PERSPECTIVAS DECOLONIAIS NO ENSINO DE FÍSICA: UMA REVISÃO DAS PUBLICAÇÕES EM PERIÓDICOS CIENTÍFICOS
Aline Costalonga Gama, Judismar Tadeu Guaitolini Junior, Leonardo Pereira Gama
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 23/01/2025
- Linha de pesquisa
- Diversidade, Inclusão E Direitos Humanos No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## PERSPECTIVAS DECOLONIAIS NO ENSINO DE FÍSICA: UMA REVISÃO DAS PUBLICAÇÕES EM PERIÓDICOS CIENTÍFICOS
## Aline Costalonga Gama 1 , Judismar Tadeu Guaitolini Junior 2 , Leonardo Pereira Gama 3
1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo/Coordenadoria de Física/ Campus Vitória, agama@ifes.edu.br
2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo/Coordenadoria de Física/ Campus Vitória, jguaitolini@ifes.edu.br
3 Colégio Salesiano Jardim Camburi, professorleonardogama@gmail.com
## Resumo
Nesse trabalho é realizada uma análise da abordagem de publicações científicas que envolvam o Ensino de Física sob uma perspectiva decolonial, ressaltando a importância de buscar o rompimento com estruturas coloniais que ainda influenciam nas práticas pedagógicas e científicas. A pesquisa adotou uma metodologia qualitativa e exploratória, realizando uma revisão sistemática de artigos científicos disponíveis em bases de dados como o Google Acadêmico e o Portal de Periódicos da Capes. Após uma análise inicial que selecionou 48 trabalhos acadêmicos, focou-se mais detalhadamente em artigos publicados em periódicos. Em particular, nessa investigação optou-se por analisar exclusivamente 19 artigos publicados em revistas classificadas como Qualis A. O estudo destacou a crescente conscientização sobre a importância de desconstruir a visão eurocêntrica no Ensino de Física e integrar contribuições científicas de culturas historicamente marginalizadas, como por exemplo, afro-indígenas. E, ainda, revelou que grande parte dos artigos revisados está publicada em periódicos de alta classificação, evidenciando o engajamento da comunidade acadêmica na discussão sobre a decolonialidade. Por fim, reforça que uma abordagem decolonial valoriza a diversidade cultural e histórica da humanidade, enriquecendo a educação científica.
Palavras-chave : Decolonialidade, Ensino de Física, Revisão Sistemática
## Introdução
A decolonialidade, conceito que surge como parte de um movimento mais amplo de crítica às formas de poder, saber e ser, impostas pelos processos históricos de colonização, busca analisar e romper com estruturas desse arcabouço que ainda perpetuam desigualdades e exclusões sociais, culturais e econômicas. No Ensino de Física, tradicionalmente ancorado em paradigmas científicos eurocentrados, a decolonialidade apresenta-se como ferramenta essencial para questionar e expandir os limites do conhecimento transmitido nas salas de aula. Ela resgata e valoriza saberes e perspectivas de diferentes culturas historicamente marginalizadas, proporcionando uma compreensão mais inclusiva e diversificada da ciência.
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Este artigo tem como objetivo analisar a abordagem de publicações científicas que tratam do Ensino de Física sob uma perspectiva decolonial. Adotando uma metodologia qualitativa e exploratória, a pesquisa realiza uma revisão sistemática da literatura, concentrando-se especificamente em artigos publicados em periódicos científicos. A relevância deste estudo é justificada pela necessidade de promover uma educação científica verdadeiramente representativa da diversidade cultural e intelectual da humanidade, contribuindo assim para a formação de estudantes que refletem e valorizam a pluralidade de experiências e conhecimentos existentes.
## Fundamentação Teórica
Introduzido pelo sociólogo peruano Anibal Quijano nos anos 1980, o conceito de colonialidade descreve um padrão de poder originado no colonialismo europeu que perdura após seu término formal. A colonialidade do poder se manifesta na dominação cultural e no controle econômico, promovendo um eurocentrismo que hierarquiza culturas e marginaliza saberes não ocidentais. Além disso, configura um sistema global de exploração social, integrando formas de controle do trabalho sob a hegemonia do capital, perpetuando desigualdades e moldando subjetividades.
