SERÁ QUE HÁ ESPAÇO PARA OS SABERES DA FÍSICA NOS WEBCOMICS?
Edimara Fernandes Vieira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 23/01/2025
- Linha de pesquisa
- Tecnologias Da Informação E Comunicação No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## SERÁ QUE HÁ ESPAÇO PARA OS SABERES DA FÍSICA NOS WEBCOMICS?
## Edimara Fernandes Vieira1
1 Secretaria de Educação do Estado do Paraná, edimara.vieira@escola.pr.gov.br
## Resumo
Neste estudo, investigamos como websites, blogs e plataformas digitais, incluindo redes sociais, dedicados ao compartilhamento e curadoria de novos produtos culturais, compilam e divulgam webcomics focados em saberes escolares da física. Utilizamos a análise de conteúdo, com ênfase na análise documental, para examinar o contexto digital. Criamos um conjunto de palavras-chave baseadas em marcadores estilísticos relacionados aos saberes da física e em marcadores textuais associados aos gêneros de histórias em quadrinhos. Nossa pesquisa envolveu a recuperação de informações de blogs, websites e plataformas digitais que compartilham e replicam webcomics centrados em saberes da física. O objetivo foi avaliar se esses sites visavam compartilhar novos produtos culturais ou promover curadoria digital. Além disso, examinamos se os webcomics eram produzidos para a web por quadrinistas, professores ou estudantes, ou se eram digitalizações de materiais impressos. Os resultados identificaram cinco tipos de sites: (1) Curadoria Digital de Webcomics com Ênfase no Ensino de Física; (2) Curadoria Digital de Webcomics para Divulgação Científica; (3) Compartilhamento de Webcomics com Temática Científica; (4) Compartilhamento de Webcomics com Aspectos Científicos Diversos; e (5) Curadoria Digital e Compartilhamento de Novos Produtos Culturais. Em geral, nos modelos de curadoria digital com ênfase no ensino de física e para divulgação científica, os webcomics foram re-significados a partir dos saberes da física. O modelo de compartilhamento de webcomics com aspectos científicos diversos abordou a física como tema principal, enquanto o modelo que combina curadoria digital e compartilhamento de novos produtos culturais alterna entre re-significar webcomics e compartilhar aqueles com foco nos saberes escolares da física .
Palavras-chave : Webcomics. Saberes da Física. Mídias digitais.
## Introdução
Este trabalho é um desdobramento do TCC do curso de Especialização em Inovações Tecnológicas na Educação da UTFPR, intitulado "Da curadoria digital ao compartilhamento de novos produtos culturais: há espaço para os saberes escolares da física nos webcomics?". O objetivo é discutir as histórias em quadrinhos no contexto educacional, focando nas intersecções entre quadrinhos, ensino de física e mídias tecnológicas. O método é baseado nos referenciais da tecnologia da informação, abrangendo os webcomics.
A pesquisa visa identificar sites dedicados a webcomics que abordam saberes da física e verificar se promovem o compartilhamento de novos produtos culturais ou atuam como estruturas de curadoria digital. Além disso, pretende-se observar se esses sites divulgam webcomics autorais voltados para o ensino da física ou produtos culturais digitalizados e re-significados. A principal pergunta é: em que medida websites, blogs e plataformas digitais/redes sociais dedicadas ao compartilhamento de novos produtos culturais e/ou à curadoria digital compilam e compartilham webcomics focados nos saberes escolares da física?
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
## Referencial Teórico
As histórias em quadrinhos emergiram como uma linguagem típica das culturas de massa que acompanha o avanço tecnológico da sociedade. Como artefatos histórico-culturais, elas refletem as mudanças comunicativas que moldam nossa sociedade (Eco, 2015). Sua popularização está intimamente ligada à ascensão da imprensa e à evolução das mídias de comunicação. Inicialmente, os quadrinhos se destacaram nos jornais, superaram as limitações da imprensa tradicional, exigiram veículos próprios e integraram-se às mídias digitais (Santos; Corrêa; Tomé, 2012). Historicamente, eram associados ao consumo de gibis e à leitura de tirinhas, charges e cartoons em jornais. No entanto, com a popularização da internet, os leitores começaram a explorar os espaços digitais como locais frequentes para suas leituras (Santos; Corrêa; Tomé, 2012). A transição para o meio digital foi facilitada pela mudança no perfil do leitor, que se tornou mais imersivo e adaptado ao consumo de mídias visuais, como os webcomics (Cardoso; Domingos, 2015).
