuns que com pessoas não identificadas (34%) e do que com mulheres (31%) nas três coleções de Ciências da Natureza mais distribuídas no PNLD 2021. Menos de 1% das imagens apresentavam

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pessoas não-binárias. Representações apenas com mãos, sejam fotografias manipulando instrumentos de laboratório ou ilustrações empurrando blocos ou puxando cordas, foram frequentes e entraram no percentual de imagens não identificadas.

Contabilizando apenas as imagens de gênero identificado, registrou-se o percentual de 62% de imagens com homens, 46% com mulheres e de 1% das imagens com pessoas não-binárias. A soma anterior é superior a 100% porque uma imagem podia ter mais de uma pessoa representada, ou mesmo multidões.

De acordo com o Censo brasileiro (Brasil, 2023), a população brasileira é composta por 51,5% de mulheres e 48,5% de homens. No entanto, o Censo levanta o sexo não gênero - e ignora a(s) categoria(s) intersexo. Além disso, na nossa pesquisa, foi computada a quantidade de imagens com mulheres, não a quantidade de mulheres nas imagens. Deste modo, a comparação com o Censo não é totalmente esclarecedora, uma vez que haveria a confusão conceitual entre sexo e gênero, mas ressalta-se a baixa presença de mulheres representadas nos livros didáticos.

Compreender como representar um tipo de gênero como mulher é um debate profundo. Segundo Dorlin (2021), o conceito de gênero surge para normalizar os corpos que, no exercício médico, apresentavam o que se denominava ambiguidade genital. Tal ambiguidade derivava tipicamente da intersexualidade, que ocorre em cerca de 2% da população, e era - e ainda é - estigmatizada socialmente. O conceito foi se modificando, passou pela discussão da relação sexo/gênero, da oposição natureza/cultura, e de discussões quanto à identidade e essencialidade (Dorlin, 2021). Tendo em vista que relações desiguais de gênero tendem a naturalizar determinadas formas de expressão social, as identidades de homem e mulher tendem a homogeneizar duas possibilidades de se expressar socialmente.

Quando se faz um exame de ultrassom e se declara 'é menino' ou 'é menina' iniciase um processo social que não tem relação direta com o sexo cromossômico: determinados tipos de roupas, brinquedos e decorações tendem a ser privilegiados (Butler, 2019b). As expectativas sociais também serão diferentes - carreiras, hobbies, expressão de sentimentos e responsabilidades domésticas são alguns exemplos que compõem a coerção social que opera por meio do gênero.

Nada disso é natural, havendo certo determinismo social nesta concepção de gênero. Tentando romper com esse determinismo, um livro didático poderia, por exemplo, trazer a imagem de uma pessoa com traços físicos masculinos vestindo saia, ou lavando a louça em casa, ou se maquiando, e a imagem de uma pessoa com traços físicos femininos vestindo terno e gravata, ou trabalhando na construção civil, ou tendo como hobby a customização de carros. Mas será que essas seriam de fato soluções para promover maior igualdade? Afinal, se o gênero é uma construção social, por que lavar louça seria algo de mulher e por que seria necessário colocar um suposto homem realizando essa atividade para romper com essa visão? Além disso, em um debate delicado, será que o conceito de gênero é mesmo operacional para além de discursos circulares que pouco informam sobre as subjetividades?

Para Dorlin (2021), a própria construção de gênero obriga nossa crença em sua necessidade - tanto que a estamos analisando nos livros didáticos, ainda que com vistas a promover maior igualdade. Isso, porém, talvez apenas reforce o binarismo, mesmo expandindo-se as expectativas sociais sobre os papéis de homem e mulher. Para além das vestimentas, signos claramente sociais e passíveis de serem

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desconstruídos, os próprios traços físicos que utilizamos em nossa classificação quantidade de pelos, formato do queixo, estrutura ósseo-muscular ou órgãos genitais externos - são também construções biológico-sociais sujeitas à censura na definição que dissocia sexo e gênero. Uma crítica à própria formulação de gênero expressa por Dorlin vem de discussões de feministas africanas, que não pensam a partir de gênero (ou de mulher), categoria entendida como ocidental (Oyěwùmí, 2021). Não encontramos, contudo, uma forma de analisar gênero nas imagens de livros didáticos que fosse operacional e isenta de críticas, ao mesmo tempo que acreditamos que esta é uma categoria que, por estar relacionada à distribuição de poder na sociedade, deva ser analisada. Tratam-se de escolhas inerentes ao próprio fazer científico, que a partir de questionamentos pode, eventualmente, se aprimorar.

