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O PÚBLICO QUE ACESSA CONTEÚDOS DE FÍSICA DE PARTÍCULAS: UMA ANÁLISE DE INTERAÇÕES EM REDES SOCIAIS

Rebeca Alice Leiva, Ivã Gurgel

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
21/01/2025
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Ciência No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## O PÚBLICO QUE ACESSA CONTEÚDOS DE FÍSICA DE PARTÍCULAS: UMA ANÁLISE DE INTERAÇÕES EM REDES SOCIAIS

## Rebeca Alice Leiva, Ivã Gurgel

1 Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, rebeca.alice.leiva@usp.br 2 Universidade de São Paulo, gurgel@usp.br

## Resumo

O objetivo desta pesquisa, partindo de uma perspectiva histórico-cultural de imaginário e circulação social do conhecimento, é analisar interações do público geral em publicações sobre o bóson de Higgs em redes sociais de um tradicional portal de notícias. Aqui questionamos: que visões de ciência são apresentadas ou reproduzidas pelos sujeitos no que diz respeito à divulgação científica do bóson de Higgs? Para destrinchar essa questão, utilizamos a análise textual discursiva para categorizar e analisar comentários de usuários com posicionamentos similares ou conflitantes nas publicações por meio da fragmentação em unidades de análise. Aqui apresentamos os resultados referentes aos discursos transmitidos que demonstraram terem tido contato com conhecimentos prévios pertencentes à ciência ou que expressaram interesse por mais conteúdos científicos a partir do contato com as publicações sobre o bóson. Mapear as concepções sobre ciência dos usuários de redes sociais significa entender como a divulgação científica afeta o entendimento e a comunicação de informações científicas e compreender uma das principais fontes de informação para o público sobre conteúdos científicos, sobretudo, de concepções equivocadas sobre ciências.

Palavras-chave : Física de Partículas; divulgação científica; redes sociais.

## Introdução

A divulgação científica tem um papel fundamental no vínculo entre as pessoas e a ciência, pois permite a população acessar os avanços científicos e compreender suas implicações para a sociedade. Para além das tradicionais plataformas, como revistas, jornais e sites, a divulgação também pode ser realizada por meio das redes sociais, que são fortes disseminadoras de informação e podem ser usadas para tornar a ciência mais atraente. Entretanto, estas também podem ser um veículo de promoção, propagação e circulação de valores e visões distorcidas da ciência (Cardoso et al , 2015). Pretendemos nesta pesquisa analisar a perspectiva dos consumidores das reportagens sobre o bóson de Higgs, que ficou popularmente conhecido como 'a partícula de Deus'. A questão que permeia este trabalho pode ser expressa nos seguintes termos: que visões de ciência são apresentadas ou reproduzidas pelos sujeitos no que diz respeito à divulgação científica do bóson de Higgs?

Para destrinchar a questão exposta, utilizamos uma metodologia de análise qualitativa pela qual observamos as interações de internautas nas publicações nas redes sociais da BBC News Brasil sobre o bóson de Higgs. Recorremos à análise textual discursiva (ATD) (Moraes, 2003), de maneira que categorizamos e analisamos comentários de usuários com posicionamentos similares ou conflitantes nas publicações por meio da fragmentação em unidades de análise. Aqui apresentamos os resultados sobre a categoria construída interesse pela ciência e a divulgação científica .

Ela diz respeito aos discursos transmitidos pelos usuários que demonstraram terem tido contato com conhecimentos prévios pertencentes à ciência ou que expressaram

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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ

interesse por mais conteúdos científicos a partir do contato com as publicações sobre o bóson. Por entendermos como dois movimentos distintos, um remetendo a experiências anteriores e o outro a posteriores, esta categoria foi dividida em duas subcategorias: conhecimentos e experiências prévios dos usuários sobre Física de Partículas e desenvolvimento de interesse pela Física de Partículas após acesso à publicação . A seguir apresentamos os resultados obtidos.

## Conhecimentos e experiências prévios dos usuários sobre Física de Partículas

Nesta subcategoria, identificamos comentários em que o discurso dos usuários demonstra um contato anterior com conhecimentos de Física de Partículas, seja pela divulgação ou pela escolarização. A importância desta subcategoria é justificada pelo ensino formal de Física Moderna e Contemporânea (FMC), campo o qual a Física de Partículas é integrante, encontrar dificuldades na realidade concreta escolar (Antonowiski; Alencar; Rocha, 2017), de maneira a possibilitar o exame de quais fontes o público geral conheceu conteúdos da Física de Partículas. Assim, podemos identificar como as pessoas relacionaram seus conhecimentos prévios sobre Física de Partículas com a publicação sobre o bóson.

