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AS DETERMINAÇÕES PARA O ENSINO DE FÍSICA NO NOVO ENSINO MÉDIO

Stephany Luiz Valério Jorge, Angelisa Benetti Clebsch

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXVI
Ano
2025
Data
21/01/2025
Linha de pesquisa
Currículo E Ensino De Físicacódigo De Apresentação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## AS DETERMINAÇÕES PARA O ENSINO DE FÍSICA NO NOVO ENSINO MÉDIO

## Stephany Luiz Valério Jorge 1 , Angelisa Benetti Clebsch 2

1 Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), stephanylvj@gmail.com

2 Instituto Federal Catarinense (IFC), angelisa.clebsch@ifc.edu.br

## Resumo

O Novo Ensino Médio (NEM) instituído pela Lei 13.415 de 16 de fevereiro de 2017 e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), trouxeram mudanças significativas para o ensino-aprendizagem em física que foram percebidas durante a realização do curso de Licenciatura em Física. Assim surgiu o interesse em investigar como acontece o ensino de Física no NEM. Este trabalho é um recorte do Trabalho de Conclusão de Curso e tem como objetivo: (i) Identificar campos de interdisciplinaridade com a Física na Formação Geral Básica (FGB) e nos Itinerários Formativos (IF). O percurso metodológico envolveu a análise documental em documentos oficiais e análise de conteúdo em artigos de periódicos no período de 2017 a 2023. Na análise documental elencou-se possibilidades para um trabalho interdisciplinar das Ciências da Natureza com as demais áreas do conhecimento da BNCC, na revisão bibliográfica foram identificados trabalhos que ocorreram de maneira interdisciplinar.

Palavras-chave : Ensino de Física, Base Nacional Comum Curricular, Interdisciplinaridade.

## Introdução

Esse trabalho é um recorte do Trabalho de Conclusão de Curso da primeira autora, que teve como objetivos: (i) Identificar campos de interdisciplinaridade com a Física na Formação Geral Básica (FGB); (ii) Descrever a presença de conteúdos de Física em Itinerários Formativos (IF) e na Formação Geral Básica (FGB) e (iii) Caracterizar os campos de atuação do professor de Física no NEM. No seguinte trabalho serão apresentados os resultados do objetivo (i), com ênfase nos possíveis campos de interdisciplinaridade encontrados nos documentos oficiais, assim como as orientações apresentadas por estes.

A Lei 13.415 de 16 de fevereiro de 2017 (Brasil, 2017) instituiu o Novo Ensino Médio. Para entender as mudanças ocorridas é necessário compreender a redação, financiamento e estabelecimento da BNCC como uma política pública.

## O surgimento da Base

Conforme evidencia a pesquisa de (Tarlau; Moeller, 2020), no ano de 2002 Jorge Paulo Lemann, empresário conhecido pela criação da AMBEV e o homem mais rico do Brasil em 2017, criou a Fundação Lemann. Parte da motivação para criar a fundação foi o contexto internacional, ser extremamente rico e não ter uma fundação era algo impensável para empresários de padrão internacional. Outra motivação foi a possibilidade de inserir-se no Estado, influenciando diretamente as políticas públicas em educação através de sua influência e poder monetário.

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20 a 24 de janeiro de 2025 - Niterói - RJ

Em um primeiro momento, a Fundação Lemann mantinha vivas as políticas públicas do governo anterior, mais alinhado à direita, focando em testes e responsabilização. Entre 2002 e 2009, grande parte dos projetos financiados eram doações para outras organizações ou iniciativas locais. Entre os anos de 2010 e 2013 a fundação começa a voltar seus olhos para as políticas públicas em educação (Tarlau; Moeller, 2020, p. 562). Em 2012, o relatório anual da fundação traz como área estratégica 'políticas educacionais', passando a focar sua pesquisa para influenciar as políticas públicas brasileiras. No ano de 2013, a fundação começa a organizar o que ficou conhecido como o Movimento pela Base Nacional Comum. Tanto membros do governo quanto representantes de organizações da sociedade civil compunham o movimento, que tinha como princípio o apoio à Base Nacional Comum Curricular (Tarlau; Moeller, 2020).

- A Fundação Lemann realizou diversos eventos e palestras, com intuito promover a ideia da BNCC para funcionários de cargos altos do governo, sendo o primeiro um seminário realizado pela Fundação Lemann na Universidade de Yale, intitulado 'Liderar reformas educacionais: Fortalecer o Brasil para o século XXI'. Foi abordado o desenvolvimento de um padrão curricular comum, inspirado diretamente pelo Common Core Americano, que teve financiamento da Fundação Gates.
- A primeira versão da BNCC, redigida pelo MEC, foi publicada em 2014. Esta versão foi descartada por ter um tom 'muito filosófico', não foi publicada e não serviu como base para a construção da atual BNCC. Em setembro de 2015, a BNCC teve sua primeira versão publicada, elaborada através da reunião de 29 equipes de 116 universidades para a redação. De acordo com uma professora que participou desse processo, as equipes encarregadas do currículo não tinham uma autonomia total para essa redação, tendo que trabalhar a partir de documentos já preparados anteriormente (Tarlau; Moeller, 2020, p. 574).