Quijano (2005) descreve a colonialidade do ser como uma dimensão ontológica onde a negação do "outro" manifesta-se através de critérios de humanidade que inferiorizam e subalternizam os que divergem do padrão europeu. Este processo envolve violências que buscam erradicar imaginários, identidades e existências de povos não europeus. Já a colonialidade do poder, segundo Quijano, controla a subjetividade dos colonizados, articulando o colonialismo e a ciência ocidental com a noção de raça como instrumento de classificação e controle social. E simultaneamente, a colonialidade do saber relega o conhecimento europeu a um status superior, marginalizando outras formas de saber e concedendo à ciência moderna o monopólio sobre o que é considerado verdadeiro ou falso.
Alan Alves-Brito (2020) argumenta que, embora as discussões sobre decolonialidade, patriarcado, e questões étnico-raciais e de gênero sejam prevalentes nas ciências humanas, nas ciências exatas ainda existem barreiras epistêmicas e ontológicas significativas. Ele defende uma educação nas ciências exatas que oriente profissionais a reconhecer a importância de conceitos como raça, racismo, negritude, branquitude, masculinidade e gênero, em pé de igualdade com conceitos
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fundamentais da física. Reforçando esse argumento, Jacson Santos Azevedo e Síntia Mara Piol (2023) discutem a importância de revisitar e decolonizar o saber científico, tradicionalmente eurocentrado, principalmente nas ciências exatas. Eles destacam como a divisão racial, criada pelos colonizadores, resultou na exploração de recursos naturais e humanos na América Latina, perpetuando a hegemonia europeia e a invisibilidade de contribuições científicas de indivíduos negros.
Em outro trabalho, Isadora Santos da Silva, Neusa Teresinha Massoni e Alan Alves-Brito (2024) destacam a importância das Leis nº 10.639 de 2003 e nº 11.645 de 2008, que alteraram a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional para incluir o ensino obrigatório da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena em todos os níveis do currículo escolar. Mudanças legislativas que são frutos de longos anos de esforços dos movimentos sociais para resgatar e valorizar a história e a memória dos povos negros e indígenas. Os autores defendem que esta inclusão legislativa é fundamental para promover uma virada epistêmica que desafie os conhecimentos hegemônicos e fomente uma educação anti-opressiva, inclusiva e democrática. Eles sugerem que professores das ciências exatas, como Física, Química e Matemática, têm um papel crucial nessa mudança ao integrar e destacar histórias e contribuições de pessoas negras e indígenas, incentivando reflexões críticas e profundas entre os estudantes.
## Procedimentos Metodológicos
Neste estudo, com o propósito de analisar a abordagem das publicações científicas sobre o Ensino de Física sob uma perspectiva decolonial, adotou-se uma metodologia qualitativa e exploratória. A pesquisa, de natureza básica, utilizou-se de procedimentos técnicos de pesquisa bibliográfica, empregando o método de revisão sistemática da literatura. A coleta de dados ocorreu através da extração de artigos científicos das bases de dados do Google Acadêmico e do Portal de Periódicos da Capes. Como critério de seleção dos dados, utilizaram-se os descritores "Ensino de Física" e "Decolonial", aplicando aspas duplas e o operador lógico AND para incluir variantes da palavra decolonial, e obter dados relevantes em suas respectivas fontes.
A pesquisa iniciou-se em 19 de dezembro de 2023, considerando apenas trabalhos publicados em português. No Google Acadêmico, foram excluídos os resultados que se limitavam a citações e a busca inicial gerou aproximadamente 322 resultados em 0,09 segundos, enquanto no Portal de Periódicos da Capes, a pesquisa
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avançada resultou em 8 trabalhos. Após a filtragem, os trabalhos acadêmicos foram analisados individualmente e 42 foram selecionados, sendo que todos estavam no Google Acadêmico e 5 duplicados no Portal de Periódicos da Capes.