Vários comentários referenciam a obra Anjos e Demônios (Brown, 2005), um romance policial. Na história, o protagonista especialista em simbologia viaja até a Organização Europeia para a Investigação Nuclear (CERN) para investigar o assassinato de um cientista que trabalhava num projeto secreto de antimatéria e descobre a relação desta tragédia com membros da Igreja Católica, encontrando-se numa guerra entre ciência e religião. O livro inspirou o filme de mesmo nome (Anjos…, 2009). Um usuário, por exemplo, relata que foi 'Desbloqueada uma lembrança de um dos melhores livros que já li: 'Anjos e Demônios' de Dan Brown. Que detalha de forma espetacular a partícula de Deus e foi a primeira vez que li a respeito' (BBC News Brasil, 2023b). Outros usuários também relatam que esta leitura foi seu primeiro contato com a ideia do bóson de Higgs. Há aqueles que demonstram o potencial da ficção científica para engajar o público em conteúdos científicos, por exemplo, 'Sempre me lembro do livro/filme 'anjos e demônios' quando vejo sobre esse assunto [Modelo Padrão e bóson de Higgs]' (BBC News Brasil, 2023c).

A maioria dos comentários no que diz respeito às experiências prévias dos usuários sobre conteúdos da Física de Partículas são em relação ao seriado televisivo The Big Bang Theory (2007-2009), uma comédia que acompanha o cotidiano do físico teórico Sheldon Cooper e seus amigos. No geral, os usuários demonstram que seu único ou primeiro contato com temas da Física de Partículas deveu-se à série: 'Eu nunca teria parado pra assistir isso [vídeo sobre o bóson da BBC News Brasil] se não conhecesse o Bóson de higgs por The bigbang theory… obrigada Sheldon Cooper' (BBC News Brasil, 2023c) e 'A primeira vez que ouvi falar [do Modelo Padrão e do bóson de Higgs] foi através do sheldon' (BBC News Brasil, 2023d). Além disso, vários internautas mostram que após acessarem a publicação passam a entender o que era discutido no show: 'Agora entendi tudo o que o Sheldon fala no Big Bang Theory' (BBC News Brasil, 2023c). Nesse sentido, muitos puderam relacionar o conteúdo divulgado na publicação da rede social com o seriado, de modo que a física aproximou-se de um material cultural caro a estas pessoas e vice-versa: 'Só consigo pensar na série The Big Bang Theory [quando viu a publicação da BBC News Brasil]' (BBC News Brasil, 2023b) e 'Sheldon Cooper iria adorar,está matéria. Bela matéria. Bazinga' (BBC News Brasil, 2023c).

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Para além dos universos ficcionais, diversos usuários falam sobre um contato anterior com a Física de Partículas a partir de documentários: 'Eu vi um documentário sobre [o bóson de Higgs] e vcs conseguiram uma síntese perfeita como explicação. Incrível!! 踄踄踄踄 踅踅踅踅 踆踆踆踆 踇踇踇踇 踈踈踈踈 踉踉踉踉 踊踊踊踊 踋踋踋踋 踌踌踌踌 踍踍踍踍 踎踎踎踎 踏踏踏踏 踐踐踐踐 踑踑踑踑 踒踒踒踒 ' (BBC News Brasil, 2023b). É muito intrigante evocarem essa experiência prévia justamente de forma a sugeri-la aos outros usuários que tenham desenvolvido interesse pelo assunto após acessarem a publicação

amigo, procura e assiste o documentário 'Particle Fever' (tinha no Netflix), que mostra como o acelerador de partículas funciona, como surgiram os cálculos e o final é emocionante, vale muito a pena assistir (eu CHORO todas as vezes que assisto, sério, rs) BBC News Brasil, 2023b).

No geral, esses comentários falam sobre o documentário estadunidense Particle Fever (Particle…, 2013), que acompanha os primeiros experimentos conduzidos no Large Hadron Collider (LHC), assim como o trabalho dos físicos teóricos. O recorte temporal vai de 2008, com a ativação do LHC, a 2012, quando o bóson de Higgs foi detectado.

