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Reflexões sobre Gênero e Ciência a partir a trajetória da astrônoma Vera Rubin

Julia Medeiros, Gabriela Kaiana Ferreira

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
21/01/2025
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Ciência No Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## REFLEXÕES SOBRE GÊNERO E CIÊNCIA A PARTIR DA TRAJETÓRIA DA ASTRÔNOMA VERA RUBIN

## Julia Medeiros 1 , Gabriela Kaiana Ferreira 2

- 1 Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física, Universidade Federal de Santa Catarina, julia.medeiros@grad.ufsc.br
- 2 Departamento de Física, Universidade Federal de Santa Catarina, gabriela.kaiana@ufsc.br

## Resumo

A recorrente ausência das mulheres cientistas nas narrativas mais 'ingênuas' da História da Ciência acaba reforçando uma visão amplamente difundida de que a produção intelectual é resultado dos esforços majoritariamente de cientistas homens. Para contornar esse cenário, os estudos de Gênero e Ciência indicam a abordagem de narrativas históricas que tenham como foco as contribuições e trajetórias de mulheres cientistas. No contexto da educação em ciências, o reconhecimento das identidades dessas personagens que protagonizaram a construção da ciência ao longo do tempo possibilita que professores e alunos compreendam o papel da diversidade de pessoas no empreendimento científico. Nesse sentido, este artigo busca expor aspectos das relações de gênero que se manifestam na trajetória acadêmica da astrônoma estadunidense Vera Rubin, reconhecida por seus estudos sobre galáxias que forneceram evidências para a existência da matéria escura no Universo. A pesquisa biográfica é fundamentada em literatura primária, constituída por ensaios autobiográficos e entrevistas, e em literatura secundária, por biografias sobre a cientista. A principal referência para o direcionamento das discussões sobre Gênero e Ciência consiste em estudos da historiadora Londa Schiebinger. A partir da análise crítica das dificuldades estruturais que as mulheres enfrentam para se manterem no meio acadêmico e científico, são elencados caminhos para a reversão desse cenário.

Palavras-chave : História da Ciência, Gênero e Ciência, Vera Rubin

## Introdução

Na historiografia tradicional da ciência, elaborada a partir de uma visão androcêntrica e eurocêntrica, relatos sobre as contribuições e trajetórias das mulheres ainda são pouco presentes (Chassot, 2004). Realizados em uma maior frequência a partir da década de 1970, os estudos sobre a história das mulheres na ciência fornecem relatos sobre os desafios enfrentados pelas mulheres para garantir o lugar de destaque na História da Ciência, expandindo o conjunto de informações conhecidas a respeito das suas contribuições para o empreendimento científico. Desse modo, as narrativas históricas devem buscar fazer com que os papéis significativos das mulheres na ciência sejam destacados e explicitar como as relações de gênero, enquanto dinâmica de poder, influenciaram as experiências das mulheres cientistas, a formação do campo científico e a concepção da ciência como corpo de conhecimento (Santana, 2021).

Isto posto, Michael R. Matthews (1995), argumenta a favor da incorporação de tópicos como o feminismo articuladamente à apresentação da História e da Filosofia da Ciência visando uma maior compreensão da Natureza da Ciência. Para a educação em ciências, a adoção de narrativas históricas que reforçam a humanização da ciência constitui uma importante ferramenta para que professores e alunos reconheçam os conteúdos da ciência como produtos dos esforços da

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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ

diversidade de pessoas envolvidas ao longo do tempo (Sepulveda; Silva, 2021). Assim sendo, este artigo tem o objetivo de expor aspectos das relações de gênero que se manifestam na trajetória acadêmica da astrônoma estadunidense Vera Rubin.

A história de Vera Rubin se distingue pelo fato de que a cientista protagonizou um dos episódios mais importantes para a Astronomia ao longo do último século: a descoberta da matéria escura. Além disso, ela sempre se manteve firme quanto ao seu ativismo pela igualdade das mulheres na ciência. Portanto, define-se como problema desta pesquisa de natureza teórica: 'Quais discussões sobre os desafios enfrentados pelas mulheres no meio acadêmico e científico podem ser levantadas a partir de aspectos da trajetória de Vera Rubin na Astronomia?'.