Essa nova realidade impulsionou a adaptação das histórias em quadrinhos para a mídia digital, integrando os modos de produção e interação da internet. A digitalização permitiu que quadrinhos impressos fossem compartilhados online em versões digitalizadas (Marino, 2017). Essa democratização alterou de modo profundo a interação entre o mercado editorial, autores e a web (Cardoso; Domingos, 2015). A popularização da internet e a compatibilidade dos quadrinhos com os recursos digitais levaram ao surgimento de blogs e sites dedicados a novos quadrinistas (Santos; Corrêa; Tomé, 2012). A web tornou-se crucial para artistas apartados do mercado editorial encontrarem novos públicos e espaços para suas obras. Simultaneamente, o mercado editorial tradicional passou a utilizar a web para comercializar títulos e expandir seu alcance (Marino, 2017). Esse panorama contribuiu para o surgimento de um novo gênero de quadrinhos veiculado na internet por meio de blogs, websites e redes sociais (Nicolau, 2013). Santos, Corrêa e Tomé (2012) definem os webcomics como uma modalidade de histórias em quadrinhos que se consolidou como mídia, recurso e objeto digital.
Para Santos (2010) e Nicolau (2013), uma história em quadrinhos é considerada um webcomic quando: 1) a dinâmica de produção envolve softwares e recursos tecnológicos, sendo criada com softwares específicos ou convertida para o formato digital e compartilhada na web, seja como imagens ou usando a linguagem HTML; 2) está disponível em plataformas, websites e blogs que permitem interação autor-leitor e garantem acesso contínuo às produções; 3) disponibiliza recursos digitais como links para vincular vinhetas, botões de avanço e recuo e funcionalidades de zoom e navegação, além de versões para download que preservem a diagramação e a unidade tempo-espaço da narrativa; 4) é articulada por quadrinistas independentes que geram renda a partir da venda de produtos, publicidade, merchandising, micro pagamentos e doações, em vez da venda direta dos webcomics; 5) explora temas variados, como humor, terror, suspense, aventura ou cotidianidade, frequentemente focando em discursos geek ou nerd, como games, cultura pop, internet e, mais recentemente, a vida acadêmica, a divulgação científica e a educação.
Cardoso e Domingos (2015) complementam que os webcomics representam um movimento que vai além da simples inserção de quadrinhos na web. Eles introduzem novas formas de diálogo e significado ao serem integrados como as hipermídias. Assim, entender os webcomics é reconhecer que os nichos digitais complexificam e re-significam as relações sociais e os processos criativos dos
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quadrinhos (Nicolau, 2013). Por sua vez, o uso de quadrinhos para contextualizar cultural e socialmente os saberes da física é um tema recente. Vergueiro (2006) e Vergueiro e Ramos (2015) apontam que isso se deve às relações conturbadas entre os agentes escolares e os quadrinhos, especialmente durante a ascensão deste meio. Inicialmente, estes eram vistos como uma forma de cultura de massa que poderia limitar o desenvolvimento cognitivo dos estudantes. Apesar disso, a ideia de usar o discurso científico para valorizar os quadrinhos foi aceita pelas editoras, a partir da década de 1950, a EBAL adotou essa estratégia para apaziguar críticos ao gênero, lançando, por exemplo, as coleções "Ciências em Quadrinhos" e "Biografia em Quadrinhos" (Vieira, 2018).
No ensino de física, a introdução de quadrinhos ocorreu através dos livros didáticos. No entanto, até o final da década de 1960, esses livros seguiriam os padrões clássicos dos manuais franceses do século XIX, com quadrinhos usados apenas para ilustrar ou preencher lacunas de diagramação. Vieira (2018) observa que as mudanças significativas na incorporação de quadrinhos nos manuais de física começaram após a publicação do livro didático "Física com Martins e Eu" de Pierre Lucie e Henfil. Mas que apenas ganharam aporte teórico partir do início da década de 1990, com a criação do Programa Nacional da Biblioteca na Escola (PNBE, 1997), do Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio (PNLEM, 2004) e dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs, 1998; PCNs+, 2002). Pois foi a partir da promulgação dessas políticas públicas que as histórias em quadrinhos passaram a ser estudadas como objetos de ensino-aprendizagem e, consequentemente, aceitas como meios educacionais com potencial crítico-criativo. Em certa medida, porque esses documentos apontaram para a importância de incorporar as culturas de massa, as linguagens contemporâneas e as manifestações artísticas nas práticas educativas (Vergueiro; Ramos, 2015). No ensino de física, essas iniciativas sinalizaram que os quadrinhos deveriam ser reconhecidos como recursos culturais, educacionais e objetos de pesquisa, em vez de meros elos catárticos ou infantilizados (Vieira, 2018).