A internet auxiliou a ampliar o diálogo entre cientistas e o público geral, desta maneira o próprio pesquisador pode produzir seu conteúdo sobre divulgação científica de maneira 'não profissional', isto é, sem depender de instituições formais, como jornais. Isso é refletido a partir de usuários sugerindo para os outros entusiastas alguns canais do YouTube sobre Física ou ciência em geral, não somente a Física de Partículas: 'Pra qeum curte o tema, recomendo os canais de Arvin Ash, Sabine Hossenfelder e PBS spacetime no YouTube' (BBC News Brasil, 2023b), ao que complementa 'E do Fermilab' (BBC News Brasil, 2023b). O canal Arvin Ash (Arvin Ash, 2024) é do bacharel em Engenharia Química e mestre em Engenharia Mecânica de mesmo nome e dedica-se a explicar simplificadamente grandes questões, segundo informações do próprio perfil. O canal Sabine Hossenfelder (Sabine Hossenfelder, 2024) é da homônima física teórica alemã que estuda gravidade quântica, mas que se dedica a divulgar a ciência para além da Física. O canal PBS Space Time (PBS Space…, 2024) dedica-se a divulgar astrofísica e é apresentado por Matthew O'Dowd, professor da Lehman College e associado ao Planetário Hayden, ambos em Nova Iorque. Finalmente, o canal Fermilab (Fermilab, 2024) divulga sobretudo a FMC e é uma fonte de divulgação oficial do Fermi National Accelerator Laboratory , nomeado em homenagem a Enrico Fermi (1901-1954), onde foram descobertas as partículas quark bottom, quark top e neutrino tau.

Ao olharmos para as experiências prévias dos usuários sobre Física de Partículas no que diz respeito ao ensino formal, seja ele básico ou superior, identificamos algumas vivências de alunos e professores. Um usuário recomenda o livro Física Quântica Átomos, Moléculas, Sólidos, Núcleos e Partículas (Eisberg; Resnick, 1979): 'Tem o livro chamado física quântica de eisberg resnick que usamos na faculdade na disciplina de estrutura da matéria... disciplina que antecede a disciplina de mecânica quântica' (BBC News Brasil, 2023d). Por ser um livro didático específico da FMC, esse usuário presumivelmente é graduando de um curso de ciências exatas. Nesse sentido, um internauta faz um relato melancólico:

lembro até hoje do professor de mecânica quântica dizendo 'em 6 meses não tem como eu ensinar isso, portando, assumam como verdade pra passar na prova. Se quiser entender melhor, procure especialização após a graduação' (mestrado, doutorado, pós doc...) (BBC News Brasil, 2023b).

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Esse comentário demonstra uma irresponsabilidade profissional que não é só vista no ensino básico - como, por exemplo, reflete a usuária 'Minha professora mandou isso pra estudar pra prova... Continuo sem entender' (BBC News Brasil, 2023b).

Seguindo a perspectiva de alguns professores, um deles relata que 'física quântica não é estudada no ensino médio' (BBC News Brasil, 2023c). Isto é melhor descrito por outro docente:

a gente ainda ensina às crianças o padrão de átomos formados por proton, neutron e elétron. Já é mais q necessário pra explicar as coisas cotidianas. O modelo mais completo só é visto em curso superior de física. e mais profundamente por quem vai trabalhar com mecânica quântica, que é onde isso importa mais (BBC News Brasil, 2023b)

Esse tipo de comentário transparece uma das dificuldades relacionadas ao ensino de FMC na educação básica: a deficiência na formação de professores. Diante da precarização estrutural da escola básica, é sabido que o comum é docentes de formações estranhas à física lecionar esta disciplina, sendo mais confortável negligenciar conteúdos distantes a esses profissionais; isso acontece mesmo para aqueles que têm habilitação para ensiná-la, uma vez que não se sentem preparados para inserir a FMC em seus planos de aula (Goulart; Leonel, 2022). A divulgação de conteúdos da Física de Partículas revela a necessidade e a importância da produção de materiais didáticos e de boas condições de trabalho para os professores ao nos deparamos com comentários como: 'Vou usar esse vídeo pra dar aula' (BBC News Brasil, 2023b).

Após analisarmos os tipos de interações prévias que os internautas tiveram com conteúdos relacionados à Física de Partículas, vamos explorar as interações com as publicações da BBC News Brasil que geraram interesse dos usuários por mais ou outros conhecimentos da Física de Partículas.

## Desenvolvimento de interesse pela Física de Partículas após acesso à publicação

Como exposto anteriormente, esta subcategoria faz parte da categoria interesse pela ciência e a divulgação científica . A literatura discute os benefícios e os cuidados ao pensar a divulgação científica como estratégia de ensino de ciências (Martins; Cassab; Rocha, 2001). Dentre os pontos positivos da divulgação, está justamente o engajamento para se inserir na cultura científica. Nesta subcategoria, estão identificados comentários nos quais o discurso dos usuários demonstra interesse pela ciência, especialmente a Física de Partículas, a partir da publicação, isto é, discursos que mostram a publicação sobre o bóson como fator estimulador da receptividade por mais ou outros conhecimentos científicos.

