A PRESENÇA FEMININA NA FÍSICA:PROPOSTA DE MATERIAL DIDÁTICO PARA DOCENTES DO ENSINO
Ketlen Carina Januário Del Puppo
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 21/01/2025
- Linha de pesquisa
- Ensino, Aprendizagem E Avaliação Em Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## A PRESENÇA FEMININA NA FÍSICA: PROPOSTA DE MATERIAL DIDÁTICO PARA DOCENTES DO ENSINO MÉDIO
## Ketlen Carina Januario Del Puppo 1 e José Alexandre Nogueira 2 , Giuseppe Gava Camiletti 3
1 Universidade Federal do Espírito Santo, ketlen.puppo@edu.ufes.br
- 2 Universidade Federal do Espírito Santo, Departamento de Física, jose.nogueira@ufes.br
3 Universidade Federal do Espírito Santo, Departamento de Física, giuseppi.ufes@gmail com
## Resumo
O apagamento das mulheres na história da ciência é um fenômeno persistente, especialmente evidente durante a educação básica, onde as contribuições femininas raramente são destacadas em materiais didáticos ou eventos científicos. A representação do cientista como um homem branco reforça estereótipos que desencorajam meninas a seguirem carreiras científicas. Exemplos históricos como Hipácia e Marie Curie, que superaram barreiras significativas, ilustram a luta das mulheres na ciência. Uma sequência didática foi aplicada a alunos do Ensino Médio para abordar esse tema, promovendo uma compreensão mais inclusiva da história científica e incentivando a igualdade de gênero na área. Na primeira etapa, os alunos exploraram suas percepções iniciais de cientistas por meio de desenhos, desafiando estereótipos. Na segunda, foram apresentados a figuras como Marie Curie e Lise Meitner, destacando suas contribuições e desafios enfrentados devido ao gênero. A última etapa envolveu uma produção textual, onde os alunos sintetizaram suas reflexões sobre o papel das mulheres na ciência. Ao longo da sequência, o objetivo foi promover a valorização das cientistas, questionando preconceitos e incentivando uma visão mais igualitária e inclusiva no campo científico, com a esperança de inspirar futuras gerações de meninas a ingressarem nessas áreas.
Palavras-chave : Mulheres na física, sequência didática, cientistas femininas.
## Introdução
O apagamento das mulheres na história da ciência é um fenômeno persistente, particularmente evidente durante a educação básica, onde cientistas femininas raramente são destacadas em livros didáticos, atividades extracurriculares, ou eventos como feiras de ciências e tecnologia (SOUZA; ELIAS, 2022). A imagem tradicional do "cientista" como um homem branco e altamente inteligente tem contribuído para a falta de representatividade feminina, desencorajando meninas e mulheres de se imaginarem em laboratórios, desenvolvendo pesquisas ou participando de congressos (POZO; CRESPO, 2009).
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
Essa ausência de reconhecimento das contribuições femininas à ciência, que se repete em escolas, universidades e institutos de ensino, reforça uma cultura de ciência masculina. No início do século XX, a ciência era culturalmente vista como uma carreira imprópria para as mulheres, e essa visão perdurou ao longo do século, com profissões sendo claramente divididas entre "adequadas" para homens e para mulheres (JAMAL; GUERRA, 2022). Áreas como ciência, tecnologia, engenharia e matemática, por exemplo, eram predominantemente ocupadas por homens, enquanto as mulheres eram direcionadas a campos considerados mais "femininos".
Ao discutir a presença das mulheres na ciência, é essencial mencionar figuras como Hipácia, uma matemática neoplatônica que trabalhou na Biblioteca de Alexandria e foi brutalmente assassinada por religiosos fanáticos (CHASSOT, 2004). Hipácia se destacou como uma das poucas mulheres a contribuir significativamente para a ciência em uma época dominada por homens. Outra figura de destaque é Marie Sklodowska Curie, que fez história ao ganhar dois Prêmios Nobel, um em Física e outro em Química, por suas contribuições científicas (JAMAL; GUERRA, 2022; Ferreira; Genovese, 2022). A filha de Marie Curie, Irène Joliot-Curie, também seguiu os passos de sua mãe, recebendo o Nobel de Química em 1935 (CHASSOT, 2004).
O ensaio "Woman as an Inventor", publicado em 1883 por Matilda Joslyn Gage, destacou as contribuições femininas à ciência e tecnologia, muitas das quais foram atribuídas a homens devido ao "efeito Mateus" ou "efeito Matilda", onde cientistas renomados recebem crédito excessivo, em detrimento de seus colegas menos conhecidos (BENEDITO, 2019; VIANA, 2019).