Relativamente às premissas metodológicas, a redação do texto baseou-se em literatura primária, na forma de um livro de ensaios autobiográficos (Rubin, 1996) e de entrevistas transcritas, e em literatura secundária, consistindo em duas biografias sobre a astrônoma (Mitton; Mitton, 2021; Yeager, 2021). Com a apresentação de aspectos da trajetória acadêmica de Rubin, desenvolveu-se a análise interpretativa daqueles fatos que propiciavam discussões acerca da manifestação das relações de gênero na ciência. Como principal fonte de referência para a análise das relações de gênero, tem-se a historiadora Londa Schiebinger (2001, 2008). A autora propõe um quadro de referência para a análise da teoria e prática no mundo da ciência no contexto norte-americano, no sentido de desenvolver mecanismos para a igualdade das mulheres. Para tanto, são adotados três níveis crescentes de análise: da participação das mulheres na ciência; do gênero nas culturas da ciência; e do gênero nos resultados da ciência (Schiebinger, 2008).

## Breves aspectos biográficos de Vera Rubin

Vera Cooper Rubin (1928-2016) nasceu na cidade de Filadélfia, nos Estados Unidos. Fez seu ensino médio no colégio Coolidge High School e seguiu carreira na Astronomia, obtendo em 1948 o diploma de licenciatura pela Vassar College, em 1951 o mestrado pela Universidade Cornell e o doutorado em 1954 pela Universidade de Georgetown. Em 1965, no pós-doutorado, começou a fazer parte do Departamento de Magnetismo Terrestre da Instituição Carnegie de Washington, onde em conjunto com seus colegas de pesquisa, pôde investigar aspectos do Universo que resultaram em descobertas surpreendentes (Rubin, 1996).

Rubin é reconhecida principalmente por seus estudos pioneiros sobre a estrutura das galáxias, movimentos dentro das galáxias e movimentos em grande escala no Universo, bem como pelos seus resultados surpreendentes que ajudaram a convencer os astrônomos de que a matéria escura é um ente real que compõe o Universo. Além das imensas contribuições de Vera Rubin para o conhecimento científico, durante toda a sua vida profissional, a cientista foi ativista no que se refere ao avanço da causa das mulheres na ciência.

Prêmios importantes foram entregues à pesquisadora como forma de reconhecer suas contribuições para a ciência. Alguns deles foram: o Prêmio Dickson de Ciência da Universidade Carnegie Mellon e o Prêmio Weizmann Mulheres e Ciência em 1994 e 1996, respectivamente; e a Medalha de Ouro da Royal Astronomical Society de Londres em 1996 (Rubin, 1996). Em 1993 o Presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, concedeu-lhe a Medalha Nacional de Ciência e nomeou-a membro do comitê da honraria dois anos depois. A presença das

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mulheres nas premiações científicas é um importante indicador para a problematização das relações de Gênero e Ciência.

Na História da Ciência são vários os exemplos de mulheres notáveis que foram reconhecidas apenas tardiamente, décadas após suas realizações (Rossiter, 1982). O reconhecimento e as premiações científicas garantem poder e prestígio na comunidade, refletindo a segregação hierárquica da sub-representação das mulheres nas áreas científicas e tecnológicas (Santana, 2021). Para o terceiro nível de análise de Schiebinger, as relações de gênero se manifestam nos resultados da ciência e implicam na necessidade de reformulação atitudinal da sociedade e das instituições científicas, que por tanto tempo não reconheceram devidamente ou forneceram oportunidades adequadas às mulheres. Isso porque, as ações baseadas no gênero há muito tempo vêm estruturando o conhecimento e, por consequência, perpetuam a exclusão das mulheres de diferentes maneiras das disciplinas científicas.

