UNIDADES DE ENSINO POTENCIALMENTE SIGNIFICATIVAS E O PENSAMENTO SISTÊMICO COMO NORTEADORES DA COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA SOBRE MEIO AMBIENTE E MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Admilson Junior Leite, Iramaia Jorge Cabral De Paulo
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 21/01/2025
- Linha de pesquisa
- Divulgação Científica E Práticas Educativas Em Espaços Educativos Formais, Informais E Não Formais E O Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## UNIDADES DE ENSINO POTENCIALMENTE SIGNIFICATIVAS E O PENSAMENTO SISTÊMICO COMO NORTEADORES DA COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA SOBRE MEIO AMBIENTE E MUDANÇAS CLIMÁTICAS
## Admilson Junior Leite¹, Iramaia Jorge Cabral de Paulo²
¹Instituto de Física - Universidade Federal de Mato Grosso, admilsonjrnats@fisica.ufmt.br ²Instituto de Física - Universidade Federal de Mato Grosso, irafisufmt@gmail.com
## Resumo
Em um contexto em que os avanços tecnológicos proporcionam uma qualidade de vida cada vez mais elevada, as discussões sobre preservação ambiental tendem a se restringir ao ambiente acadêmico. Por efeito, observa-se que a população leiga não parece estar ciente das consequências do uso indiscriminado dos recursos naturais, manifestadas nos cada vez mais frequentes eventos climáticos extremos. Assim, é urgente a necessidade de incluir os cidadãos nos espaços acadêmicos, capacitando-os a atuar como agentes transformadores de sua realidade. Esse processo exige uma nova abordagem epistêmica, integradora da sociedade e o meio ambiente, de forma que as tomadas de decisões tenham impacto mais efetivo na vida de todos. Esse processo deve ser rigoroso e se utilize das ferramentas de comunicação atualmente disponíveis para assegurar um pleno desenvolvimento, mais alinhado às necessidades desses interlocutores. Neste contexto, este trabalho propõe apresentar uma robusta ferramenta metodológica, denominada Unidade de Ensino Potencialmente Significativa (UEPS), capaz de associar uma discussão ativa, crítica e significativa dentro de uma visão sistêmica da realidade. Essa abordagem visa fortalecer o conhecimento dos interlocutores, fornecendo-lhes subsídios para continuar esse processo de formação. A UEPS privilegia os saberes idiossincráticos dos interlocutores e, a partir deles, constrói um conhecimento sólido, que o aproxima do universo reificado, sem ignorar ou negligenciar suas particularidades. Além disso, o uso da UEPS, também, deve ser estimulado na Educação Básica ao privilegiar uma abordagem multidisciplinar e multifacetada dos problemas reais enfrentados pelos alunos.
Palavras-chave: Sociedades Sustentáveis; Aprendizagem Significativa; Pensamento Sistêmico.
## Introdução
As discussões sobre preservação ambiental e mudanças climáticas lançam sobre a humanidade uma realidade curiosa: um antagonismo entre os avanços tecnológicos e o meio ambiente. Parece paradoxal que, em um momento em que o acesso à informação seja virtualmente infinito, graças as tecnologias de compartilhamento , o meio ambiente esteja em um estado de vulnerabilidade nunca antes visto.
Os avanços tecnológicos propiciaram a humanidade uma evolução no seu modo de viver (BI et al, 2021), ao mesmo tempo que a afasta ainda mais da natureza: para que o bem-estar humano se concretize, os ambientes naturais são degradados.
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
E esse processo é um ciclo interativo, já que quanto mais a natureza é degradada, mais a humanidade se torna dependente de suas tecnologias.
Esse processo de degradação do meio ambiente atingiu níveis alarmantes, visto a quantidade de fenômenos climáticos extremos aos quais a humanidade tem experenciado, que vem aumentando gradativamente caracterizando uma crise climática sem precedentes. Essa realidade se fortalece com os estudos mais recentes da comunidade acadêmica nacional e internacional, que reconhece como inequívoca a relação entre os seres humanos e o aumento dos efeitos do aquecimento global (LEE et al., 2023), portanto, é urgente e necessária uma mudança de paradigma capaz de promover uma relação mais saudável entre a humanidade e o ambiente. Esse novo paradigma deve ser sistêmico (Ulrich, 2000), considerando não apenas as implicações sociais acerca do progresso e da evolução científica, mas também os impactos ambientais , em todos os níveis de tomada de decisão. O futuro da humanidade deve ser sustentável (Sanabria-Z et al., 2024).
Do ponto de vista epistemológico, o Pensamento Sistêmico (PS) irrompe como uma alternativa capaz de atender as necessidades atuais, ao preconizar que nossa realidade é emergente de um conjunto de interconexões e correlações entre diversos aspectos, materiais e imateriais. Quando estudados fragmentadamente, esses aspectos não conseguem expressar a complexidade dessa realidade (DE PAULO et al., 2012; CAPRA & LUISI, 2014; GALLÓN, 2020). Assim, as discussões que permeiam a realidade, sejam elas sociais, econômicas, culturais, científicas e ambientais, são, sob a perspectiva do PS, essencialmente sistêmicas.