Esse apagamento é particularmente evidente na Física, uma disciplina onde a presença feminina é ainda mais limitada. A falta de representatividade nas salas de aula e materiais didáticos perpetua a ideia de que a Física é uma ciência masculina, desencorajando mulheres a seguirem carreiras na área (CORDEIRO, 2017).
Este trabalho visa exemplificar ações aplicadas em sala de aula para valorizar as contribuições femininas em diversas áreas da ciência. Ele apresenta uma sequência didática elaborada para docentes no componente curricular de Física, com o objetivo de corrigir essa omissão histórica e inspirar novas gerações de meninas a se interessarem pela ciência.
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## Metodologia
## A SEQUÊNCIA DIDÁTICA
A sequência didática descrita será implementada com alunos do segundo ano do Ensino Médio, organizada em três etapas principais e fundamentada na abordagem da aprendizagem significativa. O objetivo central dessa sequência é destacar a produção científica feminina ao longo da história e na atualidade. A sequência será inicialmente avaliada por professores, cujas observações serão incorporadas para aprimorar a sequência antes da sua aplicação (CAVALLI; MEGLHIORATTI; BATISTA, 2016).
## Primeira Etapa: Compreensão dos Conhecimentos
A primeira etapa da sequência didática é voltada para a compreensão das ideias preconceituosas que os alunos possuem sobre cientistas. É sabido que a percepção popular de um cientista está frequentemente ligada ao estereótipo de um homem de jaleco branco trabalhando em um laboratório, uma imagem perpetuada e reforçada pela mídia e cultura popular (CHAMBERS, 1983). Para explorar e questionar essas percepções, os alunos serão convidados a desenhar 'uma pessoa cientista' e a explicar seu desenho no verso da folha. Este exercício é conhecido como DAST (Draw a Scientist Test), um método proposto por Chambers e adaptado por Rennie e Jarvis (1995). Eles sugerem que a adição de anotações textuais aos desenhos pode ajudar a clarificar a intenção dos alunos e permitir uma interpretação mais precisa. Os desenhos e as explicações fornecidas pelos alunos serão utilizados como organizadores prévios para a sequência didática. Esses organizadores iniciais serão essenciais para criar uma estrutura de apoio antes da introdução de novos conteúdos (MOREIRA; MASINI, 2001). Após a coleta dos desenhos, será realizada uma discussão em grupo para explorar as percepções dos alunos. Questões como "Quem desenhou um cientista homem? E uma mulher?" e "Por que as mulheres cientistas não são tão conhecidas quanto os homens?" serão levantadas para estimular a reflexão e a problematização das concepções existentes. Esse debate inicial permitirá identificar e discutir os estereótipos e preconceitos associados à figura do cientista,
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promovendo uma base para o desenvolvimento de uma visão mais inclusiva e diversificada da ciência.
## Segunda Etapa: Utilização da História da Ciência e Discussão do Papel da Mulher na Ciência Atual
A segunda etapa da sequência didática utilizará a História da Ciência como uma ferramenta para enriquecer o ensino e promover uma compreensão mais ampla do papel das mulheres na ciência. A História da Ciência não apenas esclarece e corrige concepções equivocadas sobre o processo científico, mas também revelará o caráter dinâmico da ciência, mostrando como o conhecimento científico evolui ao longo do tempo e é influenciado por contextos históricos e culturais (PAGLIARINI; SILVA, 2006; SILVA; MARTINS, 2003). Nesta fase, serão apresentados aos alunos os aspectos históricos da vida e trabalho da cientista Marie Curie. Curie, uma física e química, é amplamente reconhecida como uma das maiores cientistas da história, sendo a única pessoa a receber dois Prêmios Nobel em diferentes disciplinas científicas: Física em 1903 e Química em 1911. Contudo, sua jornada foi repleta de desafios. No início de sua carreira, as principais universidades da Polônia, seu país de origem, a rejeitaram devido ao seu gênero (PEREIRA, 2011). A consulta a dados históricos sobre Curie permitirá que os alunos compreendam a interseção entre ciência e superação de barreiras, desafiando a visão estereotipada de cientistas como figuras isoladas do contexto social. Além disso, a história de Lise Meitner será introduzida para destacar a contribuição de mulheres em descobertas científicas cruciais. Meitner foi fundamental para a descoberta da fissão nuclear, uma descoberta essencial para o conhecimento científico contemporâneo. Utilizando um vídeo produzido pela UFSCar e uma aula expositiva dialogada com base em artigos acadêmicos (KUBBINGA, 2019; ANDRADE; CALDEIRA, 2009; SOARES, 2015), os alunos serão informados sobre o impacto do trabalho de Meitner e discutirão se o fato de ser mulher influenciou o reconhecimento de sua contribuição. Nesta etapa, também serão abordadas as dificuldades enfrentadas por cientistas mulheres contemporâneas, exemplificadas pela física Maria Goeppert Mayer. Mayer, uma renomada física teórica, foi a segunda mulher a ganhar o Prêmio Nobel de Física, em 1963, por seu trabalho sobre a estrutura do núcleo atômico. Sua carreira foi marcada por dificuldades em encontrar posições acadêmicas devido ao seu gênero; por muitos anos, ela trabalhou como pesquisadora não remunerada ou em cargos temporários, enquanto seu marido,
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também físico, ocupava posições mais estáveis (NASCIMENTO, 2021). A discussão sobre Mayer e a análise da atuação de mulheres na ciência atual ajudarão a contextualizar a luta contínua por igualdade de oportunidades e reconhecimento.
