UMA PROPOSTA DE MATERIAL DIDÁTICO INCLUSIVO PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL COM O USO DE MODELAGEM E IMPRESSORA 3D
Rafael Moraes Ferreira, Erica Cristina Nogueira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 23/01/2025
- Linha de pesquisa
- Diversidade, Inclusão E Direitos Humanos No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## UMA PROPOSTA DE MATERIAL DIDÁTICO INCLUSIVO PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL COM O USO DE MODELAGEM E IMPRESSORA 3D
## Rafael Moraes Ferreira 1 , Erica Cristina Nogueira 2
- 1 Universidade Federal Fluminense, Instituto de Física, rafael.5290@gmail.com
- 2 Universidade Federal Fluminense, Instituto de Física, erica\_nogueira@id.uff.br
## Resumo
O presente trabalho tem como objetivo trazer uma proposta de um produto educacional inclusivo para pessoas com deficiência visual, na temática de Óptica Clássica. Para isso foi utilizado o recurso computacional de modelagem 3D, através do modelador on-line Tinkercad e impressão 3D. A impressora utilizada foi do tipo FDM (Fused Deposition Modeling) e o filamento utilizado do tipo PLA PREMIUM. O produto educacional produzido são placas numeradas, sendo cada uma com um tópico de Óptica Clássica. Cada placa possui um esquema/desenho, em alto relevo, de acordo com o tópico. Além disso, conta com escrita Braille para o título ou quando necessário. Ao todo foram modeladas 25 placas (para impressão) e 6 placas foram impressas. Além do produto educacional, foi produzido um manual de uso e cuidado das placas para o professor, ao qual contém o número da placa, as inscrições em Braille e em Protuguês, para caso o professor/mediador não possua domínio do Braille.
Palavras-chave : Deficiência Visual; Óptica Geométrica; Física Inclusiva.
## Introdução
A educação inclusiva no Brasil é considerada desafiadora por muitos professores. Em geral, a prática inclusiva para o ensino de Física não é padronizada, sendo necessário de materiais criativos desenvolvidos pelos professores. Porém a formação docente ainda é muito precária quando o assunto é Educação Especial. A própria Constituição Federal (CF) garante a educação para todos '[...] A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade[…]' (Brasil, 1988), mas não garante os meios necessários para tal.
Nessa perspectiva, foi somente em 2015 que foi promulgada a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), onde em seu artigo 25°:
A educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem. (Brasil, 2015)
Em outras palavras, a LBI, em relação à CF, começa a especificar que os ambientes educacionais, assim como os materiais didáticos, precisam levar em consideração a especificidade da deficiência do educando. Segundo o artigo 28° da LBI:
Incumbe ao poder público assegurar, criar, desenvolver, implementar, incentivar, acompanhar e avaliar:
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- I -sistema educacional inclusivo em todos os níveis e modalidades, bem como o aprendizado ao longo de toda a vida;
- II -aprimoramento dos sistemas educacionais, visando a garantir condições de acesso, permanência, participação e aprendizagem, por meio da oferta de serviços e de recursos de acessibilidade que eliminem as barreiras e promovam a inclusão plena;
- III -projeto pedagógico que institucionalize o atendimento educacional especializado, assim como os demais serviços e adaptações razoáveis, para atender às características dos estudantes com deficiência e garantir o seu pleno acesso ao currículo em condições de igualdade, promovendo a conquista e o exercício de sua autonomia; [...] (Brasil, 2015).
Considerando que cada estudante é único, suas necessidades específicas devem ser levadas em consideração no preparo e na elaboração de uma aula e/ou material didático. Um estudante com deficiência visual, por exemplo, necessita de uma abordagem didática diferente de um estudante surdo, seja na condução da atividade, na linguagem ou nos materiais didáticos utilizados.
Em 2020 houve outro marco para a Educação Especial, a Política Nacional de Educação Especial (PNEE). A PNEE traz orientações para uma educação especial, podendo se destacar o artigo 7º do capítulo V:
Art. 7º São considerados serviços e recursos da educação especial: I - centros de apoio às pessoas com deficiência visual; [...] XII - materiais didático-pedagógicos adequados e acessíveis ao público-alvo desta Política Nacional de Educação Especial; XVII - tecnologia assistiva.