Em 2016, durante uma grande crise política que assolava o Brasil, a segunda versão da BNCC foi publicada pelo MEC. Foram organizados seminários estaduais, oportunizando a avaliação por professores da segunda versão da BNCC (Tarlau; Moeller, 2020, p. 585). A participação nestes seminários envolvia aprovar ou rejeitar um documento que já havia sido redigido, o que revoltou parte dos professores convidados a participar deste processo (Tarlau; Moeller, 2020, p. 586).

- A versão final da BNCC foi redigida por um pequeno grupo de especialistas, partindo da segunda versão e considerando as críticas de leitores e dos seminários realizados. De acordo com a leitura das autoras, diversas iniciativas dos governos anteriores foram eliminadas ou diluídas, como questões de diversidade e sobre o direito de um currículo baseado na realidade local das comunidades.
- É notável a grande influência da Fundação Lemann na produção da BNCC, estendendo seu poder e presença nas políticas públicas de educação, através de seu poder monetário. As autoras comparam o ocorrido com o Common Core americano, financiado pela Fundação Gates, chamando este processo de consenso pela filantropia:
- [...] por meio do uso estratégico de recursos econômicos, da produção de conhecimento, do poder da mídia e das redes formais e informais, a entidade transformou a qualidade e a equidade da educação em problemas com soluções técnicas, assim obtendo amplo apoio para essa iniciativa política. Chamamos esse processo de 'consenso por filantropia' (Tarlau; Moeller, 2020, p. 593)

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A elaboração deste documento é importante para entender a origem das mudanças no currículo do Ensino Médio. Conforme o artigo 35-A da Lei que sanciona o NEM (Brasil, 2017), a BNCC define os direitos e objetivos de aprendizagem do NEM, os organizando em áreas do conhecimento.

## Determinações dos documentos

O Novo Ensino Médio propõe uma flexibilização curricular, dividindo a carga horária em dois grandes grupos: A Formação Geral Básica (FGB) e os Itinerários Formativos (IF). As disciplinas tradicionais não são citadas na BNCC, que separa os saberes em áreas do conhecimento, com o intuito de atingir a 'superação da fragmentação radicalmente disciplinar do conhecimento' (Brasil, 2018a). Dentro de cada área do conhecimento são encontradas competências e habilidades, que norteiam o que deve ser trabalhado no NEM, tanto na FGB quanto nos IF.

## Interdisciplinaridade

Não foi encontrada na documentação oficial qualquer tipo de definição de interdisciplinaridade, apesar da ampla menção ao termo e da organização por áreas do conhecimento, não distinguindo componentes curriculares. A falta de definição deste termo, já apontada por Mozena e Ostermann (2016) desde a segunda versão da BNCC, atribui ao professor a responsabilidade de materializar este conceito.

Para analisar os possíveis campos de interdisciplinaridade nos documentos, utilizaremos o conceito de Pombo (2008), que a partir de uma análise etimológica das palavras 'pluridisciplinaridade', 'multidisciplinaridade', 'transdisciplinaridade' e 'interdisciplinaridade' define com clareza um continuum para os termos. A multidisciplinaridade e a pluridisciplinaridade compartilham de uma mesma raiz etimológica em seus prefixos, tendo como objetivo pôr em conjunto diversos pontos de vista, numa perspectiva de paralelismo. A interdisciplinaridade ocorre ao ultrapassar a ideia de paralelismo entre os pontos de vista, os combinando de maneira coordenada, estabelecendo conexões e complementaridades entre si. Quando a convergência desaparece, unificando os conhecimentos em algo indissociável através da fusão dos pontos de vista, alcança-se o que é chamado de transdisciplinaridade (Pombo; 2008, p. 13).

## Metodologia

O trabalho consistiu em duas etapas principais. A análise documental da BNCC (BRASIL, 2018a) e de legislações do NEM (BRASIL, 2018b) (BRASIL, 2018c) para identificar os espaços onde o ensino de Física é possibilitado e para compreender que mudanças significativas são apresentadas na legislação oficial.

Para a análise documental, foi realizada a leitura das habilidades e competências de cada área do conhecimento da BNCC, buscando evidenciar aspectos que entrem dentro do continuum da interdisciplinaridade proposto por Pombo (2008).

Na segunda etapa foi realizada uma revisão bibliográfica em artigos no Portal de Periódicos da CAPES com objetivo de investigar como e em que espaços o Ensino de Física está acontecendo no NEM. Os artigos foram submetidos à

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análise de conteúdo com apoio de dois softwares de análise qualitativa: WebQDA e Taguette

## Resultados e discussão

No Quadro 01 estão competências e habilidades da BNCC das áreas do conhecimento que consideramos propícias ao processo de interdisciplinaridade com as da ciências da natureza.

Quadro 01: Competências e habilidades das áreas potenciais para interdisciplinaridade com Ciências da Natureza .

