ANÁLISE DA PRODUÇÃO BIBLIOGRÁFICA SOBRE A PRESENÇA DAS MULHERES NA CIÊNCIA
Carolline Batoreu Hassib De Azevedo, Lais Rodrigues Da Silva
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 21/01/2025
- Linha de pesquisa
- Diversidade, Inclusão E Direitos Humanos No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ANÁLISE DA PRODUÇÃO BIBLIOGRÁFICA SOBRE A PRESENÇA DAS MULHERES NA CIÊNCIA
Carolline Batoreu Hassib de Azevedo 1 , Laís Rodrigues da Silva 2
1 2 Universidade do Estado do Rio de Janeiro/Instituto de Física/carollbatoreu@gmail.com/lais.silva@uerj.br
## Resumo
O artigo aborda a sub-representação de mulheres na ciência, destacando a necessidade de uma abordagem mais inclusiva e equilibrada na história da ciência. A motivação para a pesquisa surgiu da observação de que, em textos acadêmicos, Marie Curie é frequentemente a única cientista mulher mencionada, apesar da diversidade e relevância das contribuições femininas ao longo dos séculos. Este artigo busca analisar as produções bibliográficas sobre a participação e a representação das mulheres na ciência, concentrando-se nas dissertações e teses disponíveis no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES. A pesquisa foi delimitada ao período de 2002 a 2023 e utilizou as palavras-chave 'Mulher', 'História da Ciência', 'Física', 'Século XIX' e 'Século XX' para assegurar a abrangência e relevância dos materiais selecionados. Os resultados evidenciam que as mulheres continuam enfrentando barreiras significativas que limitam suas oportunidades de ascensão em posições de destaque, mesmo quando suas realizações igualam ou superam as dos homens. A pesquisa revela que promover a igualdade de gênero na ciência não se limita a buscar maior representatividade, mas requer uma reavaliação e transformação na forma como o conhecimento científico é produzido e pensado.
Palavras-chave : Mulher, História da ciência, Física.
## Introdução
A motivação para a pesquisa surgiu durante uma aula de Evolução dos Conceitos de Física, quando a autora questionou a falta de textos que abordavam cientistas mulheres. Foi observado que, apesar da importância e diversidade das contribuições femininas para a ciência, Marie Curie era a única cientista mulher mencionada. Esse fato levantou uma questão crucial: por que as cientistas não recebem o mesmo reconhecimento e visibilidade? Essa discrepância evidenciou a necessidade de investigar a representação das mulheres na ciência e entender por que muitas cientistas, cujas contribuições foram igualmente relevantes, continuam sendo sub-representadas. Esse questionamento inicial motivou uma investigação mais detalhada sobre o tema, visando preencher lacunas na literatura e promover uma abordagem mais equilibrada e inclusiva da história da ciência. O objetivo deste trabalho é examinar a produção bibliográfica, com ênfase nas teses e dissertações publicadas entre 2002 e 2023, sobre a participação das mulheres na ciência.
A participação das mulheres nos ambientes de produção de ciência e tecnologia (C&T) tem sido tema de debate por diversos autores contemporâneos (KOCHEN et al., 2001; CABRAL, 2008). Nos últimos anos, é evidente o aumento da presença feminina em vários setores da sociedade, incluindo o campo de C&T. No entanto, ainda é notável que essa inserção não se reflete de forma expressiva em espaços de maior relevância, como cargos de liderança ou nas áreas que recebem mais financiamento. Esta pesquisa busca contribuir para uma compreensão mais
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
aprofundada da relação entre ciência e gênero, analisando a produção acadêmica sobre o tema.
Historicamente, as mulheres estiveram ausentes de certos espaços, como o ambiente escolar, por razões sociais. Sedeño (2001) identifica três momentos chave na luta das mulheres pelo acesso à educação. O primeiro ocorre entre o Renascimento e a revolução científica, quando as mulheres obtêm acesso à educação básica (ler e escrever) pela primeira vez. É nesse período que surge a polêmica sobre a capacidade biológica das mulheres para os estudos. O segundo momento importante é na segunda metade do século XIX, quando as mulheres começam a ingressar em instituições de ensino superior, sem restrições formais. Não se trata mais da educação de poucas mulheres, mas do direito de qualquer mulher cursar uma universidade. O terceiro momento surge nos anos 1960, quando a luta já não se limita à educação básica ou superior, mas à investigação das razões pelas quais, mesmo sem discriminação legal, ainda há tão poucas mulheres estudando ciências, trabalhando nelas e ocupando cargos de liderança e tomada de decisão (p. 9-10).