Parágrafo único. Poderão ser constituídos outros serviços e recursos para atender os educandos da educação especial, ainda que sejam utilizados de forma temporária ou para finalidade específica.
Nessa perspectiva, o presente trabalho tem como objetivo apresentar o desenvolvimento de um material didático para ser utilizado nas aulas de Óptica Clássica. O material produzido foi pensado para ser usado, principalmente, com o estudante cego ou com baixa visão. Mas ele não se restringe somente a este público: pensando em uma sala de aula que integra, o material também poderá ser usado por todos os estudantes.
## Metodologia
Em sala de aula, muitas vezes, a explicação de tópicos de Óptica é acompanhada de desenhos e ilustrações. Enquanto que, para a maioria dos estudantes estes recursos auxiliam na aprendizagem, para os estudantes cegos, desenhos e ilustrações sem a devida audiodescrição nada acrescentam.
Por isso, pensando no estudante cego que possui dificuldades em acompanhar estes temas durante as aulas, desenvolvemos um material didático no formato de placas. Cada placa é em alto relevo e traz, principalmente, as imagens mais utilizadas para descrever a teoria abordada.
Para o desenvolvimento das placas, escolhemos os tópicos de Óptica Clássica, sendo eles: Tipos de Feixes, Independência dos Feixes, Tipos de fontes, Lei da reflexão, Espelho plano, Formação de Imagem, Tipos de meios, Lei de Snell, Prisma, Espelhos esféricos e Lentes.
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A primeira placa foi desenvolvida utilizando madeira, parafusos e barbantes, como mostrado na Figura 1. No entanto, pensando na durabilidade, limpeza do material e facilidade de transporte, optamos por desenvolver o material utilizando modelagem 3D e uma impressora 3D de filamento (FDM).
Figura 1: Primeira placa desenvolvida Fonte: Os autores, 2024.
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Para a modelagem 3D, utilizamos o modelador on-line Tinkercad. Tal modelador foi escolhido por ser de fácil manuseio, não necessitar de instalação de software ou sistema operacional específico e ser gratuito.
Para a impressão, utilizamos uma impressora FDM (Fused Deposition Modeling). Em relação à temperatura, foram utilizadas as temperaturas do bico ( hot end ) e da mesa ( bed ) em 205ºC e 65ºC, respectivamente. No que tange altura de camada e preenchimento ( infill ), foram utilizadas 0,17mm e 15% respectivamente. O diâmetro do bico utilizado foi de 0,6mm de diâmetro. O tipo de filamento utilizado foi o PLA PREMIUM, onde segundo 3D Fila (2021), possui vantagens como alta durabilidade, fácil manipulação e ser biodegradável.
Para escrever as informações nas placas, utilizamos a Escrita Braille de acordo com as normas definidas pela ABNT NBR 9050 (Brasil, 2018):
- [...] O arranjo de seis pontos e o espaçamento entre as celas braille devem atender às seguintes condições:
- a) diâmetro do ponto na base: 2 mm;
- b) espaçamento vertical e horizontal entre pontos - medido a partir do centro de um
ponto até o centro do próximo ponto: 2,7 mm;
- c) largura da cela braille: 4,7 mm;
- d) altura da cela braille: 7,4 mm;
- e) separação horizontal entre as celas braille: 6,6 mm;
f) separação vertical entre as celas braille: 10,8 mm;
- g) altura do ponto: 0,65 mm. (MEC -NORMAS TÉCNICAS PARA A PRODUÇÃO DE TEXTOS EM BRAILLE, 2018 p. 105)
Na Figura 2, apresentamos a vista superior de uma cela Braille conforme as definições da ABNT NBR 9050 (Brasil, 2018).
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Figura 2: Normas para escrita de Braille Fonte: Brasil, 2018.
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## Discussões e Resultados
Ao todo foram modeladas 25 placas abordando os conteúdos de Óptica Clássica, sendo eles: Tipos de Feixes, Independência dos Feixes, Tipos de fontes, Lei da reflexão, Espelho plano, Formação de Imagem, Tipos de meios, Lei de Snell, Prisma, Espelhos esféricos e Lentes. Na Figura 3 é possível ver duas das 6 placas já impressas.
