CONCEITOS DE FÍSICA E SABERES POPULARES NA PRODUÇÃO DE COCADA DE CACAU
Álefe Rodrigues Alves, Bruno Freitas Dos Santos, Simoni Tormöhlen Gehlen
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXVI
- Ano
- 2025
- Data
- 21/01/2025
- Linha de pesquisa
- Currículo E Ensino De Físicacódigo De Apresentação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## CONCEITOS DE FÍSICA E SABERES POPULARES NA PRODUÇÃO DE COCADA DE CACAU
## Álefe Rodrigues Alves 1 , Bruno Freitas dos Santos 2 , Simoni Tormöhlen Gehlen 3
1 Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC, aleferodriguesra@gmail.com
- 2 Universidade Estadual de Santa Cruz, brunico16@gmail.com
- 3 Universidade Estadual de Santa Cruz, stgehlen@uesc.br
## Resumo
O contexto de sala de aula necessita ser um espaço no qual seja possível promover uma maior diversidade de perspectivas e saberes, contribuindo para uma educação dialógica e problematizadora. Dada a importância do processo de produção de cacau na região Sul da Bahia, bem como a produção de cocada de cacau, há indicativos de que alguns conceitos físicos podem contribuir na resolução do curto período de conservação da cocada de cacau. Nesse sentido o trabalho objetiva explicitar os saberes populares no processo de produção de cocada de cacau, bem como suas relações com o Ensino de Física. Metodologicamente, a pesquisa foi estruturada em três etapas: 1) descrição das etapas da produção da cocada de cacau; 2) identificação de alguns conceitos físicos atrelados as etapas de produção da cocada de cacau; 3) análise do processo de produção da cocada de Cacau, por meio da Análise Textual Discursiva (ATD), tendo como categoria: Valorização dos saberes populares e os conceitos de Física. Entre os resultados, destaca-se: a) aceitação dos saberes populares; b) direcionamento de aulas de física baseadas no contexto local de uma comunidade. Portanto, defende-se propostas pedagógicas capazes de auxiliar na compreensão do contexto da realidade em que estão inseridos os sujeitos, contribuindo para sua transformação.
Palavras-chave : Saberes populares; Cocada de Cacau; Ensino de Física.
## Os saberes populares como uma possibilidade na Educação em Ciências/Física
Alguns estudos realizados na área de Educação em Ciências/Física têm utilizado a perspectiva de Paulo Freire para, por exemplo, problematizar as percepções que a comunidade local e educandos têm sobre a realidade em que vivem e buscar alternativas de ensino que sejam capazes de refletir a realidade dos estudantes no ambiente escolar (Archanjo; Gehlen, 2021; Lima et al., 2024). Para isso, é importante que as experiências e vivências dos estudantes sejam consideradas como um ponto de partida para as atividades desenvolvidas em sala de aula (Fonseca et al., 2018). Contudo, para alcançar esse objetivo, é crucial conhecer a realidade dos alunos. Aqui é importante destacar que a concepção de realidade na perspectiva freireana está relacionada com a totalidade concreta, composta por diversas dimensões em constante interação e mudança, condicionadas pelas diferentes formas de significado da existência (Brick, 2017).
Como um dos autores deste trabalho reside em Ubaitaba/BA - localizada na região de produção de cacau no Sul da Bahia - e se dedica à produção e venda de produtos derivados de cacau, há um desafio relacionado à curta durabilidade da cocada de cacau, que se mantém por até sete dias à temperatura ambiente. Essa limitação dificulta a revenda nos mercados, restringindo o crescimento das vendas e o
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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ
desenvolvimento do comércio local. Até o momento, os produtores locais não encontraram uma solução, possivelmente devido a ideia de que esses conhecimentos científicos ainda nem existem para prolongar a durabilidade sem o uso de conservantes químicos.