A mesma busca foi atualizada em 31 de agosto de 2024. Considerando o resultado da pesquisa anterior, no qual todos os trabalhos localizados no Portal de Periódicos da Capes estavam contidos na base de dados do Google Acadêmico, a pesquisa foi refeita apenas nesta última base. Obteve-se aproximadamente 434 resultados com um tempo de resposta de 0,04 segundos. Com esse procedimento, 6 novos trabalhos foram selecionados, totalizando 48 na amostra final. Destes, 24 são artigos publicados em periódicos, 5 estão em anais de eventos (2 resumos simples, 1 resumo expandido e 2 artigos completos), 1 é capítulo de livro, 1 é trabalho de conclusão de curso de especialização, 4 são trabalhos de conclusão de cursos de graduação, 9 são dissertações de mestrado e 4 são teses de doutorado.
Optou-se por avaliar exclusivamente os artigos publicados em periódicos científicos, devido ao processo de avaliação por pares adotado nessas publicações, reconhecido como um mecanismo essencial para assegurar a integridade e a qualidade acadêmica dos trabalhos publicados. Os 24 artigos obtidos neste estudo foram publicados em 19 revistas científicas distintas, nos anos de 2018 (1), 2020 (4), 2021 (4), 2022 (7), 2023 (7) e 2024 (1). Nessa análise avaliou-se também o Qualis da revista, utilizando-se o Qualis-Periódicos referente ao quadriênio 2017-2020, elaborado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Os artigos distribuíram-se entre os diversos estratos Qualis, com 8 artigos classificados como A1, 3 como A2, 4 como A3, 4 como A4, 4 como B1 e 1 como C.
Neste trabalho, a análise inclui exclusivamente estudos publicados em periódicos Qualis A (A1 a A4), devido ao prestígio acadêmico atribuído a essas publicações. A leitura integral dos 19 textos selecionados permitiu destacar as abordagens dos autores e identificar perspectivas comuns e divergentes sobre o Ensino de Física, discutidas a seguir.
## Resultados Alcançados
A predominância de artigos publicados em revistas classificadas como A (A1, A2, A3 ou A4) evidencia um engajamento significativo da comunidade científica em divulgar pesquisas sobre o Ensino de Física sob uma perspectiva decolonial em
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periódicos de alto impacto. Isso pode contribuir para o avanço e a visibilidade do tema na comunidade acadêmica. Nesta seção, apresentaremos a compilação desses artigos, que revelam uma tendência crescente no meio acadêmico de questionar as estruturas tradicionais de conhecimento e ensino em ciências. Por meio de uma crítica consistente ao eurocentrismo na educação científica, diversos autores argumentam que as narrativas hegemônicas marginalizam epistemologias não europeias, especialmente as perspectivas afro-indígenas.
Na análise dos quatro textos publicados em periódicos classificados como A4 destacam-se diferentes aspectos da decolonialidade no Ensino de Física. Deyvid José Souza Santos e Thaís Cyrino de Mello Forato (2023) realizam um estudo teórico que revela os conhecimentos astronômicos dos Tupinambás do Maranhão, propondo uma abordagem que se alinha à Lei nº 11.645 de 2008. Alan Alves-Brito (2020), por sua vez, empreende uma crítica teórica à situação das pessoas negras nas disciplinas de Física e Astronomia no Brasil contemporâneo.
Fernanda Luiza de Souza Farias e Emerson Ferreira Gomes (2023) destacam a negligência das escolas em valorizar a produção científica de povos historicamente colonizados, propondo uma reflexão sobre o currículo do Ensino Médio e a possibilidade de introduzir instrumentos de matriz africana para enriquecer a experiência educacional. Similarmente, Adamo Devi Cuchedza e Roberth DeCarvalho (2020) exploraram o interdiscurso das comunidades onde vivem os estudantes, trabalhando para formar discursos afrorreferenciados.
Na sequência da análise, ressalta-se que quatro estudos foram publicados em periódicos classificados como A3. Jacson Santos Azevedo e Síntia Mara Piol (2023) destacam o impacto do racismo estrutural no desenvolvimento acadêmico de jovens negros nas universidades, e propõem uma sequência didática decolonial para turmas de Física. Já Carlos Mometti, Fanley Bertoti da Cunha e Gabriela Canuto dos Reis (2022) refletem sobre a persistência da colonialidade nos currículos escolares, propondo uma lente decolonial que abrange Educação Física, Biologia e Física. Por sua vez, Carlos Mometti, Tanja Tajmel e Maurício Pietrocola (2021) focam especificamente no currículo de Física brasileiro. Por outro lado, Karley dos Reis Ribeiro, Audenize Ferreira Serra e Madiel Ribeiro Ribeiro (2021) analisam as dificuldades enfrentadas por alunos quilombolas no aprendizado de Física, na qual destacam a desconexão entre os saberes tradicionais dos alunos e o Ensino de Física.