## Referencial Metodológico
Para abordar o problema proposto, centramos o contexto metodológico na recuperação de informações digitais. Aires (2005, p. 07) define a recuperação de informação na web como o resgate de recursos e informações em diferentes mídias, como textos, imagens, vídeos e webcomics. A eficácia da recuperação depende da habilidade do usuário em arquitetar uma busca eficaz e da adequada indexação dos conteúdos pelos responsáveis pela publicação. A recuperação de informações deve ser lida como um modelo lógico baseado em técnicas estatísticas e matemáticas, que utilizam palavras-chave do documento como unidades isoladas, focando na frequência desses termos para localizar o documento na web (Aires, 2005, p. 40). Portanto, a primeira etapa para localizar informações na web é a construção de palavras-chave precisas que reflitam a busca e eliminem elementos irrelevantes.
Branski (2004) enfatiza que uma estratégia de recuperação será eficaz apenas se as informações obtidas atenderem às necessidades do usuário. A autora sugere que o usuário deve: 1) formular a questão de pesquisa e sua abrangência; 2) identificar os conceitos principais; 3) definir a linguagem de busca que represente esses conceitos; 4) considerar sinônimos e variações; e 5) preparar a lógica da busca. Aires (2005) apoia Branski (2004) ao destacar que consolidar essas etapas envolve dois princípios básicos: o estilístico e o textual. O princípio estilístico refere-se ao
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conteúdo, incluindo conceitos, temáticas, expressões idiomáticas, termos científicos ou formais e abreviaturas relevantes para a pesquisa. Já o princípio textual diz respeito às estruturas textuais que acomodam os conteúdos, como cartas, relatórios, textos jornalísticos, obras literárias e histórias em quadrinhos (Aires, 2005).
Quadro 1: Marcadores textuais e estilísticos para constituição das palavras-chave.
Fonte: Adaptado de Paraná (2021).
O panorama de Branski (2004) e Aires (2005) orientou nossa recuperação de informações. Como documento norteador para definir os marcadores estilísticos utilizamos os componentes curriculares de física dispostos no 'Referencial Curricular para o Ensino Médio do Paraná'. Para delimitarmos os temos usados para se referir às HQs, mapeamos dissertações publicadas na Plataforma Sucupira e na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) entre 2004 e 2023 que situaram os quadrinhos como objeto de pesquisa no ensino de física e extraímos das palavraschave desses textos que se referiam ao nosso objeto de busca, sendo os termos de destaque: 'histórias em quadrinhos', 'HQs', 'tirinhas', 'cartoons', 'charges', 'comicbooks', 'gibis'. Essa estrutura permitiu formular de 384 palavras-chave, cada uma composta por ao menos um marcador textual e um estilístico (veja quadro 1).
Branski (2004) também destaca que criar os marcadores e tecer as palavraschave é apenas uma parte do processo de busca. Um aspecto essencial definir se a busca ocorrerá em diretórios e motores de busca. Os diretórios são descritos por Cendón (2001) como pastas digitais hierarquizadas que organizam sites em categorias e subcategorias, formando a base de dados. Eles indexam informações através de títulos e resumos descritivos das páginas, facilitando a categorização por temas, assuntos ou autores. Em contraste, motores de busca são softwares que coletam e indexam uma grande quantidade de informações digitais a partir do uso de aranhas, rastejadores e viajantes, esses recuperam e indexam informações extraídas de tags, endereços, cabeçalhos, títulos, resumos e palavras (Cendón, 2001, p. 41). Esse contexto é relevante para nossa busca por webcomics, pois esses estão em formatos JPEG, PNG, GIF ou HTML que são mais facilmente recuperados por motores de busca do que via diretórios. Portanto, a lógica de busca deve ser ajustada ao tipo de informação procurada: diretórios são mais eficazes para textos acadêmicos, enquanto motores de busca são melhores para recuperação de imagens ou vídeos.