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Fonte: Jorge (2024).

Em Linguagens e suas Tecnologias foram identificadas competências e habilidades referentes aos diferentes usos da linguagem e a interpretação crítica de informações, oportunizando a interdisciplinaridade a partir do estudo da metodologia e divulgação científica.

Diversas habilidades foram identificadas na área de Matemática e suas tecnologias, resultado esperado devido a ampla utilização da Matemática para o entendimento de conceitos da Física. Alguns objetos do conhecimento de Física são citados nominalmente, como cinemática e radioatividade.

Em Ciências humanas e sociais aplicadas é possível estabelecer uma 'ponte' de interdisciplinaridade a partir da análise crítica e política das ciências da natureza, tanto a partir da sua história quanto em problemas sociais contemporâneos.

Na revisão bibliográfica que realizamos, encontramos apenas 8 trabalhos que se referem à interdisciplinaridade no NEM. Alguns argumentam em favor da interdisciplinaridade (Kleeman e Petry; 2020) e outros mencionam a falta de clareza nos documentos (Gonçalves, et al.; 2022) e as dificuldades de implementá-la (CarminattI; Pino, 2019).

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Kleemann e Petry (2020) mencionam sobre a interdisciplinaridade na BNCC e trazem a importância de ações interdisciplinares no processo de ensino e aprendizagem. A interdisciplinaridade é vista como imprescindível por Oliveira (2020), que trabalha de maneira interdisciplinar os componentes de Física, Química, Biologia e disciplinas técnicas do curso técnico em cozinha. A relação interdisciplinar tem como objetivo contextualizar a Física no dia a dia dos alunos, demonstrando sua presença e importância.

Já Gonçalves, et al. (2022) argumentam que os documentos oficiais não têm clareza sobre a interdisciplinaridade e não trazem caminhos para a sua utilização, ficando isso sob a responsabilidade das escolas.

Carminatti Pino, (2019) e Kleemann e Petry (2020) trazem a perspectiva dos professores a respeito da interdisciplinaridade e das dificuldades encontradas para materializá-la, como por exemplo a compartimentalização em componentes curriculares que não favorecem a interdisciplinaridade e empobrecem o ensino.

Oliveira (2020) menciona a preocupação com a superficialização do conteúdo com a junção em áreas do conhecimento, assim como a falta da obrigatoriedade da Física, que não é citada na BNCC, aparecendo somente no conjunto de ciências da natureza e suas tecnologias.

## Considerações Finais - O 'Novo Novo Ensino Médio'

A leitura e análise dos documentos oficiais permitiu elencar diversos campos de interdisciplinaridade entre Ciências da Natureza e suas Tecnologias e outras áreas do conhecimento presentes na BNCC. É notável o potencial de trabalho não somente dentro de áreas do conhecimento, mas também entre elas.

É importante destacar que a análise realizada durante o desenvolvimento do trabalho de conclusão de curso aqui sintetizado levou em conta as leis e resoluções de 2017 e 2018, em Julho de 2024 foram decretadas algumas alterações que modificam a estrutura do novo ensino médio. Dentre as mudanças mais notáveis estão a modificação da carga horária da Formação Geral Básica para um mínimo de 2400 horas e a citação nominal da disciplina de Física. Vale ressaltar também que a BNCC passará por uma revisão em 2025, podendo haver demais alterações nos documentos oficiais.

## Referências

BRASIL. Lei Nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017 : Dispõe sobre a reforma do ensino médio brasileiro. Brasília, 2017. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil 03/ato2015-2018/2017/lei/l13415.htm. Acesso em: 05 fev. 2024.

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BRASIL. Ministério da Educação. Resolução n. 4, de 17 de dezembro de 2018 : Institui a base nacional comum curricular na etapa do ensino médio (BNCC-EM). Brasília, 2018. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/dezembro-2018-pdf/104101-rcp004-18/file. Acesso em: 5 fev. 2024.

CARMINATTI, B.; PINO, J. C. D. Afetividade e relação professor-aluno: contribuições destas nos processos de ensino e de aprendizagem em ciências no ensino médio . Investigações em ensino de ciências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Física, v. 24, n. 1, p. 122-138, 2019.

GONÇALVES, R.; LAVOR, O. P.; OLIVEIRA, E. A. G. Ensino de física no ensino médio: análise das determinações da bncc . Revista Pesquisa Qualitativa, v. 10, n. 25, p. 330-345, 2022.

KLEEMANN, R.; PETRY, V. J. Desenvolvimento de um exercício de imaginação pedagógica a partir de uma proposta metodológica interdisciplinar. Investigações em Ensino de Ciências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Física, v. 25, n. 3, p. 232-251, 2020.

JORGE, S. L. V. A presença da física no novo ensino médio. 2024. 43 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Física), Instituto Federal Catarinense, Rio do Sul, 2024.

MOZENA, E. R.; OSTERMANN, F. Sobre a base nacional comum curricular (bncc) e o ensino de física . Caderno Brasileiro de Ensino de Física, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), v. 33, n. 2, p. 327-332, 2016.

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