Os debates sobre gênero são frequentemente associados às ciências sociais ou à biologia, mas é na física que encontramos a maior disparidade de gênero entre estudantes, docentes e na produção do conhecimento científico. Assim como Scott (2019), adotamos a perspectiva de gênero como uma construção política e social que estabelece consensos aparentes no discurso dominante por meio das relações de poder.
O gênero é um elemento constitutivo das relações sociais, baseado nas diferenças percebidas entre os sexos; uma forma primordial de significar as relações de poder. As mudanças na organização das relações sociais sempre correspondem a mudanças nas representações de poder, mas a direção dessa mudança não segue necessariamente um caminho linear. (SCOTT, 2019, p.16)
Fica evidente que existe uma hierarquia de profissões em função do gênero, na qual as mulheres são direcionadas para áreas construídas socialmente como menos valorizadas.
A ideia de uma relação estreita entre ciências e gênero sugere que o desenvolvimento do conhecimento científico foi moldado por uma dicotomia fundamental entre masculino e feminino na sociedade, e pelo fato de que, ao longo da maior parte da história, a pesquisa científica foi realizada por e para homens. As pesquisas nesse campo assumem que as definições de neutralidade, objetividade, racionalidade e universalidade da ciência muitas vezes incorporam a visão de mundo dos homens ocidentais das classes dominantes que criaram essa ciência. (LÖWY, 2009, p.27)
Assim, o debate de gênero não se limita à busca por uma maior presença de mulheres nas atividades científicas, o que seria uma questão de representatividade. Ele visa também promover uma reconfiguração e diversificação da própria maneira de pensar e produzir ciência (ROSA, 2015).
Na busca por uma escola plural em termos sociais, políticos e culturais, Figueiredo (2018) identificam fatores relevantes para a desigualdade de gênero nas ciências. Entre esses fatores estão: a influência das opiniões dos professores sobre as relações de gênero, a falta de representatividade feminina, o direcionamento das crianças por parte da família, e o reforço de um modelo específico de entendimento da ciência como objetiva, universal, impessoal e masculina.
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O que podemos e devemos fazer, enquanto educadores, para contribuir com a igualdade de gênero no campo da física? Nossa proposta é inserir nas aulas o conhecimento científico produzido por mulheres, explorar novos referenciais, ressignificar o currículo e dar voz às muitas cientistas que foram silenciadas no processo de construção do conhecimento científico.
## Metodologia
Neste estudo, foi adotada uma abordagem de revisão sistemática da literatura, com foco na análise qualitativa, conforme o método proposto por Bogdan e Biklen (1995), para investigar teses e dissertações relacionadas às mulheres na ciência. A pesquisa foi realizada no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e abrangeu o período de 2002 a 2023. As palavras-chave utilizadas na busca foram: 'Mulher', 'História da Ciência', 'Física', 'Século XIX' e 'Século XX'.
No processo de seleção dos artigos, foi realizada uma filtragem inicial com base nos títulos e resumos para identificar aqueles que poderiam ser relevantes. Em seguida, os resumos e conclusões dos artigos selecionados foram analisados de forma detalhada e reiterada para classificá-los em categorias apropriadas.
Para a análise dos dados obtidos nessa pesquisa será utilizada a técnica de análise de conteúdo por ser considerada adequada na descrição e interpretação do conteúdo de toda classe de documentos e textos, podendo conduzir a descrições sistemáticas, qualitativas ou quantitativas, auxiliando a interpretar as mensagens e a atingir uma compreensão de seus significados em um nível que vai além de uma leitura comum, representando uma abordagem metodológica com características e possibilidades próprias (MORAES, 1999). Porém, é de conhecimento que esta técnica não está isenta de limitações, e que fatores externos podem influenciar fortemente os resultados obtidos.