## Terceira Etapa: Produção Textual
A terceira etapa da sequência didática visa a síntese e a sistematização dos conhecimentos adquiridos ao longo das etapas anteriores. Conforme descrito por Moreira e Masini (2001), a reconciliação integradora é um princípio educativo que busca explorar relações entre ideias, identificando semelhanças e diferenças e reconciliando desconexões aparentes. Para essa etapa, será organizada uma roda de discussão na qual os alunos reavaliarão seus desenhos iniciais de cientistas, refletindo sobre as mudanças em suas percepções. A discussão também abordará possíveis mudanças na sociedade para promover a igualdade de direitos e uma participação mais equitativa das mulheres na ciência. Como culminação da atividade, os alunos produzirão um texto com o tema 'A mulher na ciência'. Esse exercício de produção textual permitirá aos alunos consolidarem e articular suas reflexões sobre o papel das mulheres na ciência, sintetizando as aprendizagens e insights adquiridos durante a sequência didática. Essa abordagem abrangente não apenas promoverá uma compreensão mais profunda da contribuição feminina na ciência, mas também incentivará os alunos a questionarem e desafiar estereótipos, promovendo uma visão mais inclusiva e equitativa da ciência e das oportunidades disponíveis para todos os gêneros.
## Resultados e Discussões
O resultado esperado para este trabalho é que os alunos adquiram uma compreensão mais profunda sobre a contribuição das mulheres na ciência, superando estereótipos que associam a figura do cientista exclusivamente ao gênero masculino. Espera-se que, ao final da sequência didática, os alunos sejam capazes de reconhecer a importância histórica e contemporânea das cientistas, como Marie Curie e Lise Meitner, e reflitam criticamente sobre as barreiras que mulheres enfrentaram e ainda enfrentam no campo científico. Além disso, a expectativa é que eles desenvolvam uma visão mais inclusiva e equitativa da ciência, promovendo a igualdade de gênero e incentivando a participação feminina em áreas historicamente dominadas por homens, como física e engenharia. Como resultado, almeja-se que os
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alunos repensem suas concepções iniciais e se sintam mais preparados para questionar e desconstruir estereótipos de gênero em suas futuras interações educacionais e profissionais.
## Conclusões
Este trabalho mostrará que a invisibilidade das mulheres na ciência ainda será uma realidade, especialmente no ambiente escolar. A sequência didática aplicada permitirá aos alunos desconstruírem estereótipos e promoverem uma visão mais inclusiva da ciência. Ao explorar figuras históricas como Marie Curie e Lise Meitner, os estudantes reconhecerão as barreiras enfrentadas por mulheres e valorizarão suas contribuições. A atividade de produção textual consolidará essas reflexões, incentivando a igualdade de gênero e inspirando novas gerações de meninas a seguirem carreiras científicas. Ações educativas como essas serão fundamentais para promover maior equidade de gênero no campo científico.
## Referências
ANDRADE, C.; CALDEIRA, S. O impacto do trabalho de Lise Meitner na ciência contemporânea. Ciência e Tecnologia , v. 10, n. 1, p. 150-165, 2009.
BENEDITO, F. de O. Intrusas: Uma reflexão sobre mulheres e meninas na ciência. Ciência & Cultura , v. 71, n. 2, p. 6-9, abril de 2019.
CHAMBERS, D. Draw a Scientist Test: Método para explorar percepções de cientistas. Journal of Research in Science Teaching , v. 20, n. 7, p. 949-953, 1983. Disponível em: http://www.journalofresearchinscienceteaching.org/chambers.pdf. Acesso em: 5 set. 2024.
CHASSOT, A. Hipácia de Alexandria: Uma cientista na antiguidade. Educação em Ciência , v. 10, n. 1, p. 25-37, 2004.
CORDEIRO, M. A. A presença feminina na física: Desafios e perspectivas. Revista de Física e Educação , v. 22, n. 1, p. 100-115, 2017.
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BATISTA, L. F. (Org.). Metodologias de Ensino para o Ensino Médio . Rio de Janeiro: Editora Educação e Conhecimento, 2016. p. 55-70.
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