Alguns usuários demonstram interesse em ver documentários sobre Física de Partículas: 'Incrível. Fiquei com vontade de um documentário inteiro nessa pegada. Parabéns' (BBC News Brasil, 2023b) e 'Assistiria um documentário se tivesse! Linda apresentação, estão de parabéns!' (BBC News Brasil, 2023c). Isso é interessante, pois outros usuários justamente recomendam algumas mídias desse gênero entre si, como mostrado na subcategoria anterior. Além disso, alguns pedem para a física de partículas e divulgadora científica Gabriela Bailas produzir conteúdo sobre o assunto

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tratado na publicação da BBC News Brasil e explicar o tema '@bibibailas dá uma olhada. Tem como fazer um vídeo sobre esse tema?' (BBC News Brasil, 2023b).

Uma usuária pede uma recomendação de leitura sobre a temática:

Conhece algum livro pra leigo no assunto que pudesse indicar? Quando eu era jovem no chamado então 2ºgrau, hj ensino médio, ADORAVA atomística. Nunca tinha ouvido falar do modelo padrão ou sequer em partículas subatômicas, exceto é claro nas clássicas neutron, próton e elétron. E era em química que eu vi, não em física. Não se falava em física quântica na escola. Isso na década de 70 na escola. Adoraria ler sobre física quântica! (BBC News Brasil, 2023d)

É neste contexto que o internauta recomenda o livro didático de Eisberg e Resnick (1979) citado anteriormente. Para além desse pedido, é também interessante o relato que se segue. A usuária estava cursando o ensino médio durante a década de 1970. Nesta época, aprendeu sobre as 'clássicas' partículas subatômicas: prótons, nêutrons e elétrons. Mas não no curso de física e sim no de química. Ela nunca ouviu falar sobre modelo padrão ou outras partículas. Outra usuária faz um relato parecido:

os termos 'hadron e leutron (?)' foram novos pra mim tb. tenho 49 anos e em minhas aulas de fisica do colegial se nomeava o atomo como menor unidade (sistema), sendo ele composto por protons, neutrons e eletrons…

Eu adolescente ja supunha que essas particulas tb nao seriam as 'menores' em definitivo, mas sim as ATE ENTAO conhecidas (tecnologica/teoricamente). era ate ai q se chegava na escola… ou seja : para pessoas com instruçao basica a fisica ia ate ai. (BBC News Brasil, 2023a)

Esses comentários vão ao encontro de muitos outros. Quando investigamos sobre o desenvolvimento de interesse pela Física de Partículas após acesso à publicação da BBC News Brasil , é latente relatos sobre nunca terem sido apresentados a esses conhecimentos no âmbito da escolarização, seja décadas atrás ou atualmente: 'Gostei muito do assunto. Pela primeira vez vi a expressão sub-atômica. Imaginava que o átomo era a menor partícula!!!' (BBC News Brasil, 2023a) e 'Na escola não fala de partícula de Deus' (BBC News Brasil, 2023c).

As ponderações trazidas pelas usuárias revelam dois aspectos particulares à FMC, mas especialmente à Física de Partículas. O primeiro deles diz respeito justamente à Física de Partículas ser uma área extremamente recente e, por assim dizer, ainda em construção. Isso significa que muitos conhecimentos deste campo estão sendo elaborados, portanto estão sempre sujeitos a mudanças. Isso fica extremamente claro ao olharmos para a 'linha do tempo' das partículas. Apenas em meados da década de 1960 inicia-se um esboço do que hoje conhecemos como Modelo Padrão, pouco tempo antes de uma das usuárias ingressar no colegial na década 1970. E, somente em 2012, é detectado e confirmado experimentalmente o bóson de Higgs. O segundo aspecto diz respeito ao ensino da FMC e, consequentemente, da Física de Partículas. A internauta relata que o pouco aprendizado sobre partículas (prótons, nêutrons e elétrons) foi ensinado na disciplina de Química e não de Física. Isso estende-se para outros conhecimentos como, por exemplo, é previsto o ensino de evolução dos modelos atômicos e forças de interação interpartículas pelos professores de Química (São Paulo, 2020). Há muito tempo, a Química da educação básica prevê conteúdos típicos da FMC, enquanto a Física enfrenta muitos obstáculos para fazer o mesmo,

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ainda que na literatura exista consenso sobre a urgência e necessidade de se ensinar FMC (Zanetic, 1989; Terrazzan, 1992, 1994; Ostermann e Moreira, 2000).