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Com base no referencial descrito, usamos a análise documental como estratégias decodificar, classificar e categorizar blogs, websites e plataformas digitais/redes sociais recuperados. Seguindo a proposta de Lüdke e André (1986) sobre unidade de contexto, centralizamos a análise dos sites conforme as definições de Arellano (2004) para compartilhamento de informações e curadoria digital, focando nos conceitos que delimitam os webcomics. Veja Quadro 2.
Quadro 2 : Decodificação e classificação dos webcomics
Fonte: A autora
Esse aparato nos permitiu classificar os sites recuperados no que remete ao compartilhamento de novos produtos culturais ou na extensão da vida útil da informação na web através da curadoria digital. Bem como, decodificar os discursos adotados, estivessem eles pautados diretamente nos saberes da física ou em aspectos do conhecimento científico mais genérico ou setorizado.
## Análise dos Dados
Os resultados apresentados decorrem diretamente do referencial teórico e dos métodos adotados para investigar como websites, blogs e plataformas digitais/redes sociais compilam e compartilham webcomics focados em saberes escolares da física. Mas, antes disso precisamos destacar que o mapeamento das dissertações de mestrado sobre quadrinhos, além de pautar os marcadores textuais, nos permitiu localizar 23 dissertações: 10 focadas na produção de quadrinhos para o ensino de física e 7 relacionadas à exploração de recursos de outros nichos culturais.
A análise das histórias em quadrinhos nas pesquisas acadêmicas revelou duas tendências principais: 1) o uso de quadrinhos comerciais, oriundos de meios impressos e digitais; 2) o uso de quadrinhos criados por professores e estudantes, tanto utilizando softwares de produção e divulgação na web quanto explorando meios desplugados. Das 23 dissertações, 7 utilizaram webcomics, alguns produzidos em plataformas ou softwares e outros a partir de materiais disponíveis na web. Entre os pesquisadores que aderiram aos webcomics dois (3) optaram pelos recursos disponibilizados na web, enquanto três (4) exploraram recursos digitais para criar quadrinhos em/ para sala de aula e divulgar na internet.
Assim, a partir do mapeamento das dissertações de mestrado que usaram webcomics, categorizamos esse gênero de quadrinhos em dois grupos principais: 1) produzidos por quadrinistas, que poderiam ser originários de recursos impressos convertidos para webcomics por digitalização (MC-WS) ou criados diretamente para a web em formatos de imagem ou código HTML (MC-WW); 2) produção de
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professores (MP-PW) ou estudantes (MP-EW), criados via softwares, plataformas digitais ou desplugados com digitalização e compartilhamento na web à posteiori
Quadro 3: Tendências adotadas quanto aos tipos de webcomics educacionais
Fonte: A Autora
A vista disso, a recuperação de informações foi realizada unindo marcadores estilísticos e textuais e utilizando a indexação em motores de busca, como o Google®. Esse processo resultou na identificação de 79 sítios. Entre eles, alguns não continham webcomics, outros tinham mais de 60% dos webcomics corrompidos ou continham apenas trechos desconexos, e alguns não estavam relacionados aos saberes da física. Esses sítios foram eliminados, reduzindo o número para 68. Visitamos cada sítio, examinamos se os locais eram de compartilhamento e curadoria, os discursos temáticos e as possíveis movimentações comerciais. Dos 68 sítios analisados, 28 eram dedicados exclusivamente à curadoria digital, 35 focavam no compartilhamento de webcomics autorais e 5 realizavam ambas as ações simultaneamente.
Através da decodificação e classificação agrupamos os sítios digitais nas cinco classes descritas no Quadro 2 que ilustra as principais características de cada classe. As ocorrências dentro de cada classificação estão detalhadas no Gráfico 1.
Gráfico 1: Perspectivas observadas quanto aos discursos temáticos nos webcomics .
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A curadoria digital de webcomics com ênfase no ensino de física (CDW-EF) retornou 21 sítios: 8 blogs criados por professores de física para compartilhar práticas didáticas, 10 websites organizados por professores e instituições de ensino para socializar materiais e planos didáticos, e 3 redes sociais de professores. Esses sítios compilaram webcomics que abordam tanto o saber escolar da física reunindo assim webcomics com temáticas científicas (DWA-TC), quanto aspectos do saber científico denotado pelo compartilhamento de webcomics que usam o discurso científico para contextualizar outras temáticas (DWA-TD). Em especial, os blogs em CDW-EF utilizaram uma variedade de recursos, incorporando webcomics MC-WS, MC-WW, MP-EW e MP-PW (Quadro 3). A curadoria digital de webcomics para divulgação científica (CDW-DC) retornou 7 sítios: 3 blogs, 3 websites e 1 plataforma digital. Todos esses canais digitais focam na divulgação científica, com 5 abordando temas específicos como astronomia (3), aquecimento global (2) ou promovendo a cultura
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geek ou nerd (2). Em geral, o modelo CDW-DC compilou produtos culturais criados por quadrinistas profissionais que exploram aspectos do conhecimento científico para estruturar suas narrativas (DW-TD), possibilitando praticas nos moldes da MC-WW e MC-WS (Quadro3). Muitos desses sítios agregaram webcomics de websites estrangeiros, traduzindo e re-significando o conteúdo.