Sobre a análise de conteúdo é importante ressaltar o caráter interpretativo da análise:
De certo modo a análise de conteúdo é uma interpretação pessoal por parte do pesquisador com relação à percepção que tem dos dados. Não é possível uma leitura neutra. Toda leitura se constitui numa interpretação. (MORAES, 1999, p.3)
Assim sendo, teremos como objetivo não apenas o levantamento das concepções de quem escreveu os documentos analisados, mas sobretudo os efeitos ideológicos da escrita, ou seja, diferentes sentidos podem ser atribuídos a uma mesma fala, gerando múltiplas possibilidades de análise que serão interpretadas de acordo com o contexto explicitado.
## Análise
Após a leitura preliminar do conjunto de dados, adotamos a categorização temática como metodologia de análise, conforme descrito por Moraes (1999). Os artigos foram separados em três categorias, sendo elas: Estudo sobre a história de mulheres cientistas dos Séculos XIX e XX, Estudo sobre o contexto histórico da educação científica feminina nos séculos XIX e XX, e Relato da trajetória de mulheres cientistas contemporâneas e junto a um estudo comparativo sobre a
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entrada e permanência dessas mulheres nas áreas de ciências exatas. A frequência de cada categoria é apresentada no quadro abaixo.
Quadro 01: Categorização das teses e dissertações.
Fonte: Autores.
As teses e dissertações das categorias podem ser encontradas nas referências deste trabalho, sendo identificadas pelos índices colocados no quadro acima. Ou seja, as referências que possuem o índice [1] estão na categoria 'Estudo sobre a história de mulheres cientistas dos Séculos XIX e XX', o índice [2] indica a categoria 'Estudo sobre o contexto histórico da educação científica feminina nos séculos XIX e XX', e o índice [3] a categoria 'Relato da trajetória de mulheres cientistas contemporâneas e junto a um estudo comparativo sobre a entrada e permanência dessas mulheres nas áreas de ciências exatas'.
## Estudo sobre a história de mulheres cientistas dos Séculos XIX e XX:
Nesta categoria, os textos visam, principalmente, registrar a trajetória de cientistas mulheres, que viveram entre os séculos XIX e XX . Além disso, em alguns deles, é realizada uma revisão da historiografia relacionada à inserção das mulheres nos meios acadêmicos e, principalmente, no meio científico .
A presente pesquisa tem por finalidade registrar a história da Imperatriz Leopoldina, preenchendo os silêncios existentes na relação dela com as ciências naturais no início do século XIX. Os silêncios refletem a exclusão do registro da mulher como protagonista, especialmente em cenários nos quais eram impostas restrições e/ou proibições a sua participação, como no campo científico. (SILVA, 2018, p.1)
A citação de Silva (2018) ressalta que a pesquisa busca enfrentar o "silêncio" histórico em torno da participação da Imperatriz Leopoldina nas ciências naturais. Este "silêncio" pode ser visto como uma metáfora para a exclusão e invisibilidade das mulheres na documentação histórica, especialmente em áreas como a ciência, onde eram frequentemente marginalizadas ou suas contribuições minimizadas.
- O reconhecimento de Leopoldina como protagonista é uma tentativa de corrigir a narrativa histórica e reconhecer a importância de figuras femininas em campos dominados por homens. Esta abordagem não apenas amplia a compreensão do papel das mulheres na ciência e na história, mas também desafia as limitações e preconceitos que ainda podem persistir na pesquisa e na documentação histórica.
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## Estudo sobre o contexto histórico da educação científica feminina nos séculos XIX e XX:
Analisa-se, nesta categoria, o contexto histórico da educação científica feminina nos séculos XIX e XX, investigando os desafios enfrentados por mulheres cientistas e as mudanças sociais e educacionais que impactaram sua participação nas ciências. Vale destacar que os autores deste texto não se concentram em uma cientista específica, mas realizam um estudo geral sobre a educação científica feminina, explorando o contexto histórico do final do período republicano no Brasil e o início das influências das ideias iluministas. O único trabalho desta categoria aborda o pensamento de José Veríssimo sobre a educação científica no Brasil e o papel das mulheres nesse contexto.