Em especial, uma discussão sobre a ausência da Física de Partículas e da Física Quântica no ensino básico é feita pelos usuários do TikTok. Uma pessoa defende que 'Animação deveria ser fundamental em toda didática escolar. Produções desse tipo deveriam estar em todos os conteúdos de todas as escolas' (BBC News Brasil, 2023c). Os outros internautas levantam uma série de problemáticas que, à primeira vista, parece não estar relacionada diretamente com o ensino de FMC: 'infelizmente nas escolas não tem nem livros didáticos para todos alunos,q dirá video' (BBC News Brasil, 2023c), 'deveriam mesmo. Infelizmente não temos quase nenhum tipo de estrutura nas escolas públicas. Até papel é difícil ter pra tirar uma cópia. INFELIZMENTE.' (BBC News Brasil, 2023c) e 'Moça, precisou de uma pandemia pro estado de SP perceber que precisava por uma TV e Internet na sala de aula...e a Internet nem funciona direito' (BBC News Brasil, 2023c). Em suma, as indignações trazidas podem ser objetivamente resumidas em 'o problema é que estamos diante de uma escola sucateada' (BBC News Brasil, 2023c).

Nesse aspecto, ao nos debruçarmos sobre trabalhos que propõem intervenções objetivando uma melhor qualidade no ensino público brasileiro, seja ele de ciências ou não, frequentemente uma das barreiras para a concretização ou perpetuação desses projetos é a 'infraestrutura inadequada das escolas (laboratórios, bibliotecas, espaços para EF e atividades culturais) carreira dos professores, incluindo salários, formas de contratação, não vinculação desses a uma única escola [...]' (Ferretti, 2018, p. 26). Para o ensino de FMC não é diferente. Antonowiski, Alencar e Rocha (2017) dissertam sobre as dificuldades para aprender e ensinar física moderna e destacam a falta de material didático, de salas adequadas, de laboratórios, de acesso a equipamentos tecnológicos e de profissionais capacitados.

Além disso, vemos a esperança de alguns internautas para aprender esse conteúdo na escola, demonstrando o potencial da divulgação científica para engajar o público no aprendizado de conteúdos próprios da ciência: 'isso vai ser tão legal quando passarem em sala de aula' (BBC News Brasil, 2023c) e 'imagina isso como assunto no colégio' (BBC News Brasil, 2023c). Por fim, vários usuários demonstraram singelo interesse na carreira de Física após o acesso à publicação da BBC News Brasil : 'vontade de estudar física quântica agr' (BBC News Brasil, 2023c) e 'Gente isso é muito fascinante …. Acho que vou virar físico' (BBC News Brasil, 2023c).

## Considerações finais

Na categoria interesse pela ciência e a divulgação científica , observamos que o público em geral em algum momento já experimentou alguma forma de contato com conteúdos da Física de Partículas por meio da subcategoria conhecimentos e experiências prévios dos usuários sobre Física de Partículas . Esses contatos se deram sobretudo por meio de materiais de ficção, como livros, filmes e seriados. Mas também por materiais de divulgação científica, como documentários e vídeos no YouTube. O que se mostra notório são os relatos presentes na subcategoria desenvolvimento de interesse pela Física de Partículas após acesso à publicação. Diversas pessoas mostraram interesse em aprender mais sobre a Física de Partículas. Entretanto, são chamativos os comentários dos usuários de maior faixa etária, que relatam sobre o que aprendiam na escola sobre FMC nas décadas de 1970 e 1980, por exemplo, e daqueles que são docentes de Física e admitem que nada

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mudou no ensino de ciências até os dias de hoje. Isso escancara que, por mais que seja consenso da comunidade acadêmica a importância de lecionar FMC na educação básica, ainda não é realizado esse ensino em sua concretude.

Mapear as concepções sobre ciência dos usuários de redes sociais significa entender como a divulgação científica afeta o entendimento e a comunicação de informações científicas e compreender uma das principais fontes de informação para o público sobre conteúdos científicos e, sobretudo, de concepções equivocadas sobre ciências.

## Referências

ANJOS e Demônios . Direção: Ron Howard. Roteiro: Akiva Goldsman e David Koepp. [S. l.: s. n.], 2009. Disponível em: https://www.netflix.com/title/70103523. Acesso em: 11 ago. 2023.

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