O compartilhamento de webcomics focadas nos saberes da física (DWA-TC) retornou 14 sítios: 7 blogs, 5 websites e 2 redes sociais, todos voltados a promoção de releituras de temas escolares. Destacam-se duas dinâmicas de autoria: a produção por estudantes (MP-EW) e por professores de física (MP-PW). Também houve sítios onde a produção resultou de parcerias entre quadrinistas, professores, estudantes universitários e instituições de ensino (MP-WW). O compartilhamento de webcomics que se apropriam do discurso científico para outras temáticas (DWA-TD) reuniu 21 sítios: 2 blogs, 3 redes sociais e 16 websites. Todos com produtos culturais criados exclusivamente para a web (MC-WW). Nesses, os discursos temáticos típicos da cultura geek ou nerd foram recorrentes, ainda assim, conservaram fortes conexões com os saberes da física. Todos os webcomics foram produzidos e divulgados por autores independentes, frequentemente, sem compromissos com o rigor científico.
Por fim, a curadoria digital associada ao compartilhamento de produtos culturais (CDW&DWA) contou com apenas 5 ocorrências: 2 blogs e 3 websites. Esses sítios adotaram uma abordagem plural, promovendo curadorias digitais com foco no ensino de física (CDW-EF) explorando webcomics comerciais (MC-WS, MC-WW), na mesma medida que destacavam webcomics centradas nos saberes da física oriundas do trabalho de professores e estudantes (MP-EW e MP-PW). A prioridade desses canais foi promover o ensino de física através de webcomics re-significados e educacionais. Ademais, três questões principais emergem dos dados: (1) os marcadores estilísticos mostraram que temas variados da física estão presentes nos webcomics. (2) os marcadores textuais retornaram conteúdos significativos, indicando a preocupação dos curadores/ divulgadores de webcomics pautados nos saberes da física com a indexação adequada. (3) A monetização foi recorrente apenas nos sítios digitais centrados em conteúdos de quadrinistas independentes.
## Conclusão
Há espaço para os saberes escolares da física nos webcomics? A resposta é sim. O panorama analisado revela que os saberes da física são utilizados para estruturar dinâmicas estéticas e dialéticas nos webcomics. Identificamos 68 sítios que, de alguma forma, re-significaram ou compartilharam webcomics ligados aos saberes da física. Embora o número de sítios encontrados indique que os webcomics estão alinhados com o discurso científico, esse não é o único argumento. Os dados sugerem que o saber da física se estabelece como um dos temas presentes nos webcomics (Santos; Corrêa; Tomé, 2012). Isso é evidente tanto na curadoria digital quanto nas ações de compartilhamento de produtos autorais. Na curadoria digital, vemos que a tendência é re-significar os webcomics à vista das necessidades didáticas, em simultâneo, a releitura do conhecimento é feita com base na sua função social e na cultura humana que permeia a vida cotidiana do saber da física (Vergueiro, 2006; Nicolau, 2013; Vieira, 2018).
Além disso, o compartilhamento de novos capitais culturais que agregam saberes da física mostra que o pensamento científico e a ciência orientam relações sociais nos espaços digitais (Santos, 2010). Essa afirmação é evidenciada pela cultura
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emergente criada por professores que produzem e incentivam os alunos a produzir webcomics. Nesse contexto, a internet não só serve como um local de socialização, mas também como um meio para estreitar as relações entre as comunidades e as ciências. Já quando observamos a crescente de quadrinistas incorporando saberes da física em suas obras, percebemos que os webcomics desempenham a função intrínseca de popularizar aspectos da cultura científica e educacional aptos a enfrentar movimentos que se apropriam da internet para promover obscurantismos (Marino, 2017; Vieira, 2018; VERGUEIRO; RAMOS, 2015).
## Referências
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