## Discussões sobre Gênero e Ciência a partir da trajetória acadêmica de Rubin

Em uma conferência intitulada 'O Recrutamento e Retenção de Mulheres na Física' e patrocinada pela Associação Americana de Professores de Física, pelo Instituto Americano de Física e pela Sociedade Americana de Física nos anos de 1990, a astrônoma Vera Rubin foi convidada para discursar aos 148 físicos presentes, dos quais apenas 19 eram mulheres. O evento tinha como propósito discutir questões sobre a experiência das mulheres que estudam Física nas universidades (Forman, 1991). Rubin compartilhou ao público três pressupostos que exprimem sua visão sobre o tema:

Não há problema na ciência que possa ser resolvido por um homem e que não possa ser resolvido por uma mulher; em todo o mundo, metade de todos os cérebros estão nas mulheres; e, todos nós precisamos de autorização para fazer ciência, mas por razões profundamente enraizadas na história, essa autorização é mais frequentemente dada aos homens do que às mulheres (Rubin, 1996, p. 174, tradução nossa).

Rubin expõe que, para uma pessoa ascender em sua carreira profissional, ela precisará de apoio ao longo da sua trajetória, seja por: pais, professores, funcionários da academia, responsáveis por financiamento, mentores e colegas. Os estímulos ao acesso e permanência das mulheres no campo científico envolvem além do interesse pessoal pela ciência, as influências das pessoas próximas, os valores familiares favoráveis à educação e o apoio concedido às mulheres pelas instituições. A visão da astrônoma se enquadra no segundo nível de análise proposto por Schiebinger, que abarca a dimensão de gênero nas culturas da ciência. Ao longo de suas vidas, as mulheres cientistas se deparam com determinadas expectativas culturais que podem propiciar seu afastamento do ambiente científico e assim 'mesmo mulheres que se distinguiram na ciência sofrem às vezes de uma forma de auto dúvida' (Schiebinger, 2001, p. 124).

Destacar a disparidade de gênero em ambientes profissionais foi uma das esferas nas quais ela se envolveu ativamente. Rubin, assim como inúmeras outras mulheres que foram desencorajadas quando alunas, ainda no ensino médio, escutou do seu professor de Física: 'Enquanto você ficar longe da ciência, você deve se sair bem' (Rubin, 1989, n.p). Tal comentário também pode ser assimilado como objeto de análise do segundo nível do quadro de referência de Schiebinger. Anos mais

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tarde a ser desencorajada pelo professor a estudar a área da ciência, já como astrônoma, em uma tentativa de entrar no programa de pós-graduação da Universidade de Princeton, recebeu como resposta 'Não admitimos mulheres na pós-graduação em Astronomia' (Rubin, 1996, p. 183). A universidade só passou a aceitar mulheres em seu programa de pós-graduação em Física em 1971 e em Astronomia no ano de 1975.

Em 1964, Rubin foi convidada pelo Instituto Americano de Física a realizar visitas às escolas como forma de convencer jovens alunos de que as mulheres poderiam ter sucesso na Física. Embora a cientista tenha comparecido a algumas escolas para apresentar sua pesquisa sobre a Via Láctea, ela observou que nessas ocasiões 'nunca houve qualquer contato com professores ou diretores, ou qualquer discussão sobre ensino de ciências, mulheres na ciência, ou algo semelhante' (Mitton; Mitton, 2021, p. 272). No ano de 1972, Rubin foi convidada a dar uma palestra à Sociedade Filosófica de Washington - organização de educação científica que promovia eventos para os pesquisadores compartilharem seus trabalhos recentes - em um prestigiado local onde as mulheres não podiam entrar pela porta da frente, apenas por uma porta lateral (Yeager, 2021). Mobilizando-se o segundo nível de análise, a exigência demonstra a exclusão aos espaços de circulação de conhecimento científico pelo simples fato de serem mulheres. Ainda assim, apesar da indignação, Rubin apresentou seu trabalho e anos mais tarde, ao relembrar o ocorrido, disse que 'não aceitaria mais a prática discriminatória de ser forçada a usar uma entrada especial' (Mitton; Mitton, 2021, p. 280). Isso fez com que Rubin passasse a assumir a postura em público, por meio de discursos e palestras, de falar repetidamente sobre o sexismo e falta de representatividade de mulheres, especialmente na ciência.