Apesar disso, destaca-se que durante todo o processo de fabricação da cocada de cacau há possibilidade de se trabalhar conceitos científicos de diversas áreas de conhecimentos, como da Física, Química e Biologia. Além disso, há possibilidade de se considerar os saberes populares utilizados pelos trabalhadores nas plantações de cacau e na produção da cocada de cacau. Dessa forma, surge a possibilidade de trabalhar esses saberes populares a partir de práticas específicas que perpassam a produção da cocada de cacau, ao abordar a realidade dos trabalhadores rurais. Isso pode contribuir para a formação de sujeitos críticos a enfrentar problemas da comunidade em que estão inseridos, com o objetivo de atender às demandas da sua realidade (Santos et al., 2022).
Nesse sentido, algumas pesquisas discutem sobre os aspectos da importância de se considerar os saberes populares e científicos a partir de uma perspectiva em que o diálogo entre os saberes seja possível (Gondim, 2007; Peroza, 2021; Auler, 2022). No contexto da educação, Freire (1987) chama atenção para a importância do diálogo e da problematização, e critica a educação sem diálogo, na qual os educandos são recipientes vazios para o depósito de conhecimentos, denominada de educação bancária. Para superar esse modelo, Freire (1987) enfatiza que é necessário considerar como ponto de partida a visão dos sujeitos sobre a realidade que vivem.
Segundo Freire (1987), as realidades são formadas por experiências e vivências acumuladas pelos indivíduos, o que os capacita a entender o contexto ao seu redor. Portanto, o educador problematizador não deve negligenciar os saberes populares, pois, por meio do diálogo, é possível identificar elementos que ajudam a compreender a percepção desses indivíduos, bem como o contexto sociocultural em que estão inseridos como destaca Peroza (2021).
De acordo com Freire, a absolutização da ignorância é uma estratégia para camuflar as relações de dominação, de modo que as classes dominadas sintam a necessidade de que 'alguém' lhes explique o mundo, a realidade pois, alienados, não 'sabem que sabem', ou melhor, desqualificam seu saber como 'ilegítimo' em detrimento do saber acadêmico, referendado e validado por seres humanos supostamente 'iluminados'. Isso se dá porque ocorreu, historicamente, um processo de elitização do saber erudito e, ao mesmo tempo, de pauperização do saber das classes populares (Peroza, 2021, p. 114).
Com base nas palavras de Peroza (2021), a linguagem das classes populares está relacionada à vida e às práticas vividas pelos indivíduos, enquanto a linguagem erudita tem uma relação com os conceitos e teorias científicas. No sentido de que é preciso existir um diálogo entre esses conhecimentos advindos das classes populares, com os saberes e práticas específicas e os conhecimentos científicos em um movimento de ir e vir, 'realidade-conceito-realidade' (Freire; Faundez, 1985).
Algumas pesquisas, como Fonseca et al., (2018) indicam que é necessária uma nova perspectiva sobre o ensino de física e ciências. Uma possibilidade é a reorganização curricular fundamentada nos pressupostos de Paulo Freire, tendo como ponto de partida a visão dos educandos sobre a realidade em que vivem. Esta reorganização pode ser pautada no processo de Investigação Temática (Freire, 1987; Delizoicov, 1991), para obtenção de Temas Geradores, que sintetiza demandas sociais identificadas pelas visões de mundo dos sujeitos podem apresentar situações-limites
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(Silva, 2004). Mas nem sempre é possível realizar o processo de Investigação Temática, uma vez que necessita de uma equipe escolar e interdisciplinar. Contudo, pode-se realizar algumas adaptações da perspectiva freireana, sem deixar de lado a dialogicidade e a problematização de situações reais, e sistematizar o processo de ensino-aprendizagem tendo como ponto de partida alguma demanda social.