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Constatou-se que três estudos foram publicados em periódicos classificados como A2. Alan Alves-Brito (2021) critica o racismo científico e a invisibilização das contribuições africanas e afrodiaspóricas, sugerindo revisitar práticas e concepções do universo na Física e Astronomia contemporâneas. Em um trabalho subsequente, Alan Alves-Brito (2023) expande sua análise para o campo das ciências da linguagem, explorando a relação entre linguagem, racismo, e lutas decoloniais. Já Gleyson Miranda de Souza e Camila Sitko (2023) relatam a implementação de uma sequência didática de Astronomia Cultural para estudantes do ensino fundamental.
Evidenciou-se que oito estudos foram divulgados em revistas classificadas como A1, o mais alto nível de classificação dos Periódicos pela Capes. Henrique César da Silva (2022) explora os fundamentos da filosofia de Ludwik Fleck no contexto educativo, e destaca a importância de considerar as dimensões culturais e éticas na formação dos educadores em ciências. Vitor Fabrício Machado (2022) complementa esta visão ao aplicar princípios decoloniais diretamente na sala de aula, propondo estratégias didáticas que incluem a abordagem Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente para desafiar e expandir as narrativas tradicionais em educação científica.
Katemari Rosa (2023) utiliza a Teoria Crítica da Raça para discutir como as epistemologias raciais afetam ensino e divulgação científica. Já Alan Alves-Brito, Neuza Teresinha Massoni e Ricardo Rangel Guimarães (2020) tratam do fenômeno da pós-verdade, sua constituição e sua interferência na educação e na divulgação científica. Alan Alves-Brito e Kaleb Ribeiro Alho (2022) enfocam em como conflitos político-territoriais e políticas educacionais, como as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola, podem ser integradas ao ensino de ciências.
Já Isadora Santos da Silva, Neusa Teresinha Massoni e Alan Alves-Brito (2024) enfocam a Teoria Crítica da Raça e apresentam uma revisão da literatura focada nas trajetórias de cientistas e estudantes negros, sublinhando a necessidade de uma decolonização no Ensino de Física e Ciências Naturais. Ainda, Jorge Ferreira Dantas Junior (2022) e Katemari Rosa, Alan Alves-Brito e Bárbara Carine Soares Pinheiro (2020) abordam como o fenômeno da pós-verdade e o racismo estrutural se entrelaçam para formar barreiras significativas no ensino de ciências.
Os textos analisados ressaltam a importância de reformular a abordagem dos conteúdos de Física para refletir a diversidade cultural e histórica da humanidade,
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desafiando as narrativas eurocentradas. Esses estudos ilustram um esforço significativo de acadêmicos para decolonizar o Ensino de Física e consolidam a argumentação de que a educação científica precisa ser transformada. Isso inclui o fortalecimento da implementação das Leis nº 10.639 de 2003 e nº 11.645 de 2008, visando enfrentar e desmantelar estruturas de poder coloniais e raciais. Ao integrar perspectivas decoloniais e valorizar saberes indígenas e afrodiaspóricos, estes estudos propõem novas direções para as ciências exatas, integrando contribuições de grupos marginalizados e promovendo na ciência um giro decolonial.
## Considerações Finais
Este estudo explorou a abordagem decolonial no Ensino de Física, identificando 19 textos publicados em periódicos classificados no Qualis-Capes como A (A1, A2, A3 ou A4) que demonstram um movimento crescente na academia para questionar e reformular os paradigmas educacionais e científicos dominantes. A análise destes textos destaca a necessidade contínua de diálogo e desenvolvimento em práticas educativas e epistemologias que promovam uma maior equidade e inclusão. Em conclusão, sublinha-se a importância crítica de repensar o Ensino de Física para incorporar abordagens decoloniais, mover-nos em direção a uma educação científica que não apenas reconhece, mas também celebra as diversas heranças para o desenvolvimento do conhecimento da humanidade, promovendo uma compreensão mais rica e inclusiva do mundo científico.
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