O trabalho tem por objetivo examinar o pensamento do escritor paraense José Veríssimo no que diz respeito aos estudos das ciências naturais e as suas idéias sobre educação científica feminina na transição do século XIX para o século XX, momento da transição do regime imperial para o republicano. (SILVA, 2012, p.1)
É importante ressaltar que, na época, o objetivo não era a emancipação feminina, mas sim garantir que as mulheres recebessem instrução suficiente para desempenhar seu papel de mães, considerando que elas são as primeiras educadoras de seus filhos.
## Relato da trajetória de mulheres cientistas contemporâneas e junto a um estudo comparativo sobre a entrada e permanência dessas mulheres nas áreas de ciências exatas:
Nesta categoria, os textos apresentam um detalhado relato sobre a trajetória de mulheres cientistas contemporâneas, destacando suas contribuições e desafios enfrentados ao longo de suas carreiras. Além disso, é realizado um estudo comparativo aprofundado que analisa os fatores que influenciam a entrada e a permanência dessas mulheres nas áreas de ciências exatas. A pesquisa busca explorar as barreiras históricas e atuais, bem como as iniciativas que têm sido implementadas para promover a inclusão e equidade de gênero nesse campo predominantemente masculino.
Ao biografá-las, este estudo tenta contribuir para a ruptura do silêncio e invisibilidade que tem envolvido as mulheres nos estudos sociológicos, antropológicos, filosóficos e históricos da ciência. (SANTOS, 2012, p. 1)
Fica claro, ainda, que as mulheres enfrentam grandes dificuldades de acesso e ascensão na carreira científica, especialmente na Física. Essas barreiras vão além da maternidade e da priorização dos cuidados familiares, estando também associadas a ideias machistas que as consideram inferiores, mesmo quando suas produções superam as dos homens. Nos textos desta categoria, pode-se observar que o caso de Marie Curie continua se repetindo: apesar de ter recebido dois prêmios Nobel, ela foi impedida de ingressar na Universidade de Paris. Torna-se evidente que, mesmo quando as mulheres demonstram ser tão ou mais capazes do que os homens, elas ainda encontram um "teto de vidro" que limita seu progresso na carreira científica.
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## Conclusões Finais
A análise da produção bibliográfica sobre a presença das mulheres na ciência revela um panorama complexo de desafios históricos e contemporâneos enfrentados pelas cientistas. Embora a participação feminina em ciência e tecnologia tenha aumentado nas últimas décadas, a representatividade das mulheres em posições de destaque e nas áreas mais valorizadas ainda é limitada. A revisão sistemática de dissertações e teses mostrou que as contribuições femininas continuam sub-representadas, tanto em registros históricos quanto em debates acadêmicos atuais, refletindo uma persistente desigualdade de gênero na ciência.
Os estudos revisados destacam a trajetória de mulheres cientistas dos séculos XIX e XX, o contexto histórico da educação científica feminina e os desafios contemporâneos enfrentados pelas cientistas em suas carreiras. É evidente que, apesar das conquistas, as mulheres ainda lidam com um "teto de vidro" que limita suas oportunidades de ascensão profissional. Esse cenário destaca a urgência de promover uma abordagem mais inclusiva na educação e na produção científica, que reconheça e valorize plenamente as contribuições femininas.
Portanto, a promoção de uma visão mais equilibrada e inclusiva da história da ciência é essencial não apenas para a representatividade, mas para reconfigurar as formas de pensar e produzir conhecimento científico. Cabe aos educadores e instituições integrar as perspectivas e realizações das mulheres cientistas nos currículos e pesquisas, contribuindo para uma ciência mais diversa e justa. Essa inclusão não apenas preenche as lacunas históricas, mas também desafia as estruturas de poder que perpetuam a desigualdade de gênero, promovendo um ambiente científico que reconheça e valorize o potencial completo de todas as pessoas, independentemente de gênero.
## Referências
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