CORDEL COMO FERRAMENTA DIDÁTICA PARA DISCUSSÕES CTSA NO ENSINO DE ENERGIAS RENOVÁVEIS: UMA PROPOSTA DIDÁTICA
Francisco Emanoel De Souza, Flávia Polati Ferreira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 23/01/2025
- Linha de pesquisa
- Ciência, Tecnologia, Sociedade E Ambiente No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## CORDEL COMO FERRAMENTA DIDÁTICA PARA DISCUSSÕES CTSA NO ENSINO DE ENERGIAS RENOVÁVEIS: UMA PROPOSTA DIDÁTICA
## Francisco Emanoel de Souza¹, Flávia Polati Ferreira²
¹ Licenciando em Física/ Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), souzaemanoel28@gmail.com ² Docente do Departamento de Física/ Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), flaviapolati@fisica.ufrn.br
## Resumo
O processo de globalização e desenvolvimento de novas tecnologias trouxe consigo as discussões sobre o papel e a natureza da ciência na sociedade . Na contramão dessa perspectiva, o ensino de física vem sendo baseado na excessiva matematização do conhecimento, repleto de exercícios padronizados e desatento às relações CiênciaTecnologia-Sociedade-Ambiente (CTSA).O ensino com enfoque CTSA é uma metodologia capaz tanto de atenuar a excessiva matematização das aulas de física quanto de dialogar com os conhecimentos científicos-curriculares e aspectos da tecnologia, sociedade e meio ambiente. Objetivamos com este trabalho dialogar os conhecimentos científicos e tecnológicos concernentes às energias renováveis, em especial a energia eólica, com aspectos socioambientais relacionados à instalação de parques eólicos especialmente no nordeste brasileiro, sob perspectiva CTSA. As aulas foram pensadas com base em trabalhos da área e conta com 4 aulas de 45 minutos voltadas para o 2º ano do Ensino Médio. Um cordel é utilizado como ferramenta didática para fomentar as discussões em sala de aula. Ao final da última aula, é proposto a elaboração de uma dissertação, no intuito de avaliar tanto os conteúdos abordados quanto a criticidade e capacidade argumentativa dos estudantes. É fundamental que a discussão turma-turma e professor-turma seja estimulada, no intuito de proporcionar uma aula verdadeiramente dialogada e para que haja a construção conjunta do conhecimento.
Palavras-chave : Abordagem CTSA. Literatura de Cordel. Energia Eólica.
## Introdução
O processo de globalização e desenvolvimento de novas tecnologias trouxe consigo as discussões sobre o papel e a natureza da ciência na sociedade. Na metade do século XX, as sociedades dos países capitalistas passaram a perceber que o desenvolvimento científico, tecnológico e econômico não estava conduzindo, necessariamente, para um bem-estar social (AULER; BAZZO, 2002).
Sob esse contexto, na perspectiva da educação escolar formal, são instituídas mudanças educacionais objetivando a formação crítica dos estudantes, a fim de que
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
exerçam sua cidadania de forma ativa e consciente em uma sociedade que está a todo momento se transformando.
Na contramão dessa perspectiva, o ensino de física vem sendo baseado na excessiva matematização do conhecimento e no ensino para testagem (MOREIRA, 2017), repleto de exercícios padronizados, o que tem se demonstrado um artifício pouco eficaz para uma aprendizagem que agregue sentido para os estudantes.
Para mudar esse quadro o ensino de física não pode prescindir, além de um número mínimo de aulas, da conceituação teórica, da experimentação, da história da física, da filosofia da ciência e de sua ligação com a sociedade e com outras áreas da cultura . Isso favoreceria a construção de uma educação problematizadora, crítica, ativa, engajada na luta pela transformação social. (ZANETIC, 2005, p.1, grifo nosso).
O ensino com enfoque Ciência-Tecnologia-Sociedade-Ambiente (CTSA) é uma metodologia capaz tanto de atenuar a excessiva matematização das aulas de física quanto de dialogar com os conhecimentos científicos-curriculares e aspectos da tecnologia, sociedade e meio ambiente. Sobre a educação CTS, Lacerda e Strieder (2019, p. 111) dizem que esta 'constitui-se como necessária e essencial ao processo de escolarização, diante das exigências da sociedade contemporânea, fortemente marcada por ciência e tecnologia e, em contrapartida, por desigualdades e injustiças socioambientais.'
A abordagem de questões sociocientíficas é elemento central para as discussões CTS em sala de aula, já que ela 'personaliza a aprendizagem [...] e envolve os estudantes em situações baseadas em problemas reais, que auxiliam o desenvolvimento de habilidades de pensamento de ordem superior' ( HODSON, 2018, p.1 ).
Uma questão sociocientífica de grande relevância atualmente gira em torno das discussões acerca das fontes de energia renovável e seus impactos socioambientais. No Brasil, em especial na região Nordeste do país, a instalação de grandes parques e complexos eólicos já trazem inúmeras discussões e problemáticas acerca dessa forma de geração de energia elétrica.