Entretanto, existem obstáculos para uma discussão sistêmica da realidade. Um desses desafios é o afastamento da comunidade leiga (ou não acadêmica) do universo reificado, como as universidades e centros de pesquisa, mesmo com o aumento do acesso ao conhecimento, especialmente pelos meios digitais. Uma forma pela qual esse empecilho pode e deve ser superado é por meio da comunicação científica, que deve atuar como mediadora entre os conhecimentos acadêmicos e os cidadãos comuns (CONCEIÇÃO & CHAGAS, 2020; GRAHAM, 2024). Entretanto, esse processo não deve ser simplista, mas rigoroso, de forma a que o interlocutor não apenas conheça como entenda e seja capaz de discutir sobre esses temas (DAVIES, 2022). Ainda, aqueles que comunicam deve se apropriar dos meios eletrônicos de comunicação, integrando-os às suas estratégias de interconexão com a sociedade (MURTA & GRACIOSO, 2014; GRAHAM, 2024).
Uma forma rigorosa de se comunicar Ciência, de forma que o conhecimento compartilhado seja sistêmico é o uso das Unidades de Ensino Potencialmente Significativas (UEPS), sequências didáticas desenvolvidas sob a perspectiva da Teoria da Aprendizagem Significativa Crítica (TASC) de Moreira (2000), capaz de fortalecer a contextualização e a discussão crítica e complexa, como preconizada pelo PS, tornando os interlocutores agentes de transformação de suas vidas e da realidade que vivenciam.
Deste modo, este trabalho propõe a construção e posterior implementação de UEPS, auxiliada pelo uso de recursos eletrônicos, como vídeos e podcasts, como catalisadores do PS, bem como uma forma efetiva de comunicação científica, capaz de não só chamar a atenção da comunidade não leiga, como também de convidá-la a fazer parte desse processo de transformação social.
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## Metodologia
- O uso das UEPS segue as diretrizes estabelecidas por Moreira (2012), fundamentadas na Teoria da Aprendizagem Significativa (TAS) de Ausubel (AUSUBEL et al., 1978). De maneira simplificada, a construção de uma UEPS envolve oito etapas:
- 1. Definir o tópico específico a ser abordado;
- 2. Criar/propor situação(ões) que levem o aluno a externalizar seu conhecimento prévio;
- 3. Propor situações-problema que preparam o terreno para a introdução do conhecimento que se pretende ensinar, como organizadores prévios;
- 4. Apresentar o conhecimento a ser ensinado/aprendido, levando em conta a diferenciação progressiva de forma menos complexa;
- 5. Retomar esses conceitos, através de novas situações-problema, aumentando o nível de complexidade do conhecimento;
- 6. Estabelecer a relação de conexão entre os termos mais abrangentes e os mais específicos abordados até esse momento, através de situações-problemas com um nível de complexidade ainda maior;
- 7. Avaliar a aprendizagem através da UEPS através de uma avaliação somativa;
- 8. Avaliar o êxito da UEPS através da análise de evidências de aprendizagem significativa.
Essas etapas podem ser divididos em 3 etapas momentos: a preparação , na qual será estudado e determinado o tópico a ser abordado e as situações-problema a serem desenvolvidas, bem como quais recursos instrucionais, sejam eles escritos ou tecnológicos serão utilizados; a implementação , que como o nome sugere, é onde o comunicador e os interlocutores terão contato e seus conhecimentos serão compartilhados, fortalecidos e consolidados; e a avaliação , na qual se consolidará os conhecimentos dos interlocutores, bem como o êxito da aplicação da UEPS proposta.
A Figura 1 ilustra todo o processo metodológico associado a construção de uma UEPS, esmiuçando as etapas de sua construção, assim como apresentando recursos instrucionais, midiáticos e tecnológicos que podem auxiliar na condução de cada uma destas etapas. Nela, é possível verificarmos todas as etapas da UEPS, numeradas de 1 a 8, evidenciando a sequência lógica de seu desenvolvimento. A etapa 3 é considerada o Núcleo da UEPS , pois é nele que acontece os processos de interação entre o comunicador e os interlocutores, bem como é o processo que mais se repetirá, a fim de que se alcance a esperada consolidação do conhecimento construído.
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Figura 1: Fluxograma do processo metodológico de uma UEPS.
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Adicionalmente, são identificadas, de I a XII, as características do Pensamento Sistêmico (DE PAULO et al., 2012; CAPRA & LUISI, 2014), base epistêmica da abordagem sugerida neste trabalho. Em cada passo de cada etapa, são identificadas quais características do Pensamento Sistêmico podem ser estimuladas e trabalhadas. É importante ressaltar que essa identificação não é absoluta, de forma que o comunicador tem livre espaço para escolher quais características deseja trabalhar, sejam elas as identificadas na Figura 1 ou não.