Assim, em nossa posição política de não utilizarmos certas marcas (unha pintada, uso de anéis ou cabelo comprido) ou contextos de atuação (construção civil, enfermagem) como distintivos do gênero, classificamos boa parte das imagens como de gênero não identificado (34%). Por um lado, isso evita reforçar estereótipos binaristas, mas, por outro, não evidencia uma potencial diversidade de gênero expressa nas obras como o caso já citado de mãos com unhas pintadas que manipulam equipamentos científicoexperimentais. Será que as estudantes se sentem identificadas e representadas por essas mãos e, como consequência, reconhecem a possibilidade de carreira científica como possível para elas? Essa é uma questão que foge ao presente escopo, mas que pode ser investigada por meio de entrevistas e grupos focais.

Nas coleções analisadas houve, em média, a imagem de uma pessoa a cada três páginas (0,31 imagens com pessoas por página), sendo uma entendida como do gênero homem a cada oito páginas, mulher a cada 11 páginas e pessoa não-binária a cada 517 páginas. Esses valores não apresentaram grandes diferenças por coleção, como mostra a Figura 1, mas chama a atenção o elevado percentual de imagens com homens na Multiversos e a ausência de pessoas não-binárias na coleção Moderna Plus.

Figura 01: Percentual de imagens com pessoas de determinado gênero em cada obra

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Foi possível perceber, entretanto, que homens ainda são predominantes nos livros didáticos, como já mostravam trabalhos citados anteriormente (Schactae et al , 2023; Lima, 2022; Skumra et al , 2020; May, 2018).

Em uma comparação temporal, dadas as ressalvas de diferenças conceituais e metodológicas entre as pesquisas, o percentual de imagens com homens talvez não esteja diminuindo em relação ao total. Schactae et al (2023) verificou que a coleção de Física mais igualitária do início dos anos 2010 trazia 61% de imagens com homens, valor similar ao levantamento do início dos anos 2020. Cenário mais equilibrado havia

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sido encontrado por Lima (2022) em coleções de Biologia do PNLD 2018, que apontou apenas 52% das imagens com homens. Ou seja, a promoção de maior igualdade de gênero em imagens de obras aprovadas do PNLD talvez não esteja ocorrendo. Porém, como dito, tal resultado tem influência da forma com que foi definido gênero. Entende-se, contudo, que percentuais indicados nesta pesquisa representam um mínimo e que outras definições conceituais e metodológicas poderiam trazer maior percentual tanto do gênero homem como do gênero mulher.

Nesse sentido, autores e editores podem ter representado uma mão com unha pintada com intenção de caracterizar diversidade, mas esse signo pode não ser entendido como marcador do gênero mulher e, assim, não permitir sua identificação. Sendo assim, trabalhos que adotem outra definição para as categorias homem, mulher e pessoa não-binária podem chegar a conclusões bastante diferentes. Isso nos conduz aos questionamentos de não só como analisar, mas também de como promover nas obras didáticas maior representatividade da diversidade de gênero da sociedade: se a partir da presença de signos supostamente distintivos de cada gênero ou se o caminho é a supressão social de signos que compõem o estereótipo do que é ser homem, mulher ou pessoa não-binária.

## Considerações finais

A pesquisa buscou investigar a diversidade de gênero presente nas imagens de livros didáticos de Ciências da Natureza selecionados pelo PNLD 2021 e mais adotados pelos professores.

Em termos quantitativos, a representação de mulheres não se intensificou em comparação com pesquisas anteriores. Além disso, as imagens praticamente não trabalham com a questão de gênero para além do binarismo homem/mulher, a ponto de a coleção Moderna Plus não trazer nenhuma imagem de pessoa não-binária.

Estudos quanti e qualitativos focados em outras definições operacionais de gênero, como os que consideram o contexto das imagens, podem trazer mais elementos sobre a evolução da representação da diversidade de gênero nas obras. Com isso, podese, inclusive, esclarecer como as imagens estáticas de um material didático podem promover representações de gênero sem reforçar estereótipos, ou mesmo se é desejável insistir na existência de uma identidade de gênero para descrever a realidade social e as diferentes experiências de papéis sociais que a interseccionalidade de gênero, classe, etnia, faixa etária, etc, produzem.

Finalizando, os achados apontam para a necessidade de critérios mais bem definidos e maior rigor avaliativo das coleções do PNLD, de modo que sejam sanadas as lacunas identificadas na representatividade das imagens nos materiais didáticos e a variabilidade entre eles. Isso, potencialmente, não apenas fortalecerá a identificação de estudantes com o material didático, como também poderá contribuir para o combate aos estereótipos e preconceitos.

## Referências

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BRASIL. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Pedido de acesso à informação n. 23546.062548/2022-03 . 2022.

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BUTLER, J. Problemas de gênero - feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019a.

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LIMA, M. F. E não sou eu uma cientista? : Análise do conceito de gênero nos Livros Didáticos de Biologia aprovados pelo Plano Nacional do Livro Didático 2018 (PNLD/2018). 91 f. 2022. Dissertação (Mestrado em Direitos Humanos) - Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco.

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MUNAKATA, K. Livro didático como indício da cultura escolar. História da Educação , v. 20, p. 119-138, 2016.

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