Em 1973, Rubin participou da elaboração de um relatório da Sociedade Astronômica Americana (AAS) que apresentava dados estatísticos detalhados para evidenciar que 'as mulheres astrônomas enfrentam maiores obstáculos em quase todos os aspectos [quantidade de membros na AAS; cargos e salários; produtividade em pesquisa; presença em cursos de pós-graduação] das suas carreiras profissionais do que os seus colegas homens' (Cowley et al ., 1974, p. 422). Consequentemente, o conselho da AAS reconheceu esses resultados, aceitando o relatório por unanimidade, endossando publicamente a opinião de que 'a comunidade astronômica só pode ser enriquecida pelo emprego e aceitação de mulheres como colegas' (Cowley et al ., 1974, p. 422). Uma grande conquista para as mulheres astrônomas nessa conjuntura. Esses resultados reforçam que o segundo nível de análise, sobre o gênero nas culturas da ciência, também se faz presente nas práticas de contratação e de retenção nas universidades e nas carreiras no meio acadêmico (Schiebinger, 2008). É necessário, portanto, que sejam promovidas culturas acadêmicas em que as mulheres possam ser atuantes e que assumam papéis de destaque.

Nessa perspectiva, Rubin salienta que um dos obstáculos enfrentados pelas mulheres é a própria linguagem utilizada como discurso estruturante na ciência. Em uma carta ao editor da revista Physics Today publicada em 1978, ela escreveu que embora os esforços para incluir as mulheres aumentassem, a linguagem utilizada refletia que a ciência era uma área com clara demarcação de gênero (Rubin, 1978). Constatando que a linguagem deveria ser mais inclusiva, para demonstrar que qualquer pessoa, independentemente do seu gênero, poderia fazer ciência. A cientista concluiu que para uma ciência mais inclusiva 'mudanças na linguagem

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podem ter que liderar o caminho' (Rubin, 1978, p. 15). Para a mesma revista, alguns anos mais tarde, Vera Rubin fez um comentário crítico ao artigo 'How to Address the American Physical Society' que, com autoria do físico Karl Darrow, instruía investigadores a como dar palestras, dirigindo as instruções apenas aos homens. Diante disso, Rubin expressou seu desconforto sinalizando que, quando o pronome feminino aparece no texto, refere-se especificamente a uma bailarina caindo de cara no chão:

Mundo masculino da Física? Espero que, se Karl Darrow discursar hoje na APS [American Physical Society], reconheça que nem todos os físicos são homens. Depois de sete parágrafos de instruções de oradores masculinos para um público masculino, ele finalmente introduz um pronome feminino: 'pode ser instrutivo ver uma bailarina cair de cara no chão, levantar-se e retomar seu papel no balé, mas para praticamente todo mundo é extremamente embaraçoso.'. No mundo masculino da Física de Darrow, presumivelmente apenas as mulheres caem de cara no chão. E mesmo o comentário editorial que acompanha o artigo chama suas instruções de 'tão apropriadas hoje quanto eram quando foram escritas.'. Pelo menos o bailarino que caiu poderia ser um homem (Rubin, 1982, p. 121, tradução nossa).

As suposições e valores não declarados pelos seus membros, ainda que reclamem para si uma suposta objetividade e neutralidade científica são expressões de gênero nas culturas da ciência. Ao contrário disso, as culturas são identificáveis e trazem costumes e hábitos que se desenvolveram ao longo do tempo, não contando com a participação das mulheres e até mesmo se opondo à participação delas (Schiebinger, 2008). O cientista em nossa sociedade é imaginado com características específicas que são influenciadas pelas concepções dos papéis de gênero e, para o autor do artigo, a imagem do cientista - considerando-se os pronomes que ele optou por utilizar - também é de um homem, enquanto de quem cometeria o erro de cair com a cara no chão seria de uma mulher, uma suposição de cunho notoriamente sexista.