No presente estudo, tem-se uma adaptação desse processo, em que o problema surge de uma necessidade individual, mas que pode beneficiar a comunidade dos produtores de cacau, pois é uma prática cultural e econômica a produção da cocada de cacau. É importante lembrar que não foi realizado o processo de Investigação Temática e nem foram identificados situações-limites, há apenas a identificação de uma necessidade e a importância de se trabalhar esses aspectos em sala de aula. Assim, questiona-se: Quais conceitos de Física estão relacionados à produção de cocada de cacau? Em busca de respostas para essa pergunta, o presente estudo tem como objetivo explicitar alguns saberes populares no processo de produção de cocada de cacau, bem como suas relações com alguns conceitos de Física.
## Procedimentos Metodológicos
A região da Costa do Cacau é caracterizada pela sua atividade econômica: o cultivo do cacau. Ubaitaba-BA é uma das cidades que compõem a microrregião cacaueira, possibilitando a produção da cocada de cacau e outros derivados. Por isso, buscamos identificar os conceitos físicos presentes nas etapas de produção da cocada. Assim, o trabalho foi organizado nas seguintes etapas: i) Descrição do processo de produção da cocada de cacau e ii) Identificação de conceitos físicos nas etapas de produção. Destacamos que a descrição das etapas foi realizada por um dos membros deste trabalho, um produtor com experiência no processo de produção da cocada de cacau, adquirido ao longo de anos de vivência e práticas constantes.
Com base na descrição das etapas de produção de cocada de cacau, identificamos alguns conceitos físicos para melhor compreensão desses procedimentos. Além desses conceitos, há indicativos de alguns saberes populares nas etapas de produção de cocada de cacau que podem ser explorados em contexto de sala de aula.
Desse modo, analisamos nas etapas de produção de cocada de cacau aspectos relacionados à valorização dos saberes populares (Gondim, 2007; Peroza, 2021). Entendemos que essas discussões podem colaborar para mudar a concepção de ensino adotada por alguns professores, apontando para o aproveitamento dos saberes populares dos educandos sobre a realidade em que estão inseridos.
A análise foi baseada na descrição das etapas de produção da cocada de cacau, sendo os dados obtidos diretamente dessas fases do processo. Para analisar as informações, utilizamos a Análise Textual Discursiva (Moraes; Galiazzi, 2011), tendo como parâmetro a categoria a priori: Valorização dos saberes populares e os conceitos de Física.
## Conceitos Físicos nas etapas de produção da cocada de cacau: uma realidade a ser estudada
Apresentaremos, neste item, as descrições das etapas para a produção da cocada de cacau e identificamos a presença de alguns conceitos de física.
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- i) A Colheita do Cacau - Etapa 1 (E1): O fruto do cacau deve ser colhido maduro, utilizando um podão para facilitar a retirada em alturas elevadas. A colheita requer atenção ao ponto de aplicação, direção, sentido e intensidade que o podão atingi o fruto do cacau. Quando o fruto do cacau é colhido, começa adquiri uma velocidade à medida que se desloca até o chão. Além disso, no momento que os frutos são desprendidos do pé de cacau, possuem uma energia potencial gravitacional. Nessa situação, quando os frutos caem, eles possuem energia potencial gravitacional, que é transformada em energia cinética devido ao trabalho da força peso.
- ii) Bandeira - Etapa 2 (E2): A bandeira consiste em recolher o fruto do chão, aglomerando-os em locais pré-estabelecidos. Utiliza-se, para isso, o balaio - um cesto, construído por pessoas que dominam a técnica de manusear o cipó.
Os trabalhadores condicionam o balaio nas costas para recolher os frutos do chão. Nesta etapa, pode-se trabalhar com os conceitos da força peso exercida pelo balaio nas costas dos trabalhadores. Além disso, é possível caracterizar a força normal envolvida no processo, identificando a diferença existente entre a força peso e massa.
- iii) Quebra dos Frutos Etapa 3 - (E3): Para quebrar o fruto do cacau, é utilizado um instrumento denominado bodôco (uma espécie de facão). Essa ferramenta permite cortar o fruto do cacau ao meio, facilitando a retirada, com os dedos das amêndoas do cacau (com polpa) para uma caixa de madeira ou plástico.