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Figura 3: Na imagem à esquerda vemos a placa 'Tipos de feixes' e na imagem à direita, a placa 'Independência dos feixes'. Em ambas as placas os desenhos representativos dos feixes estão em relevo e as informações escritas em Braille. Fonte: Os autores (2024).
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Todas as placas possuem o mesmo padrão, medem 190x120 mm, no alto à esquerda (em alto relevo) um número de identificação e a direita um corte. A numeração da placa possui 2 objetivos: O primeiro objetivo é a identificação da placa com o manual impresso, para caso o professor/mediador não possua domínio da leitura Braille; o segundo é uma proposta de sequência para uso, ou seja, propõe-se utilizar a placa 1 antes da 2, e assim sucessivamente. Essa proposta foi elaborada pelos autores, mas vale lembrar que cada professor possui autonomia de uso em sala.
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- O corte a direita é um indicativo para que o usuário possa saber qual a posição correta da placa sem precisar acessar todo o manual. As informações relevantes para entender o conteúdo abordado são apresentadas em Braille.
Nosso objetivo é desenvolver um kit didático que será formado pelas 25 placas impressas em relevo e por um material de apoio ao professor que poderá ser impresso em uma impressora comum.
Este material será composto pelo 'Manual para o uso das placas' (Figura 4) e pelo 'Caderno das Placas', onde cada placa estará escrita em tinta com as informações em Português e em Braille (Figura 5).
Figura 4: Manual de uso e cuidado das placas. Fonte: Os autores (2024).
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Figura 5: Nesta figura ilustrativa do 'Caderno de Placas'. Na imagem à esquerda vemos as informações da placa 'Tipos de feixes' com as informações escritas em Português. Na imagem à direita, vemos a imagem da mesma placa com as informações escritas em Braille. Fonte: Os autores (2024).
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## Considerações finais
O uso da impressora 3D vem aumentando no Brasil, e demonstra ser uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento de práticas e materiais inclusivos em sala de aula. A escolha de utilizar a impressão 3D se deu pelo fato de ser observado uma tendência das escolas a estarem se modernizando, e também do movimento de cultura Maker estar cada vez mais forte no Brasil. Além disso, as placas que desenvolvemos são leves, resistentes e de fácil manuseio e limpeza.
O material que estamos propondo para o ensino de Óptica Clássica para estudantes cegos e com baixa visão é formado por um kit contendo 25 placas em alto relevo, o 'Manual para o uso das placas' e pelo 'Caderno das Placas'. Além disso, o kit também poderá ser usado por todos os estudantes promovendo a integração de todos os alunos: cegos e videntes. Em trabalhos futuros, a perspectiva é aplicar as placas através da metodologia ativa POE (Predizer-Observar-Explicar).
## Referências
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil\_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em 10 de Agosto de 2024.
\_\_\_\_\_\_\_. Lei n.º 13.146 de 6 de Julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil\_03/\_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em 13 de Agosto de 2024.
\_\_\_\_\_\_\_. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2018. Normas Técnicas Para A Produção De Textos Em Braille. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/dezembro-2018-pdf/105451-normas-tecnicas-para-a -producao-de-textos-em-braille-2018/file. Acesso em 5 de Junho de 2024.
\_\_\_\_\_\_\_. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2020. Política Nacional de Educação Especial Equitativa, inclusiva e com aprendizado ao longo da vida. Disponível em:
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https://www.gov.br/mec/pt-br/descontinuado/pnee.pdf. Acesso em 13 de Novembro de 2024.
SOFTWARE ULTIMAKER CURA. disponível em: https://ultimaker.com/software/ultimaker-cura/. Acesso em 25 de Agosto de 2024.
TINKERCAD, AUTODESK. disponível em: https://www.tinkercad.com/. Acesso em 12 de Agosto de 2024.
3D FILA, 2021. PLA: Tudo o que você precisa saber sobre esse Filamento. Disponível em: https://3dfila.com.br/blog/pla-tudo-sobre-o-filamento-pla/. Acesso em 12 de Outubro de 2023.
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