As preocupações de Vera ultrapassavam o campo da Astronomia e abrangiam toda a ciência e sua relação com a sociedade em geral. No ano de 1981 o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei que exigia que a National Science Foundation enviasse a cada dois anos um relatório estatístico sobre a participação de mulheres e minorias nas ciências e engenharias. Como parte da resposta que essa importante agência de financiamento federal deu à crescente pressão política e social, foi criado o programa de Professora Visitante para Mulheres em Ciência e Engenharia. Rubin se candidatou ao cargo de professora visitante e comunicou que além da docência 'também estaria disponível para fornecer aconselhamento e orientação para mulheres em todos os níveis' (Mitton; Mitton, 2021, p. 287). Essa ação sinalizou a compreensão gradual das organizações de que a desigualdade entre homens e mulheres era um problema para a própria ciência e não apenas para os indivíduos afetados.

As instituições voltadas para o avanço da ciência estadunidenses demoraram a perceber de maneira equivalente as questões levantadas pelas mulheres. Dentre elas, a União Astronômica Internacional (IAU), que em 1990 seu Secretário Geral, Derek McNally, discorreu explicitamente 'se considera um órgão dedicado à promoção da ciência astronômica e, nesta medida, tem tentado não ultrapassar os limites das questões de interesse social', completando que o estatuto das mulheres na Astronomia era um 'problema essencialmente social' (Mitton;

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Mitton, 2021, p. 288). A hesitação da IAU em abandonar sua postura conservadora provavelmente foi decepcionante para Vera Rubin, que participou da instituição por muitos anos, incluindo a presidência da sua Comissão sobre Galáxias entre 1982 e 1985. Além disso, ela ajudou a organizar uma sessão especial intitulada 'Mulheres em todo o mundo na Astronomia' durante a Assembleia Geral da IAU de 1988 (Rubin, 1988).

A proposta de Rubin foi apresentada ao comitê executivo pleno da IAU, com a exigência de que 'não houvesse interferência entre esta sessão 'especializada' e qualquer uma das reuniões científicas' (Mitton; Mitton, 2021, p. 288). O relatório formal da sessão não foi incluído nas publicações oficiais da IAU, mas Vera Rubin e o presidente da comissão foram coautores de um relato na revista da Sociedade Astronômica do Pacífico.

Em vista disso, depreende-se que a justificativa dada pela IAU por não aderir ativamente à luta pela igualdade das mulheres astrônomas, considerando-a uma pauta independente ao campo científico, baseia-se numa visão positivista ingênua da ciência ocidental, admitida por expressiva parcela da população, que a atribui universalidade, acima da diversidade cultural humana e que se reflete no imaginário socialmente difundido de que o cientista é um ser humano neutro, independente do meio sócio-histórico em que se encontra (Filho; Chaves, 2000). Todavia, a ciência não é uma atividade neutra e imparcial, ao contrário disso, as 'desigualdades de gênero construídas nas instituições científicas influenciaram o conhecimento nelas produzido' (Schiebinger, 2008, p. 174).

As discussões sobre o papel das mulheres na Astronomia por muito tempo foram desprezadas pela IAU, que argumentava serem questões pertencentes ao campo da política e não científicas. Essa busca por assegurar um caráter aparentemente apolítico das sociedades científicas internacionais acabava culminando no descaso às ações que poderiam proteger os direitos do grupo de astrônomas. Em uma Assembleia Geral, desafiando a posição da IAU, Rubin juntamente a outros dois colegas declararam que: 'Nós acreditamos que as medidas que aumentarão o número de mulheres na Astronomia e suas participações em atividades astronômicas em todo o mundo são assuntos legítimos de preocupação para a IAU' (Mitton; Mitton, 2021, p. 289).