Na quebra dos frutos, o conceito de força é utilizado para estimar a intensidade com a qual o bodôco deve atingir o fruto do cacau: se o movimento for intenso, corre o risco de cortar a mão e/ou a amêndoa do cacau, trazendo malefícios em ambos os casos.
- iv) Transporte das Amêndoas do Cacau - Etapa 4 (E4): Depois da quebra dos frutos do cacau, as amêndoas são transportadas por animais para a sede da fazenda.
- No transporte das amêndoas, pode-se trabalhar a noção de Força de Atrito, enfatizando que quando duas superfícies estão em contato, surge uma força entre elas, denominada atrito. Além disso, podemos abordar os conceitos de força de ação e reação. O movimento dos animais só é possível devido às forças de ação e reação, para que eles consigam andar ao exercer uma força sobre o chão (para trás) e o chão exerce sobre o animal uma força que o empurra para frente.
- v) Secagem das amêndoas de Cacau - Etapa 5 (E5): O processo da secagem das amêndoas consiste em diminuir sua umidade. Tradicionalmente, esse processo é realizado por meio do calor do sol. Os produtores verificam o ponto de secagem quebrando as amêndoas ao meio, verificando o ponto ideal. O ponto ideal é quando as amêndoas são partidas ao meio sem nenhuma resistência, apresentando uma coloração específica acentuada.
Nesse processo, os conceitos de Calorimetria e Termodinâmica podem ser explorados, investigando, por exemplo, como a umidade influencia na temperatura, na sensação térmica e na precipitação. São essas influências que permitem a secagem das amêndoas, determinando o período da secagem. A umidade é um importante fator que determina o ponto de secagem: se as amêndoas apresentarem uma umidade elevada, há uma maior resistência no processo de partição.
- vi) Armazenamento das amêndoas do cacau - Etapa 6 (E6): Depois de secas, devese condicionar as amêndoas em sacos de 60 kg e colocar sobre assoalhos de madeira. Aqui, pode-se trabalhar com a constante de condutividade térmica do
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assoalho de madeira utilizado no processo de armazenamento das amêndoas. Podendo exemplificar a importância de usar os materiais adequados na conservação de alimentos, que requer um material com baixa capacidade de condução de calor.
vii) Torra, descascar e triturar as amêndoas do cacau - Etapa 7 (E7): Para fazer a cocada é necessário, após a secagem, que as amêndoas sejam torradas para diminuir ainda mais a umidade, o que irá aperfeiçoar mais o sabor do cacau. Esse processo é realizado na torradeira. O ponto da torra é definido pela cor que as amêndoas apresentam (que depende da experiência da pessoa que está manuseado a torradeira). Em seguida, deve-se tirar a casca das amêndoas com um descascador de café adaptado e processá-las para que permita a homogeneidade entre os ingredientes da cocada.
No processo de torra e tirar a casca das amêndoas estão presentes conceitos físicos. Por exemplo, podemos citar os conceitos de máquinas simples, que estão presentes nas engrenagens que são responsáveis por transmitir o movimento de uma para outra. Essas engrenagens também são encontradas nos motores dos automóveis, impressoras e em vários dispositivos utilizados no dia a dia.
viii) Preparo da cocada e comercialização - Etapa 8 (E8): Em uma panela de alumínio, deve-se colocar o coco ralado, leite condensado, açúcar e as amêndoas do cacau triturado (cacau em pó). Levar a panela ao fogo e ir mexendo até que a cocada comece a ganhar uma consistência que lhe permite soltar do fundo da panela. Então, deve-se espalhar a cocada em uma bancada de mármore ou assadeira, devido a textura suave que possuem, facilitando a retirada da cocada da sua superfície. Esperar esfriar e cortar em pedaços para colocar em potes, o que permite a comercialização desse produto.