Diante do exposto, tomando como motivação a elaboração de uma sequência de aulas para uma escola situada em uma cidade do interior do estado do Rio Grande do Norte que possui parques eólicos instalados, objetivamos com este trabalho dialogar os conhecimentos científicos e tecnológicos concernentes às energias renováveis, em especial a energia eólica, com aspectos socioambientais relacionados à instalação de parques eólicos especialmente no nordeste brasileiro, sob perspectiva CTSA.
Como ferramenta didática, utilizaremos um Cordel, no intuito de melhor dialogar com as diferentes culturas e saberes, bem como exercitar a leitura e interpretação de textos. Os cordéis são ferramentas extremamente ricas que podem ser usadas em sala de aula para dinamizar o ensino de Física.
Quando bem utilizado, o cordel torna-se uma alternativa pedagógica de grande importância para o processo de ensino-aprendizagem. Como
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ferramenta didática, possibilita o trabalho nas diversas áreas do conhecimento, além de instigar os alunos à leitura e ao estudo da gramática, podendo discutir também fatores relacionados à cidadania, solidariedade, cultura, preconceito, dentre outros. (VIEIRA et al., 2018, p.17).
A legislação brasileira, em especial a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), diz que o Ensino Médio tem como uma de suas finalidades 'o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico ' (BRASIL, 1996, grifo nosso).
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio descreve em sua competência 3 de Ciências da Natureza e suas tecnologias:
Analisar situações-problema e avaliar aplicações do conhecimento científico e tecnológico e suas implicações no mundo , utilizando procedimentos e linguagens próprios das Ciências da Natureza, para propor soluções que considerem demandas locais, regionais e/ou globais, e comunicar suas descobertas e conclusões a públicos variados, em diversos contextos e por meio de diferentes mídias e tecnologias digitais de informação e comunicação (TDICs) (BRASIL, 2018, p. 558 grifo nosso)
Como a proposta foi inicialmente pensada para ser aplicada em uma cidade do interior do Rio Grande do Norte, analisamos também o Referencial Curricular do Ensino Médio Potiguar (RIO GRANDE DO NORTE, 2021).
Dentre as habilidades propostas pelo Referencial Curricular, destacamos a habilidade RNCNFIS00 e a RNCNFIS009 que tratam, respectivamente de 'Entender os impactos ambientais e sociais da produção de energia' e 'Diferenciar fontes renováveis e não renováveis de energia, e suas vantagens e desvantagens' (RIO GRANDE DO NORTE, 2021, p. 525).
## Proposta didática
As aulas abaixo foram pensadas com base em trabalhos da área, em específico o trabalho de SANTOS e MORTIMER (2000), os quais falam que aulas com abordagem CTS são melhor organizadas a partir da seguinte estrutura:
(1) introdução de um problema social; (2) análise da tecnologia relacionada ao tema social; (3) estudo do conteúdo científico definido em função do tema social e da tecnologia introduzida; (4) estudo da tecnologia correlata em função do conteúdo apresentado e (5) discussão da questão social original. (SANTOS; MORTIMER, 2000, p. 121-122)
Dessa maneira, os 5 passos propostos pelos autores estão diluídos ao longo de 4 aulas de 45 minutos, pensadas para uma turma de 2º ano de Ensino Médio. Cada aula possui um título e seu detalhamento, além de um cronograma sugerido para cada momento da aula.
Aula 1 - Energias Renováveis: uma faca de dois gumes
Nesta aula, será introduzida a temática escolhida através de slides digitais, na qual serão discutidas a problemática energética sob dois olhares: mundial e nacional.
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Gráficos e Manchetes de jornais serão usados como ferramentas auxiliares, no intuito de fundamentar as discussões.
Espera-se que sejam levantadas, nesta aula, questões de política interna, geopolítica, desenvolvimento tecnológico, bem como fatores históricos, econômicos, sociais e ambientais concernentes ao tema em pauta para fomentar as discussões em sala. Esta aula será dividida em dois momentos, conforme o quadro abaixo.
Momento
Tempo
Introdução energética
da
problemática
20minutos
Discussões em sala sobre o tema
25 minutos
Quadro 01: Cronograma da aula 1
Aula 2 - A literatura desmascara a tecnologia
Discussão acerca dos diferentes tipos de fontes de energias renováveis. Será utilizado o cordel 'energia renovável', de autoria de Graça Vieira (2009) como facilitador da discussão. Neste cordel, a autora cita diferentes fontes de energias renováveis e explica superficialmente a função delas.
Em seguida, deverão ser utilizados slides para complementar a explicação sobre o funcionamento destes sistemas. A aula possuirá dois momentos, detalhados no quadro abaixo, e deverá focar nas fontes citadas pela autora, bem como a Hidrelétrica, principal fonte da matriz energética brasileira.