Por volta do final da década de 1980, Vera Rubin agia ativamente em campanhas com o objetivo de tornar as mulheres na ciência visíveis e influentes aos mais altos níveis de cargos em suas carreiras. Em 1989, Rubin foi nomeada membro do Conselho Nacional de Pesquisa (NRC) para Física e Astronomia, parte operacional da NAS. Como única mulher membro, Rubin enviou uma carta ao presidente do conselho na qual anexava um artigo citando dados que apoiavam seu argumento de que os comitês, exclusivamente masculinos, perpetuavam a baixa participação das mulheres e as consequências do fracasso da NAS em fazer algo a respeito (Mitton; Mitton, 2021). Incitando o conselho de Física e Astronomia a liderar uma mudança de comportamento a respeito do assunto, mas sua intervenção não produziu o resultado que esperava. Em 1990 Rubin redigiu novamente uma carta sobre o assunto da baixa participação feminina e convocou outras mulheres membros da NAS a fazerem o mesmo. A resposta que recebeu foi a entrega da carta aos vários conselhos e comissões, e aos presidentes de seção, para que o tema fosse colocado na agenda de discussões da reunião mais próxima. Apesar disso, poucas mudanças ocorreram. Como forma de protesto à indiferença aos

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números sobre a participação das mulheres, em 1996, ela recusou o convite para ser membro do comitê da NAS intitulado Mulheres na Ciência e na Engenharia.

Mais de uma década depois, em 2007, quando Vera Rubin estava com quase 80 anos, as Academias Nacionais finalmente abordaram a questão de forma categórica ao apresentarem um extenso relatório elaborado pelo comitê para a Maximização do Potencial das Mulheres nas Ciências Acadêmicas e na Engenharia (National Academy of Sciences et al ., 2007).

Na trajetória de Rubin na ciência, ela sempre apresentou uma posição indagadora frente à situação discriminatória em que as mulheres se encontravam ao trabalharem na área, e ainda, formulava alternativas com os recursos que tinha a disposição para que outras mulheres cientistas fossem capazes de exercerem seus potenciais nas mesmas condições que seus colegas homens. Aliando a isso, o sentimento de indignação àquela realidade, que a manteve persistente e com um claro senso de propósito em suas ações.

## Considerações finais

As disciplinas científicas que constituem as ciências modernas se originaram simultaneamente à exclusão das mulheres e minorias até hoje sub representadas nesse campo. Tendo isso em mente, a cultura em que estamos inseridos, ultrapassa as instituições, regulações legais e documentos, pois está repleta de suposições e valores não declarados, que influenciam ideias e comportamentos. Já os métodos, técnicas e epistemologias da ciência ocidental a fazem ser admirada, como produtora e detentora de um conhecimento objetivo e universal, transcendendo esses preceitos culturais. Porém, claramente a ciência não é um valor neutro no que tange as relações de gênero, e uma percepção feminista orienta o reconhecimento desse aspecto. Logo, as narrativas históricas sobre mulheres cientistas, tão pouco exploradas em disciplinas relacionadas às ciências, podem movimentar reflexões profícuas sobre as relações de Gênero e Ciência.

O estudo biográfico de aspectos da trajetória acadêmica de uma notável cientista na área da Astronomia, Vera Rubin, como discutido neste artigo, permite que sejam destacados vários pontos relacionados à prática, à formação e ao trabalho das cientistas nesses campos. A título de exemplo, a partir de uma perspectiva feminista de análise dos fatos, pôde-se evidenciar as consequências da divisão sexual do trabalho científico, como o descaso ao acolhimento das mulheres nos ambientes de produção de ciência; a discriminação entre homens e mulheres no que concerne ao reconhecimento de suas contribuições intelectuais; a necessidade de apoio para ingresso e permanência nas instituições acadêmicas; a criação de políticas públicas que incentivem e fomentem as pesquisas lideradas pelas cientistas, entre outros pontos.

Destarte, a História da Ciência se apresenta como um dos caminhos para o enfoque na promoção da igualdade de gênero na ciência, além de ser uma alternativa para a reparação de uma invisibilização histórica e para o rompimento com a estrutura de reprodução da desigualdade de gênero. Percebe-se então a importância de que sejam desenvolvidos mais trabalhos sobre a História da Ciência que articulem a categoria de gênero à Natureza da Ciência. Sendo assim, é imperativo dar destaque àquelas cientistas que, à semelhança de Rubin, contribuíram no sentido de apoiar, auxiliar e encorajar as demais gerações de mulheres em seus campos de pesquisa.

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## Referências

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