No cozimento de todos os ingredientes, nesta etapa, estão presentes os conceitos de Calorimetria. Desde o momento em que a panela vai ao fogo até o momento que a mistura atinge o ponto ideal, a panela com a cocada recebe uma quantidade de calor, que faz com que os ingredientes da panela sofram uma variação térmica. Essa quantidade de calor é determinada como calor específico. Quando a cocada começa a soltar do fundo da panela, é um momento em que não há mais variação na temperatura da mistura dos ingredientes, que podemos definir como calor latente.
Em resumo, apresentamos, ainda que de maneira concisa, o processo de produção da cocada de cacau, destacando alguns conceitos de física que podem ser utilizados para entender melhor esse processo. Essas etapas podem ser descritas de forma mais detalhada, assim como é possível explorar outros conceitos de física. O objetivo aqui era evidenciar que existem diversos conceitos físicos que podem ser abordados na produção de cocada de cacau e trabalhados no contexto da sala de aula, especialmente no ensino de Física, no Ensino Médio, como mostra o Quadro 1.
Quadro 01: Etapas de produção da colheita de cacau e seus respectivos conceitos físicos.
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Fonte: Os autores.
Até aqui enfatizamos a importância de trabalhar a realidade dos educandos no âmbito educacional, descrevendo as etapas da produção da cocada de cacau para apontar conteúdos/conceitos de Física como possibilidade para o desenvolvimento de aulas de Física. No próximo tópico, destacamos aspectos dos saberes populares e conceitos de física nas etapas de produção que reforça a necessidade de considerar a realidade dos indivíduos nos planejamentos dos currículos das escolas.
## Valorização dos saberes populares e os conceitos de Física
Neste item serão apresentados alguns saberes populares dos produtores de cacau utilizados nas etapas de produção de cocada de cacau. Esses saberes evidenciam a importância do conhecimento empírico, sinalizando a possibilidade do diálogo entre os saberes locais e científicos pode enriquecer o processo de aprendizagem em sala de aula.
Nas etapas da produção de cocada de cacau há elementos que destacam a visão dos trabalhadores/produtores de cacau sobre a prática de sua realidade. De acordo com Gondim (2007), saberes populares raramente são valorizados e reconhecidos, o que resulta numa educação focada exclusivamente no conhecimento científico. Diante disso, buscamos explicitar alguns desses saberes populares utilizados pelos produtores para exemplificar que esses também são importantes na produção de cocada de cacau, no sentido de promover um diálogo entre os saberes (Auler, 2021).
Na descrição das etapas da produção de cocada de cacau, foi possível perceber o destaque da valorização dos saberes populares, que estão bem representados nas etapas E3 e E7, como é possível observar nas descrições a seguir:
(E3) - Quebra dos frutos: Para quebrar o fruto do cacau, é utilizado um instrumento denominado bodôco (uma espécie de facão). Essa ferramenta permite cortar o fruto do cacau ao meio, facilitando a retirada, com os dedos, das amêndoas do cacau (com polpa) para uma caixa de madeira ou plástico.
(E7) - Torrar, descascar e triturar as amêndoas do cacau: Para fazer a cocada é necessário, após a secagem, que as amêndoas sejam torradas para diminuir ainda mais a umidade, o que irá aperfeiçoar mais o sabor do cacau. Esse processo é realizado na torradeira. O ponto da torra é definido pela cor que as amêndoas apresentam (que depende da experiência da pessoa que está manuseado a torradeira).
Nas etapas E3 e E7 percebemos que o conhecimento acerca de cada processo é o resultado de uma aprendizagem que se dá em decorrência do tempo e que, apesar de simples, exige dos sujeitos práticas necessárias. Esses conhecimentos decorrem da valorização dos múltiplos conhecimentos através das trocas de conversas entre os trabalhadores e produtores de cacau. Nesse contexto, é possível dialogar com os conhecimentos científicos, pois nas etapas E3 e E7 é observado a transferência de calor, conceito de força e funcionamento das máquinas simples, e essa troca de conhecimentos contribui para um processo participativo capaz de aliar o saber popular ao conhecimento científico (Dagnino, 2019; Roso; Delizoicov, 2019).
Com base em Freire (1987), precisamos considerar os diferentes saberes do contexto local e as vivências dos indivíduos em propostas que venham se desenvolver em um meio social. Dessa forma, podemos proporcionar um ambiente educacional participativo. A exemplo disso, destacamos o parâmetro utilizado pelos produtores,
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com base nas características das amêndoas de cacau, que julgam visualmente o 'ponto' de torra. Com isso, os produtores de cacau apuram o ponto ideal de secagem com a utilização de conhecimentos adquiridos por observações das práticas da cultura do cacau. Desse modo, há possibilidade de se dialogar entre os saberes populares com o conhecimento científico, utilizando os conceitos físicos para melhor entender as práticas da realidade dessa comunidade, a seguir um outro exemplo dos saberes populares durante a E8:
Etapa 8 (E8): Em uma panela de alumínio, deve-se colocar o coco ralado, leite condensado, açúcar e as amêndoas do cacau triturado (cacau em pó). Levar a panela ao fogo e ir mexendo até que a cocada comece a ganhar uma consistência que lhe permite soltar do fundo da panela. Então, deve-se espalhar a cocada em uma bancada de mármore ou assadeira, devido a textura suave que possuem, facilitando a retirada da cocada da sua superfície. Esperar esfriar e cortar em pedaços para colocar em potes, o que permite a comercialização desse produto.
Nessa etapa é possível observar os saberes populares durante o cozimento da cocada de cacau, a escolha de uma panela de alumínio é uma prática comum utilizada para produção de doces, o que se possibilita discutir os aspectos dos conhecimentos científicos da variação térmica e calor específico e de explicação dos motivos de se utilizar o alumínio. E as práticas de colocar a cocada em uma bancada de mármore ou assadeira o que possibilita as discussões sobre o calor específico dos diferentes materiais.
Fundamentado nas palavras de Freire (1987), devemos refletir sobre a realidade que educandos estão inseridos, considerado os diferentes conhecimentos. Desse modo, partindo da realidade e vivências de cada indivíduo, pode-se formalizar um conhecimento mútuo a todos os envolvidos no processo. A exemplo disso citamos as etapas da produção de cocada de cacau, que além de considerar a realidade local (produção de cacau), considera os conhecimentos e os saberes populares dos envolvidos em cada etapa de produção de cocada.
## Considerações Finais
Neste trabalho, destacamos a importância de valorizar os saberes populares como parte de uma educação problematizadora, que desperte o interesse dos estudantes e os torne ativos no processo de ensino e aprendizagem. Para isso, é fundamental considerar os conhecimentos e experiências que os alunos trazem de suas próprias realidades (Freire, 1987), um vez que a valorização do saber popular é essencial para a construção de uma educação problematizadora e emancipatória.
Além disso, a análise dos saberes populares na fabricação de cocada de cacau ilustrou, ainda que de forma preliminar, o diálogo dos saberes locais com os conceitos científicos, o que pode ser sistematizada em um contexto educacional. Ao observar os conceitos de Física relacionados à produção de cocada, os docentes podem estabelecer uma relação entre o conteúdo programático e as vivências dos estudantes. Essa abordagem ancorada na perspectiva freireana não apenas enriquece o aprendizado, mas também fortalece o vínculo entre a escola e a comunidade, mostrando que os saberes populares têm relevância no ambiente escolar.
Ressaltamos, por fim, que não estamos propondo a substituição dos saberes populares e ou práticos pelo conhecimento científicos e nem vice-versa, estamos
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apenas trazendo a importância da valorização do diálogo de saberes (Auler, 2021). Dessa forma, o diálogo de saberes pode contribuir para a superação de demandas de uma comunidade. Além disso, esse diálogo permite a inclusão e participação de diversos atores no desenvolvimento de uma determinada sociedade.
## Referências
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