Quadro 02: Cronograma da aula 2
Aula 3 - Bom, mas nem tanto...
Nesta aula, vídeos jornalísticos e matérias de jornais serão utilizados para problematizar e discutir sobre o uso dessas fontes de energias renováveis e seus impactos na sociedade e no meio ambiente. Será dado um foco especial na discussão sobre os complexos e parques eólicos instalados no Nordeste brasileiro e suas consequências socioambientais.
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Momento
Tempo
Quadro 03: Cronograma da aula 3
Aula 4 - 'Quem sabe faz ao vivo'
Nesta aula, retomaremos a leitura do cordel em estrofes-chave, discutindo acerca destes. O intuito desta atividade é contribuir para a análise crítica de textos, baseada na concretude de fatos de diversas fontes, vistas ao longo desta proposta, fomentando, dessa forma, a argumentação consistente dos discentes.
Espera-se, nesta aula, que sejam discutidos aspectos como a acessibilidade de painéis solares, a exportação da energia eólica produzida no país, a produção e descarte de baterias de carros carregados com energia renovável, os impactos diretos e indiretos na natureza, dentre outros fatores. Logo em seguida, haverá um momento para a retomada das questões sociocientíficas apontadas no início das aulas, a fim de concluir as discussões acerca do tema
Será proposto, como avaliação, que os estudantes redijam um artigo de opinião sobre 'os impactos das novas tecnologias que visam a produção de energia renovável no Brasil'. Uma das partes mais difíceis de uma redação é a introdução, ou seja, simplesmente começá-la. Portanto, será reservado um tempo da aula para que os alunos possam, em sala, iniciar suas escritas. A ideia é que eles terminem em casa e entreguem em momento posterior.
Quadro 04: Cronograma da aula 4
## Considerações Finais
Apresentamos nesse trabalho uma proposta didática para abordar o tema de energias renováveis sob uma perspectiva CTSA, tendo o cordel como ferramenta didática, objetivando dialogar os conteúdos científicos e tecnológicos com aspectos
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socioambientais, bem como a formação de um cidadão crítico a respeito das mudanças energéticas em curso, em especial no Nordeste brasileiro.
É fundamental que a discussão turma-turma e professor-turma seja estimulada, no intuito de trazer uma aula verdadeiramente dialogada e para que haja a construção conjunta do conhecimento.
## Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.
\_\_\_\_\_\_. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, 1996.
AULER, D.; WALTER, A.B. Reflexões para a implementação do movimento CTS no contexto educacional brasileiro. Revista ciência e educação . V.7 n.1, p.1-13, 2002. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ciedu/a/wJMcpHfLgzh53wZrByRpmkd/ Acesso em: 26 ago. 2024.
HODSON, D. HODSON, D. Realçando o papel da ética e da política na educação científica: algumas considerações teóricas e práticas sobre questões sociocientíficas. In: CONRADO, D.M., e NUNES-NETO, N. Questões sociocientíficas: fundamentos, propostas de ensino e perspectivas para ações sociopolíticas [online]. Salvador: EDUFBA , 2018. Disponível em: https://doi.org/10.7476/9788523220174.0003. Acesso em: 27 ago. 2024.
LACERDA, N. O. S., STRIEDER, R.B. Educação CTS e formação de professores: dimensões a serem contempladas a partir do modelo crítico-transformador. Revista Educação e Fronteiras. On-Line, Dourados/MS,v.9, n.25, p.110-126, jan./abr. 2019. Disponível em: https://ojs.ufgd.edu.br/educacao/article/view/11015/5530 Acesso em: 27 ago. 2024.
MOREIRA, M.A. Grandes desafios para o ensino da Física na educação contemporânea. Revista do Professor de Física . Brasília,vol.1,n.1. 2017. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/rpf/article/view/7074/5725 Acesso em: 26 ago. 2024.
RIO GRANDE DO NORTE. Referencial Curricular do Ensino Médio Potiguar. 2021. Disponível em:
http://www.adcon.rn.gov.br/ACERVO/seec/DOC/DOC000000000278463.PDF acesso em: 28 ago. 2024.
SANTOS, W.L.P. dos; MORTIMER, E.F. Uma análise de pressupostos teóricos da abordagem CTS (ciência-tecnologia-sociedade) no contexto da educação brasileira. Revista Ensaio . Belo horizonte, v.02. 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/j/epec/a/QtH9SrxpZwXMwbpfpp5jqRL Acesso em: 27 ago.
2024.
VIEIRA, G. Energia Renovável. Recanto das letras. Disponível em: https://www.recantodasletras.com.br/cordel/1933890. Acesso em: 21 jul. 2024.
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ZANETIC, J. Física e Cultura. Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S000967252005000300014&script=sci\_a
rttext&tlng=en. Acesso em: 26 ago. 2024.
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