## Resultados Esperados
A partir da discussão de temas relevantes para os interlocutores, através de uma abordagem que se torna cada vez mais aprofundada conforme se avança, espera-se que estes se aproximem mais das discussões que impactam diretamente a sua realidade. Por conseguinte, que essas aproximação seja capaz de atraí-los para as Instituições de Ensino Superior, para uma educação acadêmica adequada, que reflita as discussões reais que afetam suas vidas.
- É urgente estabelecer uma maior conexão entre o que é desenvolvido na Academia e as experiências vivenciadas pelos cidadãos comuns. Assim, construir um canal de conexão entre essas duas realidades, que seja capaz de se manter aberto, ativo e vivo com a participação dos cidadãos que ingressaram na Academia é imprescindível. Espera-se que este trabalho seja uma contribuição eficaz, ainda que possa ser pequena.
## Considerações Finais
- É importante que o conhecimento, ao longo de todo o processo, seja compartilhado entre aqueles que se propõem a comunicar Ciência e entre aqueles que desejam conhecê-la. Um comunicador terá maior sucesso se for capaz de utilizar os subsunçores de seus interlocutores a seu favor, pois ao fazê-lo, não se impõe como detentor absoluto de conhecimento.
- O processo de mudança na forma de pensar dos interlocutores é lento, mas deve ser sempre estimulado. Assim, fortalecer que eles falem e que o que foi falado seja utilizado e rememorado ao longo do processo é salutar, o que destaca o caráter sequencial das UEPS.
Ademais, espera-se que ao construir conhecimento a partir do que os interlocutores sabem ou da realidade que vivenciam, essa ação os torne protagonistas desse processo, estimulando-os ainda mais a participar, garantindo que a sequência proposta venha a ser concluída com êxito.
Por fim, a UEPS é uma metodologia ativa capaz de ser implementada na educação formal desses interlocutores, em todos os níveis e seu uso é estimulado, respeitadas as considerações anteriores.
## Referências
BI, Jun et al. Toward systemic thinking in managing environmental
risks. Engineering , v. 7, n. 11, p. 1518-1522, 2021.
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CAPRA, Fritjof; LUISI, Pier Luigi. Visão sistêmica da vida: uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas. Editora Cultrix , 2014.
GALLÓN, Luciano. Systemic thinking. Quality education , p. 830-840, 2020.
LEE, Hoesung et al. IPCC, 2023: Climate Change 2023: Synthesis Report, Summary for Policymakers. Contribution of Working Groups I, II and III to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Core Writing Team, H. Lee and J. Romero (eds.)]. IPCC, Geneva, Switzerland. 2023.
SANABRIA-Z, Jorge et al. Reusable educational resources for developing complex thinking on open platforms. Education and Information Technologies , v. 29, n. 1, p. 1173-1199, 2024.
DAVIES, Sarah R. STS and science communication: Reflecting on a relationship. Public Understanding of Science , v. 31, n. 3, p. 305-313, 2022.
DE PAULO, Iramaia Jorge Cabral; JORGE NETO, Miguel; DE PAULO, Sérgio Roberto. Introdução a Teoria da Complexidade. Cuiabá: EdUFMT , 2012.
ULRICH, Werner. Reflective practice in the civil society: the contribution of critically systemic thinking. Reflective practice , v. 1, n. 2, p. 247-268, 2000.
GRAHAM, Omari et al. Facts, faith and Facebook: science communication during the 2020-21 La Soufrière, St Vincent volcanic eruption. Geological Society, London, Special Publications , v. 539, n. 1, p. 331-344, 2024.
MURTA, Cíntia Maria Gomes; DE SOUZA GRACIOSO, Luciana. Circulação da Informação Científica em uma Lógica Transmidiática: por práticas comunicativas dialógicas. Brazilian Journal of Information Science: research trends , v. 18, p. e024014-e024014.
CONCEIÇÃO, Verônica Alves dos Santos; CHAGAS, Alexandre Meneses. O pesquisador e a divulgação científica em contexto de cibercultura e inteligência artificial. Acta Scientiarum. Education , v. 42, 2020.
Ausubel, D.P., Novak, J.D. and Hanesian, H. (1978). Educational psychology. New York: Holt, Rinehart and Winston. Publicado em português pela Editora Interamericana, Rio de Janeiro, 1980. Em espanhol por Editorial Trillas, México, 1981. Reimpresso em inglês por Werbel & Peck, New York, 1986.
MOREIRA, Marco A . Unidades de Ensino Potencialmente Significativas . In: SILVA. Márcia Gorette Lima da. et. al (org). Temas de ensino e formação de professores de ciências. Natal, RN: EDUFRN, 2012b. p. 45 - 57.
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MOREIRA, Marco António. Aprendizagem significativa crítica (critical meaningful learning). Teoria da Aprendizagem Significativa , v